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quarta-feira, 22 de abril de 2015

JOGO DAS IDEIAS

Por Karina Buhr


Opinião é coisa que se tem. E cada vez mais se tem antes de se saber o suficiente sobre o assunto da vez.
Velocidades das comunicações todas, que é bom e, às vezes, não. Às vezes, de tão veloz, passa reto, não faz uma marquinha, uma ondinha na água parada.

E aí, o que poderia ser agir junto, forte, com outras ideias parecidas, vira um clube de ideias fechadas, no qual o importante é não divergir, importante é se sentir seguro, agradar.
Repare dos lados.

Os discursos vão se padronizando, pasteurizando e surgem blocos imensos de pessoas que pensam igual, isso valendo pra todas as ideologias e gostos e vontades.

Vozes dissonantes são vistas como inimigas e gente, que é bicho que vai e volta nas ideias o tempo todo, reflete, persegue o que disse pra pensar no que vai dizer, vira gente apagada. Manada é apagada. Pensamento de rebanho, seja de que lado for, só fortalece quem manda em todos.

E é pra lá que estamos indo, nessa ribanceira que caímos vertiginosamente.
Saber no raso é fácil e gera resultados imediatos. Buscas rápidas, nas primeiras páginas de pesquisas, já dá pra ter repertório interessante de termos que nos façam especialistas. Podemos usar aquele charme de que: “Ah nem tanto”; que é isso, eu só me informo.

E o kung fu das ideias que é bom, dos combates de argumentações que fritam o juízo do sabido e do receptor da sabedoria que, por sua vez, cospe outras sapiências de volta na cara, esse está meio bêbado, de bode, apagadinho o bichinho, coitado.

Ler a notícia, analisar por que ela vem pra tirar conclusões próprias e daí se partir pro combate de ideias, isso está caducando. Bom mesmo é repassar e depois ler, melhor ainda repassar, ter muita opinião e não ler. Seguir a cartilha da sua equipe de encaixe, onde você escolheu jogar, o ponto de vista de onde escolheu olhar, é o essencial nessa hora. Pouco importam nuances, contextos, vírgulas, entonações de cada acontecimento.

Importante é provar e novamente deixar claro e sem sombra de dúvidas a que time você pertence. O resto é pra que mesmo?

Saber das entranhas do assunto? Dissecar possibilidades de interpretação? Se preocupar em ser justo caso haja possíveis vítimas e algozes no inquérito da vez? Tudo bijuteria, adorno de opinião.
Bom é seguir no raso, parecer saber, ter aquela opinião quente, certeira e blindada da notícia da hora.
Bom atentar, a turba ensandecida, nós, pro que também vira tiro no pé. A faina de ter razão, transformar acontecimentos frescos em matéria pura de confirmação de discursos pode maquiar, transformar no que não é.
Não ponderar é o mais fácil.

Um fato acontecido, metido numa ideia pré-concebida sobre ele é boia. Faz nem força. Ele já vem ali, prontinho pra te servir, pra te dar razão a cada vociferação, vem educado pra ser seu número.

Fico torcendo pra gente largar mão, nem que seja um pouquinho, mas de preferência um “muitinho”, dessa soberba das ideias. Da vaidade extrema de ter sempre razão, aquela prova de pertencimento àquela equipe, pra esfregar na cara de quem é do time outro na competição da vez.

Poder voltar três casas, pensar, no silêncio da tentativa de compreensão, não necessariamente gritar opinião de pronto, poder respirar e falar, gostar de escutar, poder mudar de ideia quando ouve o outro falante.

Ou ganhar de volta o direito da desobrigação de emitir opinião formada quando mal acaba de ouvir o acontecido.

Que aconteçam nossas opiniões sempre! Mas numa velocidade que não nos anule, que não deixemos de acontecer nós mesmos, no verbo mesmo, na nossa individualidade, até o fim do acontecimento chamado nossa vida.

http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-04-08/Jogo_das_ideias.aspx

quinta-feira, 26 de junho de 2014

QUANDO O INSTAGRAM NÃO EXISTIA

POR: ELIAS ANDREATO

Eu me demorava com mais cuidado e delicadeza no cotidiano da minha existência. Eu saía para a rua e olhava nos olhos das pessoas e tomava cuidado com as palavras para poder seduzir ou me deixar ser arrebatado por elas e por tudo. O diafragma das minhas retinas guardava os meus melhores momentos. Sempre que eu me apaixonava, queria que fosse eterno enquanto durasse...
Não tinha a ansiedade de dividir com mais ninguém além da pessoa amada. Eu saía do cinema ou do teatro só com a lembrança das imagens que despertassem minha curiosidade ou estimulassem meu querer saber, como se eu fosse um grande filósofo e pensador da alma humana.
Quantas vezes adormeci com a provocação de Fellini, Buñuel, Visconti, Godard, Shakespeare e Orson Welles; quando as lágrimas ou o riso inundavam o meu rosto.
Eu só tinha o espelho como possibilidade de registro para eternizar as minhas angústias ou dúvidas de querer ser um ser humano melhor.
Eu olhava para mim mesmo, cara a cara no espelho do banheiro, e dizia: “O que você vai querer ser quando crescer?”.
Eu não tinha amigos no Face. Eu queria amigos face to face para encostar a cabecinha no ombro e chorar.
Eu fumava, bebia, transava, estudava, trabalhava e ainda sonhava em transformar o mundo. Eu me indignava com a miséria, a fome, a ignorância, o preconceito e a corrupção.
Agora, tudo mudou. Não olho para mais nada. Sou o centro de tudo.
Eu me basto na solidão do meu iPhone 4, 5, 6... Me tornei um artista maior. Registro tudo, para poder provar que estive lá. Sem me importar se a minha poesia se tornou menor. O que conta não é mais a qualidade, e sim a quantidade de imagens e como sou visto, seguido e por quantos.
Estou bombando!

Invento o personagem que eu quiser. Sou o roteirista do meu próprio filme e ainda faço o meu fundo musical. Minha ilha de edição é fenomenal. Lanço o meu produto no mercado mostrando o meu melhor. É por isso que sou amado e invejado!
É verdade que, às vezes, não tenho mais opinião sobre o que está ocorrendo no planeta. Não entendo o que estão dizendo nos livros, nos jornais e nas revistas.
Só gosto das minhas fotografias. Perdão, dos meus selfies!
Os velhos que me perdoem, o que importa é estar na moda!
Ontem, tive um sonho antigo onde eu dizia baixinho:
“Ai que saudade de mim!”.

ELIAS ANDREATO É ATOR, DIRETOR.
http://www.revistadacultura.com.br/revistadacultura/detalhe/14-05-05/Quando_o_Instagram_n%C3%A3o_existia.aspx

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Diga o Nome do Homem

Via Leonardo Costa

Por Karina Buhr
Ilustração: Karina Buhr

Passa a boiada na correria do dia.

Demora uma vida pro último boi, mas é feito pressa de raio.

Garante o leite, a vaca, o couro do boi, a picanha do almoço, o osso pro outro bicho e o bicho preguiça e o da seda desistem.
Todos os dias de manhã eles desistem e voltam a tentar tudo de novo, mais próximo do meio-dia, porque não tem jeito, fazer o quê?
Vai dizer que trabalha muito e até trabalha, mas tem vontade mesmo de ficar no mar, num rio, numa lagoa, numa piscina não, porque é pequena.
Dá vontade até de não ter vontade, mas pior que tem tantas...

Dá uma pena esses dias.
O dia escravo da gente, a gente escravo do dia, todos em estado de escravo, do governador do nosso estado, do presidente dos Estados Unidos, do representante da fábrica de tecido, de comida, de computadores.

De roupa também. Contém escravos.

No Brasil oficial, isso faz tanto tempo...

Era pra não esquecer, mas não esquecer num sentido de ter memória e não com as coisas diárias te lembrando toda hora que não é lembrança nada, é aqui e agora e que faz tempo que começou, mas ainda não acabou.

Se são diárias não são lembranças.
Lembrança é melhor, mesmo quando é ruim, porque não esquece.
Se esquece, repete.

O mundo é do dinheiro, somos pessoas com preço.
Pessoas com preço menor, pessoas com preço nenhum.
Pessoas com mais preço, se sentindo bem, embriagadas pelo alto preço próprio.

Escrevo de nós e de outros.
Juramos que escrevemos juntos.

Vai que um dia vira.

Tem até andado virando.
E ainda é luta e briga.
E guerra pra se provar da justiça, pra se tirar terra de quem escraviza.

De quem é escravo é fácil tirar.

É fácil, pra quem tem, tirar qualquer coisa de quem não tem.

Como se o pouco fosse nada, como se nada, pra alguns, de fato fosse o certo.

Fácil atirar também.

De longe e até de perto.
Fácil não apurar, não procurar provar.

Difícil é provar da dor.
Fácil é até levar um tiro no palco. Teatro. Show da morte.
Cacilda Becker teve é sorte.

Dinheiro incomoda muita gente.
Polícia incomoda muito mais.
Incômoda de nausear, afogar em mágoas, de magoar a própria tristeza, coitada, despreparada.
Banzo ancestral.
Se a vida não vale um nome...
“Morreram dez suspeitos” em troca de tiros.
Tiro não se troca. Tiro é outro troco.
“Assassinaram dez pessoas” devia dizer a notícia.
Mas quanto vale um nome num anúncio da polícia.
Notícias correm irresponsáveis e ainda bem que existem outras.
Morte matada de sobremesa.
A primeira pessoa anda com problemas faz tempo.

O Brasil às vezes não sabe falar.

O Brasil também fala muito bem.
O mundo parece com o Brasil.

O Nordeste também.
O Brasil é um certo Rio, um certo São Paulo.
Outros choram.
Sem nome.

MC Daleste é um nome bonito.
Nome com endereço de sobrenome. Um nome mirado.
9 (ou 13) na Favela da Maré. Nem um nome.
Nome é importante.
Número é importante. Seis MCs assassinados em três anos em São Paulo.
Lugar também é importante.

Nomes aos bois.
Os que passam, devagar no dia rápido e rápido no dia lento.
Quem mata o suspeito por direito?
Suspeito não é nome.
Diga o nome do homem!

Um grave acidente, numa avenida grave da cidade.
Um amigo viu uma cabeça de cavalo decepada.
Como cabeça de boi.
Perguntou pro homem se tinha tido morte.
Ouviu que morreram seis pessoas e uma mulher.
Mulher é como vaca.

Luana apanhou, mas é rica, Joana apanhou, mas é pobre.
O juiz ajuíza no salão nobre.
Seguimos, comendo migalhas, jogando migalhas, espalhando e respirando as tralhas, raspando as traças, boiando de graça.
Dormindo na curva.
Batendo no outro.
De olho no choro. De molho na chuva.
Melhor assim.
Bem pior assim.

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*texto e ilustração publicados na edição de agosto da Revista da Cultura