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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 3

Laís Barreira

Moça não tem juízo!


Eu vi muita coisa mudar nessa cidade. 

Lembro que durante muitos anos eu morei no centro da cidade, na rua Sena Madureira, perto da Cidade da Criança que, naquela época, chamava-se Parque da Liberdade e tinha o portão de entrada encimado pela estátua de um índio quebrando os grilhões, que não sei se ainda está lá.  (A estátua permanece no local).

Cheguei na Sena Madureira ainda menina e saí de lá moça feita, j diplomada como professora.

Em 1930 eu tinha 14 anos e, morando próximo do parque ia muito lá com as amigas. Era um lugar muito agradável e embora fosse frequentado pelas famílias que moravam ali ao redor, as Leite Barbosa e as Carvalhedo, um pessoal “meio rico”, a sociedade daquela época não andava muito lá.

Próximo ao Parque, na Praça da Igreja do Coração de Jesus existia o Colégio Castelo Branco e nós, as mocinhas, tínhamos uns “namoricos” com os alunos do colégio que eram o motivo dos nossos passeios no Parque da Liberdade.

Porém, para as moças entre 15 e 18 anos o ideal, ao qual almejávamos, era namorar um aluno do Colégio Militar, principalmente por causa de suas fardas que achávamos lindas, especialmente a farda de gala usada nos desfiles de Sete de Setembro, que a gente adorava.

Eu e minhas amigas não perdíamos os desfiles de jeito nenhum; a estrela principal era o Colégio Militar que esperávamos ansiosas e fazíamos qualquer coisa para flertar com os rapazes!

Nós íamos esperar o início do desfile no Beco dos Pocinhos (início da Av. Santos Dumont) e sabíamos qual era o roteiro da “parada”.  Assim que os rapazes do Colégio Militar passavam nós corríamos para a outra rua só para vê-los passar novamente, trocar olhares, sorrisos e piscar de olhos.

Moça não tem juízo!

A gente fazia essas “loucuras” que hoje em dia nem consigo imaginar; naquele tempo eu adorava só que hoje eu sou contra os militares.

 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Eu e meu coração (Lupicínio Rodrigues ) - com Jamelão



Nina Wirtti e Luis Barcelos gravaram a música de Lupicínio Rodrigues no CD Chão de Caminho. Aqui numa interpretação de Jamelão.


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Eu e meu coração (Lupicínio Rodrigues)

Quando o coração tem a mania de mandar na gente
Pouco lhe interessa a agonia que a pessoa sente
Eu, por exemplo, sou um desses infelizes
Que nem direito tenho tido de pensar
Pois meu coração tem a mania de me governar

Eu preciso esquecer a mulher que me fez tanto mal
Tanto mal que me fez
E ele insiste em dizer que lhe quer
E que eu devo lhe procurar outra vez

E por isso vivemos brigando
Toda a vida, eu e o meu coração
Ele dizendo que sim
Eu dizendo que não

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Damião - Douglas Germano




DAMIÃO

Dá neles, Damião! 
Dá sem dó nem piedade E agradece a bondade e o cuidado De quem te matou Dá neles, Damião! E devolve o hematoma. Bate mesmo, até o coma Que essa raiva, passa nunca, não Sangue e suor pelo vão. Sentir mais a dor, vingar Ver respingar o pavor Quem bateu, levar Dá neles, Damião! Mesmo que peçam clemência Faz que é tua essa demência Faz pesar a consciência do plantão Dá neles, Damião! Mira no meio da cara Dá com pé, com pau, com vara Bate até virar a cara da nação Sangue e suor pelo vão Sentir mais a dor, vingar Ver respingar o pavor Quem bateu, levar Dá neles, Damião! Bate até cansar e quando cansar Me chama 

Composição: Douglas Germano/Everaldo Ferreira da Silva


30/08/2016 06h20 - Atualizado em 30/08/2016 06h20

Caso Damião: 1ª condenação do Brasil na OEA completa 10 anos

Cearense morreu espancado em hospital psiquiátrico em Sobral, no Ceará.
Família recebeu indenização; acusados não foram punidos.

