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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Geraldino e Arquibaldos - com Chicas



Geraldinos e Arquibaldos (Gonzaguinha)


Mamãe não quer . . . não faça

Papai diz não . . . não fale

Vovó ralhou . . . se cale

Vovô gritou . . . não ande

Placas de rua . . . não corra

Placas no verde . . . não pise

No luminoso : . . não fume

Olha o hospital . . . silêncio

Sinal vermelho . . não siga

Setas de mão . . . não vire

Vá sempre em frente nem pense

É Contramão

Olha cama de gato

Olha a garra dele

É cama de gato

Melhor se cuidar

No campo do adversário

É bom jogar com muita calma

Procurando pela brecha

Pra poder ganhar

É cama de gato

Olha a garra dele

É cama de gato

Melhor se cuidar

No campo do adversário

É bom jogar com muita calma

Procurando pela brecha

Pra poder ganhar


Acalma a bola, rola a bola, trata a bola

Limpa a bola que é preciso faturar

E esse jogo tá um osso

É um angu que tem caroço

É preciso desembolar

E se por baixo não tá dando

É melhor tentar por cima

Oi com a cabeça dá

Você me diz que esse goleiro

é titular da seleção

Só vou saber mas é quando eu chutar


Pode escrever no quadro ô sinhá,

Deixa todo mundo ler

O bicho ruim quando não tem do que dar cabo

Primeiro morde o rabo e logo após

vai se comer, deixa comer!


Pode escrever no quadro ô sinhá,

Deixa todo mundo ler

O bicho ruim quando não tem do que dar cabo

Primeiro morde o rabo e logo após

vai se comer, deixa comer!


Matilda, Matilda

No campo do adversário

É bom jogar com muita calma

Procurando pela brecha

Pra poder ganhar!


Matilda, Matilda

No campo do adversário

É bom jogar com muita calma

Procurando pela brecha

Pra poder ganhar!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sem partido, sem direitos

Sandra Helena de Souza*

Hoje candidatos a uma tão sonhada vaga nas universidades públicas brasileiras estarão fazendo suas provas de redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Todos que somos professores sabemos como anda sofrível a capacidade de argumentação textual de nossos alunos universitários. Eu costumo pedir pequenos ensaios de duas laudas no mínimo nas minhas avaliações parciais, o que sempre provoca pequeno tremor nas turmas. ‘O que é ensaio, professora¿’ Eu: uma redação do Enem melhorada. ‘Não entendi’. Eu: vocês terão de desenvolver um tema, escolhido entre aqueles que discutimos, introduzindo os pontos dignos de nota, argumentando sob as perspectivas distintas de tratá-los e esboçando algumas possíveis conclusões, com a diferença que farão em casa, tendo acesso aos diversos textos para consulta.

Se for verdade que descobrimos o que pensamos ao ouvirmos o que dizemos, isso ainda mais, ao lermos o que escrevemos. ‘Então tenho que dar minha opinião, professora¿’. Sim, mas dentro de certas balizas formais e de conteúdo, não é um vale-tudo; lembrem-se de que ‘ponto de vista’ é justamente a vista a partir de um ponto. Esse ponto pode estar enevoado, falseado, prejudicado, obsoleto. É para isso que dialogamos, pensamos, escrevemos: para nos conhecermos, examinarmos e melhorarmos.

A Cartilha do Participante Enem, documento que estabelece os critérios de correção da prova discursiva, considera o desrespeito aos direitos humanos um dos itens que podem levar à nota zero, a saber, a defesa de tortura, mutilação, execução sumária e qualquer forma de “justiça com as próprias mãos”, isto é, sem a intervenção de instituições sociais devidamente autorizadas. Também ferem os direitos humanos, segundo as regras do Enem, a incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica e a explicitação de qualquer forma de discurso de ódio voltado contra grupos sociais específicos. Isso quer dizer que se espera que ao final de 12 anos de escolaridade formal a juventude brasileira tenha assumido os valores humanistas, seculares e iluministas. Civilizados, modernos.

Uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) determinou a suspensão dessa regra, decisão tomada em caráter de urgência a pedido da Associação Escola Sem Partido. A entidade diz que a regra é uma “punição no expressar de opinião”. “Ninguém é obrigado a dizer o que não pensa para poder ter acesso às universidades”. Uau. Dentro dessa baliza as últimas redações que tiveram o feminismo e o combate à intolerância como tema deveriam bem julgar textos com apologia à servidão feminina e perseguição às religiões de matriz africana, desde que bem escritas. E a universidade em sequência não deveria tomar ‘partido’ por nenhum dos lados. Durma-se.

Não espanta que haja quem faça esse tipo de pedido. São os mesmos que tremem diante de Paulo Freire e do perigo que ele representa para seus obscuros propósitos. Espanta que haja justiça togada para assenti-lo. Estamos diante de uma desfaçatez inaudita. Uma falácia que esconde que a liberdade de expressão é resultado da luta pelo conjunto de valores que agora se quer justamente derrotar. Hipócritas.

E já aparecem aqueles para quem essa é mais uma ‘polêmica’. Não, amigos, isso é apenas um erro. Gravíssimo. Vergonhoso.

*Professora de Filosofia da Unifor, membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD)

O duro acerto de contas da mídia com ela mesma.

por Luis Nassif

Fala-se muito na ausência de Estadistas nos diversos poderes da República e nos diversos partidos políticos. Por tal, definem-se aquelas pessoas com visão clara sobre um futuro incerto, que se propõem a construir as bases para a nova era, desviando-se das armadilhas do curto prazo.

Faltou Estadista na mídia.

Ontem, dois diretores de redação procederam a uma autocrítica tardia dos abusos cometidos na Lava Jato. Admitiram que foram a reboque dos vazamentos, que assassinaram reputações de inocentes e que não cumpriram o papel de filtros da informação.


Lembro-me do longínquo 1999, na CPI dos Precatórios. Embora de modo mesmo intenso, havia um vazamento escancarado de informações, de todos os lados, sem que houvesse uma estratégia de cobertura, com cada veículo querendo dar seu furo e comendo nas mãos das fontes.

O principal responsável pelo golpe, ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, conseguia passar incólume pelo noticiário. Desenvolvi uma narrativa à parte da cobertura, juntei peças que estavam soltas e, remontado o quadro, aparecia nitidamente o papel de Maluf.

A não ser o caso do jornalista Fernando Rodrigues, que saiu nitidamente em defesa do ex-prefeito, tentando desqualificar as evidências que apontavam para ele, o restante da blindagem era fruto exclusivo da falta de preparo da cobertura. Narro essa guerra jornalística no meu “O jornalismo dos anos 90”.

Instado por Otávio Frias Filho, apresentei internamente sugestões para coberturas desse tipo.

O primeiro passo seria criar uma Sala de Situação, com jornalistas experientes, na redação, fora do calor das batalhas diárias, juntando as informações e planejando a cobertura. O grande desafio seria montar uma narrativa inicial, plausível, uma espécie de fio de Ariadne que ajudasse a cobertura a se localizar nos labirintos da notícia.

Depois, ir juntando informações em torno da hipótese inicial, com suficiente discernimento e flexibilidade para mudá-la, caso os fatos levassem a isso. Se fugiria da armadilha de procuradores que se tornam prisioneiros da narrativa inicial e passam a enfiar provas a marteladas para manterem a coerência com o errado.

No caso da Lava Jato houve mais do que essa falta de competência da cobertura da mídia. Havia o propósito político claro de usar as informações como armas de guerra. Não apenas na Lava Jato, mas em toda cobertura jornalística desde 2005. Era óbvio que, no mar de notícias fake que se seguiu à ampliação das redes sociais, a grande estratégia do jornalismo seria o filtro. Preferiam ser os alavancadores das falsas notícias.

Em qualquer grande país, há um grande jornal de centro-esquerda, outro de centro-direita, mas ambos respeitando integralmente a notícia. O respeito à notícia faz parte das qualidades intrínsecas do jornalismo, como gelar é função da geladeira, cozinhar do fogão. A geladeira pode ter mil badulaques. Mas sua qualidade intrínseca é de gelar. Os veículos podem ter linhas políticas distintas. Mas sua qualidade intrínseca é bem informar.

Tudo isso foi deixado de lado. Agora se tem esse desafio inglório de divulgar pesquisas para tentar explicar ao leitor que o jornalismo pátrio é o remédio contra as fakenews.

Que jornalismo? O que anunciou a invasão das FARCS no Brasil, os dólares de Cuba remetidos em garrafas de rum, a ficha falsa de Dilma, o respeitado assessor que não passava de um pequeno estelionatário, o esgoto diário e semanal despejado sobre o país durante tanto tempo?

Por trás do macartismo enlouquecido, praticou-se toda sorte de jogadas. E, como não existe Estadista na mídia, permitiu-se, nesse período, a consolidação final do poderio da Globo.

Enquanto jornais transformavam blogs em seus adversários preferenciais, a Globo abocanhava parcelas cada vez maiores da publicidade das estatais.

Hoje se tem essa situação humilhante, dos jornais equilibristas. Na reportagem, denúncias contra Michel Temer, para impedir a desmoralização final dos veículos. Nos editoriais, apoio, para impedir o corte de publicidade.

Ainda vai levar algum tempo para perceberem que os maiores defensores do jornalismo foram os jornalistas que denunciaram essas distorções monumentais, que acabaram por liquidar com a credibilidade do jornalismo pátrio. Mas que só conseguiram externá-las longe dos jornais. O pluralismo dos anos 90 tinha se transformado em muralha intransponível.

https://jornalggn.com.br/noticia/o-duro-acerto-de-contas-da-midia-com-ela-mesma-por-luis-nassif

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






GAMELA, Mestre

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 8

Laís Barreira

A vida como ela é!


Vovó Jovina, mãe do meu pai, foi uma mulher contraditória. Era pequenininha e aparentava mais jovem, porém era uma mulher durona, de princípios rígidos, muito autoritária com os filhos e netos.

Para se casar com o homem do qual ela gostou na juventude, precisou fugir de casa. Isso aconteceu provavelmente porque seus pais deviam ser muito rigorosos com a filha e não devem ter visto com bons olhos seu romance com aquele viajante, que era como se chamavam os vendedores de tecidos e artigos (futuramente chamados de caixeiros-viajantes).

Pois bem, depois da fuga, para não ficar desonrada, os pais de minha avó fizeram o seu casamento, como vigorava a moral daquela época.

O curioso foi que, anos depois, a minha avó Jovina replicou a educação recebida dos pais, à qual ela precisou se rebelar, com os seus próprios filhos; ela não queria que nenhum deles se casasse e fez o que pôde para impedi-los.

Com os filhos homens ela não conseguiu, mas “torceu o nariz” a todas as noras. Já com as cinco mulheres ela foi ainda mais dura e não lhes deu o direito de traçar seus próprios destinos. Apenas uma delas se casou, depois de fugir, como a própria mãe; porém, minha tia Júlia faleceu prematuramente, do parto do primeiro filho; a tia mais velha, apelidada “Senhorinha” também faleceu jovem, de tuberculose.

As outras três, a quem chamávamos “tias Ayres”, nunca se casaram, ficaram solteironas e até o fim de suas vidas viveram juntas, uma cuidando das outras.
                                               
                                                                
***

Pelo lado da minha mãe, um tio pouco afeito a autoritarismos, casou-se com um “mulherão”, teve com ela dois filhos, uma baita decepção e ainda ganhou a triste fama de “chifrudo”, apelido que nem hoje em dia os homens aguentam. Imagine só naqueles tempos!

Eu ainda era meninota, mas lembro-me bem.

Meu tio era bonitão, alto e tinha os olhos claros, mas lhe faltava um pouco mais de inteligência e sua voz gaguejante não era das mais agradáveis de ouvir.

O fato é que os dois casaram e tiveram filhos, porém, sua mulher conheceu um engenheiro, pessoa importante, que tempos depois recebeu a homenagem de ter uma estrada, que liga dois estados brasileiros, com o seu nome.

Quando o tal engenheiro esteve aqui, fez amizade com o casal e passou a frequentar a casa da Praia de Iracema, local onde as famílias passavam férias e temporadas. Minha avó, Emisabel, que passava um período na casa deles, “maldou” logo daquela amizade e comentava que o engenheiro sempre ia lá para conversar; lá pras tantas, contava ela, a esposa alegava sede e entrava em casa, logo em seguida o engenheiro arranjava uma desculpa para também entrar e, nisso, ambos se demoravam lá por dentro. Só o bobo do tio não percebia nada.

Um dia eu estava passando férias na Praia de Iracema, na casa da família Markan, amigos de minha mãe e à tarde fomos passear pela praia.

Ao passar em frente à casa do meu tio, uma das pessoas que estava conosco apontou: “olha lá: aquela é a casa onde mora o chifrudo”! Imagine minha situação, eu era sobrinha do dito cujo; encabulada, olhei para o outro lado e fiz de conta que não sabia de quem se tratava.

O fato é que os dois se separaram, ela foi embora com o engenheiro para o Rio de Janeiro deixando os dois filhos com o ex-marido que, durante um bom tempo, moraram com a minha mãe.


(História narrada por Laís Barreira, aos cem anos e transcrita por Vólia Barreira).

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"O racismo tem o propósito de garantir vantagens ao grupo racial dominante"


Entrevista - Adilson Moreira por Brenno Tardelli

Foto - Wanezza Soares
Adilson José Moreira sempre quis entender os mecanismos que perpetuam o racismo. A curiosidade tornou-se o principal objeto de suas investigações acadêmicas desde a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais.

Doutor pela prestigiosa Universidade Harvard, Moreira acaba de lançar O Que É Discriminação?, livro que esmiúça o conceito de direito antidiscriminatório, disciplina obrigatória nas faculdades do ramo nos Estados Unidos e praticamente desconhecida no Brasil.

O racismo, explica o professor na entrevista a seguir, muda constantemente para alcançar o propósito de perpetuar as vantagens socioeconômicas de um grupo de indivíduos sobre outro.

Carta Capital: O que é discriminação?

Adilson José Moreira
: Sempre pensamos na discriminação como algo ligado à ideia de intencionalidade e arbitrariedade. Não é inteiramente equivocado, mas o problema é que essa concepção tradicional de discriminação que ainda influencia as discussões sobre justiça social, tanto entre leigos quanto entre integrantes do Judiciário, está associada à vontade de indivíduos.

CC: Como assim?

AJM: Atos discriminatórios são vistos como meros comportamentos individuais. Em razão disso, não consideramos o aspecto institucional, estrutural, o papel de autores públicos e privados. Também ficamos cegos aos processos de exclusão social que não dependem da vontade individual.

Compreendemos a ideia de discriminação como todo tipo de tratamento, consciente ou inconsciente, intencional ou não intencional, que coloca determinados grupos em uma situação de desvantagem social.

O elemento central é exatamente a ideia de desvantagem e isso pode ocorrer, repito, tanto em função de comportamentos intencionais quanto de processos que operam independentemente da vontade de indivíduos.

CC: O racismo no Brasil tem características próprias?

AJM: Sim. O racismo que existiu no século XIX não é o mesmo que existiu no XX, que não é o mesmo de hoje. O racismo tem um aspecto dinâmico e um propósito específico, garantir as vantagens econômicas materiais do grupo racial dominante. Ele pode assumir diversas formas, inclusive a da negação.

Ou seja, o projeto racial brasileiro, curiosamente, opera como uma ideologia antirracista, a ideia da democracia racial. O racismo no Brasil tem essa característica de ser encoberto, mas também aversivo. Há uma defesa pública da igualdade, mas no espaço privado os indivíduos só mantêm contato com gente da mesma raça.

Além disso, frequentemente nos deparamos com exemplos nítidos de racismo institucional, caso da prisão do Rafael Braga ou da declaração do comandante da Rota, segundo quem os moradores dos Jardins não podem ser tratados da mesma forma que os habitantes da periferia. Muitos negam que esses casos possam ser classificados como racismo. Sempre há a vontade, a intenção, de mascarar a discriminação no Brasil.

CC: Como o senhor interpreta o crescimento nos Estados Unidos da direita xenófoba e racista?

AJM: O sentimento de superioridade racial aflora em indivíduos de diferentes classes sociais, níveis educacionais e espectros ideológicos. Ele não é um distúrbio psicológico, mas um comportamento aprendido e consiste em uma sensação de superioridade biológica e moral, como se brancos devessem sempre estar na parte superior da escala econômica e o Estado fosse obrigado a fazer o possível para manter essa diferença.

