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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Fracasso Socialista de Mandela

por Slavoj Zizek, em The Stone

Nas duas últimas décadas de sua vida, Nelson Mandela foi celebrado como modelo de como a libertação de um país de seu colonizador pode ser feita sem que se caia na tentação do poder ditatorial e na pose anticapitalista.
Em resumo, Mandela não era Mugabe, a África do Sul continuou sendo uma democracia pluripartidária com imprensa livre e economia vibrante bem integrada ao mercado global e imune às ligeiras experiências socialistas.
Agora, com sua morte, sua estatura como homem santo e sábio parece confirmada para a eternidade: existem filmes de Hollywood sobre ele – ele foi interpretado por Morgan Freeman que, por sinal, também fez o papel de Deus em outro filme; astros do rock e líderes religiosos, atletas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, estão todos unidos em sua beatificação.
É muito simplista criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: mas ele realmente tinha escolha?
E essa é toda a história? Dois fatos-chave continuam escondidos por esta visão celebratória.
Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da insegurança, da violência e do crime.
A grande mudança é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite negra.
Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas também justiça social e até mesmo uma espécie de socialismo.
Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando.
Neste ponto, a África do Sul é apenas uma versão da história contemporânea e recorrente da esquerda.
Um líder do partido é eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” – porém, mais cedo ou mais tarde, ele tropeça no dilema chave: ousa tocar nos mecanismos capitalistas ou decide “jogar o jogo”?
Se ele escolhe perturbar esses mecanismos, ele é rapidamente “punido” por distúrbios no mercado, caos econômico e todo o resto.
É por isso que seria muito simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: ele realmente tinha escolha? A mudança em direção ao socialismo era uma opção real?
É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas existe uma pitada de verdade no famoso “hino ao dinheiro” de seu romance “Atlas Shrugged”: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de tudo que há de bom, você está pedindo sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam as ferramentas uns dos outros. Sangue, chicotes e armas ou dólares. Faça sua escolha – não existe outra”.
Marx não disse algo similar em sua bem conhecida fórmula sobre como, no universo das commodities, “as relações entre as pessoas assumem a aparência das relações entre as coisas”?
Na economia de mercado, as relações entre as pessoas podem parecer relações baseadas na igualdade e na liberdade: a dominação não é mais direta e visível como tal.
O que é problemático na premissa subjacente de Rand: que a única escolha é entre relações diretas ou indiretas de dominação e exploração — qualquer alternativa é descartada como utópica.
Entretanto, devemos ter em mente o momento da verdade na alegação ideologicamente ridícula de Rand: a grande lição do socialismo de Estado foi efetivamente a abolição direta da propriedade privada e das trocas reguladas pelo mercado; não ter formas concretas de regulação social do processo de produção necessariamente ressuscita relações diretas de servidão e dominação.
Se meramente abolimos o mercado (inclusive a exploração de mercado) sem substituí-lo por uma forma apropriada de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta com sede de vingança e com sua exploração direta.
A regra geral é que, quando uma revolta contra um regime semidemocrático começa, como foi o caso do Oriente Médio em 2011, é muito fácil mobilizar as massas com slogans que não se caracterizam de outra forma a não ser como agradáveis ao povo  – em defesa da democracia, contra a corrupção, por exemplo.
Mas então, aos poucos, chegamos a escolhas mais difíceis: quando nossa revolta é vitoriosa em seu objetivo principal, nos damos conta de que o que realmente nos incomodava (nossa falta de liberdade, a humilhação, corrupção social, falta de perspectiva de uma vida decente) continua sob novo disfarce.
A ideologia dominante mobiliza então todo seu arsenal para evitar que cheguemos a essa conclusão.
Começa a nos dizer que a liberdade democrática traz com ela reponsabilidade, que vem com um preço, que ainda não amadurecemos se esperamos demais da democracia.
Dessa forma, nos culpa por nossos fracassos: em uma sociedade livre, nos dizem, somos todos capitalistas investindo em nossas vidas, devemos investir mais na nossa educação do que em nos divertir se quisermos ser bem sucedidos.
Em um nível político mais direto, a política externa dos Estados Unidos elaborou uma estratégia detalhada para exercer o controle desse problema de forma que recanaliza as revoltas populares para constrangimentos parlamentares-capitalistas aceitáveis – como foi feito com sucesso na África do Sul depois da queda do regime do apartheid, nas Filipinas depois da queda de Marcos, na Indonésia depois da queda de Suharto, e em outros lugares.
Nessa conjuntura precisa, políticas emancipatórias radicais encaram um grande desafio: como levar as coisas adiante depois que o primeiro estágio de entusiasmo passa, como dar o próximo passo sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária” – em resumo, como ir além de Mandela sem se tornar Mugabe.
Se queremos nos manter fiéis ao legado de Mandela, devemos nos esquecer das lágrimas de crocodilo celebratórias e focar nas promessas não cumpridas que sua liderança fez nascer.
Podemos seguramente supor que, levando em conta sua grandeza moral e política inquestionável, ele chegou ao fim da vida um homem idoso e amargo, consciente de que seu triunfo político e sua elevação à categoria universal de herói era uma máscara da derrota amarga.
A glória universal de Mandela também é um sinal de que ele realmente não perturbou a ordem e o poder globais.
Slavoj Zizek é um filósofo esloveno, psiquiatra e teórico social da Escola de Direito de Bikbeck, Universidade de Londres. Ele é autor de vários livros, entre eles “Less Than Nothing, “The Year of Dreaming Dangerously” e “Demanding the Impossible.”
PS do Viomundo: Alguns jornalistas descerebrados, que se encantam com a oratória de Obama, se esquecem do essencial. Os Estados Unidos deram décadas e décadas de sustentação ao regime do apartheid, aberta ou clandestinamente. Enquanto isso, milhares de cubanos morreram na luta contra os racistas africanos. Ao defender o regime do MPLA em Angola, deram uma sova militar tão grande no regime do apartheid que contribuiram para seu enfraquecimento e isolamento. Quem estava do lado certo da História: os antecessores de Obama ou Fidel Castro?                                   

