Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Paternidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paternidade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de junho de 2011

Quase Memória - Carlos Heitor Cony

Depois da carta do Cerezo, outro post  que tem a ver com paternidade. O livro do Cony é ótimo. Abaixo um resumo do livro.


"Uma tarde, o jornalista Carlos Heitor Cony recebe inesperadamente um envelope. Reparando bem, identifica no sobrescrito a letra do pai falecido havia dez anos.

A visão do embrulho desata a memória, e tem início, assim, a cerimônia de reencontro de um filho com seu pai. De um simples pacote, ainda não aberto, saltam alguns sinais: a técnica de fazer o embrulho, a perfeição do nó no barbante, o formato da letra, a tinta roxa e certos cheiros (de alfazema, de brilhantina e de manga). 

Cada sinal trás de volta uma história inesperada do homem Ernesto Cony Filho, que possuía um formidável apetite de viver. Apetite que se manifestava nas maneiras de reinventar a vida com muito bom-humor, mesmo em momentos difíceis, quando perde o posto nas redações de jornais devido a reviravoltas na política brasileira. 

Nem quando Carlos Heitor Cony esteve no Seminário houve separação e ausência. O pai dava um jeito de aparecer, sempre inesperadamente, no meio de cerimônