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quarta-feira, 8 de novembro de 2017
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
15 de outubro, dia do professor: há o que comemorar?
por Américo Souza
Sempre achei que ser professor é mais do que pertencer a uma categoria profissional. Tão pouco considero que seja um sacerdócio, ou uma vocação abnegada de pessoas iluminadas. O que significa então ser professor? Esta é a pergunta que se instalou em minha cabeça há 15 anos, quando iniciei na docência. Ainda não tenho uma resposta precisa para oferecer, mas gostaria de compartilhar aqui algumas reflexões que me fazem acreditar que estou mais próximo de tê-la.
Costumo pensar que eu caí na docência por acaso, que o que eu queria mesmo, quando ingressei no Curso de Licenciatura em História, foragido da Engenharia, era ser um oráculo que falasse frases belas e de efeito, que todo mundo achasse o máximo. Ser um pesquisador brilhante, agente de descobertas que mudariam a forma como pensamos a trajetória histórica do Brasil e do mundo, esse era o meu pretencioso sonho de calouro.
Sim, eu já fui um abestado, talvez tenha sido o maior de todos.
Naquele tempo ser professor apresentava-se a mim como algo que exigia um sacrifício altruísta do qual eu não era capaz.
Guardava comigo muito respeito e admiração pelos meus professores, mas
guardava também, seus lamentos pelas condições de trabalho desfavoráveis: infraestrutura comprometida, ambiente de trabalho desconfortável, parcos recursos financeiros, limitações de materiais didáticos-pedagógicos e tecnológicos, o peso da burocratização, o desinteresse da maioria dos estudantes, dentre outras. Não me concebia capaz de enfrentar tudo isso. No entanto, compelido pelo previsível fracasso do idílio primeiro e pela necessidade do vil metal, ministrei minhas primeiras aulas em março de 2000, no Curso de História do Campus de Araguaína-TO da então UNITINS, hoje UFTO,
Passados 15 anos, posso dizer-lhes que sou aquele professor que adora o período de férias, quando os estudantes desaparecem e tudo se aquieta, como a calmaria que se segue à tempestade. Os primeiros dias são de um alívio regenerador, os demais de uma sofreguidão ansiosa, quase uma crise de abstinência; desejo inconteste de que as aulas recomecem: a gente não sofre de emoções, sofre de retórica, aprendi um dia desses.
Pois bem, hoje me sinto – e me sinto feliz, importa dizer – mais professor do que historiador. Por que me sinto assim? Esta é a segunda pergunta que mais escuto (a primeira é se a atividade que pedi à turma vai valer ponto), e a que mais faço a mim mesmo.
O discurso pedagógico dominante no senso comum responsabiliza em demasia os professores quanto à prática pedagógica e à qualidade de ensino. Embora isso apenas reflita a realidade de um sistema centrado na figura do professor como condutor visível da ação educativa (algo que precisamos mudar com urgência), reflete, também, como a sociedade atual afeta a educação formal (escolar e universitária), transferindo a esta e, principalmente, aos professores, um número cada vez maior de funções, para as quais muitas vezes não estamos preparados e, muitas vezes, são funções não relacionadas diretamente com a nossa profissão. É preciso ter clareza das funções do professor para não se sujeitar à desprofissionalização.
A partir de minha experiência individual e particular como docente percebo que, para além da complexidade inerente à docência, ao estar em sala de aula (este universo plural, de múltiplos desejos, expectativas, afetos, dores e prazeres), colocam sobre os nossos ombros uma carga extra de responsabilidade, que, em muitos aspectos resulta do abandono que as famílias e a sociedade dedicam às crianças e aos jovens, para os quais já não têm tempo, nem paciência e, por isso mesmo, delegam ao outro incumbências que são suas.
Tudo bem, você deve estar pensando, mas o que isso me diz sobre o “sentir-se feliz” mencionado anteriormente? Isso diz muita coisa, acredite. Muito embora a sociedade e em especial as famílias devam assumir suas reponsabilidades educativas, esse movimento de hiper-responsabilização dos professores tem algo a nos ensinar. A vida não existe como uma engrenagem perfeita, com cada peça exercendo sua função e nada mais que isso. Na vida a regência maior é feita pelo imponderável e não pelo previsível. Compreender e aceitar esta realidade é difícil. Por isso ficamos doentes de
tanto buscar uma harmonia plena, que não existe.
O trabalho do professor, como eu o concebo, é uma ação transformadora tanto objetiva, quanto subjetiva, revestido de peculiaridades que lhes são próprias. Devemos ensinar história, matemática, engenharia, agronomia, mas também devemos provocar em nossos estudantes reflexões sobre a vida, sobre suas dores e delícias. Em outras palavras, assim como não devemos nos deixar sobrecarregar assumindo responsabilidades que são de outros, seguramente não podemos cair da esparrela de formar crianças e jovens para que atinjam metas objetivas e estreitas, como passar no ENEM, ou ingressar bem no mercado de trabalho. Não podemos empobrecer o universo.
Estou em pleno acordo com o filósofo Mário Sérgio Cortella, quando este afirma que todo professor íntegro (que o é por inteiro) leciona por amor. Não por amor ao trabalho, como já insinuou um certo político, mas por amor à ideia de que gente foi feita para ser feliz, ou, como disse Caetano Veloso, “para brilhar e não para morrer de fome”.
Por isso mesmo não acredito em uma docência que não sofra da incapacidade de achar que as coisas são como são e não há alternativas. Mudar o modo como as coisas são é, ou pelo menos deveria ser, o princípio (fundamento), o meio (método) e o fim (objetivo) da prática docente.
A educação é um espaço de conflitos, rejeições, antipatias, paixões, adesões, medos e sabores. Por isso a prática docente exala humanidade e precariedade. A criação e a recriação do conhecimento não estão apenas em falar ou fazer coisas prazerosas, mas, principalmente em falar e fazer as coisas com prazer. Quando um educador encontra alegria em seu ofício, ele inspira interesse pelo que ensina e isso o faz feliz.
Isso me faz feliz, porque renova em mim a esperança de que o mundo pode ser um lugar. Há quem diga que, em se tratando da realidade educacional brasileira, esta esperança é uma tolice. Como se ter esperança se temos que ministrar aulas em salas precárias e lotadas, se não há os recursos técnicos necessários, sem um salário suficiente, sem a necessária valorização pela sociedade? Pois bem, é justamente em condições adversas que a esperança se faz ainda mais necessária, mesmo
imprescindível. Só se desiste de algo, ou de alguém, quando morre a esperança. Se não posso desistir da docência, igualmente não posso perder a esperança de que ela pode sim modificar as pessoas e as coisas. Como bem disse Belchior, “Amar e mudar as coisas, me interessa mais”.
Por fim, em resposta à pergunta que nomeou e inspirou este texto eu digo: sim há o que comemorar. Há que se celebrar a persistência da esperança em poder fazer do mundo um lugar melhor do que é hoje.
Sempre achei que ser professor é mais do que pertencer a uma categoria profissional. Tão pouco considero que seja um sacerdócio, ou uma vocação abnegada de pessoas iluminadas. O que significa então ser professor? Esta é a pergunta que se instalou em minha cabeça há 15 anos, quando iniciei na docência. Ainda não tenho uma resposta precisa para oferecer, mas gostaria de compartilhar aqui algumas reflexões que me fazem acreditar que estou mais próximo de tê-la.
Costumo pensar que eu caí na docência por acaso, que o que eu queria mesmo, quando ingressei no Curso de Licenciatura em História, foragido da Engenharia, era ser um oráculo que falasse frases belas e de efeito, que todo mundo achasse o máximo. Ser um pesquisador brilhante, agente de descobertas que mudariam a forma como pensamos a trajetória histórica do Brasil e do mundo, esse era o meu pretencioso sonho de calouro.
Sim, eu já fui um abestado, talvez tenha sido o maior de todos.
Naquele tempo ser professor apresentava-se a mim como algo que exigia um sacrifício altruísta do qual eu não era capaz.
Guardava comigo muito respeito e admiração pelos meus professores, mas
guardava também, seus lamentos pelas condições de trabalho desfavoráveis: infraestrutura comprometida, ambiente de trabalho desconfortável, parcos recursos financeiros, limitações de materiais didáticos-pedagógicos e tecnológicos, o peso da burocratização, o desinteresse da maioria dos estudantes, dentre outras. Não me concebia capaz de enfrentar tudo isso. No entanto, compelido pelo previsível fracasso do idílio primeiro e pela necessidade do vil metal, ministrei minhas primeiras aulas em março de 2000, no Curso de História do Campus de Araguaína-TO da então UNITINS, hoje UFTO,
Passados 15 anos, posso dizer-lhes que sou aquele professor que adora o período de férias, quando os estudantes desaparecem e tudo se aquieta, como a calmaria que se segue à tempestade. Os primeiros dias são de um alívio regenerador, os demais de uma sofreguidão ansiosa, quase uma crise de abstinência; desejo inconteste de que as aulas recomecem: a gente não sofre de emoções, sofre de retórica, aprendi um dia desses.