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Não se apaixonem por vocês mesmos".

Por Mateus Perdigão
Mateus Perdigão


A frase é do filósofo Slavoj Žižek, em Wall Street, durante o Occupy Wall Street. Ele falava que o que importava era pensar nos dias seguintes - os dias normais, cotidianos - aos protestos que aconteciam em Nova Iorque. E alertava: “carnavais vêm baratos”.

Me chama a atenção a quantidade de pessoas declaradamente conservadoras e de direita que me convida para “ir pra rua” porque “o gigante acordou”. Pessoas que, até pouco tempo, tinham medo de ir pra rua mesmo pra curtir o (pré-)carnaval de Fortaleza.

Intriga-me a quantidade de celebridades que, de uma hora pra outra, chama a população pra rua. Deixa-me encucado a quantidade editoriais de jornais, revistas e TV que deram a “marcha à ré” mudando o caminho para o qual antes seguiam. Incomoda-me essa história de dizer que o movimento é apolítico.

Os meios de comunicação conservadores não entrarão em confronto direto com um movimento que cresce a cada dia, eles vão tentar redirecioná-lo para os seus objetivos – acabar com a corrupção no Brasil, talvez? Basta ver a quantidade de editorias que mudaram o teor dos textos e o bizarro vídeo do Datena tentando induzir uma “pesquisa” de TV ao vivo: “eu acho que o protesto tem que ser pacífico, não pode ter depredação, não pode impedir via púbica (…) eu não sou a favor desse tipo de protesto”, bradou.

E aí eu volto ao Žižek: “o problema não é a corrupção ou a ganância. O problema é o sistema. Ele o força a ser corrupto. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas com os falsos amigos que já trabalham para diluir o processo. Da mesma forma que você pode ter café descafeinado, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isso é um inofensivo protesto moral”.

Agora eu volto ao título: é bonito de se ver aquela quantidade de pessoas na rua, é instigante ver que o movimento cresce em várias cidades do país. Mas há necessidade de se pensar nos dias seguintes. Há necessidade de mostrar o rosto e dizer a que veio. Há necessidade de se apropriar do futuro. Há necessidade de acabar com o capitalismo. Há necessidade de se mostrar para os conservadores, reacionários e fascistas de plantão que o movimento é, sim, político e que não se deve ter medo ou vergonha disso. Há necessidade porque eu não quero estar, em uma manifestação, lado a lado de direitistas, conservadores e reacionários, gritando as mesmas palavras de ordem, em um grande protesto vazio, sem saber o porquê. Eu não quero confundir o Movimento Passe Livre com o Fortaleza Apavorada.

