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quinta-feira, 28 de maio de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tiganá Santana

por Virgínia Andrade

Tiganá Santana reafirma origens e crenças em novo álbum 'Tempo & Magma'
Terceiro disco do cantor será lançado nesta quinta no TCA. Foto: José de Holanda
Tiganá Santana é um artista atento às questões fundamentais da vida, consciente de si, do que faz e do que o cerca. Filho do Terreiro Tumbenci de Mãe Zulmira e filósofo graduado pela Universidade Federal da Bahia, foi o primeiro compositor brasileiro a gravar em línguas africanas, interesse manifestado ainda na infância. Nesta quinta-feira (21), o cantor baiano volta à sua terra natal para o lançamento do seu terceiro álbum, "Tempo & Magma", na sala principal do Teatro Castro Alves, às 21h. Acompanhado pela percussão de Sebastian Notini e contrabaixo de Ldson Galter, o músico também terá no palco a presença especial do grupo senegalês Sobo Bade Band, formado por músicos africanos, oriundos do Senegal, Guiné e Mali, que tocam instrumentos tradicionais da África Ocidental, alguns já quase em extinção. No repertório, Tiganá revisita canções dos seus dois álbuns anteriores, "Maçalê", de 2010, e "The Invention of Color”, de 2013, além do conjunto de inéditas presentes no novo projeto. Gravado em Dacar, no Senegal, "Tempo & Magma" é um álbum autoral e duplo, com 14 faixas gravadas em português, inglês e quantro outros idiomas africanos: kikongo, kibundo, wolof e mandinka. Dividido em "Anterior" e "Interior", o disco marca a profunda imersão do músico nas suas origens. Em conversa com o Bahia Notícias, Tiganá falou sobre o processo de construção deste novo trabalho, sua trajetória e religiosidade, além da ocupação "Sonho Meu" em homenagem à Dona Ivone Lara, que está em cartaz em São Paulo e da qual é curador.

“Tempo & Magma” será lançado nesta quinta-feira em Salvador. Como foi o processo de produção desse álbum? No que ele se aproxima e se diferencia dos seus dois trabalhos anteriores?
Primeiro, cada álbum foi gravado em um lugar. O primeiro gravei no Brasil, o segundo na Suécia, e o terceiro no Senegal. Isso já diz que a paleta de sonoridades e vivências se fazem diferentes nesses espaços e dimensões culturais também diferentes. Claro, há sempre o encontro daquilo que é interior, do que a gente carrega como referência e proposta de criação, e dos encontros que existem. Portanto, cada lugar foi um tipo de encontro e diálogo. Para gravar "Tempo & Magma", eu passei mais de quatro meses no Senegal. É um disco que tem a presença, além do meu violão e da minha voz, de instrumentos tradicionais da África e de instrumentistas do Senegal, Guiné-Conacri e Mali, dialogando com as minhas composições e alguns outros temas que eu gravei, mas não compus. É um disco que tem outros desenhos e desdobramentos, fruto de outras experiências e de um mergulho em uma parte do Senegal, representando uma parte do continente africano, que está numa ideia de origem que já nem se registra mais a uma cultura específica.

“Tempo & Magma” é um álbum duplo composto por “Interior” e “Anterior”. Por que fazer um duplo e o que muda em termos de realização?
A proposta de álbum duplo e que um disco seja “Interior” e o outro “Anterior”, sendo que este vem depois, traduz a ideia de que para se chegar à anterioridade é preciso mergulhar na interioridade. No primeiro disco, "Interior", há mais espaços, mais porosidade, é um tipo de celebração mais espaçada e silenciosa. O segundo remete à coletividade e serve mais diretamente à presença dos instrumentos dos músicos africanos. Gravar um disco duplo não é diferente, a diferença está no que se refere à pensar esse álbum e seu projeto gráfico. Mas, para mim, "Tempo & Magma" é um projeto que segue o fluxo de produção de álbum com um disco só, porque há uma unidade, um conceito, um desenho.