Hermeto Pascoal: A MPB "precisa voltar a jogar bola"

 Por Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches


Em tom de brincadeira, mas com um leve fundo de verdade, o albino Hermeto Pascoal reclama de ter de trabalhar demais no dia de seu 81º aniversário. Nesse 22 de junho, o alagoano de Lagoa da Canoa que ganhou o mundo como instrumentista-inventor de jazz (ou de música universal, na denominação que prefere) concede entrevista a Carta Capital antes de fazer show paulistano no Bourbon Street.
Sem demonstrar cansaço físico nem menos ainda mental, prepara-se para lançar, pela primeira vez, um registro em disco com uma banda de jazz, Hermeto Pascoal e Big Band, pela Natura Musical.

Numa conversa concisa de menos de uma hora num hotel paulistano, Hermeto fala da condição de albino que não enxerga muito bem, como o classificou um dos compositores baianos um pouco mais jovens com quem guarda relação de afeto e de alguma competitividade.
Descreve como enxerga a situação política de “mundo virado” dos dias atuais, mesmo após ensaiar se esquivar do tema, afirmando que sua única política é a música, com o forró como matriz. Fala da teimosia da lenda brasileira Tom Jobim, menor que a de Hermeto, e defende a lenda norte-americana Miles Davis, que lhe teria surrupiado as composições Selim, Nem um Talvez e Igrejinha (essa sob o título Little Church), em 1971.

CartaCapital: Você conheceu músicos albinos pelo mundo afora?
Hermeto Pascoal: Não, nenhum. Conheci o Sivuca, né? Quem quiser ver muito albino no Brasil tem que ir a Caruaru. Na Rua Preta 90% são albinos. Quiseram criar uma coisa meio preconceituosa, como se o albino tivesse sofrimento só porque é albino.
Para ser feliz e para sofrer não tem cor. Meu corpo ser assim para mim é uma dádiva também. Meu carma na Terra que Deus me deu é ser assim, e estar falando com vocês agora, com meus 81 anos, que é pouco. Eu acho, modéstia à parte, que pessoas como eu, que fazem muita coisa aqui, deveriam viver muito. O ser humano não devia viver menos de 200 anos.
Muitos, com 70 anos, já começam a ficar debilitados. O cara parece que já começa a pagar os pecados porque fez uma coisa linda pelo mundo. Isso acontece com religiosos, com todo o mundo. Já falei com Deus, ele me disse: “Olha, antes de você vir para cá já vou garantir, só não posso te dar jeito agora porque o teu carrinho tem pouco tempo aí...” “Mais 50 anos?” “Não, 40.”
CC: Como é Deus, Hermeto? É albino?
HP: Deus é tão maravilhoso que ele é como a gente imagina. É mentira que Deus é uma fisionomia só. Existe a cor, existe a diferenciação de pessoas. Mas ele diz logo: chamem vocês aí de diferente, mas o meu diferente é semelhante, é a semelhança.
Se a gente vivesse 200 anos, ia dar tempo até para acertar o errado de tudo. Ou quem não acertasse ia pegar mais anos de carga, ia sofrer mais e envelhecer também. Essa é a vida.

CC: Nos anos 1960, você foi tocar para a Rhodia, e dizem que não quiseram que aparecesse junto aos outros artistas por causa da sua aparência, por ser albino.
HP: Foi, foi. O rapaz que era presidente da Rhodia hoje já está lá onde Deus quer, não vou dizer o nome dele porque ninguém conhece, não adianta. Estava lá tocando com Geraldo Vandré, com o Trio Novo. O Quarteto Novo nem estava formado.
O pianista Cido Bianchi é que trabalhava na Rhodia e convidou essa turma, Airto Moreira, e eu fui convidado também. Mas, quando o rapaz me viu, disse que eu era feio, destoante para o desfile. Para resumir, eu toquei e ele acabou consentindo. Eu vestia as roupas e esse cara começou a se agradar do meu jeito.
Eu tinha o cabelo compridão, chego na Rhodia, vem convite para eu ser o quê? Modelo da Rhodia, meu amigo. O que você diz disso? Aí já notei que veio o lado “abichaiado” (risos). Abichaiado, que eu falo, não estou criticando os bichas, não, sabe? Eu só não dou, mas eu tenho um pouquinho também de bicha.
Veio ele pessoalmente e me pediu desculpas pelos mal-entendidos. Para ele era um mal-entendido. Aí eu digo: “Não, que é isso? Eu me amo. Eu me amo, eu me amo, não adianta me falarem nada”. Claro que não aceitei, eu não tinha tempo, estava na fase jovem, na fase de estudar e tocar mais, já com meus filhos e tudo.

