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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sem partido, sem direitos

Sandra Helena de Souza*

Hoje candidatos a uma tão sonhada vaga nas universidades públicas brasileiras estarão fazendo suas provas de redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Todos que somos professores sabemos como anda sofrível a capacidade de argumentação textual de nossos alunos universitários. Eu costumo pedir pequenos ensaios de duas laudas no mínimo nas minhas avaliações parciais, o que sempre provoca pequeno tremor nas turmas. ‘O que é ensaio, professora¿’ Eu: uma redação do Enem melhorada. ‘Não entendi’. Eu: vocês terão de desenvolver um tema, escolhido entre aqueles que discutimos, introduzindo os pontos dignos de nota, argumentando sob as perspectivas distintas de tratá-los e esboçando algumas possíveis conclusões, com a diferença que farão em casa, tendo acesso aos diversos textos para consulta.

Se for verdade que descobrimos o que pensamos ao ouvirmos o que dizemos, isso ainda mais, ao lermos o que escrevemos. ‘Então tenho que dar minha opinião, professora¿’. Sim, mas dentro de certas balizas formais e de conteúdo, não é um vale-tudo; lembrem-se de que ‘ponto de vista’ é justamente a vista a partir de um ponto. Esse ponto pode estar enevoado, falseado, prejudicado, obsoleto. É para isso que dialogamos, pensamos, escrevemos: para nos conhecermos, examinarmos e melhorarmos.

A Cartilha do Participante Enem, documento que estabelece os critérios de correção da prova discursiva, considera o desrespeito aos direitos humanos um dos itens que podem levar à nota zero, a saber, a defesa de tortura, mutilação, execução sumária e qualquer forma de “justiça com as próprias mãos”, isto é, sem a intervenção de instituições sociais devidamente autorizadas. Também ferem os direitos humanos, segundo as regras do Enem, a incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica e a explicitação de qualquer forma de discurso de ódio voltado contra grupos sociais específicos. Isso quer dizer que se espera que ao final de 12 anos de escolaridade formal a juventude brasileira tenha assumido os valores humanistas, seculares e iluministas. Civilizados, modernos.

Uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) determinou a suspensão dessa regra, decisão tomada em caráter de urgência a pedido da Associação Escola Sem Partido. A entidade diz que a regra é uma “punição no expressar de opinião”. “Ninguém é obrigado a dizer o que não pensa para poder ter acesso às universidades”. Uau. Dentro dessa baliza as últimas redações que tiveram o feminismo e o combate à intolerância como tema deveriam bem julgar textos com apologia à servidão feminina e perseguição às religiões de matriz africana, desde que bem escritas. E a universidade em sequência não deveria tomar ‘partido’ por nenhum dos lados. Durma-se.

Não espanta que haja quem faça esse tipo de pedido. São os mesmos que tremem diante de Paulo Freire e do perigo que ele representa para seus obscuros propósitos. Espanta que haja justiça togada para assenti-lo. Estamos diante de uma desfaçatez inaudita. Uma falácia que esconde que a liberdade de expressão é resultado da luta pelo conjunto de valores que agora se quer justamente derrotar. Hipócritas.

E já aparecem aqueles para quem essa é mais uma ‘polêmica’. Não, amigos, isso é apenas um erro. Gravíssimo. Vergonhoso.

*Professora de Filosofia da Unifor, membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD)

O duro acerto de contas da mídia com ela mesma.

por Luis Nassif

Fala-se muito na ausência de Estadistas nos diversos poderes da República e nos diversos partidos políticos. Por tal, definem-se aquelas pessoas com visão clara sobre um futuro incerto, que se propõem a construir as bases para a nova era, desviando-se das armadilhas do curto prazo.

Faltou Estadista na mídia.

Ontem, dois diretores de redação procederam a uma autocrítica tardia dos abusos cometidos na Lava Jato. Admitiram que foram a reboque dos vazamentos, que assassinaram reputações de inocentes e que não cumpriram o papel de filtros da informação.


Lembro-me do longínquo 1999, na CPI dos Precatórios. Embora de modo mesmo intenso, havia um vazamento escancarado de informações, de todos os lados, sem que houvesse uma estratégia de cobertura, com cada veículo querendo dar seu furo e comendo nas mãos das fontes.

O principal responsável pelo golpe, ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, conseguia passar incólume pelo noticiário. Desenvolvi uma narrativa à parte da cobertura, juntei peças que estavam soltas e, remontado o quadro, aparecia nitidamente o papel de Maluf.

A não ser o caso do jornalista Fernando Rodrigues, que saiu nitidamente em defesa do ex-prefeito, tentando desqualificar as evidências que apontavam para ele, o restante da blindagem era fruto exclusivo da falta de preparo da cobertura. Narro essa guerra jornalística no meu “O jornalismo dos anos 90”.

Instado por Otávio Frias Filho, apresentei internamente sugestões para coberturas desse tipo.

O primeiro passo seria criar uma Sala de Situação, com jornalistas experientes, na redação, fora do calor das batalhas diárias, juntando as informações e planejando a cobertura. O grande desafio seria montar uma narrativa inicial, plausível, uma espécie de fio de Ariadne que ajudasse a cobertura a se localizar nos labirintos da notícia.

Depois, ir juntando informações em torno da hipótese inicial, com suficiente discernimento e flexibilidade para mudá-la, caso os fatos levassem a isso. Se fugiria da armadilha de procuradores que se tornam prisioneiros da narrativa inicial e passam a enfiar provas a marteladas para manterem a coerência com o errado.

No caso da Lava Jato houve mais do que essa falta de competência da cobertura da mídia. Havia o propósito político claro de usar as informações como armas de guerra. Não apenas na Lava Jato, mas em toda cobertura jornalística desde 2005. Era óbvio que, no mar de notícias fake que se seguiu à ampliação das redes sociais, a grande estratégia do jornalismo seria o filtro. Preferiam ser os alavancadores das falsas notícias.

Em qualquer grande país, há um grande jornal de centro-esquerda, outro de centro-direita, mas ambos respeitando integralmente a notícia. O respeito à notícia faz parte das qualidades intrínsecas do jornalismo, como gelar é função da geladeira, cozinhar do fogão. A geladeira pode ter mil badulaques. Mas sua qualidade intrínseca é de gelar. Os veículos podem ter linhas políticas distintas. Mas sua qualidade intrínseca é bem informar.

Tudo isso foi deixado de lado. Agora se tem esse desafio inglório de divulgar pesquisas para tentar explicar ao leitor que o jornalismo pátrio é o remédio contra as fakenews.

Que jornalismo? O que anunciou a invasão das FARCS no Brasil, os dólares de Cuba remetidos em garrafas de rum, a ficha falsa de Dilma, o respeitado assessor que não passava de um pequeno estelionatário, o esgoto diário e semanal despejado sobre o país durante tanto tempo?