Não bastasse, as crises econômicas açulam os movimentos extremistas. No caso específico dos Estados Unidos, desde a eleição à Presidência da República de Ronald Reagan, nos anos 80 do século passado, os republicanos recorrem à estratégia de promover o ódio e o desprezo raciais para fins eleitorais.

CC: O senhor vê semelhanças entre essas manifestações nos Estados Unidos e o que acontece no Brasil?

AJM: Sim, sem dúvida. O discurso de ódio tem sido amplamente utilizado no País. Prosperou nas eleições de 2014 e durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Faço um trabalho de campo em áreas periféricas da cidade de São Paulo e ouço discursos que ligam problemas pessoais aos homossexuais.

Encontro negros que acreditam que suas dificuldades são produto de uma vingança divina. Pergunto: “Mas, veja, o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem apenas três anos. Enfrentamos as consequências do racismo há 500. Então, qual a relação entre o casamento de pessoas do mesmo sexo e o fato de que sua esposa morreu de violência obstétrica, por exemplo?”

Muitas lideranças religiosas utilizam abertamente o discurso de ódio contra homossexuais para defender um programa político ultraconservador que atende aos interesses do capital. Nada é mais interessante para o grande capital do que um eleitorado contrário à expansão de direitos sociais e individuais.

CC: Como o combate ao racismo e à homofobia se conectam?

AJM: Uma das teorias mais relevantes que descrevo em meu livro é aquela da interseccionalidade. Essa teoria surgiu na década de 1980 e foi formulada pela professora Kimberlé Crenshaw, quando ela analisou a situação das negras vítimas de violência doméstica. É uma situação complicada, pois a negra é discriminada no mercado de trabalho por ser mulher e por ser negra, o que a coloca em uma situação de vulnerabilidade social.

Os sistemas de opressão social não operam sozinhos. Negros e negras homossexuais sofrem, além do racismo, com a homofobia. Quando as vítimas de violência contra homossexuais são negras, asiáticas ou indígenas, a crueldade dos agressores é muito maior. A raça é um fator que tende a gerar ainda mais violência.

https://www.cartacapital.com.br/revista/971/o-racismo-tem-o-proposito-de-garantir-vantagens-ao-grupo-racial-dominante

O léxico do golpe


Por Nirlando Beirão

Verbetes que traduzem o assalto ao poder – e à linguagem



Alternância do poder

É um instrumento democrático que você aspira quando – e só quando – o adversário está no governo. Quando seus apaniguados mandam, aí você passa a defender a “continuidade” em nome da “governabilidade” e das “reformas”. Neste caso, a alternância atrapalharia o aperfeiçoamento democrático.

Em São Paulo, a alternância do poder é especialmente execrada. Os paulistas preferem perpetuar um mesmo grupo político, como na época da República de polainas e cartola. Enquanto isso, clamam pela alternância do poder... na Venezuela (leia o verbete).

Aparelhamento do Estado
Os adversários são os que aparelham o Estado. O governo que você defende, não: ele procede a nomeações sérias, republicanas, de figuras de notório saber, superior competência e reputação ilibada (mesmo se processados criminalmente). Em teoria, o partido no poder nomeia para os cargos de confiança pessoas... de sua confiança.

Mas esse princípio não vale para os adversários, sempre acusados de irem com muita sede ao pote. Se aquele diretor da estatal nomeado por você ou pelos seus for pego mais tarde com a mão na botija, é um caso de cooptação estimulado pelo clima corrupto instaurado por seus adversários.

Corrupção

Prática entranhada nos governos dos outros – e felizmente reprimida ferozmente pelo Judiciário aliado da gente. Infelizmente, a corrupção às vezes ganha fatos comprovados e nomes ilustres de aliados seus. Mas não se preocupe. O Judiciário vai fazer vistas grossas, o doutor Gilmar Mendes está aí para zagueirar as injúrias gratuitas e infundadas.

E a mídia amiga estará a postos para jogar esse tipo de acusação para debaixo do tapete. A corrupção no Brasil foi inventada pelo partido adversário, uma organizaçãocriminosa que assaltou os cofres públicos. Se alguma dúvida insidiosa pairar sobre algum correligionário nosso, é só ir ao programa gratuito de tevê e dizer “eu errei”. E tudo ficará como está.

Corruptores

Sem eles não existe corrupção. Eventualmente (ou frequentemente) financiaram candidaturas amigas. Portanto, é melhor fazer como os justiceiros do Paraná: isso não vem ao caso.

Bolsa Família


Instrumento do Estado inchado, assistencialista e paternalista para manter politicamente subjugados os miseráveis que não se dispõem a trabalhar. Perpetua a miséria e a vagabundagem com os recursos dos impostos – aqueles poucos, bem entendido, que não são sonegados pelos ricos.

Criado e mantido pelos governos petistas, o Bolsa Família explica as sucessivas vitórias do PT nas urnas analfabetas. Projeto especialmente amaldiçoado pela classe média antes ascendente, a qual, no entanto, paga alegremente os juros escorchantes cobrados no cartão de crédito.

Cara nova

É aquele político que finge que não é político. “Cara nova” designa figuras que estão há anos, ou décadas, nos bastidores ou mesmo no proscênio da atividade política, em geral aproveitando-se da promiscuidade escancarada entre empresários e agentes públicos, mas que simulam não ter nada a ver “com isso que está aí”.

Ao abrir a boca, exprimem ideias anteriores à Revolução Francesa com a desfaçatez de quem se diz sintonizado com o dernier cri da modernidade e da tecnologia. Como os “caras novas” fingem ser o que não são, o eleitor pode ter dificuldade de perceber de imediato a falsidade.

Judiciário

Partido político não registrado oficialmente na Justiça Eleitoral, mas que atua em blocoa favor das causas mais truculentas e reacionárias. Seus mais altos representantes envergam um uniforme sombrio que, no entanto, não lhes tolhe os gestos de uma teatralidade sempre narcisista. Em esferas inferiores faz sucesso a camicia nera dos tempos do Duce.

O jargão obscuro com que se exprimem reforça o esprit de corps da turma, que faz política se fazendo de apolítica. A corporação dos intocáveis dissemina o ódio e critica omundo, mas fica furiosa, e leva aos tribunais, quem ouse criticá-la.

Crise

A pior crise econômica de todos os tempos é esta aí, provocada por um governo rival, aquele que zerou a dívida externa; ainda que, quando estivemos no poder, chegamos a quebrar o Brasil um punhado de vezes.

E não importa que o empresariado tenha premeditadamente empurrado o País abismoabaixo, com o edificante propósito de derrubar um governo que não descia na goela do “mercado”. O abismo era mais fundo do que se imaginava, mas a gente vai continuar culpando os adversários pela “herança maldita” que não sabemos agora como administrar.

Delação premiada
Ela só tem valor se for vazada cirurgicamente para atingir os nossos concorrentes. Se no meio do lamaçal surgir o nome de um aliado, diga que as revelações são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento ser também um crime, de responsabilidade, inclusive, do ministro da Justiça, caso envolva a Polícia Federal, bem... esqueça.

O STF vai abonar a bandalheira. Delações extraídas no porão da carceragem ficam sempre à espera de que o inimigo dos justiceiros seja citado. Senão a gente dá mais uma prensa no delator, para que ele confesse o que a gente quer.

Desemprego

Promover o desemprego em massa, com demissões no serviço público e no setor privado, é o que prescreve o catecismo do “mercado”. Vilanizar os raros direitos trabalhistas que ainda sobrevivem também faz parte do discurso que culpa pelo desemprego... os trabalhadores.

Vivendo uma realidade paralela, os mãos de tesoura do governo ilegítimo dizem que o desemprego (superior a 13 milhões) está diminuindo. De todo modo, é resultado da “herança maldita” deixada pelos antecessores, de cujo governo os golpistas de hoje faziam parte.

Deus
A julgar pelo que dizem os parlamentares, o Todo--Poderoso está dando expediente integral no Congresso brasileiro. Ele patrocina ações violentas e ilegais e abençoa pilantras notórios. Votou pelo impeachment da presidenta Dilma, reforçando a convicção de que Ele não é brasileiro.

