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terça-feira, 11 de julho de 2017

Jombrega, Detefon e Carnaval


A foto encontrei num vídeo do You Tube postado por Luciano Hortêncio. No detalhe uma placa com os dizeres "Detefon para Jombrega". Devia ser alguém que torcia pelo Kanal.



Francisco José Róseo de Oliveira, mais conhecido como Jombrega (19 de março de 1918), é um ex jogador de futebol. Jogou nas décadas de 1930 e 1940 como ponta direita do Fortaleza Esporte Cube.

Ao longo da carreira, jogou no Maguari , Fortaleza ,Peñarol, Ferroviário , Ceará.

Foi campeão da Copa Cidade de Natal de 1946, e cearense em 1936, 1937, 1938, 1941, 1943, 1944, 1946 e 1947.






O vídeo





segunda-feira, 10 de julho de 2017

Saber Mentir (Antonio Bruno)

por Nina Wirtti



Rolando Boldrin recebe a cantora Nina Wirtti (Santa Maria - RS) que canta "Saber Mentir" (Antônio Bruno). Músicos acompanhantes: Guto Wirtti (contrabaixo), Luis Barcelos (bandolim), Rafael Mallmith (violão 7 cordas) e Ruy Quaresma (violão).

A NOITE DE SÃO JANUÁRIO

Por Luiz Antonio Simas


Não é apenas sobre futebol. É sobre a cidade. A tragédia de ontem em São Januário é derivada de inúmeros fatores, tais como o despreparo da PM, a crise política do Vasco, a cultura da violência como elemento de sociabilidade entre membros de torcida, a construção de pertencimento a um grupo a partir do ódio ao outro (elemento marcante da relação entre Vasco e Flamengo nas últimas décadas), o esfacelamento da autoridade pública no Rio de Janeiro, etc.

Ela tem como pano de fundo, todavia, o assassinato do Maracanã. Morte matada, cruel, pensada nos gabinetes mais sórdidos do poder. Como um sujeito que tenta participar minimamente do debate público sobre a cidade, escrevi sobre isso em O Globo (Santuário Profanado, 26/12/2011) e em O Dia (A cidade era o Maracanã, 27/04/2016). Retomo aqui algumas ideias daqueles artigos.

O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O estádio foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a sua posição na sociedade: os mais pobres na geral, a classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os mais remediados ainda em suas cadeiras cativas.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue.O fim da geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: não era a geral que precisava sumir; eram os geraldinos. Na arena multiuso, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo.

O fim da geral foi, simbolicamente, o esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era. Prevalece agora a lógica da exclusão explícita.




Noves fora isso, a destruição do Maracanã fez parte do projeto mais amplo de assalto ao Rio de Janeiro promovido pela organização criminosa de Sérgio Cabral / Pezão e comparsas.

Eu não acredito em qualquer pacto ou em qualquer reconstrução da cidade do Rio de Janeiro - esfacelada, aniquilada, assaltada , extorquida, mediocrizada - que não passe pela devolução do Maracanã aos cariocas.

Um efeito perverso, dentre vários, que vai ser gerado pela noite triste em São Januário é o reforço do discurso dos que acham que o futebol tem que ser mesmo elitizado. Outro efeito deletério é a desqualificação de São Januário, um templo da cultura carioca e um patrimônio do Brasil que, todavia, não pode comportar clássicos.

Desculpem-me os que acham que estamos discutindo futebol ao debater o que aconteceu em São Januário e o crime cometido contra o Maracanã. Não é isso. Nós estamos discutindo a cidade e o Brasil como mínimas possibilidades de convívio digno, fraterno e inventivo entre nossas gentes. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A SOCIEDADE DO CANSAÇO ( 5)

POR hAN, BYUNG-CHUL

"O próprio afirma-se na outro, negando a negatividade do outro. Também a profilaxia imunológica, portanto a vacinação, segue a dialética da negatividade. Introduz-se no próprio apenas fragmentos do outro para provocar a imunorreação.

Nesse caso a negação ocorre sem perigo de vida, visto que a defesa imunológica não é confrontada com o outro, ele mesmo. Deliberadamente, faz-se um pouco de autoviolência para proteger-se de uma violência ainda maior, que seria mortal. O desaparecimento da alteridade significa que vivemos numa época pobre de negatividades. É bem verdade que os adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devido a um exagero de positividade.