CC: Contam que nos Estados Unidos começou a tocar Tom Jobim no som ambiente, Garota de Ipanema, e Tom falou para você que não aguentava mais ouvir Garota de Ipanema. É verdade?
HP: É. Eu fiquei surpreso, porque ele estava no auge. A bossa nova estava no auge. Para tocar em elevador é porque a música fez sucesso. Eu ia subindo no elevador com ele, fui para tocar uma flauta baixo no disco do Tom.
Quando vejo ele tira aquele chapéu dele, nervoso, nervoso mesmo. A intenção que ele tinha da bossa nova era de que ela fosse uma música num nível de estar tocando nos teatros. Mas aí os culpados maiores são os parceiros dele, não era ele.
Tom falou no elevador, para uma das pessoas que sentiam a música, que era eu: “Eu queria fazer um som parecido como aquele do Quarteto Novo”. Ainda bem que o elevador demorou, eu gostei, pude dizer assim para ele: “Você mora nos Estados Unidos.




Airto Moreira, Flora Purim  e Hermeto, exilados nos EUA (Foto: Hulton Arhive/Getty Images)
Uma experiência que tenho, quando saio do Brasil, é que, se eu demorar dois meses fora, já começo a sentir falta. Agora, Tom, quando a gente fala Brasil, a gente fala no povo”. Ele queria evoluir mais, como eu fiz com o forró. Forró não é um ritmo só. Forró tem variedades. O forró que nós falamos é no sentido de chamar uma pessoa para a festa, para a farra. Mas aí criaram um estilo de música e botaram esse nome de forró.
É bonito o nome, o estilo, mas que não seja uma coisa só. Por exemplo, eu fiz um disco de forró, já faz um tempo, vai ser lançado logo, logo. Você vai escutar meu disco de forró, tem chorinho, maracatu, frevo, tem de tudo, porque tudo é forró. Jazz, clássico, todos os estilos eu toco, sem preconceito nenhum.
É uma mistura que eu chamo de música universal. No comecinho, eu já comecei a incendiar o forró com a flauta, com Edu Lobo, no Ponteio (do Festival da TV Record de 1967). O Edu não fez música pronta, ele fez uma música, uma letra bonita, e nós ganhamos o festival, mostrando sem palavras, na prática. Para o público não precisa mostrar nada, o público está aberto. O público é o deus da música.

CC: Você abordou levemente a questão da morte, de viver 200 anos. Chegou a tocar com Belchior?
HP: Não. Tive um convite uma vez. Me ligaram, tinha uma turma do Ceará que queria falar comigo. Era uma turma nova, ninguém tinha nome ainda. Marcaram, foram. Aí foi que conheci o Fagner, o Belchior.
E para que eles foram lá? Você vê o que é a meninada, né? Foram lá para a gente fazer uma onda, competir, como se fosse um tipo de competição, claro que sadia, musical, com os baianos, com a onda que estava dos baianos. Eu nunca acho que música é moda. A música, para mim, está em todas as modas, em todos os contextos.

