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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Xeque-Mate - Edu Krieger

XEQUE-MATE (Edu Krieger) Diz aí o que é pior Legalizar o aborto Ou saber que aquele menor Pela mão do sistema também vai ser morto Eis aí o xeque-mate Legalizar o entorpecente Ou saber que o tráfico abate A cada minuto mais um inocente Quando ela engravidou Não tinha a menor condição Pois aquele pequeno embrião Jamais poderia ganhar seu amor Ela então procurou o doutor Mas a clínica é clandestina A polícia invadiu dando show “Você não é mãe, você é assassina” E o apresentador Do programa da televisão Aplaudiu a polícia e gritou “Quem faz um aborto é filho do cão” O recém-deputado-pastor Que foi recorde na votação Disse ao povo que Deus dá a vida E mãe homicida não ganha perdão E nasceu mais um coitado Apanhando da mãe todo dia E a mulher toda hora dizia “Se fosse por mim eu teria abortado” O moleque cresceu sem afeto Do seu pai nunca teve notícia Desprezado desde que era feto Com medo da mãe e também da polícia Quando fez quatorze anos Já sabia o que é ser vida louca E fazia um monte de planos Queria um dia ser dono da boca Quando a guerra sangrenta estourou Contra a forte facção rival Uma bala perdida encontrou Um pacato senhor que olhava o jornal Nunca usou droga nenhuma Era exemplo de pai de família Mas a bala de quem engatilha Atinge também quem não cheira nem fuma A polícia cercou a favela Foi porrada pra tudo que é lado Gente de bem que também mora nela Acaba pagando por ser favelado Quatro mortos, três feridos Novo saldo da guerra do pó A polícia caçando bandidos Às vezes atira sem mira e sem dó Mas a bala não é de borracha Nem é bomba de efeito moral E ainda tem muita gente que acha Que nesse país todo mundo é igual E aquele adolescente Que a mãe não queria gerar Exibia o fuzil HK E atirava em tudo que via na frente De repente foi surpreendido Por um tiro calibre 40 Seu esquálido corpo caído Entrou num processo de síncope lenta E o apresentador Do programa da televisão Aplaudiu a polícia e gritou “Quem é traficante é filho do cão” Quando a mãe chegou perto pra ver O desfecho do filho bandido Ouviu dele antes de morrer: “Eu preferia jamais ter nascido” Diz aí o que é pior Legalizar o aborto Ou saber que aquele menor Pela mão do sistema também vai ser morto Eis aí o xeque-mate Legalizar o entorpecente Ou saber que o tráfico abate A cada minuto mais um inocente




segunda-feira, 10 de março de 2014

A televisão por Adriana Maciel

Era a televisão. É o celular, é o tablet.... O disco da Adriana Maciel é de 2004, excelente disco.

No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções (Chico Buarque)



A Televisão (Chico Buarque)

O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa não vai não 

Em casa a roda
Já mudou, que a moda muda
A roda é triste, a roda é muda
Em volta lá da televisão

No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções

O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões

O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não

A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão

No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções

O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões

Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não

E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão

O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões

No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões