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terça-feira, 23 de agosto de 2011

AMY não usou drogas ilícitas antes de morrer

 e agora? 
Como ficam os juízos apressadinhos que foram feitos sobre a morte de Amy?
Testes revelaram que cantora bebeu álcool / Leon Neal/AFP
Da Redação entretenimento@band.com.br

Os testes toxicológicos realizados durante a autópsia do corpo Amy Winehouse revelaram que a cantora não usou drogas ilícitas antes de morrer, informaram agências de notícias internacionais nesta terça-feira, dia 23.
O resultado foi divulgado à imprensa por um representante da família da cantora. Segundo os familiares da estrela, os exames detectaram indícios de álcool, mas não se sabe se a bebida foi a causadora de sua morte.
Apesar dos resultados, o motivo da morte de Amy Winehouse, ocorrida no dia 23 de julho, ainda não foi estabelecido.
http://www.band.com.br/entretenimento/musica/noticia/?id=100000451340


Amy Winehouse Toxicology Test Results Reveal No Illegal Drugs In Singer's System At Death




LONDON — Amy Winehouse had no illegal drugs in her system when she died, and it is still unclear what killed the singer, her family said Tuesday. The family said in a statement that toxicology tests showed "alcohol was present," but it hasn't yet been determined if it contributed to her death.

The 27-year-old soul diva, who had battled drug and alcohol addiction for years, was found dead in her London home on July 23, and an initial post-mortem failed to determine the cause of death.

A statement released by spokesman Chris Goodman on the family's behalf said "toxicology results returned to the Winehouse family by authorities have confirmed that there were no illegal substances in Amy's system at the time of her death."

It said the family awaited the outcome of an inquest that is due to begin in October.

Winehouse's father, Mitch, has said his daughter had beaten her drug dependency three years before her death, but he admitted she was still struggling to control her drinking after several weeks of abstinence.

Mitch Winehouse told mourners at the singer's July 26 funeral that she had said to him, "`Dad I've had enough of drinking, I can't stand the look on your and the family's faces anymore.'"

The Winehouse family announced plans to establish a charitable foundation in the singer's name to help people struggling with addiction – although Mitch Winehouse has said the plans are on hold because someone else had registered the name Amy Winehouse Foundation.

http://www.huffingtonpost.com/2011/08/23/amy-winehouse-toxicology-report-revealed-no-drugs_n_934081.html?ref=tw

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sandy e Amy


Por José Pedro Goulart

foto AgNews
Voltei. O quê, você nem percebeu que eu havia saído? Pois é, 
estive no resguardo, certo estão os ursos que hibernam. Por mim o inverno podia ser cancelado. Enquanto estive fora daqui muita chuva rolou por debaixo da ponte; a Amy Winehouse morreu, a Sandy ressuscitou.

As personalidades quanto mais esquisitas ficam ainda mais atraentes. No caso da Amy havia talento envolvido. Houve choro porque ela morreu jovem e houve resmungos porque ela não se cuidou; tomou todas, cavou a própria cova. Ao mesmo tempo a rapaziada colocou bebida na calçada da casa dela como tributo, uma ironia; mais ou menos como atirar anestésicos na calçada do Michael Jackson.

Cada país com sua devassa. No Brasil, temos a Sandy. Ela é da mesma profissão da Amy, e assim como Amy, fez propaganda de cerveja, mas ao contrário da inglesa, que engolia, Sandy cuspia - achava a bebida muito amarga. E ainda agora disse que é possível ter prazer anal, disse isso na Playboy, revista que como se sabe não traz músicas para tocar no violão, (acho que a Sandy não sabia disso). Amy, cá estivesse entre os vivos, riria da polêmica dizendo: "Deve ser possível ter prazer anal, eu nunca soube porque prazer anal de bêbado não tem dono". Mas Amy se foi. Ficaram o Júnior, a Sandy, o Chitãozinho e o único favorecido nisso tudo: o marido da Sandy. Todos boquiabertos com a declaração da ex-namoradinha do Brasil, afinal a ideia da devassa era pra ser só de mentirinha.

