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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A Novidade Eleitoral


A novidade eleitoral
“Nestes últimos vinte anos
Nada de novo há
No rugir das tempestades
Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
haveríamos de estar tristes.” Maiakóvski

No Ceará as candidaturas ao governo do Estado no campo do Centro-Direita estavam definidas. Seria um Lp - isto é - o Lado A e o Lado B de um novo disco do Fagner. Caberia a esquerda buscar alternativas. Nas buscas, sem precisar ir ao Google, encontrou-se Renato Roseno. Uma candidatura boa pra todo mundo.
Renato Roseno tornou-se candidato ao governo do Estado pelo PSOL. Deve ter avaliado o tamanho do desafio - a falta de recursos, a minguada militância, as fraturas da última aliança eleitoral, o pouco tempo de TV, ...mas, aceitou.
Foi para a campanha com o pouco que tinha e conseguiu fazer muito. Nos debates na televisão, com conteúdo e forma adequadas, mostrou que não era oposição à Lucio e a Cid, e sim ao projeto neoliberal que eles representavam, foi didático, claro, apresentou propostas, encantou muita gente. Deve ter despertado a inveja, quiçá a ira de outros e outras.
Um dia em minhas andanças de colaborador da campanha do Renato, ouvi no fim de um discurso seu um verso do bardo de Sobral, Belchior. Renato afirmou, “O novo sempre vem.”
Como se dizia, não tão antigamente, “caiu a ficha.” De fato e de direito, Renato Roseno é a grande novidade eleitoral no cenário político cearense. Senão vejamos: Todos e todas, no campoda centro-esquerda e esquerda já estão na estrada, de 10 a 20 anos de disputas eleitorais, uns discutindo uma maior velocidade no carro, outros tentando construir novas estradas, mas todos(as) figuras repetidas.
RR conseguiu 106.184 (2,75%) dos votos do Estado e 75.809 (6,87%) dos votos de Fortaleza. Nacionalmente figura entre os seis candidatos a governador pelo PSOL que obteve mais de 2% de votos ao lado dos candidatos dos estados de SP, PA, MS, AP e AL.
É a novidade. Façam suas apostas.
Elis Regina, imensa cantora e grande descobridora de novos talentos, abriu espaço para Belchior, ao gravar no disco Falso Brilhante de 1976, músicas do então iniciante compositor cearense. Dentre elas “Como nossos pais” da qual transcrevo os versos abaixo:
‘ As aparências!
Não enganam, não.
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém.
Você pode até dizer que estou por fora ou então que
Estou inventando...
Mas é você que ama o passado e que não vê.
É você que ama o passado e que não vê que o novo
O novo!
Sempre vem.”
Outro poeta, também gravado por Elis, já disse:
“falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer,
Outros outubro virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz”

Marcus Vinicius
Fortaleza, Outubro de 2006