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terça-feira, 16 de julho de 2013

Por um acervo permanente da música digital e analógica

Por Jarmeson de Lima


Ilustração por Karina Freitas

É inegável que o suporte digital facilitou – e muito – a vida da gente. Por conta da praticidade dos mecanismos portáteis, temos agora uma infinidade de registros, sejam eles textos, fotos, vídeos ou músicas. A música, por sinal, por ser uma manifestação artística imaterial e não palpável, precisa ser capturada em materiais palpáveis. Diferente de outras formas de arte, ela não dispõe de um aparato físico e concreto que podemos ver ou tocar. É possível reproduzir ou esboçar uma pintura através de desenhos ou de uma fotografia, e, então, poder apreciá-la indefinidamente.
No caso da música, isso é mais complicado. Você pode pegar num violino, mas ele por si só não toca música alguma. Graças à criação e à evolução do fonógrafo de Thomas Edison, dispomos de tantos mecanismos de gravação e reprodução sonora. A maior parte desses mecanismos está condicionada, entretanto, a aparelhos físicos para reproduzir a música que queremos, mesmo sendo ela códigos binários processados por computador.
No entanto, em algum momento, esse acervo que está sendo migrado lentamente para a “nuvem”, pode correr o risco de não ser mais acessado. Temos essa rede digital com bilhões de dados correndo soltos por wi-fi, cabo e satélite, mas que pode não valer nada daqui a um tempo.
Quando a Nasa nos alertou sobre o risco de uma tempestade solar e a perda temporária de comunicações, isso mostrou o quão frágil pode ser a conservação de dados digitais. E o mais grave é que isso pode acontecer sem que a gente veja de fato o que ocorreu. Afinal, a radiação é invisível aos nossos olhos e tais ocorrências podem se dar a qualquer instante. Vale lembrar que os aparelhos de raio X presentes nos aeroportos foram responsáveis por estragar o trabalho de muitos profissionais ao danificar cartões de memória e HDs.
A confiança exclusiva no digital tem esse risco. Por outro lado, a praticidade de possuir mais de 10 mil arquivos de música, fotos e filmes em um só pen drive, no lugar de 10 estantes de CDs, discos e DVDs, compensa, se você mora nos imóveis atuais, com menos de 70m². O problema é que os produtores e compositores da nova geração artística estão perdendo a vontade ou o costume de reproduzir sua música em formato “analógico”. A prensagem de CDs em tiragem industrial ainda é cara e tem um retorno incerto. Mas é importante fazer? Sim! Mesmo em escala reduzida, é necessário ter um registro físico da música desta época e em boa qualidade. Senão o breve episódio da história da música recente corre o risco de se perder.
Por mais que os artistas lancem discos diretamente na iTunes Store ou cineastas façam filmes com lançamento digital, quem garante que esse acervo ficará disponível daqui a três, oito ou 20 anos? Se o futuro das mídias e dos equipamentos que reproduzem música é incerto, quem garantirá a perenidade dos formatos MP4, MP3 ou WMA?
A TRAMA

O fato é que nossa crença no futuro – que demora a chegar – nos torna despreocupados com o legado artístico e a manutenção de um acervo que deveria ser obrigatório. Até o fim de março, a Trama Virtual era o maior repositório de músicas da cena independente do país, principalmente de bandas nascidas entre 2000 e 2010. Muitas delas nem chegaram a gravar um disco oficial, mas fizeram carreira e um relativo sucesso apenas com arquivos em MP3.
Eram 78.731 artistas e 205.381 músicas cadastradas no portal, embora não detivesse o maior acervo musical de artistas brasileiros. Outros sites e serviços, como o Palco MP3, possuem tecnologia e um número similar de artistas, mas não agregavam conteúdo ou divulgavam seus produtos como fazia a Trama, que ainda dispunha de jornalistas para produzir notícias e um programa de TV que chegou a passar algumas temporadas no canal Multishow e na TV Cultura.
Como se não bastasse esse esquema de autopromoção, o portal também criou um novo modelo de negócios que parecia ser o futuro para o problema de pagamento de artistas na internet. Através do sistema de “download remunerado”, os grupos que tivessem mais músicas baixadas poderiam ganhar dinheiro. Ou ter direito a isso, uma vez que sua remuneração mensal viria de um cálculo entre o valor total do patrocínio do portal e de outras empresas com relação aos mais acessados de acordo com o número total de downloads de maneira proporcional. No entanto, com o passar dos meses, a verba disponível foi diminuindo e, com isso, o interesse das bandas em permanecer ali. Obviamente, quem já estava por lá deixou suas músicas, mas quem tinha chegado recentemente não se empolgou em disponibilizar suas obras.
Agora, com o fim do portal, para onde foram esses registros? Se formos otimistas, podemos crer que todas as bandas que largaram suas músicas por lá mantiveram ainda seus backups e, em breve, vão disponibilizar suas obras novamente na internet, em sites semelhantes. Se formos pessimistas, teremos que catar um a um, em diferentes acervos particulares, os principais nomes dessa biblioteca virtual.
Em meio a tal contexto de incertezas, temos que louvar a iniciativa de pessoas como os norte-americanos Bob George e David Wheeler (já falecido), que criaram um museu da música contemporânea, em 1985. O ARChive of Contemporary Music (arcmusic.org) é uma coleção de fonogramas mantida de forma independente e construída através de doações do mundo inteiro, contendo atualmente mais de cinco milhões de itens, entre LPs, compactos, CDs e outros formatos de música gravados a partir de 1940.
Sua sede, em Nova York, contém todas as raridades previstas na história da música contemporânea. A ação merecia ser copiada também no Brasil, para além dos registros que existem na Biblioteca Nacional. E, num país onde a memória é precária e a preservação do patrimônio ainda pior, uma iniciativa como a Trama Virtual deveria ser tombada e guardada como um retrato do passado recente que corre o risco de se perder em meio à efemeridade da internet.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

