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segunda-feira, 4 de julho de 2011

O bamba da gentilândia

Por Janaína Brás

Chaguinha por Igor de Melo

O homem não é dos mais cândidos à primeira vista. A mirada firme e as poucas palavras iniciais, bem ao contrário, assustam. Mas é se achegar mais ao balcão, manter a voz mansa, elogiar o tira-gosto e ver se desvelar diante de si as risadas mais gostosas.

O piauiense Francisco Ferreira Neto, mais fortalezense que muito cabra daqui, é conhecido para tudo como Chaguinha - o dono do bar mais antigo nas freguesias da Gentilândia. Todas as manhãs, queiram ser de chuva ou não, está lá o homem, as portas abertas para boa prosa e para doses homeopáticas de uísque ou cachaça.

Com o jornal invariavelmente aberto em frente ao tino, não o faz pela pontinha - está aposentado, tem a vida ganha. O trabalho de Chaguinha já passou, o bar hoje lhe é passa-tempo. A colheita prazenteira dos frutos semeados em mais de meio século nas noites fortalezenses lhe dá o prazer de ver os filhos formados e os 78 anos bem-vividos.

Às sextas-feiras e aos sábados, segue rendendo homenagens à festa. Prepara a seresta com zelo, cuida a cerveja estúpida e gelada. Detrás do balcão, despacha os aperitivos da terra, preparados sempre pela Arabenes, patroa dele.

Poderia, mas Chaguinha não é um pote de histórias. Apesar do saudosismo inegável das memórias, gosta de conversar sobre hoje. Porque tem insônias pontuais todas as quatro horas da manhã, ouve o jornal pelo rádio antes mesmo do dia amanhecido. Pode colocar conversa, o homem emenda, e dá pitaco.

O POVO - Chaguinha, por que o senhor trocou o Piauí pelo Ceará aos 23 anos?

Chaguinha - Meu sogro adoeceu, e eu tinha dois cunhados em Fortaleza. Eu acompanhei meu sogro pra fazer tratamento aqui. Dia 1º de janeiro de 1956, nós pegamos a linha de Teresina a Fortaleza do Expresso de Luxo, em Piripiri. Porque o trem não passava em Batalha, nossa cidade. Quando chegamos em Fortaleza, meu cunhado estava esperando na rodoviária. Nesse tempo, a rodoviária ficava na (rua) Senador Pompeu, perto da Santa Casa de Misericórdia. Pegamos o carro de aluguel e fomos para o apartamento dele, perto da Igreja da Sé. Com 30 dias, o médico deu alta ao meu sogro. Nesses dias aqui, meu cunhado saía pra trabalhar, e eu saía com ele. Pegava o ônibus, ia pra aqui, pra acolá, passeava. Quando o médico deu alta, meu sogro disse: "Chagas, amanhã nós vamos embora". Eu disse: "Eu não vou, não". E o meu cunhado: "E vai ficar fazendo o quê aqui?". E eu: "Eu vendo banana, mas não volto" (empertiga a coluna e sorri).

OP - Qual impressão o senhor teve pra decidir ficar?

Chaguinha - A impressão de que dava certo! Eu tinha conversado com uma parenta da minha esposa. Ela disse: "Meu filho, não fique aqui. Fique lá pelo Ceará, na Capital. É uma cidade maior, tem mais chances". Batalha era cidade muito pequena. Eu trazia uma pontinha (dinheiro) de lá, porque já era comerciante, tinha uma merceariazinha. E plantava cana (de açúcar) na propriedade do meu sogro. Então fiquei. De manhã, eu pegava o jornal e ia procurar ponto pra alugar. Andamos pela Aldeota, tudo, eu achava que não dava certo. Um dia, nós pegamos o ônibus aqui pra Gentilândia. E tinha esse ponto aí na frente (aponta para o prédio de esquina em frente onde hoje é o Bar do Chaguinha). Tava todo montado, tinha prateleira, tudo. Eu gostei. Arranjamos o fiador e, no dia 1º de fevereiro, nós abrimos o negócio. As mercadorias negociadas aqui eram totalmente diferentes das de lá de Batalha. Então o cliente chegava e pedia a mercadoria, não tinha. Mas eu anotava e mandava comprar. No dia seguinte, tinha. Eu cheguei a vender tambor de 200 litros de querosene, saca de carvão e carne do sul, chamada charque. Quando foi no fim do ano, a gente deu um balanço, ó! (levanta os dois polegares na altura dos ombros e sorri satisfeito) Em agosto, eu já tinha ido buscar a patroa (dona Arabenes ficara em Batalha). Já tinha alugado e mobiliado a casa.

