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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Programa Cisternas ganha prêmio no combate à desertificação

via Asa

O Programa Cisternas, uma política pública de acesso à água que possibilita às famílias rurais do Semiárido brasileiro viver na região, foi considerada a segunda iniciativa mais importante do mundo no combate à desertificação. O reconhecimento vem do Prêmio Política para o Futuro 2017, o único que homenageia políticas em vez de pessoas a nível internacional. A divulgação do Prêmio Prata para a política brasileira foi anunciada hoje (22). A cerimônia de entrega da premiação será em 11 de setembro, durante a 13º Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas, em Ordos, na China.

O prêmio, uma iniciativa do World Future Council que, este ano, teve a parceria da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), atesta a efetividade das ações de convivência com o Semiárido como uma política pública com potencial para reverter a degradação do solo, que impossibilita a produção de alimentos, abandono das regiões afetadas pela sua população, fome e miséria. A desertificação afeta 58% da área do Semiárido, onde vivem 11,8% brasileiros e brasileiras, muitos deles em situação de pobreza ou extrema pobreza.

Característica marcante e diferenciada do Programa Cisternas é ter nascido no seio das experiências da sociedade civil, proposta como política pública de convivência com a região pelas organizações atuantes no Semiárido através da Articulação Semiárido (ASA) e assumida pelo Estado. Trata-se de uma política pública de Estado, como considera o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), dado que vários governos têm interagido com ele, o Governo Fernando Henrique, de modo especial os governos Lula e Dilma e, atualmente, o Michel Temer.

“Graças a um movimento social, o Brasil introduziu o Programa Cisternas para apoiar a meta de instalação de um milhão de cisternas de coleta de água da chuva para uso doméstico de milhões de pessoas que residem em áreas rurais no Semiárido. O objetivo da instalação de um milhão de cisternas foi alcançado em 2014. Também há 250 mil tecnologias de água produtiva e milhares de cisternas construídas para escolas. Agora, muito menos pessoas deixam a região devido à seca e, apesar de, desde 2012, a região ter experimentado uma das piores secas já registradas, relatórios indicam que não há incidência dos piores efeitos da seca - mortalidade infantil, fome, migração em massa - que costumava ser generalizada no Semiárido”, atesta o texto de divulgação da premiação.

No Sertão do Araripe, em Pernambuco, a história de seu Luiz Pereira Caldas, 58 anos, e a esposa Nilza de Oliveira Caldas, 60, é emblemática quanto ao movimento inverso de migração que passou a ocorrer na região depois das políticas públicas de convivência com o Semiárido. Após duas décadas em São Paulo, eles voltaram para sua cidade natal, no município de Granito. Um dos principais motivos do retorno foram as condições favoráveis à prática da agricultura trazidas com a instalação do barreiro-trincheira na propriedade de sua mãe. Este tipo de barreiro é escavado no solo para acumular, no mínimo, 500 mil litros de água da chuva. Por ser estreito e fundo, o espelho d´água em contato com a ação do vento e do sol é pequeno, o que diminui a evaporação do líquido.

Ao chegar no sítio Venceslau onde cresceu, seu Luiz e dona Nilza passaram a plantar, próximo ao barreiro, feijão, andu, maracujá, acerola, tomate, jerimum, abóbora, banana e macaxeira. Logo depois, seu Luiz aprendeu a construir cisternas em cursos oferecidos pelas organizações que fazem parte da ASA para ampliar a renda familiar. Em 2015, a família conquistou mais uma tecnologia de convivência com o Semiárido: a cisterna-calçadão, que também guarda água da chuva, geralmente, utilizada para o quintal produtivo sobretudo para aguar hortaliças, um tipo de cultivo que pede muita água e precisa ser protegida do sol forte.

Com a água e manejo adequado do solo, as famílias agricultoras plantam de tudo, inclusive, a produzir mudas de plantas nativas dos biomas para sua preservação dos biomas. A da Caatinga e do Cerrado, biomas que ocorrem na região semiárida, e que estão são bastante degradados pelas ações do homem para criação de gado, expansão de monocultivos e extração de madeira.

“Quando comprei esse pedaço de terra não tinha nenhuma árvore plantada. Nem uma vara pra fazer um espeto pra assar um pedaço de carne, então eu plantei umburana, sabiá, catingueira, craibera e outras árvores. No meio delas planto palma e hoje coloco minhas colmeias”, conta o agricultor Francisco de Assis da Silva, popular Preguinho, da comunidade São Luiz, do município de Maravilha, em Alagoas. Ele tem alcançado bons resultados ao trabalhar com a agroecologia, como a reversão da infertilidade do solo. Essa prática tem contribuído para produção mesmo em épocas de estiagem.

O agricultor pratica técnicas de uso sustentável do solo como cobertura morta, defensivos naturais, período de pousio, rotação de culturas, diversidade produtiva entre outras. “Se eu usasse veneno contaminava a terra, os alimentos, minha saúde e as abelhas não iriam produzir mel de qualidade”. Além do cultivo de espécies nativas, forragem e hortaliças, Seu Francisco também cria aves, ovinos e desenvolve a atividade de apicultura.

Desertificação – Segundo a UNCCD, as terras secas cobrem 40% da superfície da Terra, onde ocorrem os climas árido, semiárido e subúmido seco da Terra. Evidências do processo de desertificação estão presentes em quase todas as partes do Semiárido e, em alguns locais, são tão marcantes que foram rotuladas de núcleos de desertificação: Seridó (RN/ PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA).

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Esplar

Por Lena Leão


O Esplar lançou seu livro!

Mas, tem histórias e profissionais bons o suficiente pra lançar uma biblioteca.

Experiências lindas, pessoas raras, conquistas, resgates, mudanças são marcantes na trajetória dessa instituição cearense que ousa viver e resiste há mais de 40 anos.

E essa história é muito diferenciada pela coragem de ser uma ferrenha defensora da agroecologia; de apostar todas as suas cartas no feminismo; por querer incansavelmente entender e explorar o potencial do semiárido, pesquisando alternativas para conviver com as irregularidades do nosso clima sejam as secas sejam as cheias que sempre penalizam nosso sertão; por enxergar as crianças já como seres capazes não só de mudar, mas de melhorar o futuro, respeitando o (ante)passado... 

Quem conhece o Esplar conhece o exemplo de que "sonho que se sonha junto é realidade". E eu faço parte deste sonho.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Foi Deus Quem Me Deu (ou: diálogos com o Deus da prosperidade)

 Por Rogério Lama

Chico Mãozinha, agricultor da comunidade do Arisco em Quixadá, Sertão Central cearense, escreve num papel de pão uma solicitação de audiência com Deus. Amarra a missiva à um pequeno seixo, o apruma em sua baladeira e atira pra cima. Com os olhos castigados de tanta luz, vigia o solo seco ao seu redor. A pedra não volta. Afia os ouvidos à espera de ouvi-la cair no chão esturricado. Nada, também. Tudo o que se ouvia eram alguns pássaros brigando por um pedaço de sombra no único pé de algaroba que havia ali.

Foto de Wagner Viana
Voltou pra casa e passou o resto da tarde consertando sua tarrafa. Cedo ou tarde teria serventia novamente. A noite se senta na rede e bate a areia dos pés antes de se esticar quando ouve um “ô de casa”. Abre a parte de cima da porta e se depara com um homem segurando um seixo.