A violência não provém apenas da negatividade,mas também da positividade, não apenas do outro ou do estranho, mas também do igual.

Num sistema onde domina o igual só se pode falar de força de defesa em sentido figurado. A defesa imunológica volta-se sempre contra o outro ou o estranho em sentido enfático. O igual não leva à formação de anticorpos. Num sistema dominado pelo igual não faz sentido fortalecer os mecanismos de defesa.

IN SOCIEDADE DO CANSAÇO - DE BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES




quarta-feira, 5 de julho de 2017

Coito das Araras (Cátia de França) - com Julia Vargas

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (4)

Por Han, Byung-Chul

"O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. A alteridade, que provocaria uma imunorreação atuaria contrapondo-s ao processo de suspensão de barreiras. O mundo organizado imunologicamente possui uma tipologia específica.

É marcado por barreiras, passagens e soleiras, por cercas, trincheiras e muros. Essas impedem o processo de troca e intercâmbio. A promiscuidade geral que hoje em dia toma conta de todos os âmbitos da vida, e a falta da alteridade imunologicamente ativa, condicionam-se mutuamente.

Também a hibridização, que domina não apenas o atual discurso teorético-cultural mas também o sentimento que se tem hoje em dia da vida, é diametralmente contrária precisamente à imunização. A hiperestesia não admite qualquer hibridização.

A dialética da negatividade é o traço fundamental da imunidade. O imunologicamente outro é o negativo, que penetra no próprio e procura negá-lo. Nessa negatividade do outro o próprio sucumbe, quando não consegue, de seu lado, negar àquele. A autoafirmação imunológica do próprio, portanto se realiza como negação da negação."

IN a SOCIEDADE DO CANSAÇO -
BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES


terça-feira, 4 de julho de 2017

SOCIEDADE DO CANSAÇO (3)

por Han, Byung-Chul

"Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas.

Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia.  Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não provoca nenhuma reação imunológica. A diferença pós-imunológica, sim, a diferença pós-moderna já não faz adoecer. Em nível imunológico, ela é o mesmo.

Falta à diferença, de certo modo, o aguilhão da estranheza, que provocaria uma violenta reação imunológica. Também a estranheza se neutraliza numa fórmula de consumo. 

O estranho cede lugar ao exótico. O tourist viaja para visitá-lo. O turista e o consumidor já não é um sujeito imunológico.

in O sociedade do cansaço, Byung-Chul Han - editora Vozes

Risque - Alcione

Por Biscoito Fino


“Alcione Boleros”, conforme explicita o título, é um espetáculo que premia o gênero romântico em uma de suas expressões mais emblemáticas. 

Apesar de ser geralmente rotulada como sambista, a Marrom sempre exibiu, orgulhosamente, sua veia romântica.

Boa parte de seus maiores hits, uma lista imensa de sucessos, pertence ao gênero romântico e fala sobre amores e desamores, encontros e desencontros.

 Mas, quase sempre, com uma narrativa que valoriza a força da mulher e uma eterna disposição para dar a volta por cima. Afinal, como ela mesma diz, "não é uma qualquer".

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (2)

por Han, Byung-Chul

"O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo na guerra fria seguia esse esquema imunológico. O próprio paradigma imunológico do século passado foi integralmente dominado pelo vocabulário dessa guerra, por dispositivo francamente militar. A ação imunológica é definida como ataque e defesa. Nesse dispositivo imunológico, que ultrapassou o campo biológico adentrando no campo e em todo o âmbito social, ali foi inscrita uma cegueira: Pela defesa, afasta-se tudo que é estranho.
O objeto da defesa imunológica é a estranheza como tal. Mesmo que o estranho não tenha nenhuma intenção hostil, mesmo que ele não represente nenhum perigo, é eliminado em virtude de sua alteridade."

In A sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han - editora Vozes.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A sociedade do cansaço (1)

por Han, Byung-Chul

" Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal.

Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas infartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente  diverso, mas pelo excesso de positividade. 

Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho."

in Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han, editora Vozes

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Paulo Tapajós - u Poeta du Sertão

Para Fabricio, Urico e Thadeu





u Poeta du Sertão
Catulo da Paixão Cearense
 

Si chora o pinho
Im desafio gemedô
Não hai poeta cumo os fio
Du sertão sem sê doutô
Us óio quente
Da caboca faz a gente
Sê poeta di repente
Que a puisia vem do amor

Não há poeta, não há
Cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
Lá da Côrte
Se quisé mexê comigo
Muito intoncê tem qui vê
Us livro da intiligença
I dá sabença
Mas porém u mato virge
Tem puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
Du sertão do Aracati
As minha trova
Nasce d'arma sem trabaio
Cumo nasce na coresma
Nu seu gaio a frô de Abri

Rita Lee - Coisas da Vida

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite”

Por Sergio Lirio

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.
Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

CartaCapital: impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.
Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.
CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.
CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo. 
CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.

"O ódio aos pobres é intenso"

CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.
A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.
CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.
CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.
CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres. 
CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.
CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.
CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes. 



Takashi Yoshimatsu - Kamui-Chikap Symphony {1990} ~ iv. Adagio {Air}

via Oliviero Pluviano

terça-feira, 20 de junho de 2017

Chico da minha vida inteira...



Por Ana Costa

Não sei qual foi a primeira música que ouvi.
Talvez, tenha sido Cálice (1978).
Só lembro que os discos de Chico Buarque tocavam, na vitrola de meu irmão Marcus Vinicius todo fim de semana, todo dia.
Era a senha para entoar a política, em tempos proibidos.
Fui entender isto só muito mais tarde.
Cantava A Banda e João e Maria como alegorias infantis.
Lembro, também, da preferida de meu pai, a Feijoada Completa.
E do Trocando em Miúdos que minha prima Cordélia Costa ouviu e cantou aqui em casa, sem perceber que reavivava as feridas da primeira tia recém divorciada.
Morena de Angola era o jeito tímido de falar de nossas origens africanas, escondidas pelo preconceito da família.
Os Saltimbancos era nossa performance com meus sobrinhos, Mateus, Bruno, LeonardoLevi , Helder e Mari ensaiada para a escola.. (Eu se pudesse seria sempre a gata)
No início da militância política o Apesar de Você virou o hino da luta pela conquista de eleições e movimentos.
Angélica acompanhava a minha leitura de Brasil Nunca Mais.
O Vai Passar era a música tocada nas festas de fim de ano.
Minha tinha Nair adorava. Tenho esse registro claro comigo.
Na descoberta dos amores e nas dores de amadurecimento, as músicas do Chico estavam sempre lá.
Eu te amo; A Mais Bonita; Olhos nos Olhos; Futuros Amantes...
Na minha vida, há inspirações do Deus lhe Pague e Roda-Viva,
O álbum Paratodos, uma homenagem ao povo brasileiro, foi um bálsamo de autoestima, em tempos turvos do neoliberalismo, em que se esquartejava o projeto de país.
Mas, hoje, a música que mais me encanta é Maninha que fala de sonhos pretéritos e esperança de futuro.
É triste e terna, desenhada na paisagem densa da ditadura. Mas, é também uma melodia de aposta no vir a ser.
Acho que é do que estamos precisando.

"Um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar..."

terça-feira, 13 de junho de 2017

Bloco do Amor - Beatriz Rabello e Paulinho da Viola

Eliane e Beatriz

Dois bons discos. 

O "Três no samba" - André Mehmari, Eliane Faria & Gordinho do Surdo. Selo SESC.
E o "Bloco do Amor" - Beatriz Rabello.

No primeiro, uma idealização e produção de J.C. Botteselli (Pelão). Uma mistura inusitada de Piano, Voz e Surdo. Um repertório excelente, com destaque para Água do rio (só resta a saudade) de Anescar Pereira Filho/Noel Rosa de Oliveira e Doce Veneno de Valzinho/Carlos Lentine/M. Goulart.

No "Bloco do Amor" um disco mais chegado ao carnaval, bom repertório, tem direção musical de João Callado. Destaque para a inédita Bloco do Amor de Paulinho da Viola.

Para além do samba, Eliane e Beatriz, tem em comum serem netas se César Faria e filhas de Paulinho da Viola. 
Eliane Faria também é sobrinha de Anescarzinho do Salgueiro.

Um descuido no disco "Bloco do Amor", a sétima música do disco é "Nem eu, nem você" e a oitava é "Solidão"e não como aparece na lista de músicas ca contra capa.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos Namorados (2)

Dia dos Namorados


Por um Beijo
(Anacleto atulo da Paixão Cearrese)



Ó ri, meu doce amor,
Sorri lágrimas da flor
Teu sorriso inspira
A lira que afinei por teu falar
E quer de amor vibrar
Ao sol de teu olhar
Ri meu doce amor
Sorri, pérola da flor
Abre em teu lábio um sorriso
Onde um coração diviso,
De algum anjo que desceu do azul.