As vitrolas não querem calar

Do blog AIDENTU

Cafofo do Marvioli
A paixão pelos velhos bolachões voltou à moda. Um grupo local de colecionadores resiste às modernas tecnologias e cria um clube de apreciadores dos vinis e das agulhas.

“The times they are a-changin’ ”(os tempos estão mudando) já antecipava Bob Dylan em seu terceiro disco no distante ano de 1964. Apesar de toda tecnologia criada até hoje, um grupo de resistentes ignora os icônicos iPods e iPhones, febres no consumo de conteúdo digital cuja loja, a iTunes Store, já contabiliza mais de 25 bilhões de músicas vendidas.

Até meados da década de 90 os vinis reinaram absolutos. A tecnologia do compact disc (CD) havia sido criada com a promessa de qualidade digital, sem chiados ou quaisquer distorções. A migração do formato LP para o CD ocorreu em massa. As fábricas de vinis praticamente faliram ou mudaram suas prensas para os novos disco lasers. A produção de equipamentos para os bolachões foi decaindo, porém, audiófilos e nostálgicos mantêm aquecido um mercado que volta a crescer. Nas lojas de LP usados vários itens são disputados como um troféu, os valores variam entre 1 até exorbitantes 5 mil reais. Tudo regido pela paixão e pela lei da oferta e da procura. Os equipamentos leitores de vinil, as vitrolas ou radiolas, também passaram por uma alta valorização, com preços variando entre 200 a 600 reais.

Marcus Vinícius de Oliveira, 57 anos, agrônomo, é possuidor de uma coleção que alcança a marca de 1.500 discos, todos estes organizados de acordo com o cantor e o estilo. Coleciona também cds, mas ao receber os amigos em casa prefere que estes escolham um bom vinil da prateleira, deixando-os a vontade no comando de sua radiola Gradiente que trabalha com 33, 45 e 78 rotações. A agulha sempre limpa cria uma catarse, conduzida pela música que preenche o ambiente e é brindada com goles do uísque preferido. “Apreciar o disco é interpretar a capa, perceber todos os detalhes e poder se deleitar com os dois lados, ouvindo as músicas sem ter pressa para trocar”. A coleção de fato chama atenção tamanha variedade e raridade de algumas peças.

Marcus acredita na superioridade técnica do vinil, afinal, o CD usa um formato de compressão do áudio que suprime determinados detalhes tidos como inaudíveis pelo ouvido médio humano e não reproduzíveis pelos equipamentos regulares. Apenas um audiófilo, com o ouvido bem treinado e um equipamento de alta fidelidade, pode perceber as diferenças. Porém aqui vale a experiência lúdica de ir ao centro, procurar o LP que interessa nos sebos, negociar com o dono e voltar com o prêmio para casa, já pensando no dia em que convidará os amigos para o sarau de audição do vinil. Essa experiência no formato digital ficou perdida, é muito fácil dispersar-se com uma coletânea de 3 mil arquivos mp3, extensão popular de áudio digital utilizada nos computadores e tocadores de música digital.

