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segunda-feira, 10 de julho de 2017

A NOITE DE SÃO JANUÁRIO

Por Luiz Antonio Simas


Não é apenas sobre futebol. É sobre a cidade. A tragédia de ontem em São Januário é derivada de inúmeros fatores, tais como o despreparo da PM, a crise política do Vasco, a cultura da violência como elemento de sociabilidade entre membros de torcida, a construção de pertencimento a um grupo a partir do ódio ao outro (elemento marcante da relação entre Vasco e Flamengo nas últimas décadas), o esfacelamento da autoridade pública no Rio de Janeiro, etc.

Ela tem como pano de fundo, todavia, o assassinato do Maracanã. Morte matada, cruel, pensada nos gabinetes mais sórdidos do poder. Como um sujeito que tenta participar minimamente do debate público sobre a cidade, escrevi sobre isso em O Globo (Santuário Profanado, 26/12/2011) e em O Dia (A cidade era o Maracanã, 27/04/2016). Retomo aqui algumas ideias daqueles artigos.

O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O estádio foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a sua posição na sociedade: os mais pobres na geral, a classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os mais remediados ainda em suas cadeiras cativas.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue.O fim da geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: não era a geral que precisava sumir; eram os geraldinos. Na arena multiuso, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo.

O fim da geral foi, simbolicamente, o esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era. Prevalece agora a lógica da exclusão explícita.




Noves fora isso, a destruição do Maracanã fez parte do projeto mais amplo de assalto ao Rio de Janeiro promovido pela organização criminosa de Sérgio Cabral / Pezão e comparsas.

Eu não acredito em qualquer pacto ou em qualquer reconstrução da cidade do Rio de Janeiro - esfacelada, aniquilada, assaltada , extorquida, mediocrizada - que não passe pela devolução do Maracanã aos cariocas.

Um efeito perverso, dentre vários, que vai ser gerado pela noite triste em São Januário é o reforço do discurso dos que acham que o futebol tem que ser mesmo elitizado. Outro efeito deletério é a desqualificação de São Januário, um templo da cultura carioca e um patrimônio do Brasil que, todavia, não pode comportar clássicos.

Desculpem-me os que acham que estamos discutindo futebol ao debater o que aconteceu em São Januário e o crime cometido contra o Maracanã. Não é isso. Nós estamos discutindo a cidade e o Brasil como mínimas possibilidades de convívio digno, fraterno e inventivo entre nossas gentes. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Futebol para os fortes. - Márcia Castro canta "Futebol para principiantes" (Kléber Albuquerque)

Para Evelyn e Tainara



Futebol para principiantes (Kléber Albuquerque)

O futebol é uma caixinha de surpresa
Toda verdinha e amarradinha
Por uma linha
De branca cor

E bem no meio agente bota uma bolinha
Só entre vinte dois jogadores
E a coitadinha toma chute
Cabeçada, pontapé e canelada
Só não pode por a mão

Com exceção de dois meio desenturmados
Fica um de cada lado
Só prestando atenção

Numa casinha toda enfeitada
Toda rendada de filó
Quando a bolinha
Toda ouriçada
Entra lá dentro todo mundo grita GOL

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Fortaleza Esporte Clube - 18 de outubro de 1918


Fundado em 18 de outubro de 1918, o Fortaleza completa hoje 95 anos de Gloria e Tradição. Maior ganhador de títulos em todas as categorias do nosso futebol, o Leão do Pici está de parabéns.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DE PRIMEIRA

Por Aldir Blanc

É impressão minha ou as ruas do Rio estão menos enfeitadas do que em Copas anteriores?
O velho e bom neurótico Sigmund Freud – que muitos sujeitos julgam ser uma espécie de relíquia macabra dos primórdios da psiquiatria, pra lá de ultrapassado, e que eu considero atualíssimo – sacou um curioso processo mental, comum a todos nós, traduzido aqui como desfazimento. Tenho três dicionários psicanalíticos, após consultá-los, continuei boiando, mas encontrei na biografia “Freud, uma vida para o nosso tempo” de Peter Gay, um belo resumo: o desfazimento é como “soprar para longe”. Como bom brasileiro, vou tentar explicar o que não sei direito. Ou seja, usarei o procedimento padrão de nossos governantes, ainda mais pertinente visto que estamos entrando (ou saindo) de sola em outra Copa do Mundo. Eis um resumo do treco: o cara pensa um monte de emes, tragédias, catástrofes, desgraças, hecatombes, e volta à tona em meio à mortandade de peixes na Lagoa, atolado em detritos do Emissário Submarino, que os cariocas apelidaram carinhosamente de “Tony Garotinho”, se vê no meio de uma saraivada de balas perdidas, entre meiões cheios de dinheiro, constata que o Pré-Sal vai bem... Peraí, esse último não é um bom exemplo. Tudo como dantes. O devaneio tsunâmico foi desfeito, o que equivale a uma generosa autoaplicação de rivotril. Entenderam? Eu também não, mas é genial!
Esse intróito é para esclarecer que me encontro de chuteiras em pleno processo contínuo de desfazimento diante dos problemas de nossa seleção. Passemos à aula prática. Em meu devaneio, estamos no dia 15 de junho. São 15 horas. Soam os primeiros acordes do Hino Nacional. Torcedor calmo, tenho uma violenta crise de choro. Ouço a voz do Galvão:
- Apita o árbitro! Pak Tatu-Kutianon rola para Dil-Ma Pak e...
CRRRAAAAAC!!!
- Muita poeira em campo. Sul-africanos correndo para a saída! Terá sido um tremor de terra? O juiz mostra cartão vermelho para Felipe Melo, e cai desmaiado! Aos 11 segundos do primeiro tempo, o Brasil perde Felipe Melo. Tino, que confusão é essa aí?
- Galvão, o departamento médico da Coréia do Norte está tentado colocar os restos de Dil-Ma Pak na maca, mas não consegue achar a perna direita e as partes pudendas do atacante.
- Falcão, você acha que a falta de Feli... Falcão também desmaiou! Arnaldo está em posição fetal no chão, repetindo “a regra é clara”. Júnior e Caio desapareceram. Fala, Tino!
- O volante Josué está recebendo instruções no colo do Dunga, enquanto o auxiliar técnico Jorginho dá ao atleta papinha de maçã. A Secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deverá propor à ONU sanções contra Felipe Melo, considerado arma de destruição em massa. Há um agravante: o volante brasileiro teria tentado trazer da Tanzânia dez canibais na bagagem. Só foi liberado graças a um diplomata que garantiu que os canibais eram pra consumo próprio. Com você, Galvão.
- Na área técnica, o preparador físico norte coreano está esbravejando em inglês que nem a defesa de Israel, conhecida por matar a jogada e os jogadores, pega tão pesado.
Meu devaneio, revoltado, muda para sexo na concentração. Imaginem a cara do Dunga quando o porteiro do hotel anunciar:
- A mulher-aranha, os travestis e o anão com a jiboia já chegaram!
Sexo é tudo aquilo que os envolvidos acham que é sexo. Eu soube de um jogador que entrou numa loja de artefatos sexuais, foi atendido por uma simpática jovem que lhe mostrou centenas de produtos exóticos, e, insatisfeito, perguntou:
- Tem caixão?
Estou com Luis Fabiano e não abro. O marrento Fabuloso foi enfático em sua entrevista coletiva:
- Só não gostaria de encarar, na final, Camarões.
Diante do espanto dos repórteres, esclareceu:
Eles têm um defensor chamado Song Bilong. Não quero um negão com um nome desse atrás de mim.
A copa na África do Sul vai ser só um Grafite na parede. E vai doer.
Saio do transe e vejo na telinha que o Kaká está recuperado.
Feliz desfazimento pra vocês todos!

***

O lobby dos evangélicos está se movimentando para introduzir, nos esportes coletivos das próximas Olimpíadas, a modalidade Desabamento de Templos. Desistiram de andar sobre as águas na piscina porque afundariam com o peso dos dólares e do cadeado no tornozelo.

***
Hoje, três de novembro de 2011, aniversário de Ceceu Rico (que não gosta de festa), o Palmeira do Mangue inaugura nova fase, reproduzindo o que de melhor compartilhamos por aí.
Saudações aos rapazes e beijo pras moças.

 http://palmeiradomangue.blogspot.com/2011/11/de-primeira.html