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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil

http://pedroalexandresanches.blogspot.com/

DOMINGO, OUTUBRO 17, 2010


Há alguns dias, falei no Twitter que estava indo entrevistar uma artista muito especial - para uma reportagem que acaba de ser publicada pelo iG. Era Gal Costa, uma das artistas maisimportantes da história deste Brasil.


A certa altura da entrevista, Gal contou um episódio que não vou detalhar aqui (estará nos links acima), sobre uma briga em que se envolveu no trânsito, no auge do frêmito tropicalista, 1968, 1969, não sei exatamente. Ornada com o cabelo black power e o figurino exuberante da época, Gal (que afirma ser exímia motorista) entrou em conflito com um homem que, a partir de um gesto (obsceno) dela, desceu do carro, perseguiu a cantora, deu um tapa na cara dela e arrematou: "Ponha-se no seu lugar de mulher!".

Era 1968, 1969.

Como já cantou à mesma época outro tropicalista (negro, por vezes black power), muita coisa sucedeu daquele tempo pra cá. O Brasil aconteceu, é o maior, que é que há?

Hoje é 2010. Vivemos num outro século, no qual descendentes de árabes proclamam que não somos racistas, neodefensores (defensores?) dos direitos humanos denunciam o advento da "heterofobia", neopregadores antiaborto brotam dos esgotos, neofeministas (feministas?) vencem eleições defendendo a integridade física das mulheres contra candidatos (negros) que já praticaram violência contra mulheres. Não somos mais misóginos. Em uma mulher como Gal Costa não bateríamos nem com uma for. Agredir Dilma Rousseff?, Marina Silva?, nem pensar!

Mas aí acontece uma campanha eleitoral e de repente minhas vistas ficam turvas.

Na televisão, vejo a cervejaria Brahma fazer gracinha com o fato consumado (fato?, consumado?) de que homens (machos, daqueles que coçam o saco) gostam muito mais de futebol (e de outros homens) - e de cerveja, é óbvio - do que de mulheres.

Na "grande" mídia, leio uma famosa e formosa atriz convocando esses mesmos machos (que gostam de coçar o saco) a arrasar Dilma Rousseff nas urnas, quiçá violentamente.

No Twitter, por fim e não menos chocante, ouço um chapa dizer que viu "uma patricinha imbecil" fazer "uma conversão tão estúpida com sua Pajero que merecia uma surra". Uma surra, entendeu? Um chapa esclarecido, percebeu? É 2010, e há gente disposta, ao menos retoricamente, a fazer com uma "patricinha estúpida" o mesmo que velhos pitbulls faziam com Gal Costa em 1969, 1968.

O monstro da misoginia mudou de cara, mudou mil caras, mas ele segue habitando o mesmo pântano em que sempre morou, e está disposto a arreganhar os dentes diante do primeiro indício de se sentir ameaçado. O monstro da misoginia odeia o sexo feminino mais que tudo na vida dele (talvez odeie ainda mais o sexo masculino, mas essa é outra parte do assunto) - e o monstro da misoginia, por ter mil caras, ocorre em forma de homem heterossexual, de mulher heterossexual, de homossexuais em geral, de minorias sexuais as mais variadas. Ocorre em todos os formatos, cores e tamanhos.

No início de 2010, homens e mulheres elegeram Marcelo Dourado o herói (ignorante, tosco, misógino, homofóbico) do Big Brother Brasil. Em outubro de 2010, mulheres (e homens) tomam, nas ruas brasileiras em campanha ensandecida, o mesmo tapa na cara que Gal tomou em 1968, 1969, multiplicado por milhões.

O monstro da misoginia tem mil faces - às vezes se disfarça de bicho-papão da homofobia, outras de dragão da xenofobia, depois de jaguadarte do racismo. O mostro de mil caras é um torturador nato, manja tudo de choque elétrico, pau-de-arara, telefone, bastão introduzido na vagina e/ou no ânus de quem ele diz mais detestar (há sempre algo de sexual no ódio do monstro de mil caras).

O jaguadarte que venceu a Alice de Lewis Carroll (mas foi vencido pela Alice de Tim Burton) é pedófilo, mas nunca ninguém vai ficar sabendo disso. Misturando-se com a paisagem de cada ocasião, ele se traveste de fanático religioso, beata castiça, padre ou pastor que usa e abusa de Deus para cuspir no mundo seus ódios internos e segredos guardados. Ele é a favor da vida, desde que não seja a vida da mãe que acabou de abortar um pedaço de si própria - o jaguadarte é sempre, sempre, sempre misógino.