Das coisas difíceis da vida, uma das mais é ser coerente. Atração e reprovação andam lado a lado. Acho que é por isso que os fãs da Amy depositaram garrafas de bebida na calçada dela, sinal de respeito. Reconheceram na cantora um uma espécie de "licença artística de trocar os pés pelas mãos, viver uma vida intensa e breve, ao contrário dos caretas e suas existências longevas e ordinárias".

No final da vida, Amy Winehouse vinha produzindo sucessivas imagens onde aparecia cambaleante e insegura, exibindo um olhar amedrontado. Aparentemente tentando se segurar naquilo que a fez subir num palco pela primeira vez, a sintonia entre alma e corpo, e o manifesto através da musica. Um artista é um trapezista sem rede de proteção.
Espio por uma fresta da minha caverna e imagino que a Sandy desconfia disso, e talvez sinta que sem rede de proteção não dá. Mas seria legal que ao menos ela tivesse "o tipo de prazer que disse ser possível" - qualquer prazer é saúde.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eternamente Amy

Por Levi Costa, Estudante de Psicologia e fã de Amy Winehouse.




A perda de Amy Winehouse abriu um vazio nos corações dos(as) fãs e principalmente na produção musical do século. Original, e com uma identidade bem afirmada, Amy nos deixa um legado digno de paixão. Back to Black, sua obra prima, ecoará atravessando tempos garantindo a gerações futuras o acesso a uma música de ótima qualidade. O soul britânico vai demorar a estancar o sangramento que sente hoje com a perda de Amy.

Sua boa música atrelada a sua morte prematura garante sua eternidade. Um(a) artista que morre no auge fica para sempre, a exemplo de Janis Joplin, Elvis Presley. A morte no ápice da carreira eterniza o sucesso, já que não há possibilidade de fracassos futuros. Basta olharmos o caso de Cazuza e Clara Nunes.

Portanto, Amy ficará para sempre como a grande voz que deu nova cara ao Soul, uma cantora que agradou os mais diversos públicos. Seja pela aparência, pelo modo de ser, pela forma de cantar e por tudo aquilo que fez do seu jeito próprio, longe das tendências que teimam em ditar o que é bom.

A mídia que nestes casos foca apenas em abuso de drogas e escândalos, usa sua imagem como bode expiatório para fazer julgamentos morais. Por sorte, Amy sempre nos mostrou sua pouca preocupação com a norma, seu objetivo era viver, e se vive é experimentando. A questão é que tentam estabelecer uma norma que se aplica a todos, onde temos a obrigação de sermos longevos, ilusão do eterno. Isso com certeza não era uma prioridade para Amy. Cada um conhece suas prioridades, alguns dando importância ao hoje, outros o amanhã. De fato Amy, em sua ambivalência, não se satisfazia com apenas uma realidade, precisava de mais, precisava de vida. A sede por vida calou sua trajetória.