Gestão

É o talismã do “cara nova” (confira o verbete). O “gestor” considera-se um tremendoadministrador, mas sua cartilha é o samba de uma nota só da “austeridade”. Louco por cortar salários, promover demissões em massa e diminuir o investimento público com base na teoria de que Estado mínimo é Estado eficiente.

Em seus surtos de “privatização” a qualquer custo, o “gestor” na verdade pretende é dilapidar o patrimônio público, repassando-o a preço de banana a empresários amigos. Programas sociais, nem pensar. O “gestor” de cashmere tem ojeriza a pobres e trata os indigentes e o


s sem-teto a jatos de água fria em madrugadas geladas. É um genocida em potencial.

Institucional

É a versão pós-golpe de “republicano”, palavra muito em voga para designar, na temporada petista, situações de compromisso político com os piores adversários. “Institucional” foi, segundo a futura procuradora-geral Raquel Dodge, o meeting por ela mantido na calada da noite com quem a indicou, Michel Temer, no Palácio do Jaburu.

Flagrada pelas câmeras, a doutora Dodge afirmou que o ágape girou em torno de questões protocolares para a sua posse. Como nem o rei Luís XIV precisou de tantas minúcias de etiqueta para sua investidura, soou pouco plausível a versão da magistrada. Em seguida, ela corrigiu para “uma conversa institucional”.

Ficou pior ainda: deu a entender que estava indo buscar instruções de como promover a justiça com um sujeito processado por obstrução da Justiça. A língua inglesa tem um dito: “Quando você já está num buraco, pare de cavar”.

Lava Jato Inc.
É o empreendimento comercial do baixo Judiciário de Curitiba, que consiste em negociar palestras no Brasil e no exterior a preços sigilosos, palestras essas que podem incluir temas como o confisco do cachê das palestras de um conferencista concorrente e de muito prestígio.

O confisco acontece por decisão ciumenta, ainda que os valores das palestras doperseguido sejam transparentes e tenham sido declarados ao Fisco.

Liberdade de expressão
É o direito inapelável, intocável e irreversível dos meios de comunicação de exprimir opensamento único de seus proprietários, em consonância com interesses pecuniários e a pauta eleitoral deles. É facultado o direito de mentir e distorcer.

Em temporadas eleitorais, a toada de uma nota só torna-se obsessão, de forma a impedir que vaze para o noticiário algum acorde dissonante por parte da ralé das redações ou dos candidatos do outro lado.

Se alguém denuncia a censura que os patrões impõem às redações – e à verdade factual –, os mandarins da imprensa reagem com total hipocrisia: “Vocês querem me censurar”.
Meritocracia

Doutrina segunda a qual os pobres são pobres porque querem – ou porque lhes faltam qualidades para serem ricos. Já os ricos, ainda que muitos deles aquinhoados por robustas heranças, patrocinam a corrida malthusiana, cuja linha de chegada vai contemplar os mais fortes e determinados.

Uma transposição vulgar desse pensamento é representada pelo programa O Aprendiz, que nos Estados Unidos gestou Donald Trump e aqui no Brasil pariu JoãoDoria Jr.

Opinião pública
Entidade de contornos indefinidos da qual a mídia se apropria indevidamente, dizendo-se sua porta-voz, ainda que, no fundo, nutra o maior desprezo pela opinião do público. Tipo do cabeçalho da Folha de S.Paulo, a qual, sem o menor constrangimento, apregoa: “Um jornal a serviço do Brasil”.

Parlamentarismo

O sistema de governo ideal quando o nosso partido é sistematicamente surrado nas urnas em eleições presidenciais. O parlamentarismo acaba convocando figuras espectrais como o senador José Serra, ávido para levar sua ambição presidencial fracassada por um atalho autoritário.

Políticos
Fauna dotada de grande voracidade que se apresenta, a cada dois anos, em busca de um cargo público que lhe permita saciar essa voracidade. Por uma estranha circunstância, quanto mais facínora for o candidato, maior chance ele terá de se eleger.

Políticos não nascem de geração espontânea, eles são agraciados pelo voto do eleitor, o qual, no dia seguinte à eleição, já nem se lembrará do sujeito em quem votou e irá daí para a frente se eximir do ônus de sua própria e livre escolha. Brasília é o Brasil. Não existe uma política corrupta sem uma sociedade corrupta.