- Essa pedra é sua?
- Não. É do rio que secou. O que era meu estava amarrado nela.
- Isso aqui? – diz estendendo a outra mão e mostrando um papel cor de terra.
- É, sim senhor. Quebrou seu telhado?
- Não. Recebi isso de um encarregado na hora do almoço.
- Ahn... e o que o senhor quer, então?
- Sou eu quem lhe pergunta. Não querias uma audiência comigo?
- E o senhor é Deus, por acaso?
- Sim, mas não me peça milagres como prova. Acho isso um saco.
- Omi... marrapaiz... me deixe pelo menos lavar o rosto. Já volto! O senhor quer uma aguazinha de pote?
- Traga quando voltar.
- Pegue. Sente-se, por favor!
- Hmm... boa, essa espreguiçadeira...
- É o seguinte, Seu Deus: a cada vez que vou à cidade vejo mais carros com um adesivo que diz “FOI DEUS QUEM ME DEU!”. É cada carrão com vento gelado no lado de dentro! Já aqui no sertão a gente rala os joelhos toda noite pedindo água ao senhor. Mas até agora nada.
- Bom, err...
- Deixa só eu terminar, Seu Deus. Eu vou repetir: Só pedimos água! O resto é por nossa conta. Então a gente aqui do Arisco queria saber como é que faz pra conseguir a graça que o povo da cidade tá alcançando.
- Olha, Chico, você vê jornal?
- Só almoço assistindo o Barra.
- Não, eu me referia ao... esquece isso. Deixa te explicar: com a isenção temporária de IPI, sai muito mais em conta doar automóveis. A água até que tem seus incentivos fiscais, mas tem uma logística muito cara. Veja: carros-pipa e adutoras são equipamentos bem dispendiosos. Além do que fica mais difícil colar adesivos em minha honra.
- Nossa... esse cálculo deve ser fruto da sua infinita benevolência e sabedoria. É provavelmente por isso que eu não esteja entendendo.
- O que você precisa entender, Chico, é que os automóveis são bens de alto valor agregado! Fábricas de carros geram inúmeros empregos para servos que se espalham numa cadeia produtiva. E cada servo desse aguarda o dia em que eu coloque em sua vida a graça de receber um automóvel, entendeu?
- Sim... err... não. Não entendi. Afinal de contas o senhor dá ou as pessoas trabalham pra comprar o carro?
- Bom... é um trato do tipo “uma mão lava a outra”, sacou?
- Mais ou menos... mas o caso é que eu não preciso de um carro. Preciso de água, senão vou perder todas as sementes que plantei.
- Ô Chico, assim você está dificultando as coisas! Serve uma mansão com quadra de tênis na Serra do Estevão?
- Olha, eu não preciso de uma, mas... tá bom. Eu aceito a casa na serra. Ainda que eu já tenha minha casinha no Arisco.
- Deixa de ser bobo, Chico! Você vai triturar o povo de tanta inveja! Já pensou? Sua casa de muro alto e cerca elétrica com os dizeres: “FOI DEUS QUEM ME DEU”! Quanta gente vai querer ser como você! Todos perguntarão como fez pra conseguir!
- Não tinha pensado nisso, Seu Deus. Como eu faço pra alcançar o benefício?
- Ah! Agora vem a parte boa! Você precisa ir numa igreja. Lá chegando você diz que quer renunciar ao que é mundano e vai entregar ao pastor o documento dessa terra imprestável.
- Como assim? Minha terrinha? Com a casa? Minhas criações e tudo?
- É, Chico. Tudo.
- Mas eu vou morar aonde, Seu Deus?
- Ai é que está a sacada! Você vai viver na carne o que está nos escritos sagrados. Você vai ser exemplo para toda a humanidade com sua história de humildade e desapego, e a igreja vai ficar entupida de fiéis, e com mais dinheiro, mais riqueza, mais ostentação e...
- E depois de estar na rua, o que eu faço?
- Ai eu vou... eu vou... te eleger vereador de Quixadá! Em 6 meses você comprará sua mansão na serra e pintará o muro em letras garrafais que fui eu quem te deu.
-É pra isso que serve vereador?
- Não, exatamente. Mas essa é a ética do mercado.
-Hmm... até ai eu entendi. Mas senhor, se eu serei exemplo de desapego enquanto estiver na miséria, eu deixarei de sê-lo quando comprar minha mansão, não é?
- É.
- Mas o senhor havia dito que quando eu tivesse a minha mansão, todos iriam querer ser como eu. Que exemplo o senhor quer que eu dê, afinal?
- Que mania essa sua de complicar as coisas, Chico! Lembra que te expliquei sobre a cadeia produtiva? Pois é! É legal ser miserável e tal. Fica bonito na foto e tudo mais. Lembra do ex-ministro Rafael Greca, que disse que havia “lirismo na miséria”? Pois é, é bem por ai. Só que isso não dá emprego pros meus servos nas fábricas. Assim, o desejo do supérfluo é o que mantém o emprego de gente sem estudo como você!
- Ahnn... mas tem um evangelista que narrou Jesus dizendo que o reino dele não é deste mundo. Se assim é, como pode a riqueza material ter tanta importância pro senhor?
- Olha, essas declarações já me deram uma dor de cabeça danada. Vamos fazer assim: dorme bem essa noite que ela é a última que você passa aqui. Amanhã cedo leva a escritura dessas terras pra igreja e chore cheio de remorso pra impressionar todo mundo com a sua renúncia. FUI!

E assim, Chico Mãozinha seguiu a risca o que Deus lhe ordenou e na eleição seguinte se elegeu vereador. Comprou sua mansão na Serra do Estevão com quadra de tênis, pintando bem grande no muro “FOI DEUS QUEM ME DEU!”. Queria ser justo. Fazia parte do trato.

Naquele entardecer, do alto da sua mansão observou as localidades do Arisco, Califórnia e Palmares. Continuavam secos e sem perspectiva. Pela manhã desceu a serra com a escritura da mansão sob o braço e a trocou pela sua antiga fazendinha e com o que sobrou, comprou 1.200 cisternas de placa pra espalhar pelas terras que viu lá de cima.

domingo, 29 de abril de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Inversão de valor: quando a cisterna vira mercadoria

Por Verônica Pragana

As cisternas construídas no Semiárido vêm passo-a-passo conquistando a sociedade brasileira e se firmando no país com um indiscutível valor social e político para a vida das famílias. Desde o ano passado, porém, elas passaram a agregar outro valor: o de mercado. Depois que o governo federal decidiu que compraria 300 mil cisternas de plástico no valor unitário de R$ 3.510,00, vender o reservatório virou uma ótima oportunidade de fechar negócios milionários com recursos públicos.
Em depoimento para o site da revista Carta Capital, Amaury Ramos, diretor comercial da Acqualimp, empresa do grupo mexicano Rotoplas, contratada pelo Ministério da Integração Nacional para fabricação de 60 mil cisternas no valor R$ 210 milhões, disse o seguinte: “É um mercado que nos interessa muito e estamos atentos para novos contratos”. O texto abre outra aspa para o diretor: “É o maior programa de compra de sistemas de abastecimento de água no mundo. Nada chega próximo ao volume que o governo pretende comprar”.

Cisterna construída pela comunidade
Cisternas construída pela comunidade

A possibilidade de garantir a sua parcela na fabricação das outras 240 mil cisternas vem atiçando também as empresas nacionais. A FortLev, por exemplo, desde outubro do ano passado vem doando reservatórios, com as mesmas especificações indicadas pelo governo federal, nas comunidades rurais do Semiárido e garantindo a divulgação da ação.

Em janeiro passado, o site da empresa Comunique-se, que atua no ramo de comunicação empresarial, noticiou a doação de 20 cisternas da FortLev para a comunidade indígena Xucuru, no sertão pernambucano, dois meses depois de fazer outra doação para as famílias do povoado de São José, localizado no município de Capim Grosso, na Bahia. “A previsão da empresa é expandir o projeto, atendendo a mais municípios em todo o Brasil durante 2012 como parte de seus programas na área social”, anuncia o texto publicado no site da Comunique-se.

Além dos fabricantes dos reservatórios, os benefícios se estendem também para outros ramos, como o petroquímico. A Braskem, maior indústria deste setor das Américas e produtora de itens de plástico, é citada no texto de Clara Roman no site da Carta Capital como fornecedora de matéria-prima para a fabricação das cisternas da Acqualimp.