Pois bem, hoje me sinto – e me sinto feliz, importa dizer – mais professor do que historiador. Por que me sinto assim? Esta é a segunda pergunta que mais escuto (a primeira é se a atividade que pedi à turma vai valer ponto), e a que mais faço a mim mesmo.
O discurso pedagógico dominante no senso comum responsabiliza em demasia os professores quanto à prática pedagógica e à qualidade de ensino. Embora isso apenas reflita a realidade de um sistema centrado na figura do professor como condutor visível da ação educativa (algo que precisamos mudar com urgência), reflete, também, como a sociedade atual afeta a educação formal (escolar e universitária), transferindo a esta e, principalmente, aos professores, um número cada vez maior de funções, para as quais muitas vezes não estamos preparados e, muitas vezes, são funções não relacionadas diretamente com a nossa profissão. É preciso ter clareza das funções do professor para não se sujeitar à desprofissionalização.
A partir de minha experiência individual e particular como docente percebo que, para além da complexidade inerente à docência, ao estar em sala de aula (este universo plural, de múltiplos desejos, expectativas, afetos, dores e prazeres), colocam sobre os nossos ombros uma carga extra de responsabilidade, que, em muitos aspectos resulta do abandono que as famílias e a sociedade dedicam às crianças e aos jovens, para os quais já não têm tempo, nem paciência e, por isso mesmo, delegam ao outro incumbências que são suas.
Tudo bem, você deve estar pensando, mas o que isso me diz sobre o “sentir-se feliz” mencionado anteriormente? Isso diz muita coisa, acredite. Muito embora a sociedade e em especial as famílias devam assumir suas reponsabilidades educativas, esse movimento de hiper-responsabilização dos professores tem algo a nos ensinar. A vida não existe como uma engrenagem perfeita, com cada peça exercendo sua função e nada mais que isso. Na vida a regência maior é feita pelo imponderável e não pelo previsível. Compreender e aceitar esta realidade é difícil. Por isso ficamos doentes de
tanto buscar uma harmonia plena, que não existe.
O trabalho do professor, como eu o concebo, é uma ação transformadora tanto objetiva, quanto subjetiva, revestido de peculiaridades que lhes são próprias. Devemos ensinar história, matemática, engenharia, agronomia, mas também devemos provocar em nossos estudantes reflexões sobre a vida, sobre suas dores e delícias. Em outras palavras, assim como não devemos nos deixar sobrecarregar assumindo responsabilidades que são de outros, seguramente não podemos cair da esparrela de formar crianças e jovens para que atinjam metas objetivas e estreitas, como passar no ENEM, ou ingressar bem no mercado de trabalho. Não podemos empobrecer o universo.
Estou em pleno acordo com o filósofo Mário Sérgio Cortella, quando este afirma que todo professor íntegro (que o é por inteiro) leciona por amor. Não por amor ao trabalho, como já insinuou um certo político, mas por amor à ideia de que gente foi feita para ser feliz, ou, como disse Caetano Veloso, “para brilhar e não para morrer de fome”.
Por isso mesmo não acredito em uma docência que não sofra da incapacidade de achar que as coisas são como são e não há alternativas. Mudar o modo como as coisas são é, ou pelo menos deveria ser, o princípio (fundamento), o meio (método) e o fim (objetivo) da prática docente.
A educação é um espaço de conflitos, rejeições, antipatias, paixões, adesões, medos e sabores. Por isso a prática docente exala humanidade e precariedade. A criação e a recriação do conhecimento não estão apenas em falar ou fazer coisas prazerosas, mas, principalmente em falar e fazer as coisas com prazer. Quando um educador encontra alegria em seu ofício, ele inspira interesse pelo que ensina e isso o faz feliz.
Isso me faz feliz, porque renova em mim a esperança de que o mundo pode ser um lugar. Há quem diga que, em se tratando da realidade educacional brasileira, esta esperança é uma tolice. Como se ter esperança se temos que ministrar aulas em salas precárias e lotadas, se não há os recursos técnicos necessários, sem um salário suficiente, sem a necessária valorização pela sociedade? Pois bem, é justamente em condições adversas que a esperança se faz ainda mais necessária, mesmo
imprescindível. Só se desiste de algo, ou de alguém, quando morre a esperança. Se não posso desistir da docência, igualmente não posso perder a esperança de que ela pode sim modificar as pessoas e as coisas. Como bem disse Belchior, “Amar e mudar as coisas, me interessa mais”.
Por fim, em resposta à pergunta que nomeou e inspirou este texto eu digo: sim há o que comemorar. Há que se celebrar a persistência da esperança em poder fazer do mundo um lugar melhor do que é hoje.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
terça-feira, 29 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Procuro Saber
Hermínio Bello de Carvalho
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| Herminio Bello de Carvalho |
A discussão me atrai, sobretudo porque ainda não a vi tratada pelo seu viés cultural. Desde menino sou atraído por biografias, autorizadas ou não. E também por autobiografias. Fico arrepiado em lembrar o que Ruy Castro passou com seu livro sobre Garrincha, interditado pelas filhas do jogador. E agora me deparo com a notícia de que a biografia de Noel Rosa continua interditada pela sua família, herdeira de sua história. Tão logo surgiram rumores de que o Roberto Carlos iria judicialmente retirar de circulação a sua bela biografia, tratei de comprar logo uns três exemplares. Ótimo e respeitoso livro, por sinal.
A biografia de Clementina de Jesus está sendo negociada com seus “herdeiros”, uma nova profissão a ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho.
Mas vamos lá, ao tal viés cultural. Foi com o pseudônimo de Quincas Laranjeiras, violonista muito admirado por Villa-Lobos, que Sergio Cabral iniciou sua carreira de biógrafo tendo Pixinguinha como foco de sua pesquisa. Contextualizemos: 1978, a Presidência da República era ocupada pelo General Ernesto Geisel, Nei Braga era o Ministro da Educação e Cultura e a Funarte, recém-fundada, tinha na Presidência o escritor José Candido de Carvalho (“O Coronel e o lobisomem”) e Roberto Parreira na direção executiva.
Nessa mesma época o Macalé e o Sergio Ricardo pensaram numa sociedade sem fins lucrativos a que chamamos Sombrás: Tom Jobim foi eleito presidente e eu o seu vice. E nessa mesma época o Albino Pinheiro inventou o Seis e Meia, e me levou para estruturar artisticamente o projeto. Passo ao largo dessa história, já bastante conhecida (ou não?), reduzindo-a ao essencial: inventei um Projeto Pixinguinha, que outra coisa não era senão um macro filhote do “Seis e meia” do Albino, e que a Funarte adotou como uma espécie de carro-chefe graças à visão do Roberto Parreira, faça-se justiça a ele. Acabei alocado numa Assessoria para Projetos Especiais da Funarte, e a história toma outro rumo: pensei num projeto de apoio à pesquisa e conseqüente publicação de biografias.
A Funarte já tinha em sua equipe o pesquisador Ari Vasconcellos. Deve-se a ele, bem antes de minha entrada na Instituição, a edição de livros importantíssimos como “Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira”, de Jota Efegê; “Ary Barroso”, de Mário de Moraes; “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto; “Na roda de samba”, um clássico de Francisco Guimarães, o celebrado “Vagalume”; “Chiquinha Gonzaga”, de Marisa Lira e “Samba”, de Orestes Barbosa. Não foi pouca coisa, não.
Sobretudo se levarmos em conta que Ari já publicara em 1964 um alentado “Panorama da Música Brasileira”, em dois volumes – e em 1977 o “Raízes da Música Popular Brasileira”. Trabalhava muito esse Ari Vasconcelos. Quando Carlos Lacerda assumiu a governança do Estado, instalou o Museu da Imagem e do Som, instituição idealizada por Mauricio Quadros, que foi nomeado primeiro diretor daquela Casa.
A Funarte já tinha em sua equipe o pesquisador Ari Vasconcellos. Deve-se a ele, bem antes de minha entrada na Instituição, a edição de livros importantíssimos como “Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira”, de Jota Efegê; “Ary Barroso”, de Mário de Moraes; “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto; “Na roda de samba”, um clássico de Francisco Guimarães, o celebrado “Vagalume”; “Chiquinha Gonzaga”, de Marisa Lira e “Samba”, de Orestes Barbosa. Não foi pouca coisa, não.
Sobretudo se levarmos em conta que Ari já publicara em 1964 um alentado “Panorama da Música Brasileira”, em dois volumes – e em 1977 o “Raízes da Música Popular Brasileira”. Trabalhava muito esse Ari Vasconcelos. Quando Carlos Lacerda assumiu a governança do Estado, instalou o Museu da Imagem e do Som, instituição idealizada por Mauricio Quadros, que foi nomeado primeiro diretor daquela Casa.
E quem soprou no ouvido de Mauricio a ideia dos depoimentos gravados pelo MIS?