Recuperação econômica
Uma ficção produzida pelo governo ilegítimo e que passa, como uma chanchada sem graça, nas telas dos cadernos de Economia e Mercado dos jornalões cúmplices do golpe.

Velha política

Só os adversários a praticam. Se você não está aliado àquele plutocrata sulista ou ao coronel nordestino, é porque eles decidiram apoiá-lo, não o contrário. A pureza de princípios automaticamente os transformará em “homens de bem”. Não importa que o seu apoiador venha de uma nefanda dinastia baiana de três gerações de políticos suspeitos. Eu sou a renovação, velha política são os outros.os.

Venezuela
É a versão atualizada de “Cuba”. Para se distrair de um país que vai suprimindo os direitos e as liberdades democráticas, o nosso, você começa a apostrofar o país vizinho, acusando-o de suprimir os direitos e as liberdades democráticas.

Com o aval categorizado da Folha, passa a ter o direito de chamar o presidente eleito de “ditador” e de gritar para os esquerdistas: “Vá pra Caracas”. A Venezuela é o que o PT queria fazer do Brasil. Não fez não se sabe bem por que, talvez o cantor Lobão explique. O comunismo morreu, mas o anticomunismo continua a gerar bons negócios.

Já o capitalismo produz tragédias humanas como as do Burundi e do Zimbábue e ditaduras sanguinárias como a Arábia Saudita e o Azerbaijão – mas se Trump e o Estadão apoiam, então está tudo bem.

Lava Jato

Desencadeada a partir da prisão do megadoleiro Alberto Youssef, que já havia sido investigado pelo juiz Sergio Moro e demais xerifes de Curitiba quando do escândalo do Banestado. Como o foco da roubalheira era então o PSDB e aliados, Moro achou que não era o caso.

Mas já que a Operação Lava Jato passou a visar a Petrobras, os governos do PT e seus aliados, ela foi em frente, com o estardalhaço da mídia, vazamentos seletivos e prisões escolhidas a dedo.

Cumprida sua função de derrubar, aliado a um Congresso caricato, uma presidenta que jamais foi citada pelas acusações arrancadas nos porões, e de colocar no poder uma quadrilha beneficiada por propinas e malas de dinheiro, mas que nunca será incomodada pelos justiceiros, eles se dedicam agora à segunda missão política: evitar que Lula seja candidato em 2018. Até aqui têm ido bem nesse propósito.

Manifestações e protestos
Quando se trata de greves de trabalhadores e protestos a favor de direitos das minorias, devem ser chamados de “baderna” – distúrbios que incomodam o cidadão e a rotina das metrópoles e tendem a desandar em “vandalismo”, ainda que a polícia provoque e atire primeiro.

Manifestações ordeiras são, em contrapartida, aquelas, vestidas de canarinho, que desencadearam uma violência institucional e que agora clamam nas ruas pela intervenção das Forças Armadas.

Pedaladas fiscais

São ajustes orçamentários que os governantes utilizam, alocando recursos com certa destinação para outra. Por exemplo, assegurar que os programas sociais continuarão a ser abastecidos com verbas quando o caixa anda minguado.

O Poder Executivo, em todos os níveis, usa esse expediente no Brasil, mas só uma pessoa acabou punida a pretexto das tais pedaladas – muito alardeadas, mas pouco entendidas. De todo modo, como a acusada foi a presidenta Dilma, tratava-se de um crime hediondo.

Se os nossos aliados são flagrados negociando roubalheiras na calada da noite, não passam de leves e desculpáveis contravenções.

Populista

É o rótulo destinado àqueles que cometem a irresponsabilidade de pensar nos pobres – criaturas descartáveis no xadrez da alta política. Os populistas põem em risco a estabilidade econômica e enfurecem os cânones do “mercado”, muito pouco propensos a pensar o País para além da “meritocracia” (veja o verbete).

Os populistas são, em geral, de esquerda. Os de direita, do tipo Jair Bolsonaro, a gente acaba agasalhando se for conveniente.

https://www.cartacapital.com.br/revista/967/o-lexico-do-golpe