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domingo, 4 de dezembro de 2011

LULA E SÓCRATES



São Paulo, 4 de dezembro de 2011
“O Doutor Sócrates foi um craque no campo e um grande amigo. Foi um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política, além de seu imenso talento como profissional do futebol.
A contribuição generosa de Sócrates para o Corinthians, para o futebol e para a sociedade brasileira jamais será esquecida. Neste momento de tristeza, prestamos solidariedade a esposa, familiares e amigos do Doutor.
Luiz Inácio Lula da Silva, Marisa Letícia e familiares”

Alguns sonham, outros não

Por Sócrates

“Eu tenho um sonho.” Essa frase praticamente define a ação do grande líder Martin Luther King (o rei da causa negra, eu diria), que passou a vida lutando pela igualdade de direitos entre brancos e negros nos Estados Unidos, em um tempo que privilegiava o homem branco no transporte, nas escolas, na cidadania. Foi assassinado em 1968 exatamente por lutar pelas conquistas que ele ajudou a serem alcançadas. Com destemor e liderança, enfrentou os maiores obstáculos, insurgiu-se contra a guerra e a discriminação. Marcou época em um período de grandes transformações sociais.

O mesmo ano de 1968 ficou marcado pelas manifestações dos estudantes na Sorbonne parisiense, que ergueram barricadas em sua luta por mudanças. “Nós somos judeo-alemães”, era o grito que ecoava; queriam demonstrar que todos somos iguais, sejamos negros, sejamos árabes ou brancos. Esse era o slogan daquela juventude que lutava por liberdade, autonomia e independência. Provocaram muitas mudanças, colocaram de cabeça para baixo qualquer tradição ou vício social. Antes, as mulheres eram tratadas como menores e as opções sexuais como fantoches. Daniel Cohn-Bendit simbolizou aquele movimento. Dani,comotodos os outros, também tinha um sonho.

Ellen Sirleaf, a primeira mulher a ser eleita presidente da Libéria; Leymah Gbowee, também liberiana e que liderou a chamada greve de sexo de suas compatriotas; e Tawakul Karman, ativista iemenita, figura fundamental no país onde praticamente se iniciou a Primavera Árabe, que derrubou boa parte dos antigos regimes de várias nações árabes neste ano, foram agraciadas pelo Nobel da Paz de 2011 por suas lutas pelos direitos das mulheres africanas, pela paz e pela democracia. Essas fortes mulheres também têm um sonho.

Nelson Mandela lutou a vida toda contra o apartheid, termo que explicita a segregação racial então vigente na África do Sul, onde a população negra não possuía os mesmos direitos políticos, sociais e econômicos que a minoria branca. Por isso permaneceu preso durante 26 anos. Nelson é autor de frases definitivas como: “Sonho com o dia em que todas as pessoas se levantarão e compreenderão que foram feitos para viver como irmãos” ou “não há caminho fácil para a liberdade”. Ou ainda “a queda da opressão foi sancionada pela humanidade e é a maior aspiração de cada homem livre” e “uma boa cabeça e um bom coração formam uma formidável combinação”. Mandela até hoje corre atrás dos seus sonhos e aspirações de liberdade, igualdade e fraternidade entre os homens. Um belo exemplo de compromisso com seu povo e com a humanidade.

Entre os brasileiros também encontramos idealistas natos, como Luiz Carlos Prestes, que doou sua vida e até acompanhou a morte da mulher Olga, assassinada em um campo de concentração nazista, por uma causa onde a justiça e a igualdade eram os valores proeminentes. Ou Antonio Conselheiro, líder de Canudos, cuja guerra foi tão bem relatada por Euclides da Cunha em Os Sertões. Com a gente paupérrima e sofrida pela fome, seca e falta de perspectiva econômica e social, ele criou uma comunidade de pura sobrevivência e que foi esmagada pelo Exército brasileiro. Como se perigosos fossem. O único perigo,como sempre, era o do exemplo que poderiam dar a gente com os mesmos problemas. Eles também sonharam.

Inversamente, há poucos dias, o presidente da Fifa veio a público para dizer que não há racismo no futebol e que as agressões que ocorrem dentro de campo poderiam ser resolvidas com um simples aperto de mãos. Uma visão cega e fascista da realidade. Os negros estão expostos na sociedade ocidental desde sempre e isso não desapareceu. A reação foi imediata e o fez recuar, mas um pensamento não desaparece por causa do que provoca. Tentar esconder algo tão incrivelmente absurdo é de uma ingenuidade que um ser de 70 anos não tem o direito de possuir. Pior, utilizar análises simplistascomoessa, para encobrir a realidade daquilo que comanda, é pura perversão de caráter.

Nada mais endêmico (junto com a corrupção) entre aqueles que comandam o futebol. Certamente os negros de todo o planeta se sentiram agredidos, menos um: Pelé. Que de preto parece ter somente a cor da pele. Ele não só corroborou com a tese de Blatter como acrescentou outras bobagens nascidas de seu pseudointelecto. De uma coisa sabemos de há muito: Pelé jamais sonhou com o que quer que seja.