Nosso Ari Vasconcellos. Mas não vamos esquecer que o rancoroso e talentosíssimo J. Ramos Tinhorão já estava na área desde 1966, e o Jornal do Brasil, façamos justiça, tinha uma equipe de responsabilidade abordando assuntos da música popular . E lá militava o jovem Sergio Cabral, ainda sem nenhum livro publicado – e aí temos que retornar ao assunto Funarte, porque só bem depois ela institucionalizaria o Projeto Lucio Rangel de Monografias.
Ela, a Funarte, estava ainda provisoriamente instalada no Museu Nacional de Belas Artes. O “Pixinguinha, vida e obra” não só inaugurava a carreira de biografo de Sergio Cabral, como também abriu caminho para a edição do “Filho de Ogun Bexinguento” – livro da dupla Marilia T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho, menção honrosa do mesmo concurso nacional de monografias que premiara, com justiça, nosso grande Sergio.
O projeto Lucio Rangel de Monografias viria no rastro do sucesso de outro Projeto, o Pixinguinha. E aí sim a coisa tomou vulto: foram 30 (trinta!) títulos publicados, uma comissão de críticos e pesquisadores escolhendo os temas que mereceriam sofrer abordagem. Havia uma linha conceitual direcionando as escolhas: vamos priorizar as figuras marginais de nossa cultura, tipo Assis Valente e Wilson Batista, para ficarmos em apenas dois exemplos. Peraí, lembremos mais: Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Cartola, Candeia, Garoto, Radamés Gnattali.
Passaram-se os tempos, o filão ganhou musculatura. Mas a coisa foi ficando mais difícil ao surgir a tal categoria a que já me referi, e a ser reconhecida pelo ministério do Trabalho: a do “herdeiro”.
Essa figura que surge das sombras para, de alguma forma, levar alguma vantagem pecuniária em cima de alguém que se dedique a escarafunchar a nossa cultura. Essa figura sinistra tem sim o poder de embargar um livro.
Ela, a Funarte, estava ainda provisoriamente instalada no Museu Nacional de Belas Artes. O “Pixinguinha, vida e obra” não só inaugurava a carreira de biografo de Sergio Cabral, como também abriu caminho para a edição do “Filho de Ogun Bexinguento” – livro da dupla Marilia T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho, menção honrosa do mesmo concurso nacional de monografias que premiara, com justiça, nosso grande Sergio.
O projeto Lucio Rangel de Monografias viria no rastro do sucesso de outro Projeto, o Pixinguinha. E aí sim a coisa tomou vulto: foram 30 (trinta!) títulos publicados, uma comissão de críticos e pesquisadores escolhendo os temas que mereceriam sofrer abordagem. Havia uma linha conceitual direcionando as escolhas: vamos priorizar as figuras marginais de nossa cultura, tipo Assis Valente e Wilson Batista, para ficarmos em apenas dois exemplos. Peraí, lembremos mais: Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Cartola, Candeia, Garoto, Radamés Gnattali.
Passaram-se os tempos, o filão ganhou musculatura. Mas a coisa foi ficando mais difícil ao surgir a tal categoria a que já me referi, e a ser reconhecida pelo ministério do Trabalho: a do “herdeiro”.
Essa figura que surge das sombras para, de alguma forma, levar alguma vantagem pecuniária em cima de alguém que se dedique a escarafunchar a nossa cultura. Essa figura sinistra tem sim o poder de embargar um livro.
Enfim: aonde quero chegar?
Como sou um bestalhão e ingênuo, continuo acreditando em certas instituições. Um dia, um “herdeiro” (ou meio herdeiro) de Mãe Quelé foi aos jornais declarar que eu havia ficado com o espólio de Clementina, daí a filha dela estar morrendo à mingua, sem qualquer assistência.
Ele, o difamador, ostentava corrente de ouro e navegava pela vida a bordo, se não me engano, de uma Mercedes Benz. Não que ele tenha usufruído esses bens às custas de Quelé, coitada: já velhinha, sobrevivia às custas de shows em casas noturnas pequenas, e não havia como intervir na situação. Clementina era território com diversos donos, o que se podia fazer era às escondidas. Essa história, eu sei, ainda vai sair em livro.
Quem se sentir prejudicado por certo irá atrás do “prejuízo” ao ler esse final inglório da grande Dama. Quando foi publicada a matéria citada no parágrafo anterior, fiz o que devia: mandei uma carta ao jornal, que se negou a publicá-la. O editor do caderno explicava que “não queria criar polêmica”. Ou seja: que eu me conformasse com a difamação. Fui pro computador, escrevi um livreco sobre o assunto, o editei às minhas custas e mandei para alguns amigos. Nenhuma nota nos jornais. Mas, para muitos, esse meu retrato desfocado e cheio de estrias na alma terá me causado danos.
Fico à vontade para tocar no assunto: o “Timoneiro”, meu perfil biográfico assinado por Alexandre Pavan, jamais sofreu interferência de minha parte em sua elaboração, e só o li depois de publicado. Fui sim entrevistado por ele diversas vezes, para desfazer dúvidas sobre episódios controversos como o Projeto Pixinguinha. Está longe de ser uma biografia “chapa branca”.
Até porque não havia nenhum corpo dentro do armário pra se esconder: as portas foram abertas, sem fantasias.
Ele, o difamador, ostentava corrente de ouro e navegava pela vida a bordo, se não me engano, de uma Mercedes Benz. Não que ele tenha usufruído esses bens às custas de Quelé, coitada: já velhinha, sobrevivia às custas de shows em casas noturnas pequenas, e não havia como intervir na situação. Clementina era território com diversos donos, o que se podia fazer era às escondidas. Essa história, eu sei, ainda vai sair em livro.
Quem se sentir prejudicado por certo irá atrás do “prejuízo” ao ler esse final inglório da grande Dama. Quando foi publicada a matéria citada no parágrafo anterior, fiz o que devia: mandei uma carta ao jornal, que se negou a publicá-la. O editor do caderno explicava que “não queria criar polêmica”. Ou seja: que eu me conformasse com a difamação. Fui pro computador, escrevi um livreco sobre o assunto, o editei às minhas custas e mandei para alguns amigos. Nenhuma nota nos jornais. Mas, para muitos, esse meu retrato desfocado e cheio de estrias na alma terá me causado danos.
Fico à vontade para tocar no assunto: o “Timoneiro”, meu perfil biográfico assinado por Alexandre Pavan, jamais sofreu interferência de minha parte em sua elaboração, e só o li depois de publicado. Fui sim entrevistado por ele diversas vezes, para desfazer dúvidas sobre episódios controversos como o Projeto Pixinguinha. Está longe de ser uma biografia “chapa branca”.
Até porque não havia nenhum corpo dentro do armário pra se esconder: as portas foram abertas, sem fantasias.
Contraditoriamente, respeito a opinião de Gilberto Gil e, agora, do Chico Buarque quando se refere ao direito de privacidade. Se um “biógrafo” se aventurar a escrever a biografia de uma pessoa que seja, por natureza, polêmica – sabe-se o resultado.
Vai escarafunchar os lençóis amarrotados do biografado, com quem dormiu ao longo da vida, vasculhar gavetas metafóricas em busca de pistas que o conduzam a aspectos, digamos, “degradantes” da personalidade enfocada, buscar guimbas de maconha nos cinzeiros, drogas camufladas nas meias – toda sorte de “desvios” que fazem, sim, a delícia de um tipo de leitor que existe no mercado – leitor que nunca irá, por exemplo, comprar a monografia de Paulo da Portela ou Radamés Gnattali.
Mas esse direito à privacidade que ganhe, dentro dos fóruns legais, musculatura suficiente que permita ao difamado defender-se amplamente e ressarcir-se dos danos causados à sua vida pessoal. A biografia do político José Dirceu, recentemente publicada, mereceu uma análise na revista Piauí que destrói a credibilidade do autor do trabalho, tal a soma de erros apontados naquele trabalho. Não sei que rumo tomou o caso. Não tenho qualquer simpatia pelo biografado, diga-se de passagem.
Mas temos que nos reconhecer como personagens que fazem parte desse mundinho a que se convencionou rotular de “pessoas públicas”, em torno das quais grassam histórias mergulhadas em espessas nuvens de maledicências – e é esse o preço, afinal, eu se paga quando somos, por natureza, instigadores e fadados a mergulhar, sem proteção, nas águas escuras onde a nossa cultura se charfunda. E aí viramos uma espécie de mictório público, onde qualquer um pode mijar em cima, sem que alguém saque um talonário de multas para punir o infrator. Experimente entrar numa banca de jornais e veja o número de revistinhas ordinárias especializadas em explorar esse veio que existe desde que o mundo é mundo. Um culto ao narcisismo que beira o ridículo.
Lembro da “Coluna da Candinha” na extinta Revista do Rádio, década de 50, auge da popularidade do rádio. Vivi isso na pele: aos 16 anos será repórter de uma revistinha de rádio, e publiquei uma matéria sensacionalista, que revelavam segredo guardado a sete chaves: quem era o grande amor de Marlene. Quem? A mãe dela. Mais ridículo e ingênuo impossível.
