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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Histórias que Laís conta – 6


As rodas de conversa de Elisa

Laís Barreira


Naquela época ainda não havia televisão; era o tempo das cadeiras nas calçadas e nos terraços das casas, ao entardecer, que reunia as famílias, os vizinhos e os amigos para prosear.

Na casa de minha mãe esse era um costume antigo; desde quando morávamos na Praça dos Voluntários, as rodas de conversa da d. Elisa juntavam amigos.

Minha mãe enviuvou cedo e precisou enfrentar a situação com coragem para superar, junto com seus dez filhos, as dificuldades advindas.

Todos nós começamos a trabalhar bem jovens para ajudar nas despesas domésticas, que eram controladas por ela com pulso firme.

Graças a ela sempre tivemos muitas amizades nas vizinhanças de todos os locais onde moramos; era uma época em que não havia grandes diferenças entre as classes sociais e era natural convivermos com pessoas mais abastadas do que nós e que frequentavam as “altas rodas”.

Um desses amigos, o escritor Milton Dias, era frequentador assíduo da casa da “d. Elisa” e, vários de seus contos foram inspirados nas histórias compartilhadas nesses encontros. A amizade teve início entre a minha mãe e a do Milton; ele era um escritor bastante conhecido, seus contos eram publicados nos jornais; O Zé Milton como nós o chamávamos tinha uma conversa brilhante, ele “enchia” a noite e era muito “requestado” para jantares e festas dos “grã-finos”. No entanto, ele dizia que se divertia nas nossas rodas de conversa e estava cansado de tantos jantares e festas para os quais era convidado: não aguento mais tantos convites!

A última casa em que mamãe morou tinha um terraço muito agradável, ao ar livre, que à tarde ficava sob a sombra de um grande pé de sapoti.

Nesse local todas as noites havia o ritual de levar as cadeiras para fora e esperar a chegada dos amigos; além do Milton, participaram de muitas rodas de conversa o pintor Floriano Martins que era um intelectual, o antropólogo e crítico de arte Geraldo Markan, conhecido como Gegê, muito amigos de minha irmã Lúcia, o jornalista Carlos D’Alge, o artista Zenon Barreto, além das nossas amigas mais assíduas, as Carvalhedo, Cármen, Maria Luisa e sua prima Zilma.

Nas reuniões se falava de tudo, política, religião e, principalmente assuntos do cotidiano, sempre tratados com bom humor, nada de muita polêmica!

Não havia bebida alcoólica, minha mãe, muito religiosa, fazia essa restrição, era “boca seca”, apenas um cafezinho e no máximo um suco de frutas; no entanto, as conversas eram muito animadas.

Hoje, olhando aqueles tempos com o que guardei na memória, me parece que a vida se passava com menos pressa.

Com o passar dos anos a casa foi ficando grande demais e insegura para as duas pessoas idosas que lá residiam, mamãe e minha irmã Marina; então, a casa foi vendida e elas mudaram para um apartamento menor onde minha mãe viveu até quase cem anos e sobreviveu a muitos daqueles amigos que frequentaram sua casa.

As rodas de conversa foram substituídas pela TV que tinha lugar de destaque na sala, no entanto, permanecem na lembrança as conversas inteligentes e espirituosas daquele grupo de pessoas que frequentava a casa da Rua Carlos Vasconcelos, 1438.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A CASA DA ESCADARIA


POR VÓLIA BARREIRA


A casa da escadaria

A bela escadaria da casa da minha infância
tinha degraus que eu subia em alegre algaravia.

Construída no centro de um terreno elevado
seus sete degraus davam acesso à varanda
encimada pelo amarelo do pé de acácia.

Com os olhos da recordação
vejo-me a subir correndo as escadas, contando os degraus,
como fazia em criança
enquanto nos ouvidos, ainda ressoam os passos do meu pai
escada abaixo,
a caminho de uma imensurável prisão
na madrugada que se eternizou na memória.

Num canto da escada, às escondidas, sinto o coração aos pulos
com a descoberta inusitada do desejo
e das profundas infelicidades dos amores imaturos.

Com os pés pesados feito chumbo
desci os degraus na vez primeira
quando  tive a consciência da nossa finitude
e o fiz, na derradeira,
carregada de  tristeza,
no dia em que a casa se transformou em sentimento .

Em suas paredes ficaram grudadas as minhas memórias
que reconstituem cada vão,
cada mosaico, cada planta do jardim...

Apurando os ouvidos,
ouço os sons de um tempo,
que ainda repercute. 


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Poema premiado no 

1º Concurso Literário da Livraria Escritores do Ceará - Prêmio Milton Dias - Crônica e Poesia - 2017