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terça-feira, 29 de março de 2011

O futuro cada vez mais à leste

Por Júlia Lopes

O número 938 da Santos Dumont, morada da família de Manuel Ricardo de Holanda no tempo em que se contava a história de uma verdejante e arejada Aldeota, passou por transformações, assim como o próprio bairro. De novas linhas fronteiriças, a Aldeota de hoje se assemelha ao Centro da Cidade: comércio, serviços, órgãos públicos. Ensurdece de tanto barulho, cega de tanta poeira, é prática como o Centro já o era, quando estimulou a saída das famílias mais abastadas rumo a um inexplorado leste da Capital. E assim como o número 938: de casa de família rica, é hoje um restaurante self-service para quem trabalha nos arredores, comporta cerca de 200 pessoas e aceita Hipercard.

“É bom trabalhar por aqui porque é perto de tudo”, confirma Felipe Lima, 22, gerente do restaurante. Prefere aquela sede às outras. “A nova centralidade comercial e de serviços de Fortaleza está na Aldeota, que se consolidou com os shoppings”, conta o professor de geografia José Borzacchiello da Silva. Na dança orquestrada dos bairros, nessa reorganização social e simbólica dos espaços, a Aldeota perdeu lugar, segundo Borzacchiello, em prestígio e importância entre os ricos de Fortaleza, para o Meireles. “O Shopping Aldeota tem esse nome, mas quem mora ali diz que mora no Meireles. A Praça Portugal é Meireles”, delimita Borzacchiello.

Ao contrário do que acontecia naquela época. “Dizia-se até que os restaurantes lá não davam sorte porque as pessoas queriam sair do bairro para jantar fora”, conta o colunista Lúcio Brasileiro. De tanta pompa e circunstância, a imagem do bairro não se desfez, apesar de já não ostentar o luxo de outrora. “Na Aldeota, só tem gente besta”, sentenciou o Evandro, que vende coco e assessórios para celular, na esquina da Santos Dumont com Desembargador Moreira. “Rico só quer tomar o coco inteiro. Quando é mais pobre toma no copo”. Medo de alteração na água do coco, quem sabe. “Eles pensam que eu mexo. Quem mexe é no Centro. No Centro nem eu tenho coragem de tomar”.

Para Romeu Duarte, arquiteto e ex-titular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-CE), a primeira pincelada desse quadro de mudanças veio com a derrubada do Palacete do Plácido, no início dos anos 1970. “Essa é a história da Aldeota: inicia-se com a demolição do castelo do Plácido e depois a demolição de outras casas. Muitos dos exemplares arbóreos foram mutilados”. Romeu chama atenção para outro dado: foi na Aldeota onde se concretizou o maior número de construções de arquitetos cearenses. Lembrando do episódio da derrubada das árvores, o arquiteto diz ser urgente a confecção de um inventário de arquitetura – “tanto do construído quanto do ambiental. Seria interessante se ter o valor histórico, valor artístico de todas essas construções”.

Decadência e elegância
Dona Silvana Alves Costa acha ótimo o crescimento do bairro, a popularização do comércio. Aos 90 anos, desde 1984 dentro do Center Um administrando a lojinha que leva seu nome em neon na entrada, ela se diz satisfeita. “Esse shopping melhorou muito. Quando eu cheguei aqui, tinha uma feira de verduras onde hoje é o Banco do Brasil”, lembra. Hoje Aldeota é nome mercadinho, auto-escola e shopping center. Ano passado foi até nome de revista. “O nome veio como uma sátira, a gente queria brincar com essa coisa do bairro que tem a área mais chique de Fortaleza. Para periferia, a Aldeota é grandiosa, onde tudo acontece. E não é”, especificou Ricardo Lisboa, editor da extinta publicação.

E assim, histórias foram registradas e contadas. Como a do livro Aldeota, de Jáder de Carvalho. Até hoje o livro é visto com ressalvas pela elite da Cidade. A ficção chega muito perto da realidade quando detalha a construção da fortuna de muitas famílias ricas da Aldeota. “Em Aldeota prestei o maior serviço à moral política e à moral social do Estado, trazendo aos olhos do povo, do governo e das autoridades, os sonegadores de impostos, os ladrões, os contrabandistas que numa terra paupérrima, de economia que é preciso se ver com binóculo, de tão pequena que é, dar lugar à existência de um bairro aristocrático como é a Aldeota”, disse o autor à sua biógrafa Ângela Barros Leal.

No livro, essas histórias são conhecidas através dos olhos de Catarina Simões de Oliveira, esposa do protagonista Chico. Filha de portugueses, nascida em terras amazonenses, Catá convive harmoniosamente com os amigos contrabandistas do esposo. Até que um dia cai em si e percebe o que está à sua volta. “Referem-se à marca dos carros da família e no grande número de banheiros e privadas das suas principescas residências. O jornalista Djalma, nosso amigo, explica assim este fato: a ascensão econômica se processou com tanta rapidez que não deu tempo ao polimento do espírito”. (Júlia Lopes)

 Jornal O Povo - http://migre.me/48MOF

A Fortaleza que a Aldeota inventou

 Por Júlia Lopes 

A leste e avante: quando o Centro ficou povoado demais, comercial demais, barulhento demais, as famílias abastadas procuraram a paisagem e o vento fresco do Outeiro. Logo depois, Outeiro era Aldeiota, que se transformava em Aldeota e se estabelecia como o bairro mais nobre da Cidade. Hoje, não mais persiste aquele panorama idílico, mas mantém-se a áurea de glamour e riqueza. Será? O Vida & Arte Cultura lembra as árvores derrubadas pela na esquina da avenida Santos Dumont com Virgílio Távora e lamenta: naquelas calçadas, o pedestre já não tem mais sombra para se esquivar do sol. E haja óculos escuros.

A família Barroso ocupou a primeira casa do que viria a ser a Aldeota. Duas, na verdade: “Eram dois blocos iguais. Sabe-se lá porquê”, pergunta-se Nirez, o memorialista Miguel Ângelo de Azevedo. E ficamos sem resposta. Nós e ele. As duas casas remontam ao começo do século passado, no início da Santos Dumont, logo depois da Dom Manuel, no sentido Centro-praia, à frente do Casarão do Outeiro – que hoje a gente conhece por Colégio Militar. As casas deram início à ocupação da região: foi quando as gentes de Fortaleza aprenderam a empinar nariz e varrer as dores para debaixo do tapete de seus graciosos palacetes. Gente rica de modos aristocráticos.

Logo vieram as outras construções, como a de número 938 da mesma via, abrigando a família de Manuel Ricardo de Holanda a partir de 1919. Ou a Villa Alsace, que no mesmo ano foi adquirida por Myrtil Meyer. É de 1921 o palacete que o empresário Plácido de Carvalho fez para a sua amada Maria Pieirina Rossi. Em 1930, o engenheiro Abel Ribeiro Filho construiu, à moda dos casarões do sul dos Estados Unidos, uma mansão que seria comprada por Deusdedit Vasconcelos. Já na década de 1940, viam-se cada vez mais os bangalôs, como a moradia do médico Luiz Gonzaga da Silveira. Tudo isso quem conta é Marciano Lopes, em seu Mansões, palacetes, solares e bangalôs de Fortaleza.

Moravam os ricos em áreas mais afastadas, mas continuavam espairecendo no Centro, frequentando lugares como o Majestick Palace, que é de 1917, ou nas festas do Clube dos Diários, quando ainda era no Centro. Enquanto isso, a população caminhava em outro rumo. “No mesmo ano da inauguração do Cine Majestic Palace, veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929”, como escreveu Sebastião Rogério Ponte em seu Fortaleza Belle Époque. Ele conta ainda de como os trabalhadores começaram e fortaleceram um movimento pelos seus direitos.

A classe alta ignorava. Ou, pelo menos, tentava. “O Pirambu vê o mesmo oceano que nós vemos aqui da Aldeota. Bebe o mesmo ar que nós aspiramos. Em certos pontos, os de lá ainda levam vantagens sobre nós: bebem água de coco no pé e nós não bebemos”, dizia, acintoso, Napoleão, um dos personagens misteriosos de Aldeota, livro de Jáder de Carvalho, de 1963. Napoleão comentava, na roda de amigos, o recente levante dos moradores do bairro mais pobre, incomodados com a pobreza excessiva. O livro conta de uma Aldeota enriquecida pelo contrabando e sonegação fiscal, pela roubalheira nunca comprovada, mas sempre sabida de hoje ricas famílias.

“O auge da Aldeota, que já era Nova Aldeota, foi na primeira metade dos 1950, quando surgiram uma série de casas muito bonitas”, descreve Lúcio Brasileiro, colunista social, habitué da high society alencarina desde o primeiro dos seus 55 anos de trabalho. “Eu destaco quatro casas: a de Manuel Porto, de Raul Carneiro, de José Moreira e de Raimundo de Oliveira. Essas quatro casas marcaram socialmente o que se chamava naquela época o final da Santos Dumont”, detalha. A casa de Raimundo de Oliveira, cópia da casa do filme ...E o vento levou é, desde 1974, o Center Um, primeiro shopping da Cidade. Depois disso? “Na década de 1960, a Santos Dumont já não tinha mais aquele charme”, sentencia.

Júlia Lopes
julialopes@opovo.com.br
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