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quinta-feira, 9 de abril de 2015

A cultura como reparação

Por Felipe Araújo

Em entrevista ao caderno Vida & Arte, na edição de hoje do O POVO, o sociólogo Paulo Linhares, presidente do Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC) – motor criativo e gerencial do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura - afirmou que “política de cultura não é uma política de reparação social”. A frase se deu em meio a uma (boa) reportagem feita pela jornalista Raphaelle Batista, em que Paulo rebate algumas tantas críticas ao Porto Iracema das Artes, núcleo de formação do Dragão, e anuncia o porvir da instituição, a partir de outras tantas parcerias.

“Reparação social, quem quiser fazer, vá fazer na área social. Eu faço política de cultura, não tenho que reparar nada”, disparou. “Acho absurdo cobrar das políticas culturais reparações sociais. Sou contra esses contratos que dizem assim: ‘em contrapartida a um espetáculo você faz não sei o que, não sei o que social’. Pra que isso? A gente não está aqui para fazer reparação social. Se a gente fizer cultura bem feita, a gente está fazendo mudança social muito mais veloz, com muito mais competência”.
Provocador inteligente e de inegável competência midiática, Paulo certamente se fiou em sua verve publicitária para tentar defender e legitimar sua cria. Um projeto que pode ser considerado tão mais audacioso quanto mais compreendermos quão miserável ainda é o Ceará, estado que já há uns bons 30 anos convive com a sombra do próprio Paulo nos bastidores ou nos holofotes das políticas públicas de cultura.

Ao falar que política de cultura não é política de reparação social, Paulo apenas traduz o sentido mobilizador de sua própria trajetória como homem ligado à cultura e às artes no Ceará. Qual seja, o de cultura como vitrine de "experimentação" estética, de cunho eminentemente elitista, a nos redimir de uma suposta condição de povo culturalmente atrasado. Nunca lhe interessou, a rigor, o poder efetivo de transformação da realidade social por parte da cultura, apenas o malabarismo de certos símbolos culturais, devidamente convenientes ao chefe do governo de plantão, como forma de legitimação de interesses políticos e econômicos. Não há, portanto, nenhuma novidade em sua fala – dessa vez talvez apenas mais sincera que outras falas suas em reportagens Ceará afora.

À cultura como potência humanizadora de toda uma coletividade, o presidente do IACC prefere apenas a construção midiática de uma política supostamente civilizada, mas cuja base material se mantém mal disfarçadamente provinciana. Aliás, essa expressão, “provinciano”, me sugere não o grau de desenvolvimento econômico de uma sociedade ou da estreiteza de pensamento em relação às coisas da arte. “Provinciano” ou, em seu oposto, “civilizado” são medidas de engajamento em relação ao outro, de respeito com a "res publica", de compromisso com um grupo social. São noções ligadas menos à vaidade e mais à solidariedade (ou à falta dela) como potencial integrador de direitos e deveres.
Em livro recente, Cultura em movimento, a ex-secretária de Cultura Claudia Leitão tratou dessa relação entre o saber, a cultura e aquilo que Edgar Morin chama de “Política de civilização”. “Tanto a Universidade, na produção de estudos e pesquisas, quanto o Estado, na formulação de políticas públicas, necessitam ‘religar saberes’, na tarefa da construção de novos significados para o desenvolvimento”, escreve Claudia. O debate entre a ex-secretária e o espírito do ex-secretário-atual-gestor se faz bem evidente ao longo do livro de Claudia, publicado ano passado pela Armazém da Cultura.
Em outro livro nem tão recente, mas de modo algum extemporâneo à discussão (Cultura e Democracia na Constituição Federal de 1988, publicado em 2004 pela editora Letra Legal), o professor Humberto Cunha – outro ativo militante dos debates públicos sobre cultura no Ceará – também restitui algumas boas fronteiras ao conceito. Para além de sua dimensão antropológica ou de entretenimento, Cunha trata a cultura como direito, como expressão ligada “às artes, à memória coletiva e ao repasse de saberes, que asseguram a seus titulares o conhecimento e uso do passado, interferência ativa no presente e possibilidade de previsão e decisão de opções referente ao futuro, visando sempre à dignidade da pessoa humana”.
Portanto, numa sociedade tão desigual como a nossa, uma política de cultura é, sim, e deve ser, uma política de reparação social. Mas não apenas no sentido burocrático-fiscal colocado por Paulo. A reparação que a cultura traduz não é a das planilhas inescrutáveis dos birôs oficiais. Mas a do instrumento transformador de um horizonte social, que reconecta sensibilidade e saberes, que inclui o periférico e o diferente em outros "centros", que afirma a solidariedade. Uma política cultural só tem sentido se atuar permanentemente para diminuir o déficit simbólico de uma população em relação à sua própria memória, à sua história, a seu estar no mundo.
O Dragão do Mar e o projeto do Porto de Iracema possuem inúmeras iniciativas e ações que podem apontar justamente para essa maior aproximação da população cearense com sua própria cultura. Mas a questão colocada pela declaração de Paulo Linhares não é essa. A questão é que, quando um dos principais gestores da cultura do Estado afirma não compreender essa dimensão reparadora da cultura, não estamos diante de uma mera opção estética ou gerencial, mas de uma decisão política que negligencia um direito fundamental ao povo cearense.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A cultura do relativismo

Por Felipe Araújo

Na falta de uma expressão melhor, chamarei, precariamente, de relativismo na cultura - para não criar qualquer constrangimento entre os seguidores de Franz Boas e seu “relativismo cultural”. Refiro-me a um tipo de postura diante das questões da arte e da cultura que, em vez de um ponto fora da curva (como se julgam seus defensores), é a curva ela mesma. Um problema que se julga sua própria solução.

O que chamo de relativismo na cultura é um pensamento que legitima toda e qualquer expressão artística e que, independente dos méritos estéticos ou humanistas dessa arte, ganha status de modelo civilizatório, de parâmetro de construção de identidades e afirmação de diferenças. Tudo em nome de uma suposta dimensão democrática da produção simbólica.



Por mais que me considere um defensor da democracia e da liberdade de expressão, tenho grande desconfiança em relação a esse estado de coisas. Parece-me sempre algo oportunista e cínico - sobretudo no âmbito do poder público, zeloso que deveria ser contra os excessos do vale-tudo estético (e moral).

Oportunista porque se aproveita de um contexto em que há um esvaziamento das instâncias de crítica, com desdobramentos políticos evidentes. Cínico porque, em nome de uma falsa tolerância ou de um suposto “gosto popular”, exerce um poder discricionário em relação ao que é efetivamente diferente. Visibilidade, sabe-se, é moeda em disputa.

Denunciar e questionar esse relativismo não se trata de “moralismo”. Também não se trata de “patrulhamento”. Acontece que, nessa economia da visibilidade – infelizmente tão definidora de “identidades” – não é possível abrir mão da felicidade da beleza, do que nos engrandece. Mais ainda se considerarmos o poder público como instância indutora da cultura em nosso País.

Sinto que precisamos voltar a compreender a cultura como dimensão mais ampla de formação de cidadãos conscientes, críticos e alertas. É preciso entender a arte como expressão de um processo psíquico, histórico e social que efetivamente forma (ou deforma) a cidadania. Todo o resto é relativo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ponto de Vista

Felipe Araújo
Por Felipe Araújo

A escolha do jornalista Magela Lima para a Secultfor me parece uma boa surpresa em meio ao anúncio do secretariado de Roberto Claudio. Dentro de um governo de composição majoritariamente conservadora, seu nome é uma das (caras) exceções progressistas. Se não é exatamente uma opção técnica, na medida em que não possui experiência de gestão na área pública, pelo menos não é resultado de uma ingerência partidária. Sua nomeação, aliás, soa como um aceno a muitos setores da vida cultural e política de Fortaleza e abre importantes canais de diálogo para a futura gestão.

Magela também tem a seu favor um rico lastro intelectual. É jornalista com mais de dez anos de experiência em redações, foi editor exitoso neste Vida & Arte, tem mestrado em teatro na Universidade Federal do Rio de Janeiro e transita constante e consistentemente na vida cultural de Fortaleza. É, sobretudo, um militante da cultura e da Cidade.

Na medida em que o que o programa de governo do PSB apresentou para a área durante a campanha eleitoral não passou de um punhado de platitudes e generalidades, o novo secretário terá de formular e consolidar, a partir de agora, suas metas, estratégias e prioridades. Para quem se inquietava com a folclórica possibilidade de a próxima secretaria de Cultura ter a cara do que foi o palanque de Roberto Claudio – apinhado de “artistas” como Wesley Safadão e Rasga Baleia -, a presença de Magela na Secultfor é um alento e nos leva a crer que o debate não será nivelado por baixo.

Por fim, em que pese o atraso no pagamento de alguns editais, Magela assume a Secultfor com a casa em ordem e herdando avanços institucionais importantes: o Sistema Municipal de Cultura está consolidado, equipamentos importantes (Vila das Artes, Teatro dos Pinhões, etc) estão amparados legalmente, espaços públicos revitalizados como o caso do Passeio Público renovaram a relação de Fortaleza com seu espaço urbano e o calendário de festas e eventos culturais nunca foi tão dinâmico. Sem falar numa nova e reformulada política de patrimônio.

Magela assume a secretaria em uma Cidade que passou a olhar para cultura (e para si) de modo diferente e mais rico ao longo dos últimos oito anos. E também de modo mais exigente. Um olhar que ele próprio, com sua atuação como jornalista e militante da cultura, ajudou a fomentar. Do outro lado do “balcão”, Magela terá de cumprir uma gestão à altura dessas expectativas e exigências.

Boa sorte ao secretário.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/12/21/noticiasjornalvidaearte,2975615/ponto-de-vista.shtml

terça-feira, 29 de maio de 2012

A cultura como campo de combate

Vladimir SafatlePor Vladimir Safatle

Um dos fenômenos sociais mais importantes dos últimos anos é a transformação da cultura e da modernização dos costumes em setor fundamental do embate político. Durante os anos 1970 e 1980, a cultura fora um campo hegemônico das esquerdas. Este não é mais o caso. Há de se perguntar o que ocorreu para encontrarmos atualmente um processo de politização da cultura por parte, principalmente, de representantes da direita.

Poderíamos dizer que a direita do espectro político teria compreendido que a população, em especial as classes populares, é naturalmente conservadora nos costumes, pois avessa a questões como aborto, casamento homossexual e políticas de discriminação positiva. Da mesma maneira, ela seria conservadora em cultura, pois mais sensível ao peso dos valores religiosos na definição de nossas identidades e de nossos “valores ocidentais”. É possível, porém, que o movimento em questão seja de outra natureza.

Em um astuto livro chamado O Que Há de Errado com o Kansas?, o ensaísta norte-americano Tom Frank lembra como o pensamento conservador soube se aproveitar do sentimento de abandono social das classes populares. Frank serve-se do Kansas para perguntar: como um dos estados politicamente mais combativos dos EUA nas primeiras décadas do século XX tornou-se um bastião conservador? Sua resposta é: sentindo-se abandonado pelas elites intelectuais esquerdistas cosmopolitas que, à sua maneira, não foram completamente prejudicadas pelos desmontes neoliberais, as classe populares deixaram que um conflito de classe se transformasse em um conflito cultural.

Em vez de se voltarem contra os agentes econômicos responsáveis por tais desmontes, elas se voltaram contra o modo de vida que representaria as elites liberais. Neste deslocamento, os responsáveis pelo empobrecimento dos setores mais vulneráveis da população apareceram como os portadores dos “verdadeiros valores de nosso povo”. Desta forma, a direita pode falar menos sobre economia e mais sobre hábitos e cultura. Ela pode, inclusive, tentar instrumentalizar o anti-intelectualismo, como vimos nas reações caninas contra a Universidade de São Paulo e seus departamentos de Ciências Humanas à ocasião dos conflitos com a Polícia Militar.

Mesmo a discussão europeia sobre a imigração deve ser lida nesta chave. Qualquer pessoa séria sabe que a discussão sobre imigração nada tem a ver com economia. Quem quebrou a Europa não foram os imigrantes pobres que servem de mão de obra espoliada e desprovida de direitos trabalhistas. Na verdade, quem a quebrou foi o sistema financeiro e seus executivos “brancos e de olhos azuis”. A discussão sobre imigração é um problema estritamente cultural. Maneira de deslocar conflitos de classe para um plano cultural.

Este é um fenômeno parecido ao ocorrido em países como a Tunísia após a Primavera Árabe. Feita por jovens esquerdistas diplomados e filhos da classe média tunisiana, a revolução permitiu a vitória de um partido islâmico (Ennahda) porque, entre outras coisas, eles souberam captar a lassidão das classes populares em relação à classe média europeizada de cidades como Túnis e Sfax. Os islâmicos souberam dizer: “O desprezo a que vocês foram vítimas durante todos esses anos é, no fundo, desprezo aos valores que vocês representam, desprezo ao nosso modo de vida de alta retidão moral contra a lassidão dos mais ricos”. Mudam-se os agentes, mas a estrutura do discurso é a mesma.

Contra isso, a esquerda não deve temer entrar no embate cultural e dos costumes. Devemos quebrar as tentativas de nos fazer acreditar que as classes populares são naturalmente conservadoras e mostrar como a cultura virou uma forma de o capitalismo absorver o descontentamento com o próprio capitalismo. A melhor maneira é mostrar como o modo de vida baseado na modernização dos costumes e da cultura tem forte capacidade de acolher as demandas populares.

Por exemplo, boa parte dos absurdos falados contra o casamento de homossexuais vem do medo de desagregação das famílias em ambientes onde elas aparecem como núcleos importantes de defesa social. Talvez seja o caso de lembrar que nenhum estudo demonstra que famílias homoparentais são mais problemáticas do que famílias tradicionais. Famílias tradicionais também são bons núcleos produtores de neuroses. Ou seja, os impasses e dificuldades da família continuarão, com ou sem famílias homoparentais. Mostrar a fragilidade de nossos “valores” e “formas de vida” é uma maneira de quebrar a fixação a um estado de coisas que não entrega o que promete.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-cultura-como-campo-de-combate/?autor=961

terça-feira, 20 de março de 2012

Manifesto pede saída de Ana de Holanda




Na última década, o Ministério da Cultura transformou-se em uma área especialmente dinâmica do governo federal. Ao reconhecer a importância primária das práticas de sentido para a vida social, o Estado deu-se finalmente conta de que tem responsabilidades incontornáveis no que toca ao estímulo, apoio e defesa das manifestações criativas que emergem do povo, ou melhor, dos povos brasileiros como expressão de sua vitalidade e de sua personalidade.
À medida que o país foi ganhando projeção internacional, maior foi se tornando a necessidade de definirmos e consolidarmos a contribuição distintiva que o Brasil espera estar em condições de dar à civilização mundial. Com este objetivo, a abertura da esfera pública a uma multiplicidade de agentes e ações, oriundos de todas as regiões do Brasil, ligados à criação de cultura, isto é, de valor existencial - artistas, ativistas digitais, produtores culturais, editoras independentes, coletivos experimentais, criadores da moda e do design, intelectuais, povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, movimentos contra a discriminação de gênero e de orientação sexual, ambientalistas, grupos culturais dos mais variados matizes e propósitos - constituiu-se em uma das experiências institucionais mais inovadoras que o Estado brasileiro jamais promoveu.
Sob a liderança das gestões da cultura durante os 8 anos do governo Lula, o acolhimento entusiástico de uma vasta gama de manifestações antropológicas, tradicionais como modernas, regionais como nacionais, locais como globais, deu direito de cidadania e densidade politica a vários conceitos novos, doravante parte de nosso vocabulário de política pública: "cultura digital", "pontos de cultura", "cultura viva", "patrimônio imaterial", "cidades criativas", "economia da cultura", "diversidade cultural", "creative commons", "compartilhamento", "cultura e pensamento", "cidadania colaborativa", "participação setorial" e tantos outros. Um Plano Nacional de Cultura foi redigido pelo MinC com ampla participação dos setores interessados, e foi aprovado pelo Congresso Nacional. Tratou-se de um esforço consistentemente democrático de transformação da agitação social em meio de conquista de uma voz pública, de expressão da força viva dos povos de nosso país nos termos de um discurso de dimensões propriamente políticas, no sentido mais nobre da palavra.
Como herdeiro legítimo deste legado, o governo Dilma tem um grande desafio pela frente. É enorme a expectativa dos inúmeros grupos envolvidos no processo de emancipação cultural iniciado nas gestões passadas. Os que acompanham, como cidadãos, essa histórica reviravolta inquietam-se sobre a orientação que irá prevalecer uma vez encerrado o primeiro ano de uma gestão federal de cultura marcado por hesitações, conflitos e por mudanças de rumo que nos têm parecido infelizes.
É inevitável constatar que houve inúmeras perdas de visibilidade e de nitidez no horizonte da política cultural, comprometendo a imagem de um país que avança para o futuro sem perder a relação com seu passado, e que se moderniza sem destruir suas tradições. Depois de inúmeras notícias desalentadoras ao longo do ano que passou, a opinião pública constata que a presente gestão de nossa política cultural vem se mostrando descomprometida com o legado das conquistas recentes neste âmbito, como o atestam as inúmeras iniciativas de grande impacto dentro e fora do País. É digno de nota, em particular, o que parece ser o total desconhecimento, por parte da atual gestão do MinC, do debate internacional sobre os desafios que o novo regime capitalista globalizado coloca para os criadores em todos os âmbitos da cultura, nesta época em que a criação de valores existenciais se viu capturada e sujeitada pela produção de valor econômico.
O despreparo para a prática do diálogo e do embate crítico por parte dos atuais responsáveis pelo MinC é dolorosamente evidente. É assustador, por exemplo, que em recente entrevista a ministra afirme que tem vivido uma "guerra de nervos" e que todo o seu universo de preocupação esteja reduzido à sensação de que os que discordam de sua gestão estejam apenas querendo derrubá-la de seu posto, deixando de lado o sentido maior da vida democrática que é a possibilidade do diálogo e da reconciliação em benefício de algo público e de grandeza comum.
A criação cultural é indissociável da construção inovadora de horizontes para o País, é a cultura que forma as realidades que nos condicionam e projetam os destinos da vida em comum. Não faz mais sentido pensar nos quadros anacrônicos que tinham a chamada "infraestrutura", ou economia, como elemento primacial da vida humana, ao passo que a cultura, ou "superestrutura", era vista como artigo de luxo. Pois não é possível, justamente, entrarmos em pleno século 21 equipados com uma "superestrutura" mental que data do século 19. É um engano gravíssimo um Estado contemporâneo não dar a devida importância à agenda das políticas culturais, pois a economia sem a cultura não pode mais do que propagar a desvalorização de uma sociedade, colocando-a a mercê de interesses estritamente econômicos.
Desde que a crise global se abateu sobre o ocidente capitalista em 2008, a agenda cultural se tornou um tema ainda mais importante para nós e as disputas de sentido vão direcionando os possíveis caminhos a seguir. Ora, foi precisamente neste momento crítico que passamos a constatar a decadência do protagonismo do governo federal na área da política cultural, com a trágica perda de capacidade para gerar consensos mínimos e coordenar o desenho de horizontes para os inúmeros segmentos que estavam sendo reconhecidos pelo governo Lula. Esse perigoso isolamento do MinC pode nos fazer retroceder mais e mais nos próximos anos, ainda que a prosperidade econômica se mantenha. A mera celebração de uma "cultura" concebida como excedente simbólico entregue a profissionais consagrados da indústria de entretenimento certamente não pode substituir a consciência ativa do papel central que a força de trabalho criativa passou a desempenhar no cenário do novo regime capitalista. O MinC de hoje desconhece os sistemas de acumulação financeira, de ganho unilateral de corporações com os direitos autorais e de imagens. Ao tornar-se refém de um modelo institucional arcaico, o governo federal vai aceitando que as forças mais reativas do modelo neoliberal passem a conduzir as subjetividades, tornando-se um instrumento para sustentar apenas desejos sociais compulsivos de consumo, como se estes fossem o meio de produção de sociabilidade.
Neste sentido, a escolha do(a) ministro(a) que a Presidenta tem em suas mãos é um dos trunfos fundamentais na consolidação do projeto de país que se começou a implantar desde o fim da ditadura militar. Esta é uma responsabilidade crucial do governo federal e da sociedade civil, não podendo ser deixada ao sabor da Realpolitik e seus jogos de acomodação partidária. Esperamos que Dilma Rousseff, que tem mostrado grande competência na condução do País em outros setores, confirmada pelos altos índices de aceitação popular, tenha sensibilidade e coragem para indicar um ministro da cultura à altura do que requer este cargo, em vista da importância do Brasil no cenário mundial contemporâneo. Um(a) ministro(a) que alie uma escuta fina para a diversidade cultural, no acompanhamento das complexas demandas culturais internas e na articulação ousada com o cenário internacional, sobretudo em torno dos problemas deste novo estatuto da cultura.
A experiência acumulada por este nome escolhido é algo essencial neste momento. Quer em termos profissionais, quer em familiaridade com a política da criação contemporânea e a rica variedade a de suas manifestações, uma liderança suprapartidária e democrática é o que pode garantir um pulso firme e uma capacidade de gestão dinâmica, de verdadeira liderança nesta direção que o presente nos aponta. Nós signatários, como todos os produtores de cultura neste País, temos nossa parcela de responsabilidade nesta tarefa: cabe a nós o apoio ao futuro portador desta inteligência de qualidade cultural e a exigência de uma escolha acertada para os próximos anos da atual gestão federal neste importante âmbito da vida nacional.
POR MARILENA CHAUÍ, EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO, SUELY ROLNIK, LAYMERT GARCIA DOS SANTOS, GABRIEL COHN, MANUELA CARNEIRO DA CUNHA, MOACIR DOS ANJOS