Eu digo: “Não, eu agradeço muito a vocês”. É aquela história, quando você convida uma pessoa para fazer uma coisa, ela tem o direito de querer ou não, né? E tem que ser sincera também. Ficamos amigos, eu não quis porque estava com essa ideia do meu grupo, que é o que estou fazendo hoje.
Eles aí continuaram, e tudo bem e, quando foi daqui a uns tempos, o Fagner me convidou para fazer os arranjos do disco com nome Orós (1977), antológico. O difícil do músico é segurar a qualidade da música.
Não é que ele não segurou, é que ele ficou mais comercial. Não estou criticando, gente, estou sendo amoroso, estou sendo de pai para filho. Os produtores induzem, a coisa que eu tinha mais medo era quando eu via o produtor se aproximando de mim.
Tinha produtor que dizia que eu podia, em 15 dias, ter o grupo mais famoso do Brasil. “Só que tem umas coisinhas que eu queria te pedir, Hermeto. A roupa, esse jeito do grupo se vestir... E a música, para você maneirar um pouquinho, tocar uma música mais simples.” Como quem diz “toca brega”, né?
Quando o cara fala isso para mim ele está praticamente ofendendo a minha mãe. Não adianta, ninguém tirou e ninguém tira a minha maneira, o meu ser. Eu não premedito, eu sinto. E sou 100% intuitivo.
CC: Com 8 anos, quando começou a tocar, você já era assim?
HP: Com 8 anos. Quando saí de casa, no bom sentido, quando fui embora para o Recife, com 14 anos, muita gente pensa que minha mãe e meu pai ficaram chorando. Mas eles confiavam naquela coisa espiritual, lá do interior.
Mamãe dizia: “Meu filho parece um homem”. Assim mesmo. Sempre fui brincalhão, aí, quando cresci, ela dizia, com seus 86 pra 87 já: “Mas, meu filho, nunca vi você ser homem” (risos). Eu, para brincar com ela, digo: “Mãe, a senhora não tem os seus netinhos já? Como a senhora diz que eu não sou homem?” “Não, meu filho, eu estou dizendo isso porque você brinca muito, desde quando era pequenininho.”
Eu não sinto a diferença da minha idade. Não sinto, não é porque não quero, é porque não sinto mesmo. Minha avó dizia: “Meu filho, os dias são iguais perante Deus”. Como se Deus cometesse uma gafe dessas.
E eu, pequenininho, já sorria, já era “ironiquinho”. Se eu souber como vai ser meu show hoje, para mim, não é novidade. Nem vou. Quero viver o agora, o hoje, meu amanhã é hoje, sempre. Se eu morrer, vou morrer hoje. No dia que eu morrer é hoje.
CC: Você já ouviu Hermeto no elevador? Ou no rádio, no táxi?
HP: Não, porque a imprensa não tem gabarito para isso, não tem alcance. Eu não estou ofendendo a imprensa, estou sendo sincero. A imprensa devia se sentir envergonhada, como é que eu loto teatro mais do que muita gente?
Já estive em teatro com o meu amigão Gilberto Gil assistindo ao meu show, de eu chegar e Gil sentado, e eu sabia que ele tinha um show no mesmo dia.
Estou lá tocando, olho, vejo o Gil, ele já sabe que eu não enxergo, né? “Ih, rapaz, você aqui?” Ele disse: “Não tinha ninguém lá no meu, tinha pouca gente, não teve o show, vim assistir ao seu”. Olha que humildade, que pessoa maravilhosa.
Não falei na imprensa generalizando, falei naqueles que sabem muito bem o que não fazem para a música. A carapuça que caia.
CC: Você falou que não enxerga, mas enxergou o Gil. Quanto enxerga ou não?
HP: Não, eu enxergo, eu enxergo pouquinho. O Gil estava perto. O Gil é muito musical. Por isso eu não perdoo os músicos que têm a musicalidade e não exploram. Rapaz, o Gil, no tempo da Record, você precisava ver o Gil tocar violão.
Depois eles formaram uma música para fazer sucesso, tudo bem, mas que continuasse com aquele nível. Gil é um músico maravilhoso. Só que na prática é igual a um grande time de futebol que não está jogando bola. Precisa voltar a jogar bola.


Com o mestre paraibano Jackson do Pandeiro (Foto: Facebook/Hermeto Pascoal)

CC: Quando Caetano fala de “hermetismos pascoais”, ou “o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem”, ele se refere à sua música como hermética, como uma música difícil.
HP: Genial, é outro poeta maravilhoso. O Gil e o Caetano, eles representam demais. São os baianos. O Sivuca até dizia para mim: “A Bahia é a África brasileira”. Ele achava isso.