Enfim: que se processe o caluniador. Pague-se esse preço: caso contrário, estaremos sendo censores.
Vai escarafunchar os lençóis amarrotados do biografado, com quem dormiu ao longo da vida, vasculhar gavetas metafóricas em busca de pistas que o conduzam a aspectos, digamos, “degradantes” da personalidade enfocada, buscar guimbas de maconha nos cinzeiros, drogas camufladas nas meias – toda sorte de “desvios” que fazem, sim, a delícia de um tipo de leitor que existe no mercado – leitor que nunca irá, por exemplo, comprar a monografia de Paulo da Portela ou Radamés Gnattali.
Mas esse direito à privacidade que ganhe, dentro dos fóruns legais, musculatura suficiente que permita ao difamado defender-se amplamente e ressarcir-se dos danos causados à sua vida pessoal. A biografia do político José Dirceu, recentemente publicada, mereceu uma análise na revista Piauí que destrói a credibilidade do autor do trabalho, tal a soma de erros apontados naquele trabalho. Não sei que rumo tomou o caso. Não tenho qualquer simpatia pelo biografado, diga-se de passagem.
Mas temos que nos reconhecer como personagens que fazem parte desse mundinho a que se convencionou rotular de “pessoas públicas”, em torno das quais grassam histórias mergulhadas em espessas nuvens de maledicências – e é esse o preço, afinal, eu se paga quando somos, por natureza, instigadores e fadados a mergulhar, sem proteção, nas águas escuras onde a nossa cultura se charfunda. E aí viramos uma espécie de mictório público, onde qualquer um pode mijar em cima, sem que alguém saque um talonário de multas para punir o infrator. Experimente entrar numa banca de jornais e veja o número de revistinhas ordinárias especializadas em explorar esse veio que existe desde que o mundo é mundo. Um culto ao narcisismo que beira o ridículo.
Lembro da “Coluna da Candinha” na extinta Revista do Rádio, década de 50, auge da popularidade do rádio. Vivi isso na pele: aos 16 anos será repórter de uma revistinha de rádio, e publiquei uma matéria sensacionalista, que revelavam segredo guardado a sete chaves: quem era o grande amor de Marlene. Quem? A mãe dela. Mais ridículo e ingênuo impossível.
Enfim: que se processe o caluniador. Pague-se esse preço: caso contrário, estaremos sendo censores.
E a censura nos conduz a uma outra vertente que dela emana: a auto-censura. Proibimo-nos de
expressar nossas verdades. E logo nós, artistas, que vivemos da invenção, que usufruímos da vida o
que ela nos oferece do bom e também do pior. Derrapamos, às vezes, quando nos sentimos
agredidos – ou quando agridem uma pessoa a quem devotamos admiração e respeito.
Nelson Motta teria violado esse direito à privacidade a que se referem Gilberto Gil e Chico Buarque ao escrever a biografia de Tim Maia? E a vida daquele cantor e compositor poderia ser abordada de outra forma? E Cazuza? Em nenhum momento a família interditou qualquer obra que enfocasse a vida pessoal do compositor.
Enfim: biografias só autorizadas é censura, sim. É censura uma pessoa pública (ou não) ser objeto de um livro, e negar ao autor o direito de publicá-lo. Pior ainda: é querer intervir em sua elaboração, tornando a obra uma biografia “chapa branca”.
Quando falei do Projeto Lucio Rangel de Monografias, foi porque encontrei minha querida Ligia Santos, filha do legendário Donga (“Pelo telefone”) – uma das poucas fontes primárias que ainda podem falar de alguns contemporâneos de seu pai – como é o caso de João da Bahiana. As “fontes primárias” (aquelas que conviveram diretamente com figuras já desaparecidas) estão rareando. Quase todos os contemporâneos de Mário de Andrade já se foram. Há pouco, perdemos o cenógrafo Fernando Pamplona, aos 87 anos. Quem melhor escreveria sobre Joãosinho Trinta, seu discípulo, e a quem considerava um gênio?
Entendo que o assunto é polêmico, e que a discussão, em nenhum momento, privilegiou esse viés cultural que tanto defendo.
Aguardemos os livros sobre Wilson Batista (Rodrigo Alzuguir, o autor) e um outro sobre Clementina: “Quelé: a voz da cor”, de Felipe Castro, Janaina Marquesini, Luana Costa, Maria Kobayashi e Raquel Munhoz. Aposto nesses jovens pesquisadores.
Termino com uma recomendação: não percam o musical “Clementina, cadê você”. O autor? Pedro Murad. A direção, de Duda Maia.
Imperdível.
Nelson Motta teria violado esse direito à privacidade a que se referem Gilberto Gil e Chico Buarque ao escrever a biografia de Tim Maia? E a vida daquele cantor e compositor poderia ser abordada de outra forma? E Cazuza? Em nenhum momento a família interditou qualquer obra que enfocasse a vida pessoal do compositor.
Enfim: biografias só autorizadas é censura, sim. É censura uma pessoa pública (ou não) ser objeto de um livro, e negar ao autor o direito de publicá-lo. Pior ainda: é querer intervir em sua elaboração, tornando a obra uma biografia “chapa branca”.
Quando falei do Projeto Lucio Rangel de Monografias, foi porque encontrei minha querida Ligia Santos, filha do legendário Donga (“Pelo telefone”) – uma das poucas fontes primárias que ainda podem falar de alguns contemporâneos de seu pai – como é o caso de João da Bahiana. As “fontes primárias” (aquelas que conviveram diretamente com figuras já desaparecidas) estão rareando. Quase todos os contemporâneos de Mário de Andrade já se foram. Há pouco, perdemos o cenógrafo Fernando Pamplona, aos 87 anos. Quem melhor escreveria sobre Joãosinho Trinta, seu discípulo, e a quem considerava um gênio?
Entendo que o assunto é polêmico, e que a discussão, em nenhum momento, privilegiou esse viés cultural que tanto defendo.
Aguardemos os livros sobre Wilson Batista (Rodrigo Alzuguir, o autor) e um outro sobre Clementina: “Quelé: a voz da cor”, de Felipe Castro, Janaina Marquesini, Luana Costa, Maria Kobayashi e Raquel Munhoz. Aposto nesses jovens pesquisadores.
Termino com uma recomendação: não percam o musical “Clementina, cadê você”. O autor? Pedro Murad. A direção, de Duda Maia.
Imperdível.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Eu não peço desculpas..
Por Marcus Vinicius
Pois "num é" que Jorge Mautner e Caetano Veloso já não pediam desculpas. O pessoal fez escola, pois por aqui, o rapaz também não pede desculpas. No entanto o cronista pediu:
Eu não peço desculpas (Caetano Veloso e Jorge Mautner)
Eu não peço desculpa
E nem peço perdão
Não, não é minha culpa
Essa minha obsessão
Já não agüento mais
Ver o meu coração
Como um vermelho balão
Rolando e sangrando,
Chutado pelo chão
Psicótico,
Neurótico,
Todo errado...
Só porque eu quero alguém
Que fique vinte e quatro horas do meu lado
No meu coração, eternamente colado...
No meu coração, eternamente colado...
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Bahia com H (Denis Brian)
Por Alfredo Pessoa
Disco Velô, laçamento em Fortaleza. Caetano Veloso no Paulo Sarasate, em 1984. A turnê foi lançada antes do Disco, portanto todas as composições com exceção de "Nine out of Ten" e "Comeu" eram inéditas. Caetano canta todo o disco e mescla com algumas conhecidas. No meio do show o tradicional banquinho e violão: Caetano dispara "Bahia com H", uma maravilha e já gravada por João Gilberto e depois por João, Caetano, Bethânia e Gil também gravaram no épico disco Brasil. No Velô tem ainda Podres Poderes, Língua, Grafiti, O Quereres, O Homem Velho e Shy Moon. Essa experiência de fazer o show antes do lançamento do disco requer coragem e confiança no público. Coragem e confiança que Caetano demonstrou no réveilon na mesma cidade de Fortaleza ao fazer o show apenas com banquinho e violão.
Disco Velô, laçamento em Fortaleza. Caetano Veloso no Paulo Sarasate, em 1984. A turnê foi lançada antes do Disco, portanto todas as composições com exceção de "Nine out of Ten" e "Comeu" eram inéditas. Caetano canta todo o disco e mescla com algumas conhecidas. No meio do show o tradicional banquinho e violão: Caetano dispara "Bahia com H", uma maravilha e já gravada por João Gilberto e depois por João, Caetano, Bethânia e Gil também gravaram no épico disco Brasil. No Velô tem ainda Podres Poderes, Língua, Grafiti, O Quereres, O Homem Velho e Shy Moon. Essa experiência de fazer o show antes do lançamento do disco requer coragem e confiança no público. Coragem e confiança que Caetano demonstrou no réveilon na mesma cidade de Fortaleza ao fazer o show apenas com banquinho e violão.