OP - Como era a Gentilândia daquela época?

Chaguinha - Isso aqui foi a primeira vila construída no Ceará, em 1931, pela família Gentil. E eu gostei de Fortaleza. Porque, na época, era Fortaleza, hoje é Matadouro. O noticiário deixa você horrorizado. Todo fim de semana, não morre menos do que dez pessoas. Quando eu cheguei aqui, eu abria a bodega cinco horas da manhã, só voltava pra casa uma e meia da madrugada. Ia de pé, porque nessa hora não tinha mais ônibus. Ia pela (rua) Júlio César, que era metade lagoa, metade terra. Quando não chovia, dava certo. Quando chovia, eu ia pela avenida João Pessoa.

OP - E por que o senhor transformou a bodega em bar?

Chaguinha - Eram cinco mercearias de primeira ordem na Gentilândia. Comigo fizeram seis. Cada um tinha sua clientela. Era do tempo da cadernetinha, que hoje é o cartão de crédito. No supermercado, todo mundo não tem o cartão das empresas não sei o quê, não sei o quê? Aquilo eles não tão vendendo fiado, não. O cartão é o responsável pela dívida, o mercado não tem nada com isso. No meu tempo, não tinha isso, era a cadernetinha. E eu criei e formei meus quatro filhos assim, graças a Deus. Mas com a continuação dos tempos, as vendas diminuíram, porque o pessoal passou a comprar nos supermercados.

OP - E quando aconteceu o Bar do Chaguinha?
Chaguinha - Rapaz, quando foi que o Castelão foi inaugurado? (silêncio sepulcral) Foi na década de 1970, por aí (foi em 1973). Eu comecei a fazer o tira-gosto. Mesa não tinha. Agradeço muito ao pessoal da escola industrial (hoje Instituto Federal do Ceará, Ifet-CE), porque eles gostavam muito da mão de vaca. Eles chegavam, colocavam as caixas de cerveja em cima da calçada e se sentavam nas cadeiras embaixo da calçada (risada satisfeita). Aí começava... "Uma mão de vaca!" Isso, aquilo outro. Deu certo, né? (movimento de sobrancelha) Seguimos trabalhando. Pá, pá, pá, pá... Quando foi em 91, compramos esse ponto (onde hoje está instalado o Bar do Chaguinha, antiga mercearia do Joca).

OP - Chaguinha, o senhor teve a sorte de viver a Gentilândia na época de ouro do futebol cearense. Quais lembranças guarda desse tempo?
Chaguinha - Espere aí (levanta da cadeira e vai buscar papel todo dobrado há anos). Recordando é o nome da crônica. "O Bar do Chaguinha, na Gentilândia, tem tudo a ver com o futebol... (E segue o texto de Tom Barros rendido em homenagens ao estabelecimento do entrevistado). Dia de futebol aqui, a turma passava, tomava a cachaça, a cerveja, e ia pro jogo. O Tom começou aqui a imitar os locutores que ele gostava quando tinha 12 anos. Ele usava uma latinha de leite pra fazer a locução. O primeiro emprego dele foi pelo Juvenal, funcionário do Banco do Brasil. Tudo dentro desse bar.

OP - Algum jogador já veio comemorar a vitória do PV aqui?

Chaguinha - Jáááá (prolongado e grave). Nisso aqui já veio até governador, minha filha. Já veio até deputado federal. Já veio até grandes jornalistas da Globo. O moreno, que faz o noticiário, já teve aqui comendo mão de vaca (Heraldo Pereira). O chefe da segurança da seleção brasileira também já veio. Foi o Moacir Maia quem trouxe o moreno da Globo.

OP - E o time do coração, qual é?

Chaguinha - Ai, eu sou Ceará.

OP - Tem problema não ser Ceará e beber aqui?

Chaguinha - Nãããão. Fortaleza quando joga isso daqui fica cheio. Eu não confundo alho com bugalhos. Eu alcancei o futebol quando as torcidas se misturavam aqui na Gentilândia. Depois de criada a torcida organizada, ficou assim, cheio de briga. Eu alcancei as arquibancadas de madeira do PV! Nós somos desportistas.

OP - E a Gentilândia de hoje é do seu gosto?
Chaguinha - Sim. Sempre foi. Mas já foi mais tranquila.

OP - A tradição do Bar do Chaguinha tem seus costumes. Eles se matem até hoje?

Chaguinha - Desde sempre. Nós não aceitamos fumar aqui. Apesar de ser um bar simples, alguns fregueses não gostam. Não é querer ser importante, mas tem pessoas com alergia, espirra, tudo. Nossa seresta começa oito horas, só termina uma da madrugada. Tranquilo. Não existe esse negócio de sentar na sua mesa sem ser conhecido seu. É exigência minha, não abro mão. Isso de pedinte chegar na mesa e pedir bebida, isso aqui não existe. Se não for amigo seu, eu tou lá pra tirar o cara. Porque tem cara abelhudo. Quer beber de graça, sair sem pagar. Eu procurei selecionar esse lugar. E tem outra coisa, quando dá uma hora encerra. Porque tem o pessoal de muita idade que vive por aqui.

OP - A clientela se manteve fiel?

Chaguinha - Minha clientela era outra. Hoje todos são de fora do bairro, é a clientela da seresta. Os de antes são poucos. Tem os fregueses que veem ao meio-dia tomar a dosezinha de uísque e o aperitivo. Você tá vendo esse horror de carro aqui? São os professores e alunos da antiga Escola Industrial. Quando é sexta-feira, depois de 18 horas, os professores começam a sair, e a turma da seresta começa a chegar. Quando é sete, oito horas da noite, isso daqui tá cheio de carro, parece o Náutico. Tudo pra ver a seresta.

OP - De onde veio essa ideia da seresta?

Chaguinha - É porque hoje eu tenho isso aqui como passa-tempo. Não sou mais comerciante, já vou fazer 80 anos, não tenho mais aquele gás de quando comecei. Abria cinco da manhã, fechava uma e meia da madrugada. Quando eu iniciei meu negócio, não sabia nem onde era o mar. Nunca tinha ido tomar um banho de mar. Depois de 15 anos, as filhas começaram a terminar os colégios, foi quando levei a família pra ver o mar.

OP - Mas e a seresta?
Chaguinha - Ai, rapaz. Esse pessoal do violão (aponta para o quadro das caricaturas), só não é professor eu. Aliás, eu também sou professor na minha profissão. Sou aquele com a bandeja. Toda vida vinham aqui e começavam a tocar, tal. Um dia, o professor Robério perguntou: "Chagas, rapaz, a gente queria arranjar um lugar pra tocar um violãozinho, tomar uma cerveja, mas sem esses bebinhos chatos". A expressão não foi exatamente essa... Pinguço! "Pois pode vim pra cá", eu disse. "Aqui não tem isso não, cumpadi". Aí nós fizemos cota e mandamos fazer esse quadro. O Valber, cartunista, fez esse quadro por R$50 a cabeça. Quinhentos pau. Desse pessoal, não tem vindo todos, mais ainda vêm dois, quatro.

OP - Então a música é feita pela camaradagem?
Chaguinha - Exatamente. Quem hoje, às vezes, toca aqui e que eu dou uma ajudazinha é o Manoel. Porque ele é músico. Mas só toca quem toca porque gosta daqui. E quando é dia de sábado, a gente faz aquela cotinha com o chapéu.

OP - Tem alguma música favorita sua tocada pelos meninos?

Chaguinha - Camisola do Dia. Tem outra do meu tempo que eu gosto demais: "O trem apitou/ e a história se encerra/ Adeus, Barcelona, adeus/ Adeus, Dolores Sierra" (cantarola, a letra um tanto diferente da original). Naquela época, era música. Você vê essa festa de todos os anos aqui, o Fortal. Todo mundo pulando como galinha do pescoço quebrado, não vejo ninguém dançando. Só isso: Ô, ô! (levanta os braços, ensaia pinotes na cadeira) Começa pelos próprios músicos, tudo nu da cintura pra cima. Trá, trá, trá (imita a percussão). Quando amanhece o dia, o sujeito diz assim: "Ô, festão!" (pausa horroriza) É muito diferente do meu tempo...