Ao se tornar uma oportunidade de negócio com lucro vultoso, o valor real das cisternas se desvirtua e mostra-se incompatível com as oportunidades de efetivas mudanças no cotidiano de milhares de pessoas do Semiárido brasileiro. Mas, como vivemos numa sociedade na qual a lógica de mercado geralmente prevalece sobre as demais necessidades socioambientais, transformar a cisterna em moeda é um fato - digamos assim - um tanto aceitável.

Apurando o olhar para a situação, não é difícil perceber que o que se configura é uma nova versão da indústria da seca. E esse processo exclui a população de participar da construção de soluções para seus problemas, desvalorizando seu conhecimento e privilegiando pessoas e/ou grupos que não são as famílias agricultoras do Semiárido.

“O desejo e a decisão do Governo Federal de levar água potável na perspectiva da universalização às famílias esparsas do Semiarido, é uma decisão politica e estratégica nunca antes vista e de altíssimo significado. Contudo, avaliamos equivocada a opção de fazê-lo reeditando aspectos dos processos de combata à seca, sob a alegação de fazê-lo com mais rapidez. Meses a mais ou a menos, não justificam este posicionamento”, opina o coordenador executivo da Articulação no Semi-Árido (ASA) pela Bahia, Naidison Baptista.

Quando as organizações da sociedade civil que formam a ASA se contrapõem às cisternas de plástico é porque elas, que conhecem de perto a história política, econômica, social e cultural da região, têm consciência de que primar simplesmente pelo prazo significa perder um processo rico e complexo de construção de cidadãos e cidadãs. Um processo com uma força enorme que revigora o tecido social, valorizando as pessoas no local de sua moradia e contribuindo com a elevação da sua autoestima através do resgate e respeito ao seu universo cultural.

Nos processos de democratização do acesso à água, desencandeados pela sociedade civil organizada através da ASA, foram envolvidas mais de 370 mil famílias, 12 mil pedreiros, cerca de cinco mil organizações da sociedade civil e centenas de estabelecimentos comerciais locais.

Todas estas pessoas e organizações se tornaram protagonistas de um desenvolvimento gerado de dentro para fora, capaz de possibilitar significativas mudanças nas suas vidas e das comunidades às quais pertencem. Através das cisternas, se alcançam outras conquistas cidadãs, como a organização comunitária, a geração de renda, a dinamizacão das economias locais e a valorização das relações econômicas, culturais e sociais da própria região.

Enquanto sociedade, a pergunta que precisamos fazer é: qual o modelo que queremos fortalecer – aquele de uma sociedade pautada em oportunidades de lucro a todo custo, cuja lógica do mercado é que irá determinar as decisões? Ou de uma sociedade baseada em valores como a busca da autonomia, do crescimento endógeno, da partilha da água e das riquezas? Queremos alimentar processos de dependência ou de protagonismo de pessoas e comunidades?

As cisternas de placas de cimento construídas com a participação das famílias possibilitam a construção de cidadania para quem as têm no quintal de casa. O acesso à água de qualidade passa a ser um direito conquistado. O processo, que se materializa com a cisterna, representa a gestação de outro modelo de sociedade numa região que sempre foi massacrada pelos interesses escusos de pessoas e grupos sem compromisso com o bem comum.

E as consequências desta mudança local se esparramam muito além dos limites do território do Semiárido, alcançando também quem vive em grandes centros urbanos de outras regiões do país. E sabe por quê? Porque permitir condições efetivas de construção de cidadania é enfrentar a miséria pela causa.
http://www.asabrasil.org.br/Portal/Informacoes.asp?COD_NOTICIA=7215

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ASA: articulando sonhos e lutas

Por Mavinier Macedo

A ASA (Articulação no Semiárido) tem provado, por de mais de uma década, que ações feitas em conjunto, sempre são fortes, marcantes, poderosas, únicas. E ela é uma articulação com esta marca. A marca do ajuntamento consciente de pessoas com objetivos comuns, da expressão da criatividade do povo do sertão, da alegria do encontro e reencontro.
Em todo recanto onde a ASA chegou, criou laços entre as pessoas, e entre estas e o sertão que até então era visto como algo carregado de dificuldades, espinhos, terra rachada, marginalidade nos processos de cidadania.
Fez eclodir uma revolução no semiárido brasileiro, via seus programas, que trouxeram ações inclusivas para largas parcelas da população rural e despertaram o sentimento de “ser tão sertão”. 