Há poucos dias, disse a brava psicanalista Maria Rita Kehl, em entrevista à revista "CartaCapital": "A ONG Católicas pelo Direito de Decidir me convidou para debater, e elas pensam assim: a criminalização do aborto é uma questão contra a liberdade sexual da mulher, ponto. Não pode usar camisinha, porque a Igreja também é contra. Então é uma questão de dizer: sexo só dentro do casamento e só para ter filho. É isso, que não está escrito assim, mas é o que está dito. Se não pode usar preservativo, não pode evitar filho, não pode nem evitar infecções, epidemias como o HIV que mata milhões na África, que 'a favor da vida' é esse?".

Mas, ora, se é preciso ceder à pauta do monstro de mil caras e começar pelo beabá, façamos: todo bebê é concebido por uma mulher em associação com um homem. Todo aborto é feito por uma mulher com a participação (e/ou omissão) de pelo menos um homem. Bebês abortados são utilizados para demonizar e inculcar toneladas de culpa nas mentes femininas - exclusivamente das mentes femininas, como se os homens não participassem da concepção e do nascimento, ou do aborto. O abominável homem das florestas demoniza o aborto, mas não é porque queira defender a vida - ele quer é atentar contra ela, por intermédio do controle dos corpos (e das mentes) das mulheres.

Os homens da cervejaria Brahma que gostam mais de cerveja e de futebol que de mulher são os homens que não assumem o pedaço de gente que injetam no corpo de "suas" mulheres - e preferem ir ao futebol com uma cervejinha na mão a acompanhá-las até a clínica clandestina de abortos.

O dragão da misoginia (ele é macho, mas por vezes se disfarça sob o apelido de Mônica, Sônia ou, mais exótico, Weslian) não quer que ninguém saiba disto, mas todo ser humano carrega sua cota de responsabilidade pelos abortos que a humanidade comete, os físicos, ou políticos e os ecológicos. A mulher arranca um pedaço do seu corpo. O homem se omite, nos mais variados estágios: não assume o bebê, rotula de "vaca", "vagabunda", "puta" e "exploradora" a mulher que abortou, vez ou outra assassina e retalha o corpo da mulher que pariu. No mínimo, simula que o assunto não é com ele.

O religioso celibatário, que para todos os efeitos nunca entrou no corpo de uma mulher (embora tenha saído de um, de uma) nem nunca concebeu nenhum bebê (e quantas mulheres do padre e quantos rebentos-bastardos-errantes de religiosos há por aí, Nossa Senhora Desaparecida!), tenta enlouquecidamente controlar o corpo feminino e a mente feminina, demonizando a mulher que abortou, supostamente sozinha. O monstro de mil caras da misoginia adora o disfarece da batina do padre, do hábito da freira, da bíblia do pastor.

O(a) homossexual, frequentemente misógino(a), sente-se, ele(a) próprio(a), um aborto.

O dragão da homofobia é irmão gêmeo da garatuja da misoginia, e os homossexuais são, por sinal, tanto quanto as mulheres, espezinhados e refugados por diversas religiões, mesmo por sobre a evidência simplória de que TODO homosseuxal (exceto os de proveta) foi concebido por uma relação sexual, heterossexual - por um homem (geralmente homofóbico) e por uma mulher (muitas vezes misógina). Diariamente, heterossexuais concebem homossexuais, apenas para no futuro abandoná-los à deriva.

Se esses homossexuais ficarem mais propensos ao suicídio e levarem a cabo o desespero, religiosos pisarão em seus caixões, vociferando feito cães raivosos contra o "pecado" do suicídio, a infâmia da sodomia, o horror ateu do amor homossexual. Para todos os efeitos, nenhum religioso jamais tocou sexualmente o corpo de outro homem - nem o corpo de um menino (ou menina) que, menos forte do que ele, não conseguiria jamais contar lá fora o que se passou nas alcovas de território "sagrado". A cruzada antiaborto e anticasamento gay jamais aceita o desafio de debater a pedofilia e o abuso sexual.

Uma brasileira candidata a presidente tem sido apedrejada em praça pública, acusada de todos os vilipêndios - "abortista!", "lésbica!", "corrupta!", "bígama!", "assexuada!", "homofóbica!", "terrorista!", "assassina!", "inimiga da ditadura civil-militar!"... 99,99% de seus não-eleitores nem sequer suspeitam (ou será que fingem que não, qual cabeças de um monstro de milhões de bocas arreganhadas?) que são misógino(a)s praticantes, do dia da concepção até a noite que morrerão.