Por trás do macartismo enlouquecido, praticou-se toda sorte de jogadas. E, como não existe Estadista na mídia, permitiu-se, nesse período, a consolidação final do poderio da Globo.

Enquanto jornais transformavam blogs em seus adversários preferenciais, a Globo abocanhava parcelas cada vez maiores da publicidade das estatais.

Hoje se tem essa situação humilhante, dos jornais equilibristas. Na reportagem, denúncias contra Michel Temer, para impedir a desmoralização final dos veículos. Nos editoriais, apoio, para impedir o corte de publicidade.

Ainda vai levar algum tempo para perceberem que os maiores defensores do jornalismo foram os jornalistas que denunciaram essas distorções monumentais, que acabaram por liquidar com a credibilidade do jornalismo pátrio. Mas que só conseguiram externá-las longe dos jornais. O pluralismo dos anos 90 tinha se transformado em muralha intransponível.

https://jornalggn.com.br/noticia/o-duro-acerto-de-contas-da-midia-com-ela-mesma-por-luis-nassif

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






GAMELA, Mestre

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 8

Laís Barreira

A vida como ela é!


Vovó Jovina, mãe do meu pai, foi uma mulher contraditória. Era pequenininha e aparentava mais jovem, porém era uma mulher durona, de princípios rígidos, muito autoritária com os filhos e netos.

Para se casar com o homem do qual ela gostou na juventude, precisou fugir de casa. Isso aconteceu provavelmente porque seus pais deviam ser muito rigorosos com a filha e não devem ter visto com bons olhos seu romance com aquele viajante, que era como se chamavam os vendedores de tecidos e artigos (futuramente chamados de caixeiros-viajantes).

Pois bem, depois da fuga, para não ficar desonrada, os pais de minha avó fizeram o seu casamento, como vigorava a moral daquela época.

O curioso foi que, anos depois, a minha avó Jovina replicou a educação recebida dos pais, à qual ela precisou se rebelar, com os seus próprios filhos; ela não queria que nenhum deles se casasse e fez o que pôde para impedi-los.

Com os filhos homens ela não conseguiu, mas “torceu o nariz” a todas as noras. Já com as cinco mulheres ela foi ainda mais dura e não lhes deu o direito de traçar seus próprios destinos. Apenas uma delas se casou, depois de fugir, como a própria mãe; porém, minha tia Júlia faleceu prematuramente, do parto do primeiro filho; a tia mais velha, apelidada “Senhorinha” também faleceu jovem, de tuberculose.

As outras três, a quem chamávamos “tias Ayres”, nunca se casaram, ficaram solteironas e até o fim de suas vidas viveram juntas, uma cuidando das outras.
                                               
                                                                
***

Pelo lado da minha mãe, um tio pouco afeito a autoritarismos, casou-se com um “mulherão”, teve com ela dois filhos, uma baita decepção e ainda ganhou a triste fama de “chifrudo”, apelido que nem hoje em dia os homens aguentam. Imagine só naqueles tempos!

Eu ainda era meninota, mas lembro-me bem.

Meu tio era bonitão, alto e tinha os olhos claros, mas lhe faltava um pouco mais de inteligência e sua voz gaguejante não era das mais agradáveis de ouvir.

O fato é que os dois casaram e tiveram filhos, porém, sua mulher conheceu um engenheiro, pessoa importante, que tempos depois recebeu a homenagem de ter uma estrada, que liga dois estados brasileiros, com o seu nome.

Quando o tal engenheiro esteve aqui, fez amizade com o casal e passou a frequentar a casa da Praia de Iracema, local onde as famílias passavam férias e temporadas. Minha avó, Emisabel, que passava um período na casa deles, “maldou” logo daquela amizade e comentava que o engenheiro sempre ia lá para conversar; lá pras tantas, contava ela, a esposa alegava sede e entrava em casa, logo em seguida o engenheiro arranjava uma desculpa para também entrar e, nisso, ambos se demoravam lá por dentro. Só o bobo do tio não percebia nada.

Um dia eu estava passando férias na Praia de Iracema, na casa da família Markan, amigos de minha mãe e à tarde fomos passear pela praia.

Ao passar em frente à casa do meu tio, uma das pessoas que estava conosco apontou: “olha lá: aquela é a casa onde mora o chifrudo”! Imagine minha situação, eu era sobrinha do dito cujo; encabulada, olhei para o outro lado e fiz de conta que não sabia de quem se tratava.

O fato é que os dois se separaram, ela foi embora com o engenheiro para o Rio de Janeiro deixando os dois filhos com o ex-marido que, durante um bom tempo, moraram com a minha mãe.


(História narrada por Laís Barreira, aos cem anos e transcrita por Vólia Barreira).

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"O racismo tem o propósito de garantir vantagens ao grupo racial dominante"


Entrevista - Adilson Moreira por Brenno Tardelli

Foto - Wanezza Soares
Adilson José Moreira sempre quis entender os mecanismos que perpetuam o racismo. A curiosidade tornou-se o principal objeto de suas investigações acadêmicas desde a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais.

Doutor pela prestigiosa Universidade Harvard, Moreira acaba de lançar O Que É Discriminação?, livro que esmiúça o conceito de direito antidiscriminatório, disciplina obrigatória nas faculdades do ramo nos Estados Unidos e praticamente desconhecida no Brasil.

O racismo, explica o professor na entrevista a seguir, muda constantemente para alcançar o propósito de perpetuar as vantagens socioeconômicas de um grupo de indivíduos sobre outro.

Carta Capital: O que é discriminação?

Adilson José Moreira
: Sempre pensamos na discriminação como algo ligado à ideia de intencionalidade e arbitrariedade. Não é inteiramente equivocado, mas o problema é que essa concepção tradicional de discriminação que ainda influencia as discussões sobre justiça social, tanto entre leigos quanto entre integrantes do Judiciário, está associada à vontade de indivíduos.

CC: Como assim?

AJM: Atos discriminatórios são vistos como meros comportamentos individuais. Em razão disso, não consideramos o aspecto institucional, estrutural, o papel de autores públicos e privados. Também ficamos cegos aos processos de exclusão social que não dependem da vontade individual.

Compreendemos a ideia de discriminação como todo tipo de tratamento, consciente ou inconsciente, intencional ou não intencional, que coloca determinados grupos em uma situação de desvantagem social.

O elemento central é exatamente a ideia de desvantagem e isso pode ocorrer, repito, tanto em função de comportamentos intencionais quanto de processos que operam independentemente da vontade de indivíduos.

CC: O racismo no Brasil tem características próprias?

AJM: Sim. O racismo que existiu no século XIX não é o mesmo que existiu no XX, que não é o mesmo de hoje. O racismo tem um aspecto dinâmico e um propósito específico, garantir as vantagens econômicas materiais do grupo racial dominante. Ele pode assumir diversas formas, inclusive a da negação.