Além dos músicos africanos que participaram de “Tempo & Magma”, duas mulheres muito especiais também deixaram sua marca nesse projeto, a cantora Céu e Mãe Stella de Oxossi. Gostaria que você comentasse sobre essas participações. 
Muito me honra a participação de Mãe Stella por tudo o que ela é e representa. A participação dela é em uma faixa de um cântico tradicional de Guiné-Conacri e ela canta um trecho de uma música para Odé fazendo essa ponte entre matriz africana e diáspora, e as ressonâncias e reconstruções disso no chamado “Novo Mundo”. Céu eu conheço há alguns anos e ela abre a primeira faixa do disco, que é uma referência ao universo. Abrir com uma voz feminina remete à ideia daquilo que se fez gerar. Como no caso do universo eu tendo sempre a acreditar que ele criou a si mesmo, a voz feminina traz um fio de geração, de criação, de engenho.

Ouça algumas faixas de "Tempo & Magma", terceiro álbum de Tiganá Santana:

Você é um artista jovem, mas seu trabalho já tem bastante representatividade no Brasil e no exterior. Como aconteceu sua iniciação musical? Quais foram as suas influências?
Eu comecei a aprender violão e a compor aos 14 anos. As influências, diria que tudo aquilo que veio antes, musicalmente falando e da vida também, porque o que me estimula a estar na música não é tão somente a música, é a vida. Vida e morte. Seria injusto se eu personalizasse essas influências. A influência é a vida, a história, as vivências, são as pessoas próximas, as distantes... Tudo o que eu ouvi, está ali. E essa é a minha primeira e principal relação com a música. Muito mais do que tocar, inclusive, é ouvir. Ouvir e ouvir sempre. Ouvir muita música. O firmo da música é ouvir a vida e quando há possibilidade de compor, inventar, recriar alguma coisa a partir do que é ouvido, captado, absorvido da vida e da música, isso acontece tanto na forma de uma composição e na feitura de um projeto de álbum, quanto de outros projetos ligados a essas possibilidades criativas.

Você nasceu em Salvador, mas já não mora aqui há alguns anos. O que motivou sua mudança para São Paulo e o que ela agregou ao seu trabalho?
A minha vinda para São Paulo não é uma vinda que eu classificaria como profissional, foi muito mais pessoal. São Paulo é um lugar interessante para determinados encontros. isso foi o que me acrescentou essa vinda para cá. Esses encontros me estimularam e desdobraram outras coisas que se refletem no trabalho e na minha vida pessoal.

Sua música é bastante diversa e essa intensa hibridização de sonoridades dificulta a classificação do seu trabalho. Essa é uma liberdade que você busca?
Sem dúvida. É como vejo a vida e como a vida me vê também. Diversa, ubíqua, ocupando vários espaços diferentes. Eu realmente não gosto das classificações, porque elas são sempre injustas e redutoras. Toda pessoa são várias coisas e isso se reflete na sua produção e em outros vários aspectos.

Você é de Candomblé e sua religiosidade ocupa um lugar importante no seu trabalho. O que sua vivência religiosa trouxe para você enquanto artista?
Eu sou membro de uma religião de matriz africana, que é o Candomblé, portanto, a influência é sobre a vida e, sendo sobre a vida, evidentemente incide sobre a música. O Candomblé também é o meu principal portal de ligação com referências matriciais do continente africano e com outros tantos lugares que não se encontram lá. É importante dizer isso. Portanto, é uma influência tão vital que eu nem consigo distinguir, discriminar. Atua em tudo.