Nalgum momento da década de 1970, essa mulher foi "barbaramente torturada" por aquela ditadura, como ela mesma já atirou no rosto liso de um político do partido que se autobatizou DEM, tantando se travestir de "democratas", mas aproximando-se em ato falho freudiano do "demo". José Serra é do bem (ou do dem, do DEM, do demo?). À fogueira, quem deve ser remetida é a BRUXA que espelha nela todas as nossas mazelas e algumas mais.

Talvez ela seja uma ou algumas ou muitas daquelas coisas que os apedrejadores a acusam de ser. Talvez nem seja.

(A propósito, aqui no Brasil artistas empenham prestígio ligando para Lula quando querem evitar o apedrejamento de uma mulher iraniana, mas não exibem nem longinquamente a mesma indignação quando o apedrejamento é na esquina ao lado, ou dentro da própria casa. Aqui e agora, onde há fumaça, não há fogo - no máximo há fogo-de-palha. Como cantava Gal Costa em 1968, 1969, atenção, menina, precisa ter olhos firmes para esta escuridão. Porque tudo é perigoso. Tudo é divino. Maravilhoso. É preciso estar atenta e forte. Não temos tempo de temer a morte.)

Talvez Dilma seja uma ou algumas ou várias das coisas de que os apedrejadores a acusam de ser. Mas não é só ela. Eu também sou. Você também é (mesmo que seu nome seja Reinaldo Azevedo ou Otavio Frias Filho). Um mundo onde os indivíduos não encaram e menos ainda enfrentam suas próprias idiossincrasias e suas próprias responsabilidades é o mundo de indivíduos que vão buscar "abrigo" nos diversos fanatismos religiosos (ou no fanatismo ateu, futebolístico, musical, televisivo, jornalístico, cinéfilo, corruptor, ladrão, matador-de-aluguel, acumulador de dinheiro - tanto faz).

O desafio que aguarda Dilma Rousseff é gigantesco. Assim como Weslian Roriz, Mônica Serra e Soninha Francine despontam como paradigmas lastimáveis da submissão feminina aos humores machistas e misóginos de "seus" homens, maridos, patrões e chefes, cá entre nós, o mesmo perigo ronda a própria Dilma Rousseff, em relação a Luiz Inácio Lula da Silva. A postura e a atitude que ela tiver ao cabo deste magnífico (embora escabroso) segundo turno norteará seu futuro de independência (ou não) em relação ao(s) seu(s) mentor(es). E em relação a nós. E a ela mesma, Alice brasileira de 2010, acima de qualquer outro indivíduo.

Eu votarei em Dilma Rousseff, com o mais profundo dos meus entusiasmos e das minhas convicções. E aposto todas as minhas fichas em que, ao cabo de tanta luta, tanto esforço, tanto sangue, tantas lágrimas, teremos o, ou melhor, A presidente da república mais INDEPENDENTE da história deste país. E saberemos honrar a independência dela com a nossa própria, como já começamos a fazer em relação ao seu antecessor.

Abolição de escravatura é um negócio formidável, que não tem retorno. Ao futuro (e obrigado, dona Gal, pela bela, triste e violenta história que a senhora desenterrou de seu armário de ossos, e que a ajudou a ser quem é como artista; não se canse nunca, por favor, dona Gal, nós precisamos de você).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pedro Alexandre Sanches - sobre a "grande" mídia

eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz

"80% dos brasileiros, pelas pesquisas, consideram o governo Lula bom ou ótimo. Não é curiosíssimo que a mídia não faça outra coisa senão dizer que este é o pior governo do mundo? Então que valor tem a opinião pública? Que valor têm esses 80% de opinião pública? Nenhum. A mídia não tem nenhum respeito pela verdadeira opinião pública, que é a opinião dos cidadãos." Assim falou a filósofa Marilena Chauí, num dos manifestos que tornou públicos - coerentemente, não pela mídia tradicional, mas por intermédio do anárquico e caótico YouTube.

Entre várias das falas dela, esta foi a que calou mais fundo dentro de mim - apesar de esse tema, a manipulação por parte dos controladores daquela que é a minha profissão (o jornalismo), frequentar obsessivamente meus pensamentos e sentimentos e reflexões nos últimos muitos anos (oito, no mínimo).

Calou fundo em mim porque o raciocínio que ela faz é muito, muito, muito simples. Essa fala de Marilena demonstra que a sanha sanguinária da "grande" mídia a que ela se refere contra Lula não é dirigida especificamente a Lula, a ao cidadão-presidente Lula. A espuma antilulista que baba da boca da "grande" mídia vem cuspida contra 80% dos brasileiros (me incluo entre eles). Dirige-se, em última instância, ao Brasil como um todo. É, pois, uma fúria suicida.

Exemplo quente e eloquente é o desenlace recente da relação entre Maria Rita Kehl e o "Estado de São Paulo", logo depois de ela ter publicado naquele jornal o texto "Dois pesos...". Lúcido, sóbrio e oposicionista (quero dizer oposicionista ao Partido da Imprensa, atualmente travestido de demotucanato), o
artigo deflagrou todo um processo freudiano no seio da "grande" imprensa paulista.

Não à toa, Maria Rita Kehl é psicanalista, e não jornalista - fez por nós, jornalistas, o que não tínhamos coragem e força, sozinhos, para fazer, intimidados que somos cotidianamente diante de nossos patrões. O processo psicanalítico (sim, o Brasil está deitado no divã, se é que ainda cabe essa imagem-clichê) é tão interessante que trouxe notoriedade merecida à formidável profissional que é Maria Rita. "O que tem de legal é que, por exemplo, este meu artigo foi mais lido que qualquer outra coisa que eu jamais tenha escrito. Se ele tivesse ficado apenas no 'Estadão', ele teria sido lido, mas jamais deste jeito. Isso é uma coisa muito legal", afirmou ela em entrevista à minha querida (e dissidente) "CartaCapital", num texto denominado "A campanha eleitoral assumiu um tom fascistóide, diz Maria Rita Kehl".

O bonito nesse imbroglio todo é que o "Estadão" acabou por ser honesto, mesmo em querer, quando trouxe à tona, via desligamento da colunista, a ditadura que segue em vigência no interior da "grande" mídia brasileira em pleno 2010, nada menos que 25 anos após o término oficial do regime autoritário/repressivo civil/militar instalado no Brasil em 1964.

Não sou nenhum especialista em Freud, mas não seria esse vacilo do "Estadão" o famosíssimo expediente do "ato falho", o mesmo que levou José Serra a cometer outro dia um "eu nunca disse que sou contra o aborto, porque eu sou favor ", quando queria dizer exatamente o oposto? O ato falho se aprofundou nos dias seguintes, porque a exposição maciça do artigo via internet levou o texto de Maria Rita (e do "Estadão") ao conhecimento de gente que se considera "informada", mas por outros expedientes jamais teria tido acesso às ideias (simplíssimas, assim como as de Marilena Chauí) nele contidas.

O caso expôs nu e cru, em síntese, o estrangulamento ditatorial e a falta dramática de liberdade em que se encontra todo e qualquer jornalista, de qualquer coloração ideológica, que se encontre hoje trabalhando no conglomerado para-oficial GloboVejaFolhaEstado.

Mas quem milita no "Estadão" sabe que o corte sumário de Maria Rita após a publicação (e repercussão) do artigo deu origem a uma avalanche de cancelamentos de assinaturas. E quem trabalha no "Estadão" sabe o clima de caça às bruxas que vigora lá dentro por esse caso, mas também além e independentemente dele.

Em 2006, por causa da chamada "crise do 'mensalão'", eu havia feito o mesmo com minha querida "Folha", meu ninho de nascimento, desenvolvimento e ascensão como jornalista. Eu já havia saído da "Folha" para a "CartaCapital" em dezembro de 2004. Em 2006, cancelei minha assinatura após 16 anos de leitura e devoção consecutivas e ininterruptas - por muitos motivos, mas inclusive pela teimosia de não querer desembarcar, diante das primeiras adversidades, do presidente no qual eu havia votado, também ininterruptamente, desde 1989. Todo mundo sabe que o processo de cancelamento de assinaturas tem sido uma sangria constante, e maciça, desde pelo menos o malfadado "mensalão". Quem trabalha na "Folha" hoje sabe o que é viver o constrangimento de se identificar como jornalista de lá e, não poucas vezes, ser xingado de "reacionário" ou "fascista". Funcionários do antigo sonho dourado de todo jornalista hoje têm de conviver com a vergonha de trabalhar na "Folha", coisa impensável até, pelo menos, os anos tucanos de FHC.

Quem trabalha na "Veja" vive os mesmos dissabores, de forma mais dramática e há muito mais tempo, a ponto de às vezes não ser possível dissociar a "Veja" (e sua editora, a Abril) de quem trabalha como jornalista lá dentro.

Sobre a(o) Globo nem me atrevo a lançar palpite, tão distante é a (ex-)"vênus platinada" do meu dia-a-dia. Mas Hildegard Angel (colunista social, ex-global, mas também irmã e filha de gente assassinada pela ditadura civil-militar) falou, dia desses, algo sobre funcionários da rede terem de assinar contrato com cláusula impedindo-os de se pronunciarem politicamente - não posso afirmar que é verdade, mas, supondo que seja, alguém conhece forma mais explícita de ditadura que a mordaça político-ideológica?