CC: A bossa nova tirou a sanfona da música brasileira. Portanto, tirou o forró?
HP: É, para você ver como é que pode... Você acha que um Tom Jobim ia ter uma ideia dessa, um genial músico que era o Tom Jobim, para achar que uma sanfona não pode tocar qualquer música?
Não digo levado, ele foi educado pelos produtores, que queriam fazer as coisas mais comerciais. Foram eles que levaram o Tom a ser educado. O que tinha ao redor, para ele se firmar cada vez mais, não estava à altura dele. Ele não era assim como o Hermeto, teimoso. Tom era mais educado do que eu. Por isso ele cedeu.

CC: O que está enxergando da atual situação política do Brasil. Já tinha visto, na sua vida, um período como este?
HP: Não, com 81 anos eu nunca vi falar. E eu me lembro que alcancei o tempo da ditadura. Era o tempo que eu estava assim num lugar, por exemplo, tocando na Argentina, para ir pro teatro tinha que passar pelos lugares com mandado. Como aqui no Brasil. Aquela época era ruim, coitados dos caras que morreram, que mataram.
Aí não vou nesse assunto, porque a minha política, digo sempre, é a música. Não me meto em política, mas eu sou um cidadão também. O que eu sinto é que o mundo está virado, cara, não é só aqui, não. É no mundo inteiro. Não é normal o Brasil ser esse país que é, com essa beleza, ser um dos países mais duros do mundo.
Quem guarda dinheiro, para mim, não demora, demora, mas vai ser guardado. Dinheiro é uma doença. Como é que o cara é tão bom, estuda, se forma, e guarda bilhões, sabendo que não vai viver 100 anos? Se fosse pra gastar, mas ele nem vai poder gastar. Mas eu achei, mesmo assim, que está melhorando, pelo menos aparentemente.
Estão descobrindo os nomes. Só que, quando descobre o nome de uma pessoa, aquele que descobre também vai depois. Eu acho que ele fez isso exatamente pra se encontrar depois, “pode deixar que eu estou indo também”. Porque todo mundo sabe o que fez.

CC: Miles Davis nunca deu o crédito de Igrejinha para você, ou deu? Airto Moreira falou que era sua.
HP: Houve uma onda lá... Airto falou, mas eu não falei, eu não confirmei. É só pedir as provas para o Airto, pede para ver se ele dá as provas. Eu defendo o Miles, porque conheci pessoalmente. Miles era rico, não precisa de dinheiro.
Sabe o que eu fiz para acabar com a festa? Eu tinha umas 4 mil músicas, pedi para dizer para o advogado: “Olha, essas músicas eu tenho, se Miles Davis quiser... Doutor, não é por causa de duas músicas. Se eu, dono das músicas, não estou brigando, quem quer dinheiro? Eu não quero”.

CC: Herbie Hancock e Wayne Shorter entraram com uma ação.
HP: Sim, mas eu não pedi. Eles tinham raiva do Miles, sabe por quê? Ele gravou uma música popular mexicana e botou no nome dele. Era um cara tão desligado, assim como eu, a gente que é músico de verdade não liga pra dinheiro.
Eles queriam fazer uma onda, como já sentiram que eu estava sendo muito forte nos Estados Unidos. Tanto é que, agora, vocês têm que me chamar de doutor. Como brasileiro, ganhar um prêmio desses nos Estados Unidos, não é qualquer um.


In Carta Capital

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 2


Emisabel
Laís Barreira


Seu nome era Maria Isabel, mas, a forma como bordava em seus lençóis e toalhas, M. Isabel, definiu o apelido com que passaria a ser chamada pelos netos e netas.

Emisabel, como sempre a chamamos, era uma mulher alegre e extrovertida demais para o final do século XIX, época em que viveu sua juventude; sua risada chamava a atenção e provavelmente escandalizava os mais puritanos, porém, foi justamente o seu temperamento que encantou o jovem tenor espanhol que veio ao Brasil com uma companhia de ópera que acabou falindo e se desmanchando.

Uma companhia de ópera que vem da Espanha e vai para o interior do Ceará, se vê logo que não andava bem das pernas. Suas últimas apresentações foram em Sobral, cidade em que minha avó nasceu e foi criada por “padrinhos” que tinham “alguma posse”.

A estreia da ópera alvoroçou Sobral. 