Ou seja, o projeto racial brasileiro, curiosamente, opera como uma ideologia antirracista, a ideia da democracia racial. O racismo no Brasil tem essa característica de ser encoberto, mas também aversivo. Há uma defesa pública da igualdade, mas no espaço privado os indivíduos só mantêm contato com gente da mesma raça.

Além disso, frequentemente nos deparamos com exemplos nítidos de racismo institucional, caso da prisão do Rafael Braga ou da declaração do comandante da Rota, segundo quem os moradores dos Jardins não podem ser tratados da mesma forma que os habitantes da periferia. Muitos negam que esses casos possam ser classificados como racismo. Sempre há a vontade, a intenção, de mascarar a discriminação no Brasil.

CC: Como o senhor interpreta o crescimento nos Estados Unidos da direita xenófoba e racista?

AJM: O sentimento de superioridade racial aflora em indivíduos de diferentes classes sociais, níveis educacionais e espectros ideológicos. Ele não é um distúrbio psicológico, mas um comportamento aprendido e consiste em uma sensação de superioridade biológica e moral, como se brancos devessem sempre estar na parte superior da escala econômica e o Estado fosse obrigado a fazer o possível para manter essa diferença.

Não bastasse, as crises econômicas açulam os movimentos extremistas. No caso específico dos Estados Unidos, desde a eleição à Presidência da República de Ronald Reagan, nos anos 80 do século passado, os republicanos recorrem à estratégia de promover o ódio e o desprezo raciais para fins eleitorais.

CC: O senhor vê semelhanças entre essas manifestações nos Estados Unidos e o que acontece no Brasil?

AJM: Sim, sem dúvida. O discurso de ódio tem sido amplamente utilizado no País. Prosperou nas eleições de 2014 e durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Faço um trabalho de campo em áreas periféricas da cidade de São Paulo e ouço discursos que ligam problemas pessoais aos homossexuais.

Encontro negros que acreditam que suas dificuldades são produto de uma vingança divina. Pergunto: “Mas, veja, o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem apenas três anos. Enfrentamos as consequências do racismo há 500. Então, qual a relação entre o casamento de pessoas do mesmo sexo e o fato de que sua esposa morreu de violência obstétrica, por exemplo?”

Muitas lideranças religiosas utilizam abertamente o discurso de ódio contra homossexuais para defender um programa político ultraconservador que atende aos interesses do capital. Nada é mais interessante para o grande capital do que um eleitorado contrário à expansão de direitos sociais e individuais.

CC: Como o combate ao racismo e à homofobia se conectam?

AJM: Uma das teorias mais relevantes que descrevo em meu livro é aquela da interseccionalidade. Essa teoria surgiu na década de 1980 e foi formulada pela professora Kimberlé Crenshaw, quando ela analisou a situação das negras vítimas de violência doméstica. É uma situação complicada, pois a negra é discriminada no mercado de trabalho por ser mulher e por ser negra, o que a coloca em uma situação de vulnerabilidade social.

Os sistemas de opressão social não operam sozinhos. Negros e negras homossexuais sofrem, além do racismo, com a homofobia. Quando as vítimas de violência contra homossexuais são negras, asiáticas ou indígenas, a crueldade dos agressores é muito maior. A raça é um fator que tende a gerar ainda mais violência.

https://www.cartacapital.com.br/revista/971/o-racismo-tem-o-proposito-de-garantir-vantagens-ao-grupo-racial-dominante

O léxico do golpe


Por Nirlando Beirão

Verbetes que traduzem o assalto ao poder – e à linguagem



Alternância do poder

É um instrumento democrático que você aspira quando – e só quando – o adversário está no governo. Quando seus apaniguados mandam, aí você passa a defender a “continuidade” em nome da “governabilidade” e das “reformas”. Neste caso, a alternância atrapalharia o aperfeiçoamento democrático.

Em São Paulo, a alternância do poder é especialmente execrada. Os paulistas preferem perpetuar um mesmo grupo político, como na época da República de polainas e cartola. Enquanto isso, clamam pela alternância do poder... na Venezuela (leia o verbete).

Aparelhamento do Estado
Os adversários são os que aparelham o Estado. O governo que você defende, não: ele procede a nomeações sérias, republicanas, de figuras de notório saber, superior competência e reputação ilibada (mesmo se processados criminalmente). Em teoria, o partido no poder nomeia para os cargos de confiança pessoas... de sua confiança.

Mas esse princípio não vale para os adversários, sempre acusados de irem com muita sede ao pote. Se aquele diretor da estatal nomeado por você ou pelos seus for pego mais tarde com a mão na botija, é um caso de cooptação estimulado pelo clima corrupto instaurado por seus adversários.

Corrupção

Prática entranhada nos governos dos outros – e felizmente reprimida ferozmente pelo Judiciário aliado da gente. Infelizmente, a corrupção às vezes ganha fatos comprovados e nomes ilustres de aliados seus. Mas não se preocupe. O Judiciário vai fazer vistas grossas, o doutor Gilmar Mendes está aí para zagueirar as injúrias gratuitas e infundadas.

E a mídia amiga estará a postos para jogar esse tipo de acusação para debaixo do tapete. A corrupção no Brasil foi inventada pelo partido adversário, uma organizaçãocriminosa que assaltou os cofres públicos. Se alguma dúvida insidiosa pairar sobre algum correligionário nosso, é só ir ao programa gratuito de tevê e dizer “eu errei”. E tudo ficará como está.

Corruptores

Sem eles não existe corrupção. Eventualmente (ou frequentemente) financiaram candidaturas amigas. Portanto, é melhor fazer como os justiceiros do Paraná: isso não vem ao caso.

Bolsa Família


Instrumento do Estado inchado, assistencialista e paternalista para manter politicamente subjugados os miseráveis que não se dispõem a trabalhar. Perpetua a miséria e a vagabundagem com os recursos dos impostos – aqueles poucos, bem entendido, que não são sonegados pelos ricos.

Criado e mantido pelos governos petistas, o Bolsa Família explica as sucessivas vitórias do PT nas urnas analfabetas. Projeto especialmente amaldiçoado pela classe média antes ascendente, a qual, no entanto, paga alegremente os juros escorchantes cobrados no cartão de crédito.

Cara nova

É aquele político que finge que não é político. “Cara nova” designa figuras que estão há anos, ou décadas, nos bastidores ou mesmo no proscênio da atividade política, em geral aproveitando-se da promiscuidade escancarada entre empresários e agentes públicos, mas que simulam não ter nada a ver “com isso que está aí”.

Ao abrir a boca, exprimem ideias anteriores à Revolução Francesa com a desfaçatez de quem se diz sintonizado com o dernier cri da modernidade e da tecnologia. Como os “caras novas” fingem ser o que não são, o eleitor pode ter dificuldade de perceber de imediato a falsidade.

Judiciário

Partido político não registrado oficialmente na Justiça Eleitoral, mas que atua em blocoa favor das causas mais truculentas e reacionárias. Seus mais altos representantes envergam um uniforme sombrio que, no entanto, não lhes tolhe os gestos de uma teatralidade sempre narcisista. Em esferas inferiores faz sucesso a camicia nera dos tempos do Duce.