Num teu sorriso
Luz de poesia
Vem dar a melodia
E musicar os versos meus
Que eu mostrarei a Deus,
Como eu te amo,
Alma dileta
E sem eu ser poeta
Irei fazer o eterno
Te aclamar nos céus.

Irei estrelas lá no céu roubar
Trarei da lua, um raio de luar
Depois dos céus eu descerei ao mar
E a pérola mais bela irei buscar
Sem recear as iras do Senhor, irei,
Roubar os cofres do Senhor
Trarei a essência do divino amor
Se tu, velada no mais vasto véu,
Concederes-me a vitória
A suprema gloria,
De um só beijo teu!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Soledade solo-ao vivo na casa de Francisca

Discaço de Cida Moreira - Soledade solo-ao vivo na casa de Francisca


"Falar sobre cantar canções... e gravar canções... e viver canções... tarefa de responsabilidade difusa, no meio de tudo que um artista pode realizar como seu. Num dia de 2015, em plena fase de gravação de SOLEDADE, a soledade brasileira que estava entranhada em mim, fiz um show descompromissado na nossa linda Casa de Francisca. 
Este show foi gravado e filmado por Murilo Alvesso e Césinha. Passou o tempo... SOLEDADE estreou, embelezou, justificou meu espanto brasileiro, ampliou meu amor por este país.

E a outra Soledade ficou guardada, até vir à tona numa manhã de domingo, quando eu e Zé Pedro Selistre ouvimos... ficamos perplexos e encantados com tudo que ali estava cantado... um estado poético e musical, um sentimento de soledade pessoal, referenciado em canções que não entraram no SOLEDADE; e outros muitos sentidos vindos da memória, da poesia, de uma viagem antiga pelas cidades, pelos amores, pelas grandes referências a um estado de alma feminino, de uma artista que em tudo canta um Brasil profundo, e suas experiências estéticas e gostos pelo contundente, pelo estranho, pelo radical, pela palavra rasgada no piano solitário e na voz de uma mulher que acredita que cantar canções traz pra dentro de sua vida um sentido, um fio precioso, capaz de costurar qualquer tecido; esburacados tecidos que somos nós, com nossas lembranças, nossas ideologias e sonhos, cumpridos ou não debaixo deste céu, através dos ventos que levam tudo; só nos deixando a poesia, dona de mim."


Cida Moreira

quarta-feira, 7 de junho de 2017

QUEM É O EMPRESÁRIO MILIONÁRIO QUE FEZ A REFORMA TRABALHISTA PASSAR IRRETOCADA EM COMISSÃO DO SENADO

por Helena Borges

UM REPRESENTANTE PATRONAL: empresário dono de companhias em diferentes áreas, com um patrimônio estimado em aproximadamente R$400 milhões, acionista com investimentos em diversos bancos dentro e fora do país. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) é o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde foi concluída ontem a primeira fase de discussões e análises da Reforma Trabalhista no Senado. Sob seu comando, a Comissão levou as discussões a toque de caixa, a leitura de relatórios foi cortada e todas as possíveis emendas ao projeto de lei foram vetadas. Agora, ele se volta para o plenário, para onde retornará também a proposta da reforma, após passar pelas comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Constituição e Justiça (CCJ). Entender quem é Jereissati é entender as possibilidades que o futuro da reforma reserva aos direitos dos trabalhadores brasileiros.

O sobrenome incomum é de origem sírio-libanesa e se tornou sinônimo de riqueza, sendo homônimo da holding familiar. Tasso nasceu em dezembro de 1948 em Fortaleza e foi para o Rio de Janeiro estudar administração na Fundação Getúlio Vargas, berço da escola neoliberal no Brasil. Depois de formado, voltou para Fortaleza, onde presidiu o Centro Industrial do Ceará (CIC) no início da década de 80. O Centro funcionava como pólo de convergência de industriais e empreendedores, onde eram organizados fóruns de debates das questões econômicas, sociais e políticas da região e do país.