O espetáculo era O Guaraní, estrelado pelo tenor José Ubeda Perales que interpretava Peri. Ao final da apresentação, o jovem tenor que era bonito, apesar de não ser alto, recebeu rosas da plateia; a escolhida para entrega-las representando a sociedade sobralense foi a jovem Maria Isabel.

Sobre isso minha mãe contava um fato engraçado: o buquê entregue ao tenor era amarrado por um belo laço de fita que encantou o garoto que trabalhava na casa de minha avó. Sem falar com ninguém, no dia seguinte o rapaz foi ao hotel onde a companhia estava hospedada e solicitou a devolução da fita do buquê. O tenor, envergonhado, procurou a senhorinha que lhe entregara as flores pedindo-lhe desculpas, pois “não sabia que era costume em Sobral devolver a fita do buquê”.

Assim eles se conheceram e o tenor encantou-se tanto pela moça que decidiu ficar definitivamente no Brasil e a história dos dois terminou em casamento.

Depois de casados, com a companhia teatral falida, ambos resolveram ir morar em Camocim que era uma cidade em expansão por causa do porto e lá abriram uma pensão que se tornou uma das melhores da cidade.

José, um jovem culto e muito inteligente, nunca mais se apresentou como cantor, voltou uma única vez à Espanha e terminou sua curta vida em Camocim como guarda-livros, que hoje é a profissão de contador, da pensão que tinha com a mulher.

Emisabel, ao contrário, viveu quase cem anos e morou muitos anos em Fortaleza com Elisa, a mais velha dos seus cinco filhos, minha mãe.
Eu, meus irmãos e irmãs, convivemos muito com essa avó avançada, que fumava charuto, não tinha “papas na língua” e falava palavrão, o inverso da minha mãe, recatada e muito religiosa.


 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Histórias que Laís conta...(1)


Laís Barreira
Vovó Jovina

" 'Cuidei que era uma menina, mas já é uma mulherzinha!' Exclamou o viajante admirado com a beleza da mocinha de olhos azuis que lhe entregava uma caneca de água fresca."


Naqueles tempos os vendedores ambulantes eram chamados de viajantes e andavam, geralmente a cavalo, pelas cidades das redondezas oferecendo seus artigos.

Vovô Targino era um caboclo, porém, de cabelo liso, bem apessoado e era um desses viajantes que sempre passava pela propriedade da família de Jovina, à beira da estrada.

Certo dia ele resolveu parar para pedir água; apeou do cavalo e percebeu a menina sentada no terraço com uma mulher que penteava seus longos cabelos.

Vovó Jovina era uma moça baixinha e usava longas tranças negras que lhe desciam pelas costas e davam-lhe a aparência de menina.

Quando a moça lhe trouxe a água o cavaleiro percebeu que se enganara, diante dele uma bela e pequena mulher lhe oferecia a caneca d’água, deixando-o apaixonado.

Targino passou a parar sempre naquela propriedade, com a desculpa de beber água e a intenção de prosear com a moça que conquistara seu coração; até que um dia, suponho que com o seu consentimento, ele carregou Jovina na garupa de seu cavalo “roubando-a” de sua família, único jeito de casar-se com ela naquela época.

E assim, dessa união que durou até o fim de suas vidas nasceu Euclides, o meu pai.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)


Tua Cantiga (Cristovão Bastos e Chico Buarque )



via Biscoito Fino

terça-feira, 11 de julho de 2017

Jombrega, Detefon e Carnaval


A foto encontrei num vídeo do You Tube postado por Luciano Hortêncio. No detalhe uma placa com os dizeres "Detefon para Jombrega". Devia ser alguém que torcia pelo Kanal.



Francisco José Róseo de Oliveira, mais conhecido como Jombrega (19 de março de 1918), é um ex jogador de futebol. Jogou nas décadas de 1930 e 1940 como ponta direita do Fortaleza Esporte Cube.

Ao longo da carreira, jogou no Maguari , Fortaleza ,Peñarol, Ferroviário , Ceará.

Foi campeão da Copa Cidade de Natal de 1946, e cearense em 1936, 1937, 1938, 1941, 1943, 1944, 1946 e 1947.