OP - E do Pré-Carnaval aqui na porta do Bar, o senhor gosta?

Chaguinha - Eu gosto! É bem organizado, o Luxo da Aldeia. Eu dancei muita marchinha. Nas festas do Náutico, do Comercial Clube, do Clube dos Diários, do BNB. É muito bom a festa.

OP - Ouvi dizer que o senhor era o maior pé de valsa.

Chaguinha - Antes da operação. Gostava de dançar, (enfatiza cada sílaba) gostava de dançar. Apesar da vida difícil. Mas eu estou feliz porque aproveitei o que pude da mocidade, graças a Deus. Não tenho do que reclamar. Mesmo com todas as dificuldades. Eu era arrimo de família, minha filha. Meu pai morreu, eu tinha 9 anos. Tenho cinco irmãos, minha mãe ficou viúva com três meses de grávida da minha irmã mais nova. Aí nós fomos lutar pra criar os outros irmãos. Mas deu tudo certo. Minha mãe morreu com quase 80 anos.

OP - O senhor fez muitos amigos detrás desse balcão?

Chaguinha - Amigo a gente não pode dizer que tem. A palavra amigo é difícil. Você tem conhecido. Eu tenho muitas pessoas conhecidas que eu gosto, a gente se dá bem. Mas amigo mesmo aqui eu só tive três. Amigo de chegar na hora. Se chamava Joaquim Alves Mota, Severino Bernardes Vieira e Airton Sales Castelo Branco. Moravam todos aqui. E o meu sócio, meu cunhado.

OP - O senhor sabe, eu estou aqui pela tradição do Bar do Chaguinha. Ele é parte da história da Gentilândia e da boemia dessa cidade. Mas o que ele representa para o senhor?

Chaguinha - Eu já disse à minha mulher, quando eu morrer, antes de ser enterrado lá no São João Batista, dar uma passadinha aqui, pra despedida. São 55 anos. Eu não sou rico de dinheiro, eu tenho pra viver. Mas consegui uma casa boa, esse prédio é nosso, consegui me aposentar. Não foi o teto da previdência, porque tinha o aluguel de casa, da venda, o colégio dos meninos, não dava pra contribuir muito. Mas não posso reclamar. Esse bar é minha vida.

OP - É por isso que o senhor vem todo dia de manhã pra cá ?

Chaguinha - E pra não ficar em casa. Se ficar em casa, morre. Sábado, quando eu saio daqui, a gente juntas as cadeiras e as mesas, só faz varrer. Quando é segunda-feira, domingo não venho, eu começo a fazer a limpeza dali da cozinha. Passo o pano na cozinha, no banheiro. Depois venho pra cá, limpar as mesas e as cadeiras. Olha como tá o piso, passo o pano no salão todinho. É o exercício que eu faço, porque, se não fizer, endurece as juntas. Minhas filhas não querem que eu venha, se fosse por elas, eu já tinha alugado isso aqui. Mas minha mulher fica do meu lado. Nós estamos aqui conversando, é todo tempo o povo chegando: o professor, o vizinho... Eu me distraio.

PERFIL

Francisco Ferreira Neto, de 78 anos, nasceu em Batalha, no Piauí, dia 22 de dezembro de 1932. Na casa dos 20 anos, veio ganhar a vida em Fortaleza como comerciante. Desde então, radicou-se na Gentilândia - onde construiu nome na boemia da Capital. Casado com Arabenes Duarte Ferreira, de 76 anos, desde antes de chegar rapazote ao Ceará, o homem é conhecido pelos petiscos aprumados feitos pela patroa e pela seresta afinada das sextas e sábados à noite. Também gosta de ser conhecido pela cerveja dolorosa de tão gelada. Quem é próximo à figura não nega a gentileza do senhor, mas ri-se do temperamento aos moldes seu Lunga. Faz as contas no papel, tira as provas e serve as cervejas dos mais camaradas. Chaguinha hoje caminha mais moroso, pelos joelhos operados, mas sem ele, não existem as serestas. Ir ao Bar do Chaguinha é pra trombar com ele. Sempre.

SERVIÇO
O  BAR DO CHAGUINHA fica na rua Padre Francisco Pinto, 145, bairro da Gentilândia.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginasazuis/2011/07/04/noticiapaginasazuisjornal,2263459/o-bamba-da-gentilandia.shtml

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