Bahia com H (Denis Brian)
G7M Am7 Am6 G7(9) Dm7/G G7(9) G7(b9)
Dá licença, dá licença, meu Senhor, dá licença, dá licença, pra yôyô.
C7M Bbº(13) Bm7/-5 E7(b9)
Eu sou amante da gostosa Bahia, porém,
Am7 Am6
Pra saber seu segredo serei baiano também.
Am7 Am6
Dá licença, de gostar um pouquinho só,
G7(9) Dm7/G G7(9) G7(b9)
A Bahia eu não vou roubar, tem dó!
C7M Bbº(13) Bm5M Bm6
Ah! Já disse um poeta que terra mais linda não há,
Am7 Bº Am7 D7 G7M
Isso é velho e do tempo em que já se escrevia Bahia com H!
Am7 Bº Am7 Am6
Deixa ver, com meus olhos de amante saudoso a Bahia do meu coração
Bbº(13) Bm5M
Deixa ver, baixa do Sapateiro Charriou, Barroquinha, Calçada, Tabuão!
Bbº(13) Am7 Am6
Sou um amigo que volta feliz pra teus braços abertos, Bahia!
Am7 A#º Bm7 Bº
Sou poeta e não quero ficar assim longe da tua magia!
Am7 Bº Am7
Deixa ver, teus sobrados, igrejas, teus santos, ladeiras,
Am6
E montes tal qual um postal.
F/G G7(b9) C7M Am7
Dá licença de rezar pro Senhor do Bonfim, Salve!
Cm6 Bm7 Bbº(13)
A Santa Bahia imortal, Bahia dos sonhos mil!
Am7 Bº Am7 D7 G7M F/G G7(b9)
Eu fico contente da vida, Em saber que Bahia é Brasil!
C7M Cm6 Bm7 Bbº(13)
Salve! A Santa Bahia imortal, Bahia dos sonhos mil!
Am7 Bº Am7 D7 G7M
Eu fico contente da vida, Em saber que Bahia é Brasil!
terça-feira, 7 de agosto de 2012
IÔ-IÔ - JOÃO NOGUEIRA
Via Bruno Perdigão
Nos 70 anos de Caetano uma música de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, supostamente feita para Caetano.
Iô-Iô ( João Nogueira e Paulo César Pinheiro)
Iô-iô você exalta a Bahia
porém nunca mais por lá ficou
e deu pra falar mal do Rio morando aos pés do redentor
Até que no início você parecia que era um bom rapaz
Mas com essa mania de estar todo dia em jornal: Falou demais
iô-iô olha o homem que é homem não muda que nem você mudou
Não cospe no prato que come
nem vai contra o povo que o sagrou
em que casa de marimbondo você foi mexer porque é falador
e agora só vai ser chamado de iô-iô
iô-iô que arapuca você colocou a carroça na frente dos bois
e macaco velho não põe a mão em cumbuca e você pôs
Você vive inventando moda
jogada pra estar sempre em cartaz
e é tanta conversa fiada que ninguém agüenta mais
agiu de má fé nas paradas
só que dessa vez ninguém engoliu
e cai numa mesma mancada que agora é uma boca de funil
ninguém mexe com quem tá quieto
ainda mais carioca que é gozador
e agora só vai ser chamado de iô-iô
Nos 70 anos de Caetano uma música de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, supostamente feita para Caetano.
Iô-Iô ( João Nogueira e Paulo César Pinheiro)
Iô-iô você exalta a Bahia
porém nunca mais por lá ficou
e deu pra falar mal do Rio morando aos pés do redentor
Até que no início você parecia que era um bom rapaz
Mas com essa mania de estar todo dia em jornal: Falou demais
iô-iô olha o homem que é homem não muda que nem você mudou
Não cospe no prato que come
nem vai contra o povo que o sagrou
em que casa de marimbondo você foi mexer porque é falador
e agora só vai ser chamado de iô-iô
iô-iô que arapuca você colocou a carroça na frente dos bois
e macaco velho não põe a mão em cumbuca e você pôs
Você vive inventando moda
jogada pra estar sempre em cartaz
e é tanta conversa fiada que ninguém agüenta mais
agiu de má fé nas paradas
só que dessa vez ninguém engoliu
e cai numa mesma mancada que agora é uma boca de funil
ninguém mexe com quem tá quieto
ainda mais carioca que é gozador
e agora só vai ser chamado de iô-iô
quinta-feira, 19 de abril de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
Jeito de Corpo - Caetano Veloso
Por Alfredo Pessoa
Registro: Disco Outras Palavras (1981), 31 anos desse trabalho de Caetano que inclui excelentes músicas como Rapte-me Camaleoa, Lua e Estrela, Outras Palavras, Gema, Sim/Não, Tem que Ser Você e a francesa Dans Mon île. Caetano era acompanhado a época por Perinho Santana, Tomás Improta, Arnaldo Brandão e Vinícius Cantuária (A Outra Banda da Terra). O disco também contou com a participação de Perinho Albuquerque, Jane Duboc e Jussara Silveira. Saindo dos stúdios de gravação desse trabalho, Cae soube da morte de John Lennon em 8 de dezembro de 1980.
Jeito de Corpo (Caetano Veloso)
Em7(b5) A7 Em7(b5)
Eu tô fazendo saber
A7 Gm7 C7(9) F7M
Vou saber fazer tudo de que eu sou a fins
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Logo eu cri que não crer era o vero crer
Gm7 C7(9) F7M Fm7 Bb7 Eb7M
Hoje oro sobre patins. Sampa na Boca do Rio
Dm7(b5) G7(b13) Cm7 Em7(b5) A7 Em7(b5)
O meu projeto Brasil. Perigas perder você
A7 Gm7 C7(9) F7M
Mas mesmo na deprê. Chama-se um Gilberto Gil
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Bode não dá pra entender. Torna a repetir
Gm7 C7(9) F7M
Transcende o marco dois mil
Fm7 Bb7 Eb7M Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Barco desvela esse mar. Delta desvenda esse ar
Bbm7 Eb7(9) Ab7M Abm7 Db7(9)
Não me digam que eu estou louco. É só um jeito de
Gm7 C7(9) Fm7 Bb7 Eb7M
corpo. Não precisa ninguém me acompanhar
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Eu sou Renato Aragão, santo trapalhão
Gm7 C7(9) F7M
Eu sou Muçum, sou Dedé
Em7(b5) A7 Em7(b5)
Sou Zacarias, carinho
A7
Pássaro no ninho
Gm7 C7(9) F7M Fm7 Bb7 Eb7M
Qual tu me vê na tevê. Falta aprender a mentir
Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Entro até numas por ti
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Minha identificação, registro geral
Gm7 C7(9) F7M Em7(b5) A7 Em7(b5)
Carece de revisão. Cara, careta, dedão
A7 Gm7 C7(9) F7M
Isso não é legal em frase de transição
Fm7 Bb7 Eb7M Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Sou celacanto do mar. Adolesce-----ndo solar
Bbm7 Eb7(9) Ab7M
Não pensem que é um pap o torto
Abm7 Db7(9) Gm7
É só um jeito de corpo
C7(9) Fm7 Bb7 Eb7M
Não precisa ninguém me acompanhar
Registro: Disco Outras Palavras (1981), 31 anos desse trabalho de Caetano que inclui excelentes músicas como Rapte-me Camaleoa, Lua e Estrela, Outras Palavras, Gema, Sim/Não, Tem que Ser Você e a francesa Dans Mon île. Caetano era acompanhado a época por Perinho Santana, Tomás Improta, Arnaldo Brandão e Vinícius Cantuária (A Outra Banda da Terra). O disco também contou com a participação de Perinho Albuquerque, Jane Duboc e Jussara Silveira. Saindo dos stúdios de gravação desse trabalho, Cae soube da morte de John Lennon em 8 de dezembro de 1980.
Jeito de Corpo (Caetano Veloso)
Em7(b5) A7 Em7(b5)
Eu tô fazendo saber
A7 Gm7 C7(9) F7M
Vou saber fazer tudo de que eu sou a fins
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Logo eu cri que não crer era o vero crer
Gm7 C7(9) F7M Fm7 Bb7 Eb7M
Hoje oro sobre patins. Sampa na Boca do Rio
Dm7(b5) G7(b13) Cm7 Em7(b5) A7 Em7(b5)
O meu projeto Brasil. Perigas perder você
A7 Gm7 C7(9) F7M
Mas mesmo na deprê. Chama-se um Gilberto Gil
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Bode não dá pra entender. Torna a repetir
Gm7 C7(9) F7M
Transcende o marco dois mil
Fm7 Bb7 Eb7M Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Barco desvela esse mar. Delta desvenda esse ar
Bbm7 Eb7(9) Ab7M Abm7 Db7(9)
Não me digam que eu estou louco. É só um jeito de
Gm7 C7(9) Fm7 Bb7 Eb7M
corpo. Não precisa ninguém me acompanhar
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Eu sou Renato Aragão, santo trapalhão
Gm7 C7(9) F7M
Eu sou Muçum, sou Dedé
Em7(b5) A7 Em7(b5)
Sou Zacarias, carinho
A7
Pássaro no ninho
Gm7 C7(9) F7M Fm7 Bb7 Eb7M
Qual tu me vê na tevê. Falta aprender a mentir
Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Entro até numas por ti
Em7(b5) A7 Em7(b5) A7
Minha identificação, registro geral
Gm7 C7(9) F7M Em7(b5) A7 Em7(b5)
Carece de revisão. Cara, careta, dedão
A7 Gm7 C7(9) F7M
Isso não é legal em frase de transição
Fm7 Bb7 Eb7M Dm7(b5) G7(b13) Cm7
Sou celacanto do mar. Adolesce-----ndo solar
Bbm7 Eb7(9) Ab7M
Não pensem que é um pap o torto
Abm7 Db7(9) Gm7
É só um jeito de corpo
C7(9) Fm7 Bb7 Eb7M
Não precisa ninguém me acompanhar
terça-feira, 6 de março de 2012
Chico, Caetano e a canção
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| Romulo Fróes |
Chico (2011), o mais recente lançamento de Chico Buarque, faz parte de um momento muito importante de sua discografia, em que incluo também As Cidades (1998) e Carioca (2006). Entre a gravação destes dois, ele concede a famosa entrevista a Fernando de Barros e Silva, em que discorre sobre um possível esgotamento histórico da canção. As músicas que compõem estes três álbuns parecem tomadas por este pensamento.
Chico inventa um personagem andarilho que aparece sempre na primeira faixa de cada disco, como se a cada trabalho saísse por aí para topar com as novidades do mundo. “Gostosa, quentinha, tapioca, o pregão abre o dia, hoje tem baile funk, tem samba no Flamengo, reverendo no palanque lendo o apocalipse (…)”, os versos de Carioca, canção que abre As Cidades, se desenvolvem sobre uma harmonia fendida que distende a melodia até o limite da nitidez. É difícil cantá-la, pois segue fluida, como que procurando seu prumo. E quando finalmente o encontra, já é tarde demais para compreendermos o seu desenho.
Ao iniciarmos de novo a melodia, não nos lembramos mais dela. Sem rima aparente, a letra conduz o personagem num travelling desorientado pela cidade. Dando liga a pessoas e acontecimentos distintos e sem tentar compreendê-los, vai descrevendo uma cidade e um cotidiano novos em sua música. Subúrbio, faixa que abre o álbum Carioca, avança ainda mais em direção a essa outra cidade, vai ao “avesso da montanha” onde “não tem brisa, não tem verdes-azuis, não tem frescura nem atrevimento”. Talvez espere encontrar nesse outro Rio novos caminhos para sua canção. Em Querido Diário, faixa que abre o disco novo, este andarilho adquire uma certa melancolia, não se encontra mais em sua própria cidade, que anda em contramão.
A movimentação que Chico imprime a este personagem movimenta também sua canção. Provoca nela um esgarçamento, em que a melodia é muitas vezes esticada até sua quase desintegração. A ponto de virar fala, mas ainda possível de ser cantada.
Sua obra recente parece encontrar um novo caminho para a sua música, mas encontra nele mesmo o adversário que dificulta sua plena realização. Chico sempre manteve certo distanciamento (admitido por ele em mais de uma entrevista) com a produção de seus discos. Talvez por isso nunca alcançaram a importância de suas canções. Todos conhecem Construção, poucos sabem dizer o nome de outras faixas que pertencem ao disco que leva este título, um dos mais importantes de sua carreira. Essa dualidade entre o compositor e o intérprete permanece nos trabalhos recentes, pois se as canções parecem apontar um novo caminho não só para sua obra, mas para a própria canção brasileira, nos discos elas regridem ao escalonamento um tanto simplista do seu produtor musical.
Luiz Cláudio Ramos, seu arranjador desde 1989, parece orientado por uma correção escolar, querendo consertar os ‘defeitos’ das composições de Chico, como em Dura na Queda, um dos mais belos e estranhos sambas de todo o seu repertório, escrito para Elza Soares e gravado por Chico em Carioca. Na gravação de Elza, sua linda melodia desliza como a personagem da canção, ‘desfila natural’ sobre uma pulsação cambaleante, com seu tempo forte camuflado. A gravação de Chico ‘corrige’ essa pulsação, revelando seu tempo forte e pondo a canção literalmente no chão. Os arranjos escritos por Ramos tendem ao fisionômico, enfraquecem as letras, numa tentativa de tradução inocente e anacrônica, como acontece em Querido Diário.
Ao se alcançar o verso “armou tocaia lá na curva do rio”, na busca de construir a imagem que a letra sugere, os instrumentos produzem sons que emulam água, pássaros, vento. Às vezes, o título é que determinará sua feição – dessa maneira, As Atrizes, faixa de Carioca, recebe tratamento orquestral típico dos musicais de cinema americano, numa redundância que nada contribui para a canção. Não há enfrentamento ali, um samba é apenas isto, um samba, uma valsa é uma valsa, um choro é um choro. Assim, Tipo um baião, outra faixa de Chico, perde a dubiedade estampada no título, e é finalmente transformada em um baião.
Francisco Bosco escreve em seu artigo O Artista e o Tempo que Chico atingiu o encontro perfeito entre forma e história e que soube manter e desenvolver sua forma, a certa distância formal da história. No mundo de hoje, talvez este distanciamento não seja mais possível em um projeto de renovação. Caetano, por sua vez, sempre ligado ao aqui e agora, quando parece ter simplesmente ignorado o presente, penso que houve um certo desvio em sua trajetória. Eu me refiro ao período de um pouco mais de uma década de colaboração com o músico e maestro Jaques Morelenbaum.
Caetano já disse que Morelenbaum fez com que perdesse muito do medo que tinha da música. Talvez isso explique o movimento em direção a uma produção mais sofisticada, de arranjos orquestrais extremamente formatados e sem espaços para improvisação, negando aquele saudável amadorismo sempre presente em sua obra. Longe dos experimentos tropicalistas de Rogério Duprat, próximo do que fez Dori Caymmi para Domingo (seu disco de estreia ao lado de Gal Costa) e, por que não notar, dos discos de Chico Buarque, ainda que com resultados muito superiores. Não por acaso seu canto se apura nesses trabalhos, parece querer acompanhar o aprimoramento técnico de sua banda. Discos que privilegiam o intérprete em detrimento do compositor se sucedem. Caetano vinha numa evolução que se configurava como um projeto de maturidade, quando esse processo é interrompido.
Cê (2006) e Zii e Zie (2009) trazem à cena um novo protagonista em seu trabalho, o guitarrista Pedro Sá, um dos nomes mais importantes de uma nova geração de artistas ainda pouco comentada. A banda montada por Pedro Sá com outros talentosos músicos desta geração (Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo), provocou uma transformação na sua canção. Parece óbvia essa afirmação, pois é claro que o som de um violão, uma guitarra, um violoncelo ou um cavaquinho, cada um com sua característica, muda nossa percepção. Mas não só o som do instrumento tem importância aqui. O modo como ele é captado e a manipulação do seu timbre através dos inúmeros equipamentos de um estúdio de gravação serão tão ou mais importantes. Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música.
A canção de Caetano nestes dois discos foi influenciada por este comportamento e é devido exatamente à nossa intimidade com sua obra que notamos mais claramente uma transformação. Se compararmos, por exemplo, com um de seus trabalhos mais celebrados, o álbum Transa, há de se notar diferenças na sua relação com os músicos. Mais do que pelas próprias canções apresentadas, a banda que gravou Transa parecia influenciada pelo comportamento e pela música produzida naquela época – era isso o que a motivava, na busca do som adequado às canções. Com a banda Cê (nome com que batizou sua banda atual), Caetano parece compor para o som que ela produz. Um som de rock, como o de Transa, mas menos desbundado que os anos 1970, mais sombrio, próximo de bandas como Pixies e Sonic Youth e que se mostrou perfeito para a leva de canções carregadas de raiva e frustração apresentadas em Cê.
Em Zii e Zie, 2º disco gravado com essa mesma banda, os sinais de renovação de Caetano ficam mais claros. Em Perdeu, que abre o disco, já é possível notar uma novidade. A canção, rasgada por um riff de guitarra, acompanhada em uníssono pelo baixo e pela bateria, confere à melodia uma rigidez quase mecânica, travando sua evolução, tornando-a menos nítida, quebrada, quase falada – o canto é áspero, diferente daquele a que nos acostumamos. É difícil saber o que diz a letra, as rimas estranhíssimas se desenvolvem fraturadas pelo groove da banda, trazendo um vocabulário inédito à sua lírica, mais erótico do que já foi, quase pornográfico, “(…) colheu, esticou, encolheu, matou, furou, f…, até ficar sem gosto. Ganhou, reganhou, bateu, levou, mamãe, perdeu, perdeu (…)”.