O vídeo





segunda-feira, 10 de julho de 2017

Saber Mentir (Antonio Bruno)

por Nina Wirtti



Rolando Boldrin recebe a cantora Nina Wirtti (Santa Maria - RS) que canta "Saber Mentir" (Antônio Bruno). Músicos acompanhantes: Guto Wirtti (contrabaixo), Luis Barcelos (bandolim), Rafael Mallmith (violão 7 cordas) e Ruy Quaresma (violão).

A NOITE DE SÃO JANUÁRIO

Por Luiz Antonio Simas


Não é apenas sobre futebol. É sobre a cidade. A tragédia de ontem em São Januário é derivada de inúmeros fatores, tais como o despreparo da PM, a crise política do Vasco, a cultura da violência como elemento de sociabilidade entre membros de torcida, a construção de pertencimento a um grupo a partir do ódio ao outro (elemento marcante da relação entre Vasco e Flamengo nas últimas décadas), o esfacelamento da autoridade pública no Rio de Janeiro, etc.

Ela tem como pano de fundo, todavia, o assassinato do Maracanã. Morte matada, cruel, pensada nos gabinetes mais sórdidos do poder. Como um sujeito que tenta participar minimamente do debate público sobre a cidade, escrevi sobre isso em O Globo (Santuário Profanado, 26/12/2011) e em O Dia (A cidade era o Maracanã, 27/04/2016). Retomo aqui algumas ideias daqueles artigos.

O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O estádio foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a sua posição na sociedade: os mais pobres na geral, a classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os mais remediados ainda em suas cadeiras cativas.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue.O fim da geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: não era a geral que precisava sumir; eram os geraldinos. Na arena multiuso, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo.

O fim da geral foi, simbolicamente, o esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era. Prevalece agora a lógica da exclusão explícita.




Noves fora isso, a destruição do Maracanã fez parte do projeto mais amplo de assalto ao Rio de Janeiro promovido pela organização criminosa de Sérgio Cabral / Pezão e comparsas.

Eu não acredito em qualquer pacto ou em qualquer reconstrução da cidade do Rio de Janeiro - esfacelada, aniquilada, assaltada , extorquida, mediocrizada - que não passe pela devolução do Maracanã aos cariocas.

Um efeito perverso, dentre vários, que vai ser gerado pela noite triste em São Januário é o reforço do discurso dos que acham que o futebol tem que ser mesmo elitizado. Outro efeito deletério é a desqualificação de São Januário, um templo da cultura carioca e um patrimônio do Brasil que, todavia, não pode comportar clássicos.

Desculpem-me os que acham que estamos discutindo futebol ao debater o que aconteceu em São Januário e o crime cometido contra o Maracanã. Não é isso. Nós estamos discutindo a cidade e o Brasil como mínimas possibilidades de convívio digno, fraterno e inventivo entre nossas gentes. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A SOCIEDADE DO CANSAÇO ( 5)

POR hAN, BYUNG-CHUL

"O próprio afirma-se na outro, negando a negatividade do outro. Também a profilaxia imunológica, portanto a vacinação, segue a dialética da negatividade. Introduz-se no próprio apenas fragmentos do outro para provocar a imunorreação.

Nesse caso a negação ocorre sem perigo de vida, visto que a defesa imunológica não é confrontada com o outro, ele mesmo. Deliberadamente, faz-se um pouco de autoviolência para proteger-se de uma violência ainda maior, que seria mortal. O desaparecimento da alteridade significa que vivemos numa época pobre de negatividades. É bem verdade que os adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devido a um exagero de positividade.

A violência não provém apenas da negatividade,mas também da positividade, não apenas do outro ou do estranho, mas também do igual.

Num sistema onde domina o igual só se pode falar de força de defesa em sentido figurado. A defesa imunológica volta-se sempre contra o outro ou o estranho em sentido enfático. O igual não leva à formação de anticorpos. Num sistema dominado pelo igual não faz sentido fortalecer os mecanismos de defesa.