Malvinier Macedo na manifestação em Petrolina - Pe

E quando há uma razão para ir às ruas mostrar a sua cara, a sua diversidade e as suas reivindicações, é sempre algo bonito, emocionante, motivador.
Prova disto, foi a manifestação que esta articulação protagonizou na última terça-feira, protestando contra o rompimento da parceria entre o Governo federal e a ASA, em uma caminhada ente Juazeiro BA e Petrolina PE, aglutinando milhares de pessoas das mais diferentes idades, que percorreram quilômetros, vindas de todas as partes do semiárido, se vestiram com a sua coragem, se enfeitaram com seus sonhos, fizeram ecoar seu grito de povo que conhece e ama suas realizações, entendendo que tem voz e vez.
E o mais louvável foi que em menos de uma semana, este ato foi proposto, organizado e realizado, sinalizando que a ASA realmente plantou e fez crescer a cultura da mobilização nas diferentes localidades por onde tem suas iniciativas.
O cortejo enfeitado com faixas, cartazes, frases, maquetes, estandartes, sanfoneiros, banda de pífanos, instrumentos de percussão, apitos, ocupou a ponte sobre o rio São Francisco, chegando à Praça da Catedral em Petrolina, onde houve o ato com falas e músicas, que mostravam a riqueza do plantio feito por tantas mãos. Ficará na memória das pessoas que integram a ASA como um sinal da sua força, da sua organização e da sua vontade de continuar um trabalho que vem dando certo.
Vamos torcer para que tantas vozes que se uniram pela continuação da parceria entre o governo federal e a ASA, tenha como eco uma resposta positiva ao que foi reivindicado.

* Malvinier Macedo é sócia do Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Manifestação em Petrolina junta mais de 15 pessoas

Por Raimundo Mascarenhas

 
Cerca de 15 mil pessoas, segundo estimativa da policia militar de Pernambuco, participaram hoje de uma grande mobilização na cidade de Petrolina neste momento, mas a manifestação teve inicio por volta das 09h30 horário de Brasília na vizinha cidade de Juazeiro – BA. O ato foi mobilizado pela Articulação do Semi Árido (ASA)  para dizer não a decisão governo federal que não tem pretensão de renovar o Programa de construção de cisternas e iniciou a distribuição de cisternas fabricadas a base de PVC.
A grande quantidade de pessoas debaixo de sol forte saiu da Orla Nova na cidade de Juazeiro por volta das 10h horário de Brasília e portando faixas, cartazes, apitos e carros de som “invadiram” toda extensão da Ponte Presidente Dutra que liga as duas cidades. A grande multidão não teve pressa para deixar a ponte e acabou provocando grande congestionamento nos dois sentidos.

