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quarta-feira, 9 de abril de 2014

O mundo sem Momo

Por Sidney Rocha

Tenho este pesadelo todos os anos.
As avenidas vazias. Uma criança atravessa a quadra da Portela com apito na boca.
Tudo é silêncio e solidão.
O Carnaval está morto.

Nas ruas do Recife, o Galo da Madrugada não sai e nem sequer uma sombrinha de frevo ameaça o sol.
As ladeiras de Olinda são retiros espirituais. Nada de som dos clarins de Momo.
O povo não aclama, não ferve.
Morto o Carnaval.

Tremo. O cenário no sambódromo é o deserto de Mad Max, quando Mel Gibson nem sonhava ser Cristo.
Arames farpados, trincheiras, tempestades, o assobio cortante do vento nas ruas desertas de Salvador.
Pichações como “Carlinhos Brown vive” e “Beto Jamaica voltará” são de partir o coração, soteropolitano ou não.
A Praça Castro Alves parece um verão branco e quente no filme Nosso lar.

Estou suando.

E agora? Tudo terá de começar mesmo em janeiro? Como na Dinamarca? Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos, amém? Meu Deus, é o fim, é o fim. Acabou-se o Brasil.
Sobrará pelo menos meu Ceará, o Clube do Treze Campestre das inocentes lolós, aquele 82 ao som de Pernambuco eu te quero/ não me deixes maluco?

Nessa hora, o apito do menino da Portela liberta estridente pio de coruja rasgando o sonho em dois lúgubres abadás.
Contudo, da mais profunda Paraíba, o alegríssimo Augusto dos Anjos alivia o tom: “Qualquer festa em que Momo se intrometa/ Brônzeo, quebrando o ramerrão frequente,/ Possui, possui incontestavelmente / Necessidade duma borboleta”.

Em 1894, as autoridades viram necessidade não de esvoaçantes lepidópteras, mas de dura lei proibindo o Carnaval. Pode? Machado de Assis voou em cima, com não-sei-quantas Capitus fervendo: “É crença minha que, no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba”.
Como não se pode acabar com o Carnaval sem acabar com a quaresma, e isso significa fechar o Mercado do Peixe em Juazeiro do Norte, Jesus terminou por salvar Momo.

Melhor assim: se a lei pega, seria um pesadelo dentro do pesadelo: como iríamos ler Carnaval, de Manuel Bandeira? O país do Carnaval, de Jorge Amado? E a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius? É, a literatura seria uma quarta-feira ingrata.

Graciliano Ramos não concorda. Tem o direito. “Estamos livres dos truculentos cordões a vociferar quadrinhas sem pé nem cabeça”, disse, atacando os grupos psiricos, parangolés, sangalos, timbaladas, chicabanas e, vejam só, seeways do tempo dele. “Até aí a índole nacional se revela – juntar palavras sem sentido”.
Nessa hora, o Bruxo entrou pela nuvem do comercial da Caixa e Graciliano apertou mais ainda: “Se a coisa é para fazer tolices, fazei tolices, amigos, quebrai a louça, derramai os copos, põe uma barba de espanador [ele não disse onde] e sai pela rua a dar vivas à República”.

Angústia. Por ele, estava morto e enterrado o Carnaval.
“A alegria é a alma da vida”, gritou Machado, mas Graciliano nem-nem.

Eu já estava de pé.
Que deem seus pulinhos, que brinquem no ar, douradas borboletas.
“Se não der o peixe, pelo menos deixe a pessoa pular, se alegrar”, me diria dona Idelzuíte, no box 30 do mercado, sorrindo e embrulhando o robalo.
É isso: a alegria sempre vale o peixe.

http://www.revistadacultura.com.br/revistadacultura/detalhe/14-02-06/O_mundo_sem_momo.aspx

terça-feira, 15 de maio de 2012

Uma verdadeira tempestade de lugares-comuns



Escrito por Raimundo Carrero


Flaubert já se preocupava muito com os lugares-comuns e as frases feitas dos escritores. Chegou a escrever um dicionário enumerando as frases repetidas à exaustão pelos franceses. Entre nós, Fernando Sabino fez o mesmo. Ainda assim, sob a alegação de que escrever é um dom, mas um dom que não precisa ser aperfeiçoado, continuamos a escrever frases que, em outras circunstâncias, seriam completamente abandonadas. Senão vejamos:

1 - Tenho uma ideia na cabeça
Nada mais bobo. Ideias só existem na cabeça. Basta escrever “Tenho uma ideia”. Não será nos ombros nem nos braços, todos entendem claramente.

2 - O craque jogou muito bem enquanto esteve em campo
Claro. “Enquanto esteve em campo” é abuso. Fora do campo ele não joga. Substituído, não participa da partida, é obvio, portanto, não merece análise.

3 - Depois da solenidade foi servido coquetel aos presentes
E os ausentes não puderam beber nem comer. Que tal cortar?

4 - Atirou no amigo
Amigo não atira no outro. Nunca escreva isso. Jamais.

5 - Está correndo atrás do prejuízo
Imagina se encontra. Bobagem ilimitada.

6 - A chuva que caiu ontem
Chuva não sobe nunca. Por favor, esqueça.

7 - Mulher, via de regra, é romântica
Via de regra? Que barbaridade é esta? Nunca escreva esta bobagem. Refaça agora, urgentemente.

8 - Numa manhã ensolarada
Lugar-comum horrível. Pare agora.

9 - A mulher caiu nos braços do marido
Nunca, jamais. Se você quer ser escritor com frases assim, esqueça.

10 - Astro rei... lábios vermelhos... lua de prata
Nem pense. Mude de atividade.

11 - Premido pelas circunstâncias
Esqueça, esqueça... isso não se faz... Apague e desista...

Este é apenas um exemplo muito rápido daquilo que encontramos em alguns livros, em alguns textos que causam surpresa. É preciso estar atento, todo cuidado é pouco para que você não aceite esse tipo de inspiração. Com certeza, não é inspiração, mas cópia do muito medíocre que vai se repetindo, repetindo, e formando a má literatura que contamina muitos escritores, sobretudo os iniciantes. Expressões como essas não passam numa oficina de criação literária, porque o professor estará sempre atento. O trabalho não acaba aí. Muita coisa ainda precisa ser dita...

12 - O profeta foi acompanhado por uma grande multidão
No Novo testamento esta frase aparece com frequência. Deve ser erro dos tradutores. Multidão é o coletivo de muita gente. Por que jornalistas e escritores gostam tanto dessa redundância?

13 - Aonde você está?
Aonde é para movimento e onde para lugares fixos. Imagine uma pessoa explicando aonde está...

14 - em vida, O escritor publicou apenas um livro...
É claro, ninguém publica depois de morto. Há livros póstumos. Respeito. Minha posição, porém, é de descrença...Tudo bem. Um autor, porém, não publica depois que morre. Os espíritas acreditam que sim. Mas é algo espírita...

É assim que as oficinas procuram desenvolver o processo criativo, ao lado dos estudos de técnicas dos autores mais sofisticados e imprescindíveis. Por isso é fundamental a presença de um professor com grande experiência na arte de escrever romances, novelas e contos, isto é, com experiência de fazer, de montar e remontar histórias, desde as mais simples às mais complexas.

http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/16-raimundo-carrero/606-uma-verdadeira-tempestade-de-lugares-comuns.html