O jargão obscuro com que se exprimem reforça o esprit de corps da turma, que faz política se fazendo de apolítica. A corporação dos intocáveis dissemina o ódio e critica omundo, mas fica furiosa, e leva aos tribunais, quem ouse criticá-la.

Crise

A pior crise econômica de todos os tempos é esta aí, provocada por um governo rival, aquele que zerou a dívida externa; ainda que, quando estivemos no poder, chegamos a quebrar o Brasil um punhado de vezes.

E não importa que o empresariado tenha premeditadamente empurrado o País abismoabaixo, com o edificante propósito de derrubar um governo que não descia na goela do “mercado”. O abismo era mais fundo do que se imaginava, mas a gente vai continuar culpando os adversários pela “herança maldita” que não sabemos agora como administrar.

Delação premiada
Ela só tem valor se for vazada cirurgicamente para atingir os nossos concorrentes. Se no meio do lamaçal surgir o nome de um aliado, diga que as revelações são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento ser também um crime, de responsabilidade, inclusive, do ministro da Justiça, caso envolva a Polícia Federal, bem... esqueça.

O STF vai abonar a bandalheira. Delações extraídas no porão da carceragem ficam sempre à espera de que o inimigo dos justiceiros seja citado. Senão a gente dá mais uma prensa no delator, para que ele confesse o que a gente quer.

Desemprego

Promover o desemprego em massa, com demissões no serviço público e no setor privado, é o que prescreve o catecismo do “mercado”. Vilanizar os raros direitos trabalhistas que ainda sobrevivem também faz parte do discurso que culpa pelo desemprego... os trabalhadores.

Vivendo uma realidade paralela, os mãos de tesoura do governo ilegítimo dizem que o desemprego (superior a 13 milhões) está diminuindo. De todo modo, é resultado da “herança maldita” deixada pelos antecessores, de cujo governo os golpistas de hoje faziam parte.

Deus
A julgar pelo que dizem os parlamentares, o Todo--Poderoso está dando expediente integral no Congresso brasileiro. Ele patrocina ações violentas e ilegais e abençoa pilantras notórios. Votou pelo impeachment da presidenta Dilma, reforçando a convicção de que Ele não é brasileiro.

Gestão

É o talismã do “cara nova” (confira o verbete). O “gestor” considera-se um tremendoadministrador, mas sua cartilha é o samba de uma nota só da “austeridade”. Louco por cortar salários, promover demissões em massa e diminuir o investimento público com base na teoria de que Estado mínimo é Estado eficiente.

Em seus surtos de “privatização” a qualquer custo, o “gestor” na verdade pretende é dilapidar o patrimônio público, repassando-o a preço de banana a empresários amigos. Programas sociais, nem pensar. O “gestor” de cashmere tem ojeriza a pobres e trata os indigentes e o


s sem-teto a jatos de água fria em madrugadas geladas. É um genocida em potencial.

Institucional

É a versão pós-golpe de “republicano”, palavra muito em voga para designar, na temporada petista, situações de compromisso político com os piores adversários. “Institucional” foi, segundo a futura procuradora-geral Raquel Dodge, o meeting por ela mantido na calada da noite com quem a indicou, Michel Temer, no Palácio do Jaburu.

Flagrada pelas câmeras, a doutora Dodge afirmou que o ágape girou em torno de questões protocolares para a sua posse. Como nem o rei Luís XIV precisou de tantas minúcias de etiqueta para sua investidura, soou pouco plausível a versão da magistrada. Em seguida, ela corrigiu para “uma conversa institucional”.

Ficou pior ainda: deu a entender que estava indo buscar instruções de como promover a justiça com um sujeito processado por obstrução da Justiça. A língua inglesa tem um dito: “Quando você já está num buraco, pare de cavar”.

Lava Jato Inc.
É o empreendimento comercial do baixo Judiciário de Curitiba, que consiste em negociar palestras no Brasil e no exterior a preços sigilosos, palestras essas que podem incluir temas como o confisco do cachê das palestras de um conferencista concorrente e de muito prestígio.

O confisco acontece por decisão ciumenta, ainda que os valores das palestras doperseguido sejam transparentes e tenham sido declarados ao Fisco.

Liberdade de expressão
É o direito inapelável, intocável e irreversível dos meios de comunicação de exprimir opensamento único de seus proprietários, em consonância com interesses pecuniários e a pauta eleitoral deles. É facultado o direito de mentir e distorcer.

Em temporadas eleitorais, a toada de uma nota só torna-se obsessão, de forma a impedir que vaze para o noticiário algum acorde dissonante por parte da ralé das redações ou dos candidatos do outro lado.

Se alguém denuncia a censura que os patrões impõem às redações – e à verdade factual –, os mandarins da imprensa reagem com total hipocrisia: “Vocês querem me censurar”.
Meritocracia

Doutrina segunda a qual os pobres são pobres porque querem – ou porque lhes faltam qualidades para serem ricos. Já os ricos, ainda que muitos deles aquinhoados por robustas heranças, patrocinam a corrida malthusiana, cuja linha de chegada vai contemplar os mais fortes e determinados.

Uma transposição vulgar desse pensamento é representada pelo programa O Aprendiz, que nos Estados Unidos gestou Donald Trump e aqui no Brasil pariu JoãoDoria Jr.

Opinião pública
Entidade de contornos indefinidos da qual a mídia se apropria indevidamente, dizendo-se sua porta-voz, ainda que, no fundo, nutra o maior desprezo pela opinião do público. Tipo do cabeçalho da Folha de S.Paulo, a qual, sem o menor constrangimento, apregoa: “Um jornal a serviço do Brasil”.

Parlamentarismo

O sistema de governo ideal quando o nosso partido é sistematicamente surrado nas urnas em eleições presidenciais. O parlamentarismo acaba convocando figuras espectrais como o senador José Serra, ávido para levar sua ambição presidencial fracassada por um atalho autoritário.

Políticos
Fauna dotada de grande voracidade que se apresenta, a cada dois anos, em busca de um cargo público que lhe permita saciar essa voracidade. Por uma estranha circunstância, quanto mais facínora for o candidato, maior chance ele terá de se eleger.

Políticos não nascem de geração espontânea, eles são agraciados pelo voto do eleitor, o qual, no dia seguinte à eleição, já nem se lembrará do sujeito em quem votou e irá daí para a frente se eximir do ônus de sua própria e livre escolha. Brasília é o Brasil. Não existe uma política corrupta sem uma sociedade corrupta.

Recuperação econômica
Uma ficção produzida pelo governo ilegítimo e que passa, como uma chanchada sem graça, nas telas dos cadernos de Economia e Mercado dos jornalões cúmplices do golpe.