Sócrates - Espanha 1982

Brasil x URSS - copa do mundo Espanha 1982

‘Morre a lenda’ - Sócrates 1954 - 2011

“Para Sócrates, a bola foi um adorno aos livros na sua infância, incentivado pelo pai – admirador de filósofos gregos – para que exercesse uma profissão digna. Sempre lhe atraiu a medicina, mas seu talento não estava nas mãos e sim nos pequenos pés, tamanho 37, estranho para alguém com 1,90 de altura”.

É assim que o diário espanhol El País lembra-se de Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira de Oliveira, o Doutor ou Magrão, na página inicial de seu site. O ex-jogador de futebol e colunista de CartaCapital faleceu às 4h30 da madrugada deste domingo 4, aos 57 anos, vítima de uma infecção generalizada no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Irmão mais velho do também ex-jogador de futebol Raí, Sócrates estava internado desde quinta-feira 1 devido a uma infecção intestinal causada por uma bactéria. Ontem, o ex-atleta respirava com a ajuda de aparelhos e fazia tratamento diálico na UTI. Seu estado era considerado grave, mas estável. O ex-atleta deixa esposa e seis filhos.

Essa foi a terceira internação de Sócrates nos últimos quatro meses. Em setembro, ele passou 17 dias hospitalizado por um sangramento gástrico, complicação de uma cirrose, e mais nove dias pelo mesmo problema em agosto.

Em seu blog, o jornalista Juca Kfouri, amigo de Magrão, aponta que o médico chefe da equipe do ex-jogador, Dr. Ben-Hur, diz não ser possível determinar com certeza se a bactéria responsável pela morte de Sócrates veio de um almoço em um hotel de São Paulo, após o qual o ex-jogador passou mal e foi internado.

Pela manhã, Kfouri postou em seu blog uma homenagem ao amigo: apenas uma foto de Sócrates vestindo a camisa da seleção brasileira e a data de seu nascimento e morte (1954-2011). Outro colega do Doutor, Vitor Birner também usou o seu blog para comentar o ocorrido. “O mundo fica menos bondoso, construtivo e inteligente. Sentirei falta do amigo carinhoso, verdadeiro, divertidíssimo e muito especial”, disse.

Em seu site oficial, o Corinthians, clube pelo qual o ex-jogador teve maior destaque, lamenta a morte de Sócrates na véspera do jogo contra o Palmeiras neste domingo 4, partida que pode dar o título de campeão brasileiro de 2011 ao clube. Na curta mensagem, o time se despede do ex-atleta e agradece “pela honra de ter visto um dos maiores jogadores da história do futebol vestindo o manto alvinegro por tantos jogos”.

Da imprensa internacional, o craque ganhou elogios. “Morre a lenda” e “um dos maiores jogadores da seleção brasileira e um dos melhores meiocampistas da história”, diz o site da rede britânica de televisão e rádio BBC. O esportivo espanhol Marca destaca que o ex-atleta “entrou para a história por sua qualidade e finura, apoiado em seu pequeno pé”.

No El País, Sócrates é apontado como o “democrata do futebol”, em referência a sua filosofia de vida em campo e fora dele. O jornal ainda traz uma das falas mais marcantes do Doutor, uma delas após a histórica derrota da seleção brasileira para a Itália nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1982, quando aquele time era considerado o melhor do mundo. “É um azar, pior para o futebol”, afirmou o craque, autor de 22 gols com a camisa amarela. Mais recentemente disse: “Não se deve jogar para vencer e sim para não ser esquecido.”

Carreira e alcoolismo

Após as internações em agosto e setembro, Sócrates falou abertamente sobre seu vício em álcool, que levou as complicações de sua hospitalização. Com o fígado comprometido, disse em entrevista a Kfouri, colunista da Folha de São Paulo, que talvez não precisasse de um transplante. Aproveitou a ocasião para declarar também que pretendia trabalhar na conscientização das pessoas em torno do transplante de fígado.

Dono de um toque refinado, Sócrates conquistou os gramados com sua inteligência e habilidade, além do famoso toque de calcanhar. Começou a carreira no anos 70 no Botafogo de Ribeirão Preto, time do interior de São Paulo, na época uma equipe de médio porte no País.

Em 1978, foi contratado pelo Corinthians, onde virou ídolo e ganhou os apelidos de Doutor, por dividir o tempo nos gramados com a faculdade de medicina, e Magrão, devido ao seu porte físico. No clube, comandou o movimento
“Democracia Corintiana”, que permitiu aos jogadores participar de decisões internas do clube, entre elas os termos das concentrações pré-jogos.

Em copas do mundo não teve muita sorte e nunca passou das quartas-de-final. Em 1982, parou na Itália e quatro anos depois esbarrou na França, nos pênaltis.

No exterior, o Doutor passou pela Fiorentina de 1984 a 1985, mesmo ano em que voltou para o Brasil, contratado pelo Flamengo. Ficou no time carioca até 1987 para no ano seguinte se transferir para o Santos.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/morre-a-lenda/