Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ouvindo Vozes

Por Karina Buhr


1992. Eu tocava tambor e cantava na chamada "nova cena mundial pernambucana".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".

2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
Cantora é um cargo que cai muito bem em uma mulher brasileira. E passei a fazer parte da chamada "nova cena mundial paulista". Zerou tudo. Elixir da juventude.

O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...

No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.

Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.

Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".

Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.

No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...

Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. 
Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.

E existe a ideia de um certo glamour. Pipocam eternas comparações sem sentido e a vibração picuinha-dos-inferno se estabelece jornais afora. Às vezes, lembra concurso de miss. Botam as mina pra competir, como de costume, como na vida real, que dizem que é assim. Não é assim. Só te socam isso goela abaixo. Foie gras. É só fazer as contas de novo, como no caso das duplas sertanejas.

Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.

Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.

Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.

Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.

Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?

É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.

Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.

Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.

Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.

(da coluna de Karina Buhr- revista da Livraria Cultura)

Um comentário:

Marchando disse...

Excelente o texto! Pensar sobre como as mulheres tem sido vista, tratadas também no espaço da música é necessário para fazermos diferente, de fato. Parabéns pela publicação!