“ Essa manifestação não combina com esse povo, parece que estamos protestando como no passado com os governos Collor e FHC, saber que essa nossa luta é para mudar a idéia de Dilma eleita pelo partido que defendemos durante todo tempo, não da para entender.Nós lutamos pela política para a convivência com o semi árido tivemos uma grade conquista com a implantação do Programa 1 milhão de Cisternas que mudou a realidade do semi árido  com água para o povo e geração de emprego e renda, der repente vem essa proposta de suspender a parceria de passar a distribuir cisternas plásticas (PVC), fato que fere a honra do agricultor e das famílias que sofreram ao longo dos anos” . Esse foi o desabafo do jovem produtor rural Luiz Cláudio da cidade de Itapipoca no Ceará.
O ato foi motivado pela declaração do Ministério de Desenvolvimento Agrário – MDS de que o aditivo já anunciado e publicado no Diário Oficial da União, para continuidade dos programas da ASA (P1MC e P1+2), não será concretizado, sob a argumentação de que o Governo está revendo seus arranjos para o Plano Brasil sem Miséria.
A cidade de Petrolina foi escolhida para sediar o evento devido tanto à localização geográfica, que permite concentrar um grande número de pessoas de outros estados do Semiárido, como pela história de luta de diversas organizações da região.
Enquanto a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) reivindica os recursos previstos para a continuidade de suas ações, o governo federal vai investir R$ 1,5 bilhão na instalação de 300 mil cisternas de plástico. O valor gasto pelo governo corresponde a mais que o dobro do que a ASA gastou para construir 371 mil cisternas de placas no Semiárido.
Cada cisterna de plástico custa aos cofres públicos R$ 5 mil, segundo informou o Ministério da Integração Nacional numa reunião com representantes da ASA, em Brasília.  A cisterna de placa custa R$ 2.080,00. No Programa Água para Todos, além das 300 mil cisternas de plásticos, serão construídas 450 mil de placa.
Aqui os manifestantes já planejam ir a Brasília, pois o movimento ganhou muita motivação, já que, em menos de oito dias para articular essa gente e que estava sendo aguardado a presença de  10 mil compareceram mais de 15 mil pessoas.

Articulação do Semiárido diz que parceria será rompida


Por Sara Rebeca Aguiar

“Um grande retrocesso das políticas públicas de acesso à água dentro do contexto de participação da sociedade civil organizada”. Assim resumiu a coordenadora nacional da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), Valquíria Lima, o possível rompimento da parceria entre a ASA e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), nos programas de construção de cisternas nas comunidades rurais.

“O MDS disse simplesmente que a ASA não receberia mais os recursos e que, a partir de agora, a verba seria repassada diretamente para o Estado e os municípios”, declarou Valquíria. Uma das queixas da articulação respalda-se na ausência da formação da mão-de-obra local para a construção dos reservatórios, o que vinha sendo feito pela ASA. Além disso, a articulação aponta também a falta de qualificação das famílias beneficiadas para a manutenção das cisternas, caso a decisão não seja revista.

“O que eles querem é simplesmente instalar o maior número de cisternas em um menor tempo, sem a preparação das famílias. Assim, não há o envolvimento das comunidades no resgate à cidadania. Quer-se atingir metas passando por cima do processo”, acredita Valquíria.

Segundo o coordenador-executivo do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, Alessandro Nunes, o MDS quer implantar cisternas de plástico, que, além de serem mais caras, não são adequadas à realidade local, como as cisternas de placas, construídas pela ASA. “Elas custam mais que o dobro das de placa e não há estudos que comprovem a durabilidade e qualidade da água armazenada nelas.

Destaque

As cisternas foram destaque na série de matérias que O POVO publicou em outubro deste ano. Elas foram apontadas como esperança e solução no semiárido. Responsável pela execução dos programas Um Milhão de Cisternas (P1MC) e Uma Terra e Duas Águas (P1+2), desde 2003, com o financiamento do MDS, a ASA vem se sentindo desconfortável com a não renovação do aditivo que concede à organização o direito de continuar à frente dos programas.

A suposta quebra da parceria foi anunciada pelo MDS no início do mês. Hoje, um ato público acontece em Petrolina (PE) a fim de externar o repúdio à deliberação federal diante das consequências que ela pode trazer às populações beneficiadas. A ação também objetiva reafirmar a importância da sociedade civil na construção de políticas públicas de convivência com o semiárido, que, segundo a ASA, será afetada com a decisão.

Valquíria considera ainda que a decisão federal é um retorno ao passado de clientelismo e de concentração de recursos para as empresas que vão fornecer o produto já pronto.