O Kukukaya, famosa casa de shows em Fortaleza, promoveu neste sábado, 19 de maio, a 2ª Feira do Vinil, onde os apaixonados pelos bolachões puderam comprar, vender, trocar e principalmente conhecer outros amantes do “ouro negro”. A feira é organizada pelo DJ Alan Morais, DJ residente do Boteco do Arlindo, e tem por missão criar uma agenda fixa para reunir antigos e novos aficionados. Além disso houve a exposição de lojistas com LPs e radiolas. O que o futuro promete para a indústria fonográfica ainda não está claro, mas os vinis sempre terão uma legião de adoradores que nunca os esquecerão.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O retorno do vinil em plena era digital

Por Sergio da Motta e Albuquerque

O USA Today (12/11) anunciou o lançamento em vinil de todos os álbuns de estúdio dos Beatles pela Apple(o rótulo original da banda) e a EMI. O material chegou ao mercado no dia seguinte e incluiu também todo o trabalho de artes gráficas das antigas capas. Podem ser adquiridos pelos fãs separadamente ou na caixa com a coleção completa, que inclui um livro impresso em alta qualidade.

O Black Sabbath, banda legendária para os entusiastas do heavy metal, também anunciou que vai lançar uma coleção remasterizada em formato analógico. Os discos virão também numa caixa que vai se chamar “A coleção em vinil – 1970-1978”. O lançamento foi previsto para 12 de dezembro deste ano, informou a revista semanal inglesa NME (15/11).

Depois de quase desaparecerem na virada para o século 21, a coisa mudou a partir de 2007: mais e mais lançamentos em vinil voltaram às lojas e às notícias. A volta do vinil, de acordo com a Modern Times (09/11), “é fruto da iniciativa de DJs e apoiada pelo público interessado em experiências mais ‘quentes’ e profundas com a música ‘disponível em formato analógico’”, anotou a revista. A chegada do som digital prometia aposentar para sempre os antigos LPs, mas não foi isso que aconteceu: de acordo com estatísticas da Nielsen Soundscan, “vendas em vinil aumentaram a 3,9 milhões de unidades em 2011, acima dos 2,8 milhões em 2010. O relatório de meio de ano mostra que as vendas do vinil para este ano devem acabar com 14% (de crescimento) sobre 2011”, publicou (09/11) a Modern Times.

Mitos e explicações

A explicação corrente entre aficionados, especialistas e músicos diz que o som digital “achata” a música: graves e agudos “somem”. Os tons médios ganham destaque. Falta a “imprecisão” característica dos discos analógicos, acredita Sean Magee, engenheiro da Apple (a gravadora). É justamente esta imprecisão que torna o vinil tão especial: eles podem reproduzir com mais fidelidade a experiência auditiva de um concerto (sinfônico ou outro, como rock) com mais realismo que o pasteurizado som digital. Concorda com isso, leitor?

Se você gosta de música, trabalha ou consome áudio em alguma forma, já deve ter notado que realmente o som digital, comparado a uma reprodução fiel a uma boa gravação analógica impressa em vinil, é inferior, quando comparado com o velho formato analógico. A explicação corrente diz que a taxa de compressão dos arquivos digitais deixa de fora elementos primordiais para uma boa reprodução em áudio. Quanto maior a compressão, mais se perde da experiência original da gravação em estúdio ou concerto ao vivo.

Os arquivos de baixa compressão (como os WAV) têm uma qualidade de som infinitamente superior aos MP3, por exemplo. Mas são imensos e propriedade da Microsoft. Com o aumento da velocidade das conexões em banda larga, os WAV passaram a frequentar a web. Mas não têm a mesma popularidade e disponibilidade dos arquivos MP3. O formato MP3 é portátil, pequeno e pode ser usado na web como se tivesse sido criado para ela. Mas ele não foi inventado para transmissão de músicas, mas voz. E foi criado muito antes da web e os PCs. O formato MP3 já está entre nós há mais de 30 anos. Há muitos mitos e explicações que não vão além do senso comum, quando o assunto é reprodução de som em meio digital ou analógico.

Execução e partilha de áudio

O site de tecnologias de som e vídeo ÁudioTX explicou o que é o formato MP3, como, para que e quando surgiu este tipo 
de arquivo. A revista informa que o formato foi desenvolvido pelo professor Dieter Seitzer no início dos anos de 1970, da Universidade Erlangen-Nuremberg, “para solucionar o problema de transmitir fala em alta qualidade através de linhas telefônicas”.

Com o aumento da velocidade da web, iniciado pelas redes digitais de serviços integrados (ISDN) nos anos de 1980 e o surgimento dos cabos de fibra ótica, o professor alemão “direcionou a pesquisa para codificação de sinais de música”, informou a publicação. Que também confirmou que o formato é o que apresenta menos perdas ao ouvido humano.

Por outro lado, Jorge Faria, autor do artigo, teve a prudência de informar que, apesar de suas vantagens, como pequeno tamanho e a sua vasta disponibilidade na web, o formato apresenta limites: “Apesar de toda a sua popularidade e uso prático do MP3 existe uma grande diferença em qualidade entre os arquivos MP3 e o formato de arquivo WAV. MP3 é um formato com perda de compressão de dados (lossy data). Isto significa que parte de dados são removidos para diminuir o tamanho dos arquivos de músicas, aproximadamente 1/7 do tamanho do arquivo original no formato WAV.”