Ciro Gomes e Tasso Jereissati conversam durante comício da candidatura de Gomes a prefeitura municipal de Fortaleza.
Foto: Acervo do Instituto Queiroz Jereissati/Divulgação

Foi no CIC que surgiu o convite do então governador do Ceará, Gonzaga Mota, para entrar na política, em 1985. Inicialmente vinculado ao PMDB, pouco após a criação do PSDB, em 88, ele migrou para o partido que hoje preside pela terceira vez. Junto a ele, filiou-se também Ciro Gomes, seu colega desde o início na política, que após anos afastado agora se reaproxima e inclusive defende o nome de Jereissati para possíveis eleições indiretas.


Os interesses das elites produtivas continuam sendo defendidos por ele até hoje, principalmente na Comissão do Senado que preside, que tem entre suas missões emitir pareceres sobre a política econômica nacional, tributos, e até mesmo a escolha de membros importantes da equipe econômica do governo, como os Ministros do Tribunal de Contas da União, o presidente e os diretores do Banco Central.

Tucanato

Jereissati é da velha-guarda do PSDB. Um nome mais discreto que os de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, mas não necessariamente menos poderoso. Apesar de ter sido cotado inúmeras vezes para a candidatura à Presidência do país, se limitou a presidir o partido e a operar nos bastidores.

Eleito presidente do PSDB pela primeira vez em 1991, cargo que manteve até 1993, convidou para sua equipe a economista (e agora também advogada) Elena Landau. Após a eleição de Fernando Henrique Cardoso em 1994, na qual Jereissati trabalhou arduamente, Landau se tornou diretora de Desestatização do BNDES. Ela comandou as privatizações federais no governo Fernando Henrique Cardoso de 1993 a 1996.

Em 2011, após uma “frustração” da economista com a política — “ficava frustrada a cada eleição quando as privatizações não eram defendidas”, afirmou ela em entrevista ao jornal Valor Econômico —, Jereissati a procurou novamente para que eles realizassem o retorno de nomes ligados à equipe de FHC e do Plano Real após três derrotas consecutivas em eleições presidenciais (2002, 2006 e 2010). Tasso pode não ser o nome que encabeça as chapas de eleição do PSDB, mas é ele quem faz a ponte com o mercado financeiro para recrutar a equipe econômica.

Negócios em família

Enquanto isso, seu irmão Carlos, dois anos mais velho, foi enviado para estudar economia na Mackenzie, em São Paulo. Lá fez raízes e começou criar em 1966 um império no mercado de shopping centers que hoje se chama Iguatemi: são 17 unidades distribuídas pelo país. Seu filho, que também se chama Carlos, é hoje o presidente da empresa e deu entrevistas no início do ano deixando claro que, segundo seus interesses, a Reforma Trabalhista seria a mais urgente.

É importante saber quem é o irmão de Tasso, principalmente porque grande parte de sua fortuna veio da privatização das teles — um projeto icônico do governo de FHC que Tasso ajudou a eleger. Carlos fundou um consórcio com a Andrade Gutierrez (hoje investigada na Lava Jato) e a Inepar (hoje em recuperação judicial) que, apesar de não ter nenhuma empresa familiarizada com o setor de telecomunicações, recebeu a concessão da Tele Norte Leste em 1998. Sob seu comando, a Tele Norte Leste tornou-se o que atualmente é a empresa de telefonia móvel Oi.

O próprio Tasso possui empresas de comunicação — duas emissoras de televisão e oito emissoras de rádio, todas no Ceará. Ele declarou um patrimônio de R$389 milhões em sua última eleição, em 2014. Segundo um levantamento do jornal O Globo, no período em que ficou afastado da política, entre 2010 e 2014, sua fortuna cresceu em 512%. A decisão pela aposentadoria foi por ter perdido a eleição ao Senado, fato que foi indiretamente comemorado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula. “Agradeço de coração a eleição dos senadores que vocês elegeram e me fizeram um favor tremendo”, disse o ex-presidente e desafeto de Jereissati em comício em Caucaia, a 50 km de Fortaleza.

Ao se retirar da política, em 2010, o cearense ainda atacou a presidente eleita Dilma Rousseff: “ela não tem a menor condição de governo e nem psicológica”.
Doações milionárias

Sua campanha de retorno, em 2014, contou com doações generosas da Contax-Mobitel S.A, de R$1 milhão. A Contax faz parte do Grupo Jereissati Participações SA. É claro que Tasso não negou a ajuda de outros integrantes do ranking de ricaços brasileiros. Recebeu R$150 mil, por exemplo, doados diretamente por Alexandre Grendene Bartelle, o 20º maior bilionário do país, dono da empresa Grendene.