domingo, 24 de julho de 2011

As oito Amys

Por um desses acasos com os quais o destino eventualmente se compraz, Amy Winehouse morreu aos 27 anos de idade e empolgou a fantasia da mídia naquele instrutivo fenômeno de tentar ligar lé com cré. Impossível imaginar reações diferentes: a mídia é inflexivelmente determinista.
Já se papagueiam, aqui e ali, vívidas projeções, cativantemente mentirosas: porque carameladas, de última hora, das teorias que cada um encontrou para fugir de seu desamparo cultural. É necessário, portanto, tecer uma taxonomia, um dicionário de probabilidades, nos quais você possa tecer a sua tese personalíssima sobre a morte da pop star.
Lembre-se que você pode sancionar moralmente o seu artigo embrulhando a sua teoria com bandagens intrinsecamente inúteis, mas que podem te conferir um ar de respeitabilidade. Seguem-se oito teorias em que você pode enquadrar a vida e a morte de Amy Winehouse, nascida a 14 de setembro – dia mundial do frevo, dia mundial do jiu-jitsu, e feriado na cidade de Tabuleiro, Minas Gerais, porque é o dia do padroeiro Bom Jesus da Cana Verde.
Clube dos 27
Vá até o Google e digite “famous pop stars who died at 27”. A resposta vai ser uma Wikipedia chamada “O Clube dos 27”. De posse dela, você pode dar de barato que dispõe de uma cultura pop invejável e pode fugir do chavão que é dizer, aliás como todo mundo tem dito, que Amy morreu com a mesma idade de Jimi Hendrix, Brian Jones, etc.
http://en.wikipedia.org/wiki/27_Club
Teoria do decandentismo
Uma maneira bem esperta de justificar teoricamente a morte de Amy depositando-lhe uma couronne de perles bastante válida é conectá-la a uma das mais altas eminências que a cultura inglesa produziu, e que até hoje nos intriga vagamente: o decandentismo. Você pode dizer o seguinte: Amy Winehouse é caudatária de um artigo publicado por Arthur Symons, no Harper’s, intitulado “O movimento decadentista”, a que, aliás, Oscar Wilde, aderiu à ferro e à fogo. Wilde, afinal, em 1880, havia fundado um clube a que chamou “Os hedonistas cansados”, que usavam rosas murchas em suas botoeiras, preferiam os cravos tingidos de verde aos naturais, zombavam da moral e dos costumes e cultuavam aquilo que Wilde chamava de “o mandrião” (uma criatura que passa a noite cometendo excessos, só aparece nas ruas depois das cinco da tarde e que costuma se definir como “lagarto preguiçoso”). Você terá aí elementos suficientes para construir uma tese bem papo-cabeça aliando Amy Winehouse às “Flores do Mal”, de Baudelaire, à obre de Paul Verlaine, ao romance “À rebours”, de Huysmans, e à “Stephen Hero”, de James Joyce, para quem o esteticismo começa bem mas termina nas piores abominações. Cai bem a teoria aliando a vida de Amy ao decadentismo e suas artimanhas e credulidades tão vibrantes de entusiasmo com o qual tanto se comprazem os hedonistas. Diga que ela viveu e morreu por e pelo estilo.
Uma Amy só sua
Tentando fugir do academicismo, você pode bolar um selinho só seu para colá-lo à descrição da figura de Amy. Uma dica é: leia o “Livro dos seres imaginários”, lançado em 1957 pelo bruxo da calle Maipú, Jorge Luis Borges sob o nome de “Manual de zoologia fantástica”. Dê uma olhadinha nos 120 seres míticos criados por Borges e dali depreenda uma Amy Frankenstein – construída ao teu bel-prazer. Vale lembrar que demorou anos para que as pessoas entendessem que a obra do Borges era um desbunde, uma tiração de sarro da capacidade humana de criar catalogações. Mas a obra pode te servir de guia para uma Amy Winehouse corta-e-cola. Esculpa livremente uma Amy para chamar de sua: o leitor aplaudirá.
A teoria octagenária
No “Jornal Nacional”, desse sábado, o octagenário nato Nelson Motta desfiou um rosário a envolver uma espécie de afronta à inteligência. Motta estabeleceu uma credulidade estranhamente distorcida na idéia de que Amy Winehouse, premeditadamente, teria querido entrar para “o clube dos imortais” (sic) ao ter, pusilânime, tartufista (e talvez cheia de risadinhas abafadas), se matado justamente aos 27 anos. Essa teoria retira Amy, automaticamente, da teoria anterior, a do decadentismo, e dá a ela uma incivilizada militância em algo a que podemos chamar de “niilismo de resultados”. Escreve algo como “ela se matou para poder viver”.