As diferenças mais notáveis entre os formatos de alta compressão, como os MP3, e os de baixa compressão (como o WAV) são a “perda de clareza” nos tons agudos e perda de peso (punch) nas notas de baixa frequência. Em outras palavras, os tons graves são pouco potentes e “achatados” (flat). Ocorre também “perda da dinâmica original do som”, e problemas de fase – que também perturbam e distorcem a audição. Com todos os seus limites, o formato MP3 acabou por ganhar a web e é de longe o formato mais popular para execução e partilha de áudio na era digital. O site da ÁudioTX aponta a superioridade dos arquivos WAV para transmissões de áudio.

Experiência social mais rica

Durante algum tempo, cultivou-se o mito da superioridade inconteste do som digital. E, realmente, ele apresenta muitas vantagens. Mas, no mundo do áudio, na realidade, não há uma oposição rígida entre áudio digital e analógico. Os dois formatos são complementares. Ainda não há sinal inconteste da volta ao vinil, nem da superioridade absoluta e eterna do som digital. Pelo menos, é assim, no momento atual do desenvolvimento tecnológico.

Apesar de alguns sinais da volta do formato analógico para gravação de discos, esta tendência não é unânime. O jornal Estado de Minas (15/11) publicou matéria sobre o assunto. Nela, Henrique Portugal, tecladista da banda Skank, anuncia o fim definitivo das mídias físicas:

“Essas mídias físicas estão com os dias contados. O artista hoje tem de se preparar para saber explorar da melhor maneira possível as mídias digitais. Além de shows ao vivo, o faturamento do músico terá de vir dos acordos que fizer com sites e provedores, como o YouTube, e da sua capacidade de criar alternativas tecnológicas.”

A mesma matéria também apresentou a opinião da profissional de marketing Júlia Hammes, 23 anos, que usa os dois formatos e reconhece as vantagens e desvantagens de um e outro. Para ela, “a maior vantagem do vinil é a definição do som, mais natural, e o fato de poder aproveitar a experiência com os amigos”. Concordo com ela: ouvir música (popular, principalmente) em vinil é uma experiência muito mais enriquecedora do que escutar as playlists atuais em formato digital. Escutar música em vinil é uma experiência social mais rica do que sentar para ouvir as playlists pasteurizadas digitais. Que muitas vezes acabam como fundo musical de conversas...

Perda de qualidade

Mas Júlia também reconhece que a internet trouxe vantagens que o vinil não tem: portabilidade, a possibilidade de se transferir o conteúdo para diferentes aparelhos, e a facilidade de encontrar a música que o ouvinte desejar na web em poucos instantes. Mas mesmo assim ela prefere o vinil, por dois motivos: melhor qualidade de som e o lado social da experiência de ouvir música com amigos. Escutar música com outras pessoas é uma experiência partilhada.

Lembro que, antes da era digital, as sessões de audição de música em grupo eram uma troca entre preferências que acontecia em encontros sociais: cada um apresentava seus discos, suas preferências e explicava o porquê delas. Conversávamos, discutíamos e passávamos bons momentos, muitas vezes a comunicar pela melodia o que era impossível em palavras. Dividíamos nossos mundos, enquanto partilhávamos nossas preferências musicais.

Júlia Hammes, no Estado de Minas, prefere o vinil, mas não nega o valor da reprodução digital. Uma posição muito correta, porque, na realidade, meu caro leitor, a oposição absoluta “digital versus analógico” é falsa: uma boa qualidade de som envolve elementos dos dois formatos. O atual universo das transmissões de áudio está comprometido com ambos.

Na realidade, tanto o som analógico quanto o digital são idealizações, e cada gravação musical atualmente utiliza elementos analógicos e digitais. Gravações digitais partem de uma base analógica, que é convertida numa série numérica binária que é gravada. O resultado da gravação digital, por sua vez, é convertido em formato analógico para a reprodução.

Nosso mundo não é completamente digital. No que diz respeito à gravação de músicas, utilizamos tecnologias analógicas e digitais combinadas. O formato da reprodução, entretanto, vai determinar diferentes resultados para o ouvido humano. E a partir daí, caro leitor, cada um faz a sua escolha. Eu ainda prefiro o vinil. Em toda conversão, por mais imperceptível que seja, acontece perda de qualidades acústicas essenciais para os amantes da música integral e fiel as intenções de seus autores e interpretes.

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-retorno-do-vinil-e-a-oposicao-entre-digital-e-analogico