O encontro de Caetano com a nova geração de artistas e este novo comportamento em relação à música brasileira, acabou por encontrar e recuperar a carreira de Gal Costa. Gal há muito tempo fora dos estúdios e que havia se transformado numa intérprete burocrática de clássicos da MPB volta a ser a voz ideal para as experimentações de Caetano. Em Recanto (2011), disco mais recente da cantora produzido por ele e Moreno Veloso, Caetano se aprofunda ainda mais no trabalho dentro do estúdio. Apoiado quase totalmente sobre bases eletrônicas, em sua maioria programadas por Kassin (músico e produtor), Caetano compôs canções duras, impenetráveis, de letras um tanto desagradáveis e que modificaram o canto de Gal, tornando-o menos exuberante, de registro mais baixo, com notas graves desconhecidas até então. Tão belo quanto já foi. De uma beleza surgida de elementos comumente não reconhecidos como belo. Do tipo que Caetano sempre perseguiu e que voltou a aparecer em seus trabalhos recentes.
Se a canção vive mesmo uma crise e não tem a mesma relevância na transformação cultural do nosso país, é porque vivemos um tempo diferente, o que envolve questões que vão muito além do modo como nos relacionamos com ela. A pergunta pertinente, agora, é se ainda precisamos de canções. Chico e Caetano seguem ligados por suas diferenças, mas principalmente pela estreita relação que mantêm com a canção brasileira. Chico, acreditando ainda numa renovação através da composição. Caetano, voltando a se alinhar com o presente atrás dessa renovação. Talvez seja justamente pelo comportamento inalterado destes dois grandes artistas que ela ainda demonstre imensa vitalidade. O tempo, afinal, para Chico e Caetano, parece no fundo ser o mesmo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Dor de Cotovelo (Caetano Veloso)
Por Alfredo Pessoa
Esta música dá nome ao melhor trabalho de Elza Soares..."Do Cóccix até o Pescoço" produzido por Alê Siqueira. A "Dura na Queda" convidou Marcos Suzano, Zeca Assumpção, Zé Paulo Becker e Luiz Brasil para a base. Faltou somente seu companheiro de começo de estrada, Wilson da Neves. Pra cantar Façamos (Vamos Amar) com ela, Chico Buarque. Gravou, além de Chico, Gil e Caetano, José Miguel Wisnik, Ben Jor, Carlinhos Brown, Luis Melodia, Arnaldo Antunes e Marcelo Yuka.
Registro: Do Cóccix até o Pescoço. Maianga Discos, 2002.
Dor de Cotovelo (Caetano Veloso)
C7(9#) C7(b9)
F6 D7(b9) Bb/G D7(b9)
O ciúme dói nos cotovelos,
Bb/G C7(9) F7M F6
Na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés.
Am7 E7(b9) C/A C7M/A
Faz os músculos ficarem moles,
Esta música dá nome ao melhor trabalho de Elza Soares..."Do Cóccix até o Pescoço" produzido por Alê Siqueira. A "Dura na Queda" convidou Marcos Suzano, Zeca Assumpção, Zé Paulo Becker e Luiz Brasil para a base. Faltou somente seu companheiro de começo de estrada, Wilson da Neves. Pra cantar Façamos (Vamos Amar) com ela, Chico Buarque. Gravou, além de Chico, Gil e Caetano, José Miguel Wisnik, Ben Jor, Carlinhos Brown, Luis Melodia, Arnaldo Antunes e Marcelo Yuka.
Registro: Do Cóccix até o Pescoço. Maianga Discos, 2002.
Dor de Cotovelo (Caetano Veloso)
C7(9#) C7(b9)
F6 D7(b9) Bb/G D7(b9)
O ciúme dói nos cotovelos,
Bb/G C7(9) F7M F6
Na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés.
Am7 E7(b9) C/A C7M/A
Faz os músculos ficarem moles,
E7(b9) Am7 Abm7 Gm7 Gm6
e o estômago vão e sem fome.
e o estômago vão e sem fome.
F7M A7(b13) Am6
Dói da flor da pele ao pó do osso.
Dói da flor da pele ao pó do osso.
G7(13) G7(b13) Gm6 (F#m6-Gm6)
Rói do cóccix até o pescoço
Rói do cóccix até o pescoço
F6 D7(b9) Bb/G D7(b9)
Acende uma luz branca em seu umbigo,
Bb/G C7(9) Cm7
Você ama o inimigo e se torna inimigo do amor.
Acende uma luz branca em seu umbigo,
Bb/G C7(9) Cm7
Você ama o inimigo e se torna inimigo do amor.
F7(9) B7(9)/#11 Bb7+ Bº Dm7/C
O ciúme dói do leito à margem,
O ciúme dói do leito à margem,
D7(b9) G7(13) G7(b13) Bb/G C7(9)
dói pra fora na paisagem, arde ao sol do fim do dia.
F7M A7(b13) Am6 G7(13) C7(9) D#7/Bb F7M
Corre pelas veias na ramagem, atravessa a voz e a melodia
dói pra fora na paisagem, arde ao sol do fim do dia.
F7M A7(b13) Am6 G7(13) C7(9) D#7/Bb F7M
Corre pelas veias na ramagem, atravessa a voz e a melodia
domingo, 25 de dezembro de 2011
Os Passistas (Caetano Veloso)
Por Alfredo Pessoa
Esta belíssima obra de Caetano também fala de carnaval, homenageia os passistas, brinca com os anagramas de roda, amas e Roma e decreta Rio e Salvador como as cidades mais belas do Brasil. É um excelente samba com arranjo de Jaques Morelembaum, percebam as pitadas de afoxé. Notem que cantá-la não é extremamente fácil, devido as palavras difíceis que Veloso encaixou no compasso.
Esta belíssima obra de Caetano também fala de carnaval, homenageia os passistas, brinca com os anagramas de roda, amas e Roma e decreta Rio e Salvador como as cidades mais belas do Brasil. É um excelente samba com arranjo de Jaques Morelembaum, percebam as pitadas de afoxé. Notem que cantá-la não é extremamente fácil, devido as palavras difíceis que Veloso encaixou no compasso.
Os Passistas (Caetano Veloso)
C6/7+ Vem, Cº Dm7/9 Bbm6 Eu vou pousar a mão no teu quadril Dm7/9 Multiplicar-te os pés por muitos mil G7/13 G7/5+ Fita o céu, Cº C7+ Gm7 C7/9 F7+ Fm6 Ro...da: a Dor.....Define nossa vida toda Em7 Mas estes passos lançam moda A7(5+/9-) Dm7/9 G7(5+/9-) C6/7+ E dirão ao mundo por onde ir. Às vezes tu te voltas para mim Na dança, sem te dares conta enfim Que também A...mas, Mas, ah!...Somos apenas 2 mulatos Fazendo poses nos retratos Que a luz da vida imprimiu de nós. Bb7/13 Eb7+/9 Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval. Ebm7 Ab7 Db7+/9 Roubemo-nos ao deus Tempo e nos demos de graça à F7 G7 beleza total, vem C6/7+ Nós, Cartão-postal com touros em Madri, O Corcovado e o Redentor daqui, Salvador, Ro...ma, Amor....Onde que que estejamos juntos Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés E desvãos do ser.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
Dia Nacional da Consciência Negra -
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| ZUMBI |
Zumbi (Jorge Ben Jor)
Angola, Congo, Benguela,
Monjolo, Cabinda, Mina,
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola, Congo, Benguela,
Monjolo,Cabinda, Mina,
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
De um lado cana-de-açúcar
De outro lado, o cafezal
Ao centro, os senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhido por mãos negras
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é o senhor das guerras
Senhor das demandas
Quando Zumbi chega
É Zumbi é quem manda
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola
Congo
Benguela
Monjolo
Cabinda
Mona
Quiloa
Rebolo
Marcadores:
20 de Novembro,
Angola,
Caetano Veloso,
Consciência Negra,
Jorge Ben Jor,
Marcus Viunicius,
Música brasileira,
Negritude,
Preconceito Racial,
Zumbi
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Elo - Novo CD de Maria Rita
Saiu o quarto CD da Maria Rita. Com três músicas inéditas - Perfeitamente, Coração a batucar e Pra matar meu coração, e oito regravações. Tem Chico, Edu, Djavan, Caetano, Rita Lee. Em ELO, Maria Rita volta a formação de trio: piano (Tiago Costa), baixo ( Sylvinho Mazzucca) e bateria (Cuca Teixeira). Grandes músicas, uma grande cantora e um belo disco.