Retorno de Saturno
Os astrólogos de plantão já começaram a vomitar aqui e ali, lenta e progressivamente, aquele ramerrão que desliza para o voduismo e trivialidades afins – como, por exemplo, o retorno de Saturno. A teoria vindica que Saturno leva 29,4 anos para tecer a sua órbita ao redor do Sol. E que, portanto, tal potência astral influenciaria a vida de cada um de nós mortais entre os 27 e 29 anos de idade, entre os 57 e 58 e entre os 86 e os 88 – a nos envolver na crença ilógica de que estamos passando por um renascimento, tutelado pelas inextricáveis gradações do cosmo, e demais comoventes belezas do Incognoscível. Você pode também tentar estabelecer elos a partir daquela que é tida e havida como a maior astróloga do mundo, Susan Miller. Veja o que ela escreveu para uma virginiana como Amy no seguinte endereço:
http://www.astrologyzone.com/forecasts/monthly/virgo_full.php
Freudismo básico
Outra teoria bem interessantinha é tentar conectar a morte de Amy às vulgatas freudianas. Comece lendo “O mundo como vontade e representação”, de Schopenhauer. Depreenda dali, o que aliás é comumente mitigado por aí, que o Freud como o conhecemos nasceu dessa obra. A saber: Schopenhauer referia que somos comandados por uma vontade, segundo ele um querer cego e racional. Só conseguiríamos nos desviar dessa vontade por meio da contemplação artística, sobretudo a partir da música – de resto, a mais pura das artes a nos fazer desviar do eterno sofrer que é a vida. Nosso nirvana está na música e ponto final. Abrevie essa escalada, e, de chofre (numa atitude grave), postule que a vontade de Schopenhauer virou a pulsão de Freud. Coloque que temos duas pulsões litigantes, e Eros e Tanatos. Teça considerações de que há de se travar uma luta armagedônica contra as pulsões de morte. Cozinhe Schopenhauer e Freud ao ponto, coloque pitadas de Lacan e oferte um delicioso cozido vindicando que Tanatos venceu a pobre Amy, que ela tentou obter o seu nirvana na arte e nas drogas, etc – mas acabou encontrando mesmo a sua paz na supressão do viver.
A teoria midiática
Para confeccionar a teoria midiática é necessário atribuir-se à pobre Amy uma altamente desfavorável fixidez em sua imagem pública. Você pode citar vastamente a teoria da produção de consenso, que Noam Chomsky atribui à mídia; pode enveredar pela teoria da ação comunicativa, de Habermas – ou ainda fazer uma releitura de “História e consciência de classe”, publicado em 1923 pelo húngaro Gyorgy Lukacs Ah, já ia me esquecendo: poderá também citar pedacinhos de “The brass check”, de Upton Sinclair, tida e havida como a mais demolidora crítica de mídia de todos os tempos. O cozido desses ingredientes deve ser feito assim: escreva que a pobre Amy começou a copiar a imagem que a imprensa fez dela. Depois, sustente que o fato dela morrer aos 27 era mais do que esperado, graças à consciência, sabidamente auto-destrutiva, que é a de uma roqueira braquicéfala, bretã, e que se nutre dos adjetivos que a imprensa lhe atribui. Deixe claro que Amy foi uma vítima do sistema e que a máquina midiática lhe sugou a alma pela carótida.
O Duplo
Essa tradição de ver duplos é antiga: o duplo foi lançado em 1796 por Jean-Paul Richter, sob a designação alemã de doppelganger, que pode ser traduzido como "aquele que tenho de lado" ou ainda "companheiro de estrada". Virou moda, em literatura: mas já estava no Plauto de Os menecmas (206 A.C.), no Shakespeare de Comédia de erros (1592), e veio para o Retrato de Dorian Gray, de Wilde (1891), e para o conto O outro, de Jorge Luís Borges (1975). A saber: vindique, conectado à teoria midiática, que a pobre Amy passou a viver seu “duplo”, ou melhor: que ela assumiu ao osso a imagem que a mídia fez dela, e que essa imagem a venceu.