Velha política

Só os adversários a praticam. Se você não está aliado àquele plutocrata sulista ou ao coronel nordestino, é porque eles decidiram apoiá-lo, não o contrário. A pureza de princípios automaticamente os transformará em “homens de bem”. Não importa que o seu apoiador venha de uma nefanda dinastia baiana de três gerações de políticos suspeitos. Eu sou a renovação, velha política são os outros.os.

Venezuela
É a versão atualizada de “Cuba”. Para se distrair de um país que vai suprimindo os direitos e as liberdades democráticas, o nosso, você começa a apostrofar o país vizinho, acusando-o de suprimir os direitos e as liberdades democráticas.

Com o aval categorizado da Folha, passa a ter o direito de chamar o presidente eleito de “ditador” e de gritar para os esquerdistas: “Vá pra Caracas”. A Venezuela é o que o PT queria fazer do Brasil. Não fez não se sabe bem por que, talvez o cantor Lobão explique. O comunismo morreu, mas o anticomunismo continua a gerar bons negócios.

Já o capitalismo produz tragédias humanas como as do Burundi e do Zimbábue e ditaduras sanguinárias como a Arábia Saudita e o Azerbaijão – mas se Trump e o Estadão apoiam, então está tudo bem.

Lava Jato

Desencadeada a partir da prisão do megadoleiro Alberto Youssef, que já havia sido investigado pelo juiz Sergio Moro e demais xerifes de Curitiba quando do escândalo do Banestado. Como o foco da roubalheira era então o PSDB e aliados, Moro achou que não era o caso.

Mas já que a Operação Lava Jato passou a visar a Petrobras, os governos do PT e seus aliados, ela foi em frente, com o estardalhaço da mídia, vazamentos seletivos e prisões escolhidas a dedo.

Cumprida sua função de derrubar, aliado a um Congresso caricato, uma presidenta que jamais foi citada pelas acusações arrancadas nos porões, e de colocar no poder uma quadrilha beneficiada por propinas e malas de dinheiro, mas que nunca será incomodada pelos justiceiros, eles se dedicam agora à segunda missão política: evitar que Lula seja candidato em 2018. Até aqui têm ido bem nesse propósito.

Manifestações e protestos
Quando se trata de greves de trabalhadores e protestos a favor de direitos das minorias, devem ser chamados de “baderna” – distúrbios que incomodam o cidadão e a rotina das metrópoles e tendem a desandar em “vandalismo”, ainda que a polícia provoque e atire primeiro.

Manifestações ordeiras são, em contrapartida, aquelas, vestidas de canarinho, que desencadearam uma violência institucional e que agora clamam nas ruas pela intervenção das Forças Armadas.

Pedaladas fiscais

São ajustes orçamentários que os governantes utilizam, alocando recursos com certa destinação para outra. Por exemplo, assegurar que os programas sociais continuarão a ser abastecidos com verbas quando o caixa anda minguado.

O Poder Executivo, em todos os níveis, usa esse expediente no Brasil, mas só uma pessoa acabou punida a pretexto das tais pedaladas – muito alardeadas, mas pouco entendidas. De todo modo, como a acusada foi a presidenta Dilma, tratava-se de um crime hediondo.

Se os nossos aliados são flagrados negociando roubalheiras na calada da noite, não passam de leves e desculpáveis contravenções.

Populista

É o rótulo destinado àqueles que cometem a irresponsabilidade de pensar nos pobres – criaturas descartáveis no xadrez da alta política. Os populistas põem em risco a estabilidade econômica e enfurecem os cânones do “mercado”, muito pouco propensos a pensar o País para além da “meritocracia” (veja o verbete).

Os populistas são, em geral, de esquerda. Os de direita, do tipo Jair Bolsonaro, a gente acaba agasalhando se for conveniente.

https://www.cartacapital.com.br/revista/967/o-lexico-do-golpe

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Aldir Blanc: "Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica"

por Pedro Alexandre Sanches 
Leo Martins/Agência O Globo


Um militante desavisado do MBL depara-se com uma letra de Aldir Blanc. Em rala-rala é que se educa a molhadinha/ se tu não peca, meu bem, cai a peteca, neném/ vira polícia da xereca da vizinha, canta a portuguesa Maria João no álbum recém-lançado A Poesia de Aldir Blanc (Sesc), para horror do jovem conservador empenhado na causa da sigla que esconde por trás de si o pícaro Movimento Brasil “Livre”.

Entre a santa e a meretriz/ só muda a forma com que as duas se arreganha/ eu só me queixo se criar teia de aranha, prossegue Maria João na feminina O Coco do Coco, lançada originalmente em 1996 pela paraense Leila Pinheiro. E lá se vai para a fogueira mais uma obra artística atentatória da “moral e dos bons costumes”.

Não é só O Coco do Coco. Letrista visado pela censura da ditadura anterior, o carioca Aldir teria parte substancial de uma obra colossal destroçada pelos dentes arreganhados e o ouvido que tudo escuta do neofascismo popular brasileiro. Vale para as ásperas parcerias mais recentes com o também carioca Guinga, como O Coco do Coco, e para a série histórica de arranhões musicais dos anos 1970 e 1980 em dupla com o mineiro João Bosco.
É bem possível que o jovem do MBL visse macumba e feitiçaria em versos de Bosco & Blanc, como levou as minhas cuecas pro bruxo rezar/ coou meu café na calça pra me segurar (de Incompatibilidade de Gênios, 1976) ou costurou na boca do sapo o resto de angu/ a sobra do prato que o pato deixou/ depois deu de rir feito Exu Caveira/ maridoinfiel vai levar rasteira (de Boca de Sapo, de 1979), ambas interpretadas na origem pela mãe preta de todos nós, Clementina de Jesus.

“Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica, fedendo a fezes”, afirma Aldir sobre o episódio da mostra Queermuseu, promovida e cancelada sob pressão pelo Santander Cultural em Porto Alegre (RS), terra da maior intérprete do imaginário de Blanc & Bosco, Elis Regina.

“Coco do Coco inspira-se na belíssima tradição picaresca de músicas nordestinas, baiões, cordel, que tratam o sexo de forma escrachada, e verdadeira”, ensina o mestre das palavras. “Algumas feministas politicamente corretas sentaram o pau, e o fizeram porque se arvoram em saber uma porção de merdas, mas não conhecem picas de cultura popular”, provoca, destemido em tocar pontos vulneráveis.

Hoje com 71 anos, Aldir vive entre a reclusão e altos papos via e-mail, ou entre osilêncio e o grito, como dizia a letra de O Chefão. Cantada em 1974 pela paulistana Marlene, a balada noir O Chefão foi retomada em 2014 pela mineira Maria Alcina, outra intérprete inaugural de Bosco & Blanc, com as antológicas Kid Cavaquinho e Beguine Dodói (1974).

Meses antes da reeleição de Dilma Rousseff, Alcina cantava a necessidade de manter as janelas sempre bem fechadas/ contra o perigo de um golpe/ contra o perigo de um golpe de ar. Pode ser mera simbologia, mas o autor de O Chefão ataca frontalmente temas e termos tornados tabus na oficialidade impopular brasileira de 2017. “Sociólogos, historiadores, professores e artistas (como o imenso Raduan Nassar) mais importantes do que eu já escreveram que estamos num estado de exceção”, afirma.

“Aqui ficaram todos os torturadores soltinhos da silva, conspirando. O golpe voltou, um golpe constitucional. Isso existe. A Constituição pode abrir frestas para vários tipos de golpes, e só babacas dizem ‘se está na Constituição, não é golpe’. Vão se fifar, burros – ou coniventes”, escreve, em pena ferina que transforma Michel Temer em “Temeroso” e “Temereca” e Janaína Paschoal em “Dra. Janaraca”.

“O que vi de palhaço que pegava jabá, corrupto até a alma, considerando julgamentos de pedaladas ‘técnicas e corretas’, sem levar em consideração que Tribunardis levava bola quando parlamentável, Anastasia é corrupto, Cunha já está com a mão na grade, sem falar da Dra. Janaraca. Pelo amor dos meus netinhos, sejam golpistas menos cínicos e safados.”

Jabaculê, jargão usado para designar o “mensalão” com que gravadoras suborna(va)m meios de comunicação para veicular este ou aquele artista, é vocabulário presente desde sempre no léxico de Aldir. Jabaculê/ vixe, espetacular/ assunto assim às vez é mió calar, cantou Maria Alcina em Foi-Se o Que Era Doce, também em 1974, entre referências culinárias a inhame, bobó, frango assado, cuscuz e maracujá.
Elis Regina foi a mais importante intérprete (Foto: Reprodução)

A verve faminta de Blanc sempre privilegiou os diversos prazeres da carne, mesmo na voz solene de Elis. Os boias-frias quando tomam umas birita espantando a tristeza/ sonham com bife à cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo, gravou Elis em O Rancho da Goiabada (1978), relicário assombroso de um Brasil que viria a resplandecer após três décadas, sob as caravanas de Luiz Inácio Lula da Silva.Elis Regina foi a mais importante intérprete.

São pais de santo, paus de arara, são passistas/ são flagelados, são pingentes, balconistas, desfilava o rancho, quando o comandante plantonista deste bordel dos Estados Unidos era Ernesto Geisel. “Dizem que ninguém é profeta em sua própria terra, mas João e eu fomos.

Veja o caso de De Frente pro Crime”, diz Aldir, citando o samba lançado pela baiana Simone em 1974, o mesmo ano-susto em que Elis apresentou Dois pra Lá, Dois pra Cá (e a ponta de um torturante/ Band-aid no calcanhar) e O Mestre-Sala dos Mares.

“Mais de 40 anos depois, De Frente pro Crime ainda retrata o Rio. Sabe o que parte da crítica dizia desses sambas? ‘João Bosco e Aldir Blanc, com suas habituais obsessões com uma violência inexistente’. Gostaria de soltar todos esses críticos no Jacarezinhopara uma injeção de Brasil na bunda.”

Previsto para outubro, o próximo álbum de João Bosco trará uma nova parceria da dupla, retomada em 2009, após duas décadas de afastamento. Duro na Queda trata de uma Janaína que certamente não é a Paschoal: Eu não sei viver sem minha Janaína/ mulata de olhos claros, vale o mundo/ no morro, é meu barraco com piscina.

“Começa com um clima sombrio dos sambas de antes e se abre, como se a Esperança Equilibrista se recusasse a cair”, define Aldir, em referência cruzada ao hino de anistia O Bêbado e a Equilibrista (1979), ápice do trio Blanc-Elis-Bosco.

Tal qual as bijuterias banhadas a ouro dos anos 1970, Duro na Queda encerra muito domistério poético do ex-médico psiquiatra Aldir Blanc. Nascido no Estácio de Ismael Silva e Luiz Melodia e criado na Vila Isabel de Noel Rosa e Martinho da Vila, ele transpira sensibilidade suburbana a cada verso.
m 2014, Maria Alcina resgatou O Chefão (Foto: Olga Vlahou)
“O que mais me revolta é que esse Brasil sempre esteve na cara de todos, só que aparece maquiado até hoje”, autodefine-se. “Temereca é o maior criminoso e entreguista do País. Sou contra a pena de morte, mas, quando vejo o que esse merda está fazendo, fico em dúvida se não seria melhor julgá-lo com rigor, direito amplo de defesa, mas com fuzilamento incluído na pena. Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos.”

Duro na queda, Aldir também visita a ternura. Ela aparece quando fala das cantoras que o têm interpretado, inclusive Clara Nunes, Maysa, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Nana Caymmi e Dorina (que em 2016 lançou CD devotado a ele).

“Essa relação com as cantoras é uma das grandes alegrias da minha vida profissional. Se as lindas homenagens quase simultâneas de Dorina, Maria João e Mariana Baltar (ainda inédita) não me matarem, nem preciso fazer novos exames. Por trás da pose, sou um tremendo chorão. Às vezes, um neto telefona de outro estado e minha mulher tem de tirar o telefone da minha mão e dizer: ‘Peraí um pouco! Deixa ele acabar de chorar!’ E é assim também com música.”

Há que se acrescentar, aí, a literatura: por meio de financiamento coletivo, Aldir acaba de bater a meta de 28 mil reais para completar a coleção Aldir 70, de crônicas reunidas em cinco volumes.

Por ora, Aldir prossegue incólume ao moralismo de fachada engarrafado na pátria de Donald Trump e encampado pela juventude MBL. Ainda que a sanha venha a colhê-lo, gritarão em silêncio os versos de Querelas do Brasil, eternizada por Elis em 1978 e resistente, até hoje, como um dos nossos mais cruéis autorretratos: O Brasil nunca foi ao Brazil/ (...) o Brazil não merece o Brasil/ o Brazil tá matando o Brasil.


https://www.cartacapital.com.br/revista/970/aldir-blanc-estamos-vivendo-uma-ditadura-com-luvas-de-pelica

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 7

Laís Barreira
A mágoa inesquecível



“Mô chefe jogou minhas coisas tudo, pela janela”, falou tristemente, com seu sotaque alemão carregado e engraçado, o nosso amigo Fred.
Namorado da amiga Lurdinha, que estava hospedada na casa da minha mãe, Fred era um dos alemães da pequena colônia que vivia em Fortaleza e, naquele dia todos nós sentimos o significado de estar em guerra com outro país.

Era o ano de 1942, quase no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que nós chamávamos de “Grande Guerra”.

O Presidente Getúlio Vargas simpatizava com o Eixo formado pela Alemanha, Japão e Itália, porém acabou entrando na guerra e lutando junto aos adversários destes, os países aliados; a gota d’água foram os bombardeios de vários navios brasileiros por submarinos italianos e alemães.
Aqueles episódios indignaram a população e em todos os estados houve represália a emigrantes estrangeiros, mesmo aqueles que já viviam no Brasil muito antes da guerra.
Em Fortaleza teve um “quebra-quebra” em várias lojas pertencentes a alemães, italianos e japoneses.