Você foi o primeiro compositor brasileiro a trabalhar com idiomas africanos em suas canções. De onde partiu seu interesse pela cultura africana? Cantar nessas línguas é uma forma de se aproximar das suas raízes?
Sem dúvida, e é também uma forma de trazer para perto determinadas frequências, por mais que as pessoas não entendam. Eu acredito na atuação das frequências e elas podem remeter, por sua sonoridade, a determinado universo como significantes e significados. Portanto, trazer isso é uma forma de fazer as pessoas ouvirem uma leitura muito pessoal desse universo. Essas línguas me vêm para que eu possa entrar em determinados setores do pensamento. Meu interesse [pelos idiomas africanos] é primeiro porque eu sou de Candomblé nação Angola, onde as línguas banto, sobretudo kibundo, kikongo e umbundo, são presentes, e também porque há uma presença dessas línguas no léxico luso-brasileiro. Mas me interessei por isso muito antes. Minha mãe frequentava as aulas do primeiro curso de kikongo na Bahia e eu a acompanhava ainda criança. Depois, já adolescente, houve um tempo de busca e interesse por estudar esses idiomas matriciais junto com outras línguas ocidentais, porque havia a intenção de que estudasse no Itamaraty.

Suas composições têm um conteúdo filosófico acentuado. Essa é uma influência direta da sua formação em Filosofia?
Sem dúvida. É importante dizer que entre os Bakongo, uma civilização por quem tenho grande respeito e admiração, não há diferença entre arte e filosofia. E eu acredito piamente nisso. É a mesma substância com nomes distintos.

Antes de ser músico, você já era poeta. Com o passar do tempo, a poesia foi abrindo caminho e a música ocupou esses espaços. Foi uma substituição natural?
Foi paulatina e natural. Eu escrevia, de fato, escrevia bastante inclusive, mas com o processo de composição começando eu não conseguia mais ver aqueles textos sem música. Então, as coisas foram se dando assim. Mas, recentemente, eu publiquei um livro de poesia ("O Oco-Transbordo", 2013) que saiu por uma editora de Londrina, chamada "Rubra Cartoneira”, completando, portanto, esse ciclo.

Tiganá Santana é curador da ocupação "Sonho Meu" em homenagem à Dona Ivone Lara. Foto: Rafael Arbex/Estadão
Você é curador da ocupação em homenagem à Dona Ivone Lara, em cartaz em São Paulo. Como se deu esse processo de curadoria da mostra? É a primeira vez que você desenvolve um trabalho como esse? O que significou participar deste projeto?
Sim, é a primeira vez que desenvolvo um trabalho como esse e me senti muito honrado, porque se trata de uma grande criadora do Brasil, que está viva. Ela se fez presente na abertura, viu, gostou, se emocionou e emocionou a todos. Trouxemos como grande fio condutor dessa história uma Dona Ivone Lara viva, mulher de criação, de concepção, de invenção. Uma mulher de 94 anos, gregária culturalmente, no sentido de pessoas em volta e com as quais ela estabeleceu parcerias e encontros. A ocupação é toda marcada por rendas e ondulações, que representam as suas melodias, as paisagens do Rio de Janeiro, as ondas do mar... Para mim, foi uma experiência muito importante, de fato.

Considerando que Dona Ivone Lara é uma mulher negra de referências afro-brasileiras, qual o lugar dessa homenagem em um país como o Brasil com forte histórico de intolerância e preconceito?
Muito bem dito. Uma mulher negra, ligada a religiões e manifestações de matriz africana sendo homenageada na Avenida Paulista, em São Paulo, por uma instituição chamada Itaú Cultural é muito importante e relevante. Inclusive, o nome "ocupação" em lugar de "exposição" é bastante oportuno, porque e trata da ocupação de um espaço que sempre foi retirado de quem, hierarquicamente, numa sociedade estratificada, estava em posição de subjugação social, racial etc. É importante isso num tempo de tantas intolerâncias - não que elas nunca tenham existido, mas com uma exposição aberta como agora elas se dão a saber. Além disso, sempre quando há determinado avanço, há uma força diretamente proporcional que se contrapõe a ele.

Serviço
O QUÊ: Lançamento de “Tempo e Magma” de Tiganá Santana
QUANDO: Quinta-feira, 21 de maio, às 21h
ONDE: Sala principal do TCA
QUANTO: R$ 20 e R$ 10

http://www.bahianoticias.com.br/cultura/entrevista/142-tigana-santana-reafirma-origens-e-crencas-em-novo-album-039tempo-amp-magma039.html