O estudante Paulo Motoryn define o que, para mim, parece ser o teor do movimento que nasce no texto intitulado “O que queremos”: “Sob hipótese nenhuma podemos nos alinhar aos Datenas, Jabores e Pondés. O que queremos é derrubar as barreiras entre ricos e pobres, quebrar os muros entre centro e periferia, consolidar o povo como um ator político de importância ímpar e lutar por um Brasil com justiça social, sem desigualdade e com oportunidades iguais para todos e todas. Nada mais. E nada menos.” Concordo com o Žižek quando ele diz “O único sentido em que somos comunistas é que lutamos pelos comuns (...) Por isso, e somente isso, devemos lutar”.

Como disseram uma vez Gil e Caetano: “É preciso estar atento e forte”.

P.S.: O Movimento Passe Livre disse, na TV Cultura, a que veio: a curto prazo, quer revogar o aumento da passagem de ônibus. A longo prazo, quer transporte gratuito e de qualidade pra todo mundo. Uma proposta inovadora, audaciosa e aplicável - por que não? Como eles mesmos diziam, é decisão política.

* Texto do Žižek disponível em inglês: http://takethesquare.net/2011/10/11/zizek-at-wall-street-“don’t-fall-in-love-with-yourself”-occupywallstreet-ows/

* Texto do Paulo Motoryn disponível em: http://revistavaidape.wordpress.com/2013/06/17/o-que-queremos/

* Vídeo do Datena: https://www.youtube.com/watch?v=7cxOK7SOI2k

sábado, 3 de novembro de 2012

A esquerda derrotada - entrevista com Slavoj Zizek

Por Gianni Carta

Em recente jantar na Califórnia, o filósofo esloveno Slavoj Zizek levou um acompanhante, um compatriota fumante. O amigo quis fumar um cigarro na varanda. Diante da resposta negativa do anfitrião, o cidadão esloveno ofereceu a opção de fumar na rua, mas o ilustre anfitrião disse que isso “pegaria mal” para sua reputação nas redondezas. Em seguida, o anfitrião ofereceu uma rodada de drogas consideradas “não tão leves” para os convivas, escreve Zizek em seu novo livro, O Ano em Que Sonhamos Perigosamente (Boitempo, 144 págs., R$ 23).
 Drogas são mais perigosas do que fumar, o que está acontecendo neste mundo do politicamente correto?, pergunta Zizek. Ele mesmo responde: “Trata-se de um fenômeno lançado pelo mundo anglo-saxônico e isso tem uma dimensão de classe”. Em miúdos, os mais favorecidos doutrinam. Ao mesmo tempo, delineiam as diferenças entre o exagero de fumar um cigarro, um excesso, não um prazer, e o prazer de tomar uma droga, com moderação, é claro, que supostamente não provoca graves consequências.

O Ano em Que Sonhamos Perigosamente, em fase de lançamento no Brasil, é uma análise dos protestos que reverberaram de Túnis a Atenas em 2011. Para o autor, “embora os protestos sejam positivos, falta um programa”. Alma livre e espontânea, Zizek não prevê o futuro. Mas não deixa de ser iluminado. “Você pode”, diz Zizek, “canibalizar minhas respostas. Qualquer jornalista pode reproduzir o oposto do que eu lhe disse”. Não é o caso a seguir.

CartaCapital: Há diferentes circunstâncias nos protestos de 2011. Mas quais as semelhanças?
Slavoj Zizek: Não vejo semelhanças na patética maneira de ver as coisas da esquerda. Eles dizem que há um desejo de liberdade. A meu ver, todos esses movimentos reagem a diferentes aspectos do capitalismo global. E é por isso que esses movimentos são interessantes. Como sabemos, os liberais ocidentais dizem que os manifestantes mundo afora buscam uma democracia ocidental. Mas eu não acho que esse seja o caso. No Cairo, por exemplo, o objetivo era lutar contra as forças autoritárias. Além disso, não creio que o capitalismo gere uma demanda por uma democracia. Há diferentes tipos de democracias.