São, todos esses, casos exemplares de comportamento suicida. Tudo isso é suicídio. Ou, no mínimo (e aí não se espante nem se diga surpreso quem anda sangrando e perdendo assinantes por segundo), há aquela frase de Joseph Pulitzer (1847-1911), inúmeras vezes reproduzida no Twitter ultimamente: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma".

Mas não entremos nesse mérito apavorante, prefiramos acreditar que essa grande tragédia se trata mais de suicídio que de mercenarismo. Se for assim, o que temos assistido no Brasil nestes anos 2000 é resultado do ódio dirigido pela "grande" mídia a si própria, espelhada em (no mínimo) 80% do Brasil, rebatida na figura-ícone de Lula.

Quero dizer com isso que a "grande" mídia deveria pular para dentro do barco de Lula, tornar-se adesista, jogar a toalha, ser submissa a Lula como a imprensa paulista é subserviente a José Serra e a imprensa mineira é capacha de Aécio Neves? Não (até porque, admito meio maquiavelicamente, esse ódio todo tem sido responsável por parcela interessante do desabrochar, do desenvolvimento e do bom desempenho de Lula - e de no mínimo 80% de nós, e do Brasil perante o Brasil e perante o mundo). Bastava não espumar ódio. Bastava criticar e combater (se era mesmo o caso de a "grande" mídia ser, em peso, partido de oposição, como chegou a defender publicamente a atual presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, egressa da "Folha") com comportamento racional, sóbrio, equilibrado, justo, coerente.

O ódio contra 80% do Brasil é um ódio suicida. Os poderosos-chefões que acreditam, esúupida e ignorantemente, combater a figura de Lula estão combatendo o país que pariu a eles próprios (ou seriam esses poderosos-chefões estrangeiros camuflados, ou agentes-laranja de estrangeiros clandestinos enciumados do Brasil, ou temerosos de perder os royalties bilionários do pré-sal?). Se são brasileiros, estão combatendo a eles mesmos. Suicídio.

Faço todo esse passeio para chegar a concluir o que calou fundo em mim na fala de Marilena Chauí, essa nobre filósofa não por acaso detestada apaixonadamente (ódio É amor?) por nove entre dez poderosos-chefões (misóginos, eu ouso acrescentar) da "grande" - e envelhecida - mídia.

Nós, brasileiros (e especialmente nós, jornalistas), não queremos a sua morte, senhora dona persona. Não queremos o seu fim, senhora "grande", tradicional e cerimoniosa mídia. Há tempo hábil para que a senhora desperte desse sono narcotizado e entenda que não está lutando contra Lula e a candidata dele (nossa) - mas sim contra o país que pariu a senhora (ou devo excluir desse rol a poderosa-chefona Globo, fundada sob capital oculto da Time-Warner, sobre alicerces norte-americanos clandestinos?). Nós precisamos da senhora, senhora dona "grande" mídia, e não vemos a hora em que venha a merecer novamente o adjetivo, sem aspas, de Grande, quiçá nossas assinaturas de volta. Até daqui a pouco.

P.S.: Não é por mera coincidência que Marilena Chauí e Maria Rita Kehl são mulheres, assim como a candidata Dilma Rousseff. A "grande" mídia, apesar dessa denominação feminina travestida, tem sido exclusivamente do sexo masculino,  do descobrimento do Brasil até o dia de hoje. Amanhã, ninguém sabe.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Maria Rita Kehl: "Fui demitida por um 'delito' de opinião"

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html

Bob Fernandes

A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulodepois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. O texto, intitulado "Dois pesos...", gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.
Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo:
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião (...) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
Leia abaixo a entrevista.
Terra Magazine - Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você...
Maria Rita Kehl -
 E provocou, sim...
- Quais?- Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião.
- Quando?- Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).
- E por qual motivo?- O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.
- Você chegou a argumentar algo?- Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável...
- Que sentimento fica para você?- É tudo tão absurdo... A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo...
- Você concorda com essa tese?- Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado...
- ...Por outro lado...?- Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um "delito" de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
- Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?- Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.

Veja o artigo de Maria Rita publicado no Estado de São Paulo, motivo da demissão da autora..

Dois pesos...

Maria Rita Kehl
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente.
Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Publicado em 2/10/2010



domingo, 3 de outubro de 2010

Dois pesos...

    Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo


Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.