IN SOCIEDADE DO CANSAÇO - DE BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES




quarta-feira, 5 de julho de 2017

Coito das Araras (Cátia de França) - com Julia Vargas

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (4)

Por Han, Byung-Chul

"O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. A alteridade, que provocaria uma imunorreação atuaria contrapondo-s ao processo de suspensão de barreiras. O mundo organizado imunologicamente possui uma tipologia específica.

É marcado por barreiras, passagens e soleiras, por cercas, trincheiras e muros. Essas impedem o processo de troca e intercâmbio. A promiscuidade geral que hoje em dia toma conta de todos os âmbitos da vida, e a falta da alteridade imunologicamente ativa, condicionam-se mutuamente.

Também a hibridização, que domina não apenas o atual discurso teorético-cultural mas também o sentimento que se tem hoje em dia da vida, é diametralmente contrária precisamente à imunização. A hiperestesia não admite qualquer hibridização.

A dialética da negatividade é o traço fundamental da imunidade. O imunologicamente outro é o negativo, que penetra no próprio e procura negá-lo. Nessa negatividade do outro o próprio sucumbe, quando não consegue, de seu lado, negar àquele. A autoafirmação imunológica do próprio, portanto se realiza como negação da negação."

IN a SOCIEDADE DO CANSAÇO -
BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES


terça-feira, 4 de julho de 2017

SOCIEDADE DO CANSAÇO (3)

por Han, Byung-Chul

"Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas.

Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia.  Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não provoca nenhuma reação imunológica. A diferença pós-imunológica, sim, a diferença pós-moderna já não faz adoecer. Em nível imunológico, ela é o mesmo.

Falta à diferença, de certo modo, o aguilhão da estranheza, que provocaria uma violenta reação imunológica. Também a estranheza se neutraliza numa fórmula de consumo. 

O estranho cede lugar ao exótico. O tourist viaja para visitá-lo. O turista e o consumidor já não é um sujeito imunológico.

in O sociedade do cansaço, Byung-Chul Han - editora Vozes

Risque - Alcione

Por Biscoito Fino


“Alcione Boleros”, conforme explicita o título, é um espetáculo que premia o gênero romântico em uma de suas expressões mais emblemáticas. 

Apesar de ser geralmente rotulada como sambista, a Marrom sempre exibiu, orgulhosamente, sua veia romântica.

Boa parte de seus maiores hits, uma lista imensa de sucessos, pertence ao gênero romântico e fala sobre amores e desamores, encontros e desencontros.

 Mas, quase sempre, com uma narrativa que valoriza a força da mulher e uma eterna disposição para dar a volta por cima. Afinal, como ela mesma diz, "não é uma qualquer".

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (2)

por Han, Byung-Chul

"O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo na guerra fria seguia esse esquema imunológico. O próprio paradigma imunológico do século passado foi integralmente dominado pelo vocabulário dessa guerra, por dispositivo francamente militar. A ação imunológica é definida como ataque e defesa. Nesse dispositivo imunológico, que ultrapassou o campo biológico adentrando no campo e em todo o âmbito social, ali foi inscrita uma cegueira: Pela defesa, afasta-se tudo que é estranho.
O objeto da defesa imunológica é a estranheza como tal. Mesmo que o estranho não tenha nenhuma intenção hostil, mesmo que ele não represente nenhum perigo, é eliminado em virtude de sua alteridade."

In A sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han - editora Vozes.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A sociedade do cansaço (1)

por Han, Byung-Chul

" Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal.

Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas infartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente  diverso, mas pelo excesso de positividade. 

Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho."

in Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han, editora Vozes

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Paulo Tapajós - u Poeta du Sertão

Para Fabricio, Urico e Thadeu





u Poeta du Sertão
Catulo da Paixão Cearense
 

Si chora o pinho
Im desafio gemedô
Não hai poeta cumo os fio
Du sertão sem sê doutô
Us óio quente
Da caboca faz a gente
Sê poeta di repente
Que a puisia vem do amor

Não há poeta, não há
Cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
Lá da Côrte
Se quisé mexê comigo
Muito intoncê tem qui vê
Us livro da intiligença
I dá sabença
Mas porém u mato virge
Tem puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
Du sertão do Aracati
As minha trova
Nasce d'arma sem trabaio
Cumo nasce na coresma
Nu seu gaio a frô de Abri