CC: Um exemplo seria a China?
SZ: A China é um sistema expansionista e dinâmico como países capitalistas do Ocidente. O sistema chinês é, no entanto, autoritário. O triste recado chinês é o seguinte: o capitalismo global será cada vez menos democrático. Imigrantes, que não estão integrados nas sociedades para as quais migram, são a prova. Em suma, mais capitalismo não resolverá esse problema. O problema é que os protestos de 2011 não oferecem uma resposta. Viajei mundo afora e me perguntei: “O que eles querem?” Não esperava um programa detalhado. Mas tudo o que você escuta dos manifestantes é uma crítica moralista: eles lutam contra a exploração e a corrupção. Querem uma volta de John Maynard Keynes, uma volta do Estado do Bem-Estar Social, controle de bancos, mais dinheiro para a saúde, a segurança e a educação. Ou seja, não há uma alternativa.
 Foto: Griszka Niewiadomski
CC: Mas há diferenças nas demandas dessas distintas revoluções. No seu livro­, o senhor argumenta que no Egito houve sólidas demandas seculares, e, ao mesmo tempo, em Wall Street não houve programa.
SZ: Sim, claro, há diferenças. Mas há semelhanças nessa emergente nação global. Mas, como em Wall Street, as coisas voltam ao normal no Cairo. Mesmo com 1 milhão de egípcios a manifestar na Praça Tahrir, é uma minoria. A maioria das revoluções foram assim. A revolução de outubro de 1917 é um exemplo. Lenin conseguiu o apoio de camponeses insatisfeitos com a Primeira Guerra Mundial, mas não da maioria da população russa. Portanto, não creio que a situação esteja pior atualmente. O problema é que não vejo como transformar os descontentamentos em organizações positivas. Estive na Grécia. Falei com muita gente, e me disseram que querem um capitalismo mais eficiente. Retruquei ser um objetivo difícil. A Grécia não tem uma estrutura para o tipo de capitalismo atual. No Brasil, em contrapartida, houve o Bolsa Família, que deu certo.

CC: O que o senhor acha do Bolsa Família?
SZ: O Bolsa Família foi um plano para redistribuir renda no País. Em miúdos, foi um plano para ajudar as pessoas com receitas inferiores.

CC: Quais as suas expectativas, e eis uma pergunta no mínimo difícil, para o mundo?
SZ: Não gosto da maneira como as coisas estão se desenvolvendo. O povo quer mudanças, mas a esquerda não tem opções para ele. O problema é que hoje agremiações de esquerda podem, ao contrário dos velhos tempos, chegar ao poder. Mas a esquerda está confusa.

CC: O senhor diz que essa esquerda tem um problema: ela moraliza.
SZ: Moralizar é sempre um sinal de derrota. Quando você precisa moralizar é porque você tem um problema real. Sempre desconfio de políticos que desconfiam de exploração financeira, especulação e banqueiros não honestos. Mas talvez devamos ser otimistas. A revolução no Egito não poderia ser o começo de algo novo?

CC: No seu livro, o senhor mencionou o discurso, no Cairo em 2009, de Barack Obama. Ele propôs uma solução de dois Estados, Palestina e Israel. Mas o senhor não opina a respeito.
SZ: Obama não é uma pessoa ruim. Esses esquerdistas como o ativista Tariq Ali estão errados sobre Obama. Tudo bem, Obama poderia ter feito mais em um senso radical, mas não pôde. Seu espaço sempre foi limitado. Obama é um político com boas intenções.

CC: Como reage quando críticos dizem que é um esquerdista populista?
SZ: A resposta está no livro Welcome To The Desert, pubicado no Brasil. Em Israel, fui considerado antissemita. E no Cairo me chamaram de propagandista. Fiquei contente. Quando os dois lados atacam é sinal de que você está no caminho certo. Sabe, quando eu era jovem, sonhávamos com um socialismo com rosto humano. Veja, o socialismo não funciona. E nem, acredito, na social-democracia. Portanto, a crise ­econômica de 2008 é uma grande ­derrota da ­esquerda. O motivo? A esquerda não tem opções para a crise.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-esquerda-derrotada/#.UISOtsR-FeR.facebook

domingo, 9 de outubro de 2011

Saqueadores, uni-vos!

por Slavoj Zizek

A repetição, diz Hegel, desempenha um papel crucial na história: quando algo acontece uma vez apenas, pode ser visto como simples acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido tratada de outra maneira; mas, quando o mesmo fato se repete, é sinal de que um processo histórico mais profundo está em ação.

Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig, em 1813, pareceu que tinha sido azar; quando ele voltou a ser derrotado em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara.

A mesma coisa aplica-se à crise financeira contínua. Em setembro de 2008, foi descrita como uma anomalia que poderia ser corrigida com uma melhor regulamentação etc.; agora, o acúmulo de sinais de um derretimento financeiro repetido deixa claro que estamos diante de um fenômeno estrutural.

Embora os recentes tumultos no Reino Unido tenham sido desencadeados pela morte em circunstâncias suspeitas de Mark Duggan, todo mundo concorda que eles exprimem um mal-estar mais profundo – mas de que tipo?

Como no caso dos incêndios de carros na periferia de Paris em 2005, os saqueadores no Reino Unido não tinham mensagem clara a transmitir.

É por isso que é difícil conceber os participantes nos tumultos no Reino Unido em termos marxistas, como, por exemplo, a emergência do sujeito revolucionário; eles cabem muito melhor na noção hegeliana da “turba”, os que se si­tuam fora do espaço social organizado, que podem exprimir sua insatisfação apenas por meio de explosões “irracionais” de violência destrutiva – o que Hegel chamou de “negatividade abstrata”.

Nos é dito que a desintegração dos regimes comunistas no início dos anos 1990 assinalou o fim das ideologias. Se o truísmo de que vivemos em uma era pós-ideológica é verdadeiro em qualquer sentido, isso pode ser visto nessa explosão recente de violência. Foi uma ação violenta que não reivindicou nada.

O fato de os manifestantes não terem um programa é, portanto, um fato a ser interpretado em si mesmo: ele nos revela muito sobre nosso dilema ideológico-político e sobre o tipo de sociedade em que vivemos: uma sociedade que celebra a escolha, mas na qual a única alternativa disponível ao consenso democrático é a violência cega.

A oposição ao sistema não pode mais se articular na forma de uma alternativa realista ou mesmo de um projeto utópico – pode apenas assumir a forma de uma explosão destituída de sentido. De que adianta nossa tão celebrada liberdade de escolha quando a única escolha é entre jogar segundo as regras e a violência (auto)destrutiva?

Talvez este seja um dos maiores perigos do capitalismo: embora, pelo fato de ser global, abarque o mundo inteiro, ele sustenta uma constelação ideológica “sem mundo” na qual as pessoas são privadas de suas maneiras de localizar sentido.

Análises erradas

A primeira conclusão a ser tirada da turbulência no Reino Unido, portanto, é que as reações a ela, tanto as conservadoras quanto as liberais, são inadequadas.

A reação conservadora foi previsível: não há justificativa para vandalismo desse tipo; para prevenir outras explosões assim, precisamos não de mais tolerância e ajuda social, mas de mais disciplina, trabalho árduo e senso de responsabilidade.

O que está errado nesse relato não é apenas que ele ignora a situação social desesperadora que empurra os jovens a lançar-se em explosões violentas, mas que ignora o modo como essas explosões ecoam as premissas ocultas da própria ideologia conservadora.

Pois o que vimos nas ruas britânicas durante os tumultos não foram homens reduzidos a “bestas”, mas à forma despida, fundamental, da “besta” produzida pela própria ideologia capitalista.

Enquanto isso, os liberais de esquerda, previsivelmente, se apegaram a seu mantra sobre o descaso em que caíram os programas sociais e iniciativas de integração: explosões de violência são os únicos meios que possuem para articular sua insatisfação.

Mas o problema desse relato é que ele apresenta apenas as condições objetivas para os tumultos. Provocar um tumulto é fazer uma afirmação subjetiva, declarar implicitamente como a pessoa se relaciona com suas condições objetivas.

Vivemos em tempos cínicos. É fácil imaginar um manifestante que, flagrado saqueando e queimando uma loja e pressionado para que explique suas razões, responda na linguagem empregada por assistentes sociais e sociólogos, citando a mobilidade social menor, a insegurança crescente, a desintegração da autoridade paterna e a falta de amor materno em sua primeira infância.

Ele sabe o que está fazendo, portanto, mas o faz mesmo assim.

Mas não faz sentido ponderar qual dessas duas reações, conservadora ou liberal, é a pior. Também aqui devemos rejeitar a exigência de que tomemos partido. A verdade é que o conflito foi entre dois polos de desprivilegiados: aqueles que conseguiram funcionar dentro do sistema versus aqueles que estavam frustrados demais para continuar tentando.

Assim, a violência dos saqueadores foi dirigida quase exclusivamente contra suas próprias comunidades. Os carros incendiados e as lojas saqueadas não estavam em bairros ricos, mas nos bairros dos próprios saqueadores.

[O sociólogo polonês] Zygmunt Bauman caracterizou os tumultos como atos de “consumidores deficientes e desqualificados”: mais que tudo, foram uma manifestação de um desejo de consumo concretizado violentamente quando foi incapaz de se realizar da maneira “apropriada”, ou seja, fazendo compras.

Como tais, os tumultos também contêm um momento de protesto genuíno, sob a forma de uma resposta irônica à ideo­logia do consumo: “Vocês nos mandam consumir e ao mesmo tempo nos privam dos meios de fazê-lo apropriadamente – então estamos aqui, consumindo do jeito que conseguimos!”.

Os tumultos são uma demonstração da força material da ideologia – ou seja, a “sociedade pós-ideológica” talvez seja uma falácia. De um ponto de vista revolucionário, o problema dos tumultos não é a violência em si, mas o fato de a violência não ser verdadeiramente autoassertiva. É raiva e desespero impotentes sob o disfarce de uma exibição de força.

Os tumultos deveriam ser situados em relação a outro tipo de violência que a maioria liberal hoje apreende como uma ameaça a nosso modo de vida: ataques terroristas e explosões suicidas.

Em ambos os casos, a violência e a contraviolência estão presas em um círculo vicioso, cada uma gerando as forças que procura combater. A diferença é que, em contraste com os tumultos no Reino Unido ou em Paris, ataques terroristas são realizados a serviço do sentido absoluto dado pela religião.

Infelizmente, o verão egípcio de 2011 será lembrado como tendo marcado o fim da revolução, um tempo em que seu potencial emancipador foi sufocado. Seus coveiros são o Exército e os islâmicos.

Os contornos do pacto entre o Exército (que era o Exército de Mubarak) e os islâmicos (que foram marginalizados nos primeiros meses do levante, mas agora vêm ganhando terreno) estão cada vez mais claros: os islâmicos vão tolerar os privilégios materiais do Exército e, em contrapartida, vão ganhar hegemonia ideológica.

Os perdedores serão os liberais pró-ocidentais, fracos demais para “promover a democracia”, além dos verdadeiros agentes dos acontecimentos da primavera: a esquerda secular emergente que vem tentando montar uma rede de organizações da sociedade civil, de sindicatos a feministas.

A situação na Grécia parece mais promissora, provavelmente graças à tradição recente de auto-organização progressista (que desapareceu na Espanha após a queda do regime de Franco).

Mesmo lá, porém, o movimento de protesto mostra os limites da auto-organização: os manifestantes sustentam um espaço de liberdade igualitária sem uma autoridade central que a regulamente, um espaço público no qual eles recebem a mesma quantidade de tempo para falar, e assim por diante.

Quando os manifestantes começaram a debater o que fazer a seguir, como avançar além dos meros protestos, o consenso da maioria foi de que era preciso não um novo partido ou uma tentativa direta de tomar o poder do Estado, mas um movimento cuja meta fosse exercer pressão sobre os partidos políticos.

Isso, evidentemente, não é o suficiente para impor uma reorganização da vida social. Para isso é preciso um corpo político forte, capaz de tomar decisões rápidas e implementá-las com a rigidez necessária.

Slavoj Zizek é filósofo esloveno, autor de Em Defesa das Causas Perdidas (Boitempo). A íntegra deste texto saiu no London Review of Books