Músicas
1. Conceição dos Coqueiros (Lula Queiroga, Lulu Oliveira e Alexandre Bicudo))
2. Santana ( Junio Barreto e João "cello" Araújo)
3. Perfeitamente ( Fred Martins e Francisco Bosco)
4. Coração a batucar (Davi Moraes e Alvinho Lancellotti)
5. Menino do Rio (Caetano Veloso)
6. Pra matar meu coração ( Pedro Baby e Daniel Jobim)
7. A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque)
8. Nem um dia (Djavan)
9. A outra (Marcelo Camelo)
10. Só de você (Roberto de Carvalho e Rita Lee)
11. Coração em desalinho (Monarco e Ratinho)
Serviço:
CD - Elo
Artista: Maria Rita
Gravadora: Warner Music
Marcadores:
CAETANO,
Caetano Veloso,
Chico Buarque,
Cuca Teixeira,
ELO,
Marcus Vinicius,
Maria Rita,
Música brasileira,
Rita Lee,
samba,
Sylvinho Mazzucca,
Tiago Costa
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O retorno da Bofélia
Por Rodrigo de Araújo
Para quem não conhece ou não se lembra, um dos nomes mais irreverentes e polêmicos da música brasileira está de volta ao Brasil: o camaleônico Edy Star. Com 73 anos, quase vinte deles vivendo em Madri, na Espanha, o cantor, ator e artista plástico baiano foi redescoberto após participar por três anos seguidos da Virada Cultural, em São Paulo. Suas performances renderam novos convites e o mais importante deles: relançar o único e cultuado LP solo Sweet Edy (1974), que chega ao mercado em CD no final deste mês pelo selo Joia Moderna. “Agora que consegui anuência da antiga gravadora, chegou o convite do DJ Zé Pedro. Quero um CD melhorado, com encarte de nível e apresentado por Rodrigo Faour, Caetano e Sérgio Cabral”, comemora Edy.
O álbum relançado traz as músicas originais do disco, que teve composições de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, entre outros, feitas especialmente para o intérprete baiano.
Vale lembrar que o senhor estrelar começou a carreira no final da década de 1960 e ele é o mesmo Edy (ainda sem o Star no sobrenome) que participou do também cultuado álbum Sociedade da grã-ordem kavernista apresenta sessão das 10 (1971) ao lado do amigo Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. A participação veio de um convite do próprio Raul, que o chamava de Bofélia. Aliás, Edy Star é tido como o primeiro artista do glam rock do Brasil e também pioneiro em assumir sua homossexualidade para o público. “Aos fãs de Raul sou agradecido, pois é graças a eles que estou aqui divulgando o trabalho do mestre, através dos shows da Virada Cultural, em teatros, nos festivais de rock pelo país. Fiz amigos, todos carinhosos. Claro que tem os fanáticos, alguns chatíssimos. Mas tenho que ser paciente e diplomata; afinal de contas, em São Paulo, Raul é uma religião ecumênica num movimento único no país”, brinca ao contar a relação com os fãs órfãos do maluco beleza.
Outra artista importante na carreira de Edy é a maluquete Maria Alcina, que o descobriu, no início da década de 1970, fazendo pequenos showsem cabarés da Cinelândia, no Rio de Janeiro, e o levou para ser a principal estrela da badalada casa de shows Number One. “Edy Star me encanta. Ele é muito culto. Uma vida inteira muito forte. Fizemos o show Salve o Prazer, com músicas de Assis Valente, na última Virada Cultural, e foi genial. Adoro estar com ele. Ele me desmonta. Me faz lembrar de outros lados meus. É uma pessoa muito solar, tem uma alegria muito verdadeira, somos como irmãos. Uma amizade para o resto da vida”, inflama-se Alcina.
Quem também não economiza rasgação de seda para o cantor é o produtor musical e jornalista Rodrigo Faour: “Edy Star criou um estilo de existir e de ser artista. É um provocador inato. Jamais se curvou ao politicamente correto – seja na vida pessoal ou na artística. Tem uma pequena obra, apenas um interessante álbum solo, que tive a honra de fazer a ponte para que fosse reeditado agora, mas é acima de tudo um grande showman e merece ser mais conhecido. Numa época de artistas fake, de imitações e gente sem ter o que dizer, Edy é precioso. Um sobrevivente dos ideais dos anos 70, um tempo de ideologias, opiniões inflamadas, em que a nossa música era um tanto teatral.”
Para quem quiser (re)descobrir o trabalho de Edy Star, ele avisa que pretende ficar de vez no Brasil. Ao ser questionado sobre ser cultuado nesse seu retorno, o próprio brinca com a irreverência que lhe é característica: “Eu, um ícone cult? Aqui nas terras tupiniquins? Que os deuses me livrem dessa má honra! Sou apenas uma velha menina baiana, com o jeito que dizem que um deus me deu. E eu adoro caminhar pela cidade, andar de metrô, tomar cerveja com amigos e jogar conversa fora... Eu precisaria estar mais na mídia ou usar chapéu como a Greta Garbo e dizer: ‘leave me alone’ ou ‘let me entertain you, baby...’”
Para quem não conhece ou não se lembra, um dos nomes mais irreverentes e polêmicos da música brasileira está de volta ao Brasil: o camaleônico Edy Star. Com 73 anos, quase vinte deles vivendo em Madri, na Espanha, o cantor, ator e artista plástico baiano foi redescoberto após participar por três anos seguidos da Virada Cultural, em São Paulo. Suas performances renderam novos convites e o mais importante deles: relançar o único e cultuado LP solo Sweet Edy (1974), que chega ao mercado em CD no final deste mês pelo selo Joia Moderna. “Agora que consegui anuência da antiga gravadora, chegou o convite do DJ Zé Pedro. Quero um CD melhorado, com encarte de nível e apresentado por Rodrigo Faour, Caetano e Sérgio Cabral”, comemora Edy.
O álbum relançado traz as músicas originais do disco, que teve composições de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, entre outros, feitas especialmente para o intérprete baiano.
Vale lembrar que o senhor estrelar começou a carreira no final da década de 1960 e ele é o mesmo Edy (ainda sem o Star no sobrenome) que participou do também cultuado álbum Sociedade da grã-ordem kavernista apresenta sessão das 10 (1971) ao lado do amigo Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. A participação veio de um convite do próprio Raul, que o chamava de Bofélia. Aliás, Edy Star é tido como o primeiro artista do glam rock do Brasil e também pioneiro em assumir sua homossexualidade para o público. “Aos fãs de Raul sou agradecido, pois é graças a eles que estou aqui divulgando o trabalho do mestre, através dos shows da Virada Cultural, em teatros, nos festivais de rock pelo país. Fiz amigos, todos carinhosos. Claro que tem os fanáticos, alguns chatíssimos. Mas tenho que ser paciente e diplomata; afinal de contas, em São Paulo, Raul é uma religião ecumênica num movimento único no país”, brinca ao contar a relação com os fãs órfãos do maluco beleza.
Outra artista importante na carreira de Edy é a maluquete Maria Alcina, que o descobriu, no início da década de 1970, fazendo pequenos showsem cabarés da Cinelândia, no Rio de Janeiro, e o levou para ser a principal estrela da badalada casa de shows Number One. “Edy Star me encanta. Ele é muito culto. Uma vida inteira muito forte. Fizemos o show Salve o Prazer, com músicas de Assis Valente, na última Virada Cultural, e foi genial. Adoro estar com ele. Ele me desmonta. Me faz lembrar de outros lados meus. É uma pessoa muito solar, tem uma alegria muito verdadeira, somos como irmãos. Uma amizade para o resto da vida”, inflama-se Alcina.
Quem também não economiza rasgação de seda para o cantor é o produtor musical e jornalista Rodrigo Faour: “Edy Star criou um estilo de existir e de ser artista. É um provocador inato. Jamais se curvou ao politicamente correto – seja na vida pessoal ou na artística. Tem uma pequena obra, apenas um interessante álbum solo, que tive a honra de fazer a ponte para que fosse reeditado agora, mas é acima de tudo um grande showman e merece ser mais conhecido. Numa época de artistas fake, de imitações e gente sem ter o que dizer, Edy é precioso. Um sobrevivente dos ideais dos anos 70, um tempo de ideologias, opiniões inflamadas, em que a nossa música era um tanto teatral.”
Para quem quiser (re)descobrir o trabalho de Edy Star, ele avisa que pretende ficar de vez no Brasil. Ao ser questionado sobre ser cultuado nesse seu retorno, o próprio brinca com a irreverência que lhe é característica: “Eu, um ícone cult? Aqui nas terras tupiniquins? Que os deuses me livrem dessa má honra! Sou apenas uma velha menina baiana, com o jeito que dizem que um deus me deu. E eu adoro caminhar pela cidade, andar de metrô, tomar cerveja com amigos e jogar conversa fora... Eu precisaria estar mais na mídia ou usar chapéu como a Greta Garbo e dizer: ‘leave me alone’ ou ‘let me entertain you, baby...’”
domingo, 27 de março de 2011
Bethânia - por Caetano Veloso
A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de "Leite derramado"). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como "Folha", "Veja" e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: "É preciso defender os fortes contra os fracos." Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.
A "Folha" disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que - embora seu dono e editor tenha dito à revista "Imprensa", faz décadas, que seu modelo era a "Veja" - se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral. A "Veja" logo pôs que Bethânia tinha ganho R$1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.
Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto "máfia do dendê", expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um "Verdade tropical"). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.
O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link: http://www.cultura. gov. br/site/wp-content/up loads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf. Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente? Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza. Houve o artigo claro de Hermano Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$1,3 milhão. Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir. Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): "Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?"
O globo de 27 de março de 2011
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