Lembro bem do episódio da Casa Veneza, de um italiano, uma das sapatarias mais chiques da cidade, que ficava na Rua Floriano Peixoto. Os manifestantes invadiram a loja e jogaram os sapatos no meio da rua.
Outras lojas também foram depredadas e algumas foram até incendiadas pelo povo revoltado contra o Eixo dominado por Hitler, entre elas as lojas Pernambucanas, da família Lundgren, a padaria de um espanhol e a loja de flores da família Fujita que se chamava “Jardim Japonês”.
Os alemães, principalmente, eram olhados “meio de lado” pela população de Fortaleza, mas nós mantivemos nossas amizades e nunca os tratamos mal.

O “Seu” Vicente Cunto e seu primo José, italianos que moravam aqui há muito tempo eram nossos vizinhos, donos de uma loja de tecidos e alfaiataria chamada A Formosa Cearense e eram boa gente.  
O Brasil declarou guerra aos países do Eixo, mas, quando enviou os soldados para a luta nós já imaginávamos que a guerra estava próxima do fim; a Alemanha e seus parceiros estavam perdendo algumas batalhas importantes e as notícias do rádio informavam o avanço das tropas aliadas.
Em junho de 1944 os oficiais da FEB (Força Expedicionária Brasileira) embarcaram para a Itália; nesse dia houve uma grande comemoração na Praça do Ferreira, uma alegre multidão se concentrou no centro da cidade, para se despedir e desejar boa sorte aos soldados.
Foi um dia inesquecível!
Houve desfile de carros abertos pelas ruas do centro e nós saímos a pé, em passeata, até a praça, eufóricos com aquele acontecimento que era esperado por todos e protelado pelo governo apesar das pressões (em agosto de 1942 o governo do Presidente Getúlio Vargas declara guerra à Alemanha e à Itália, porém as tropas só foram enviadas para a Itália em junho de 1944).
Em meados de agosto de 1945 esperávamos a declaração do fim da guerra a qualquer momento e, quando finalmente a notícia chegou, transmitida por todas as estações de rádio, eu estava em casa; nessa época eu já tinha quatro filhos, todos pequenos.

A princípio não me animei muito pra ir, o Américo não havia voltado pra casa, eu não tinha companhia e nem com quem deixar as crianças.
Mas, quando as rádios começaram a dar notícias das centenas de pessoas chegando à Praça 
do Ferreira, do clima de euforia e animação, fiquei louca para estar lá comemorando com todo mundo.
Mas, o Américo não deu notícia nem voltou em casa. Do trabalho foi direto para a praça comemorar com os amigos.
Só depois soube dos detalhes, da multidão que se reuniu lá, da alegria e da vibração que contagiou as pessoas e percebi que perdi a comemoração de um dia histórico para toda a humanidade.
Senti uma grande frustração e uma mágoa do Américo, por não ter ido me buscar, que nunca esqueci.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira).

Nota
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era formada por uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças. Mais de 25.000 homens e mulheres participaram da Campanha da Itália em suas duas últimas fases.  Seu lema "A cobra está fumando", era uma alusão irônica ao que se afirmava à época de sua formação, que seria "Mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa".

O Esquadrão de Caças da FAB (Força Aérea Brasileira) adotou o grito de guerra “Senta a Pua” que era uma expressão nordestina muito usada nos anos 40. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Luiz Carlos Cancellier, reitor da UFSC, e sua última carta

por JAIR FONSECA

Não sabemos se Luiz Carlos Cancellier, reitor afastado da UFSC, que cometeu suicídio uma hora atrás, no Shopping Beira-Mar, em Florianópolis, era culpado. Preso, posteriormente solto, e afastado das funções por decisão judicial, o reitor escreveu este texto. Os atuais métodos da "justiça" no Brasil, da PF e do MP podem ter feito sua primeira vítima fatal.

A carta:

"Reitor exilado"
por Luiz Carlos Canceellier

"Não adotamos qualquer atitude para obstruir apuração da denúncia
A humilhação e o vexame a que fomos submetidos — eu e outros colegas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) — há uma semana não tem precedentes na história da instituição. No mesmo período em que fomos presos, levados ao complexo penitenciário, despidos de nossas vestes e encarcerados, paradoxalmente a universidade que comando desde maio de 2016 foi reconhecida como a sexta melhor instituição federal de ensino superior brasileira; avaliada com vários cursos de excelência em pós-graduação pela Capes e homenageada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Nos últimos dias tivemos nossas vidas devassadas e nossa honra associada a uma “quadrilha”, acusada de desviar R$ 80 milhões. E impedidos, mesmo após libertados, de entrar na universidade.
Quando assumimos, em maio de 2016, para mandato de quatro anos, uma de nossas mensagens mais marcantes sempre foi a da harmonia, do diálogo, do reconhecimento das diferenças. Dizíamos a quem quisesse ouvir que, “na UFSC, tem diversidade!”. A primeira reação, portanto, ao ser conduzido de minha casa para a Polícia Federal, acusado de obstrução de uma investigação, foi de surpresa.
Ao longo de minha trajetória como estudante de Direito (graduação, mestrado e doutorado), depois docente, chefe do departamento, diretor do Centro de Ciências Jurídicas e, afortunadamente, reitor, sempre exerci minhas atividades tendo como princípio a mediação e a resolução de conflitos com respeito ao outro, levando a empatia ao limite extremo da compreensão e da tolerância. Portanto, ser conduzido nas condições em que ocorreu a prisão deixou-me ainda perplexo e amedrontado.
Para além das incontáveis manifestações de apoio, de amigos e de desconhecidos, e da união indissolúvel de uma equipe absolutamente solidária, conforta-me saber que a fragilidade das acusações que sobre mim pesam não subsiste à mínima capacidade de enxergar o que está por trás do equivocado processo que nos levou ao cárcere. Uma investigação interna que não nos ouviu; um processo baseado em depoimentos que não permitiram o contraditório e a ampla defesa; informações seletivas repassadas à PF; sonegação de informações fundamentais ao pleno entendimento do que se passava; e a atribuição, a uma gestão que recém completou um ano, de denúncias relativas a período anterior.
Não adotamos qualquer atitude para abafar ou obstruir a apuração da denúncia. Agimos, isso sim, como gestores responsáveis, sempre acompanhados pela Procuradoria da UFSC. Mantivemos, com frequência, contatos com representantes da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União. Estávamos no caminho certo, com orientação jurídica e administrativa. O reitor não toma nenhuma decisão de maneira isolada. Tudo é colegiado, ou seja, tem a participação de outros organismos. E reitero: a universidade sempre teve e vai continuar tendo todo interesse em esclarecer a questão.
De todo este episódio que ganhou repercussão nacional, a principal lição é que devemos ter mais orgulho ainda da UFSC. Ela é responsável por quase 100% do aprimoramento da indústria, dos serviços e do desenvolvimento do estado, em todas as regiões. Faz pesquisa de ponta, ensino de qualidade e extensão comprometida com a sociedade. É, tenho certeza, muito mais forte do qualquer outro acontecimento".

http://jornalggn.com.br/noticia/luiz-carlos-cancellier-reitor-da-ufsc-e-sua-ultima-carta

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O PODER DO TAMBORZINHO DE IBEJI

Por Luiz Antonio Simas
Contam os mais velhos que Iku, a morte, resolveu matar antes da hora todas as pessoas do povoado. Para isso montou armadilhas terríveis. Aqueles que caiam nas armadilhas eram levados por Iku.
Desesperados, os homens e mulheres não conseguiam deter Iku de forma alguma. Todo dia alguém caia em uma de suas armadilhas.
Eles resolveram perguntar ao sábio Orunmilá sobre como deter Iku. Orunmilá consultou Ifá, o oráculo, e disse:
- Só os Ibejis podem deter Iku.
Muitos se assustaram com a resposta do sábio. Os Ibejis, filhos gêmeos de Oxum, eram crianças terrivelmente levadas. Não paravam de brincar. Como, todavia, Orunmilá não errava, os adultos foram pedir aos Ibejis que parassem a Morte. As crianças aceitaram a tarefa, com uma condição: se derrotassem Iku, queriam receber presentes, doces e quiabos e ninguém poderia mais mandá-las parar de brincar. O acordo foi feito.
Os Ibejis foram para o caminho em que Iku fazia suas vítimas, seguidos também irmãozinho menor, chamado Idowu.
Acontece que os Ibejis tinham um tambor encantado. E foi com o tambor que um dos gêmeos entrou no caminho onde Iku armara suas armadilhas. O outro, bem escondido, seguia o irmão de pertinho. Idowu, muito curioso, ía um pouquinho mais atrás.
Quando Iku ouviu o tambor, achou tão bonito que resolveu não matar o menino que tocava. A Morte começou a dançar, cantar e bater palmas. Mal sabia Iku que o tambor encantado enfeitiçava os corpos, que não conseguiam mais parar de bailar.
Iku dançava tanto, que não percebeu que os gêmeos trocavam de lugar, para que a música continuasse sem parar. E dançava, dançava, dançava.
Iku se sentiu esgotada, mas não conseguia parar de dançar. Até que implorou:
- Pare de tocar esse tambor, que eu nao aguento mais. Por favor!
Os Ibejis, então, propuseram um acordo. Se a Morte retirasse todas as armadilhas do caminho, eles parariam de bater tambor. Iku aceitou a proposta e jurou que só levaria alguém quando fosse realmente a hora.
Desta maneira, os Ibejis derrotaram a Morte, salvaram o povoado, receberam doces, brinquedos e carurus e passaram a ser reconhecidos como grandes Orixás.
Deixaram ainda uma lição: tambores encantados e crianças brincando são capazes de salvar o mundo.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Laura Lavieri - Quando Alguém vai Embora

Quando alguém vai embora (Cyro Monteiro e Dias da Cruz)



Quando alguém vai embora e não diz a razão
A saudade devora tudo do meu coração
Se errou pouco importa, puro engano talvez
Toda casa tem trinco e tem porta
Para um dia bater-se outra vez

A maré que enche e vaza
Deixa a praia descoberta
Vai-se um amor e vem outro
Nunca vi coisa tão certa

Não é só quem se deseja
Que nos dá felicidade
Por pior que a gente seja
Deixa sempre uma saudade

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Histórias que Laís conta – 6


As rodas de conversa de Elisa

Laís Barreira


Naquela época ainda não havia televisão; era o tempo das cadeiras nas calçadas e nos terraços das casas, ao entardecer, que reunia as famílias, os vizinhos e os amigos para prosear.

Na casa de minha mãe esse era um costume antigo; desde quando morávamos na Praça dos Voluntários, as rodas de conversa da d. Elisa juntavam amigos.

Minha mãe enviuvou cedo e precisou enfrentar a situação com coragem para superar, junto com seus dez filhos, as dificuldades advindas.

Todos nós começamos a trabalhar bem jovens para ajudar nas despesas domésticas, que eram controladas por ela com pulso firme.

Graças a ela sempre tivemos muitas amizades nas vizinhanças de todos os locais onde moramos; era uma época em que não havia grandes diferenças entre as classes sociais e era natural convivermos com pessoas mais abastadas do que nós e que frequentavam as “altas rodas”.

Um desses amigos, o escritor Milton Dias, era frequentador assíduo da casa da “d. Elisa” e, vários de seus contos foram inspirados nas histórias compartilhadas nesses encontros. A amizade teve início entre a minha mãe e a do Milton; ele era um escritor bastante conhecido, seus contos eram publicados nos jornais; O Zé Milton como nós o chamávamos tinha uma conversa brilhante, ele “enchia” a noite e era muito “requestado” para jantares e festas dos “grã-finos”. No entanto, ele dizia que se divertia nas nossas rodas de conversa e estava cansado de tantos jantares e festas para os quais era convidado: não aguento mais tantos convites!

A última casa em que mamãe morou tinha um terraço muito agradável, ao ar livre, que à tarde ficava sob a sombra de um grande pé de sapoti.

Nesse local todas as noites havia o ritual de levar as cadeiras para fora e esperar a chegada dos amigos; além do Milton, participaram de muitas rodas de conversa o pintor Floriano Martins que era um intelectual, o antropólogo e crítico de arte Geraldo Markan, conhecido como Gegê, muito amigos de minha irmã Lúcia, o jornalista Carlos D’Alge, o artista Zenon Barreto, além das nossas amigas mais assíduas, as Carvalhedo, Cármen, Maria Luisa e sua prima Zilma.

Nas reuniões se falava de tudo, política, religião e, principalmente assuntos do cotidiano, sempre tratados com bom humor, nada de muita polêmica!

Não havia bebida alcoólica, minha mãe, muito religiosa, fazia essa restrição, era “boca seca”, apenas um cafezinho e no máximo um suco de frutas; no entanto, as conversas eram muito animadas.

Hoje, olhando aqueles tempos com o que guardei na memória, me parece que a vida se passava com menos pressa.

Com o passar dos anos a casa foi ficando grande demais e insegura para as duas pessoas idosas que lá residiam, mamãe e minha irmã Marina; então, a casa foi vendida e elas mudaram para um apartamento menor onde minha mãe viveu até quase cem anos e sobreviveu a muitos daqueles amigos que frequentaram sua casa.

As rodas de conversa foram substituídas pela TV que tinha lugar de destaque na sala, no entanto, permanecem na lembrança as conversas inteligentes e espirituosas daquele grupo de pessoas que frequentava a casa da Rua Carlos Vasconcelos, 1438.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)