Por quê

ENTENDA A NOTÍCIA
Desde 2003, a ASA mantém parceria com o MDS para a construção de cisternas no semiárido. A construção prevê o envolvimento das famílias, bem como o uso da mão-de-obra local no processo.
Saiba mais

Cisterna no semiárido
Considerada tecnologia popular, a cisterna é um reservatório de captação de água da chuva. As de placa são construídas por pedreiros das próprias comunidades do semiárido. Levam, em média, quatro dias para ficarem prontas. As de plástico são entregues já prontas às famílias pelas empresas. São instaladas no mesmo dia.

O P1MC, até então gestado e executado pela ASA, já beneficiou diretamente mais de dois milhões de pessoas, em 1.076 municípios, a partir da construção de quase 372 mil cisternas de placa.

O ato público, realizado pela ASA, em Petrolina (PE), pretende reunir cerca de 10 mil pessoas, entre deputados, senadores, entidades apoiadoras e agricultores.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Solução ou armadilha ?

Por ASA

A Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) é uma rede formada por cerca de 750 organizações da sociedade civil que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência com a região semiárida. Sua missão é fortalecer a sociedade civil na construção de processos participativos para o desenvolvimento sustentável e a convivência com o Semiárido referenciados em valores culturais e de justiça social.



domingo, 30 de outubro de 2011

Utopia como motor para as atividades no interior cearense

Por Bruno Cabral


Uma das ONGs mais respeitadas e com mais tempo de atuação no Ceará, o Esplar desenvolve diversos projetos de formação, educação e inclusão social na região do semi-árido cearense. A proposta da entidade é desenvolver projetos ecologicamente sustentáveis baseados na agroecologia e na igualdade de gênero. “Essa é a nossa missão. É utópica? É. Mas é a utopia que nos move”, explica a presidente Magnólia Azevedo Said, uma das fundadoras da ONG.

Criado em 1974 por um pequeno grupo de jovens idealistas recém saídos da universidade, o Escritório de Planejamento e Assessoria Rural (Esplar) iniciou suas atividades “traduzindo” o Estatuto da Terra para pequenos produtores rurais, fazendo oposição sindical no Interior do Estado. E em 1978, constituiu-se legalmente como uma ONG.¹

No início, a entidade funcionou com recursos dos próprios fundadores. E anos depois passou a receber financiamento da empresa britânica International Cocoa Organization (ICCO)², parceria que dura até hoje, e em seguida passou a trabalhar com a agência norte-americana Inter-American Foundation.

Hoje a entidade é financiada por agências internacionais, como Evangelische Entwicklungsdienst (Alemanha), Intervita (Itália), ActionAid (Reino Unido) e Veja (França). Em 2012 será iniciada parceria de cinco anos com a União Europeia, na qual o Esplar irá atuar juntamente com a ONG Ceará Periferia em trabalho urbano focado na geração de renda para mulheres dos municípios de Fortaleza, Pacatuba, Quixadá e Ocara. Além dos convênios com organismos internacionais, o Esplar participa dos projetos do Governo Federal, “1 milhão de cisternas” e “Dom Helder Câmara”. Além de financiamento, a ONG conta³ com o apoio de voluntários de outros países para orientar e capacitar pessoas das zonas rurais.

O Esplar atua hoje em 16 municípios cearenses (Sobral, Forquilha, Canindé, Santana do Acaraú, Quixeramobim, Quixadá, Choró, Monsenhor Tabosa, Nova Russas, Tamboril, Ibicuitinga, Banabuiú, Senador Pompeu, Aracoiaba, Ocara e Massapé), atendendo ao todo 130 comunidades. Dos projetos desenvolvidos, se destaca o de cultivo de algodão orgânico, cuja produção é exportada para França para fabricação de calçados.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2011/10/29/noticiapoliticajornal,2325008/utopia-como-motor-para-as-atividades-no-interior-cearense.shtml

(1).Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria;.
(2) O correto é: A ONG holandesa ICCO - ICCO é a organização inter-eclesial para o desenvolvimento. Atua em  41 países  na África, Ásia, América Latina e Europa Oriental.
(3) onde se lê conta leia-se contou