Também consta na lista a Solar, uma das 20 maiores fabricantes de Coca-Cola do mundo e a primeira com acionista brasileiro: a Calila Participações, do Grupo Jereissati. Foi da Solar que saiu a maior doação de campanha para Jereissati: R$1,5 milhão. A empresa tem 12 mil empregados, que seu site chama de “colaboradores”, que trabalham em 13 fábricas e 36 centros de distribuição.

Defensor da Reforma Trabalhista — que está sendo relatada por seu colega de partido, o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) —, o político e empresário Jereissati pressionou para que o projeto fosse votado logo e com o mínimo de mudanças o possível. Ou seja, sem emendas que protejam pelo menos em parte os direitos dos trabalhadores. No dia 30 de maio, ele deu o relatório da reforma como lido durante uma sessão conturbada que impediu a conclusão da leitura – o que prejudica o debate, já que o texto não foi completamente exposto. Na terça, dia 6 de junho, a Comissão concluiu a votação sem alterações. Ela segue agora para apreciação das Comissões de Assuntos Sociais e de Constituição, Justiça e Cidadania.

A missão de Tasso continua sendo aprovar a reforma, agora no plenário, o mais rápido possível e com o menor número de emendas, apesar da reprovação absoluta por parte da população, retratada inclusive em pesquisa popular da própria casa. No entanto, segundo Jereissati, a reforma segue sendo o caminho, e “o Brasil depende de que nós continuemos a trabalhar e dar, ao processo de reformas, seguimento”. Resta deixar claro de que segmento do Brasil que ele fala: dos 172 mil que possuem mais de R$1 milhão em suas contas, como ele, ou dos 207 milhões de brasileiros restantes.



https://theintercept.com/2017/06/07/quem-e-o-empresario-milionario-que-fez-a-reforma-trabalhista-passar-irretocada-em-comissao-do-senado/

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Parque Estadual do Cocó: uma vitória do movimento ambientalista, mas ainda falta


MOVIMENTO SOS COCÓ




No dia 4 de junho de 2017 foi formalizada a criação do Parque do Cocó,

enquanto Unidade de Conservação (UC), através de Decreto Estadual. Trata-se

de um momento histórico para o(a)s ambientalistas, pois resultado de uma longa

e extensa luta já com cerca de 40 anos.

As lutas pela preservação da bacia do Rio Cocó iniciaram no final dos anos

1970: em 1977, aconteceu a primeira manifestação do(a)s ambientalistas pela

preservação da planície do rio realizada pela Sociedade Cearense de Defesa do

Meio Ambiente e Cultura do Estado do Ceará – SOCEMA, de cuja mobilização

subsequente resultou a criação do Parque Adahil Barreto pela Prefeitura de

Fortaleza. Na sequência, já por mais de três décadas, teve a atuação

permanente do “Movimento SOS Cocó”. Foram incontáveis idas e vindas,

avanços e retrocessos, decretos vazios, obstruções da especulação imobiliária,

fóruns diversos, estudos acadêmicos e trabalhos técnicos, reportagens e

denúncias, dentre outros. Mais recentemente, ocorreram discussões em torno

do “Fórum Cocó”, criado a partir de proposta da Procuradoria Geral da

República no Ceará, o qual reuniu representantes de movimentos e entidades

ambientalistas, universidades, instituições públicas e segmentos empresariais.

Todo esse longo processo tem o seu ápice no momento atual, com a

formalização da criação do Parque a partir do qual se espera uma proteção

efetiva de, pelo menos, 1.571,29 ha da bacia do rio Cocó

Esse Decreto, o quarto editado pelo Governo do Estado sobre esse assunto,

vem, portanto, inaugurar uma nova etapa do longo processo de lutas pela

preservação do Cocó.

Outras iniciativas institucionais relevantes - concretizadas por meio de ações

adotadas pelo Governo do Estado do Ceará, além da Prefeitura e Câmara

Municipal de Fortaleza - tiveram lugar ao longo desses 40 anos. Tais iniciativas

compreendem, principalmente, decretos estaduais ou leis municipais que

instituíram áreas de interesse social para fins de desapropriação e a criação de

algumas UCS de menor dimensão, como “Áreas de Proteção Ambiental - APAs”

e a “Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE - Dunas do Cocó”. Com o

incremento destas e de outras medidas, sempre decorrentes de intensos

processos de lutas, fomos paulatinamente conseguindo assegurar a existência

de espaços verdes em meio ao concreto, impedindo uma maior devastação da

bacia do rio e do seu vale.

Sem embargo do aspecto positivo atinente à consolidação formal - ainda que

parcial - de mais essa importantíssima reivindicação histórica do movimento

ambientalista, observamos a existência de situações que exigem a urgente

mobilização da sociedade. A propósito, cerca de 400 hectares de áreas verdes

localizadas no entorno do vale do rio ficaram fora da nova poligonal (delimitação)

do Parque. Essa área é formada sobretudo por dunas, parte fundamental do

ecossistema, que garantem a alimentação freática do rio, além de abrigarem

importante parcela de biodiversidade nativa. Duna é APP (Área de Preservação

Permanente), mas, mesmo assim, tem sua preservação constantemente

ameaçada por parte de atividades de especulação imobiliária e até de órgãos

governamentais, através, por exemplo, da realização de operações

consorciadas.

Ademais, existem dentro dos limites da poligonal do Parque comunidades

tradicionais que retiram o sustento da planície do rio de forma sustentável, as

quais poderão ficar sujeitas a injustas restrições quanto ao uso dos recursos

naturais, podendo até serem expulsas. Quanto a isso, o Governo do Estado tem

anunciado a realização de estudos visando definir o perfil das comunidades

tradicionais e sua eventual permanência, sem, contudo, divulgar com clareza

como ocorrerão os trabalhos.

Vislumbramos, ainda, que existem propostas de usos de espaços do parque e

de suas áreas limítrofes por parte dos governos estadual e municipal que não

estão evidentes, o que pode significar abertura de áreas preservadas para a

construção de empreendimentos privados potencialmente degradadores, algo

incompatível com a dimensão pública e de conservação da UC criada.

Por fim, importa destacar, o rio encontra-se bastante poluído, o que implica em

danos para a biodiversidade e a saúde pública, bem como para a dinâmica

hídrica e o equilíbrio sedimentológico do canal fluvial e da zona costeira

adjacente. Portanto, faz-se necessário o desenvolvimento de urgentes

intervenções dos órgãos públicos responsáveis pelo saneamento ambiental e a

promoção de ações de despoluição.

Assim, conclamamos toda a sociedade interessada na efetiva e definitiva

preservação dos ecossistemas reunidos na bacia do rio Cocó a ficar atenta e

participar das lutas socioambientais – as quais certamente não cessarão – tendo

em vista a ampliação, o quanto antes, do espaço compreendido na poligonal do

novo Decreto, de modo a garantir a adequada conservação de todo o vale do rio

Cocó, com sua riquíssima biodiversidade e seus ambientes ecologicamente

relevantes, além da manutenção de todas as comunidades tradicionais que ali

residem e/ou trabalham de modo sustentável.

Nossa luta continuara, agora com ainda mais força!

Viva o Cocó e as boas lutas do povo de Fortaleza!

Fortaleza/CE, 5 de junho (Dia Internacional do Ambiente) de 2017.

MOVIMENTO SOS COCÓ

quinta-feira, 1 de junho de 2017

FADO - EDSON CORDEIRO

Em 1992, estreia com um disco fantástico.
Lança outro bom disco em 1994 no mesmo estilo do anterior - "mixtudo".
Tem mais três discos dançantes.
Em "O terceiro sinal" retoma ao estilo "mixtudo", que gosto mais do que os dançantes. 
Deu uma passeada pela ópera, música clássica, jazz, rock, pop, em vários cds.

Agora está lançando "FADO", seu décimo segundo e mais novo álbum, gravado em Porto, Portugal.


“Cantar fado, para mim, é como reencontrar um parente distante que,
​a​pesar do tempo e da distância, nunca perdemos a conexão.
Conexão que não está apenas em minha herança genética,
uma vez que carrego os nomes Pereira, Lima e Cordeiro,
que vieram para o Brasil há tantos anos.
O fado me faz resgatar esta identidade adormecida.
Mas, se trago o fado nos sentidos, é porque uma voz o despertou:
a voz soberana de Amália Rodrigues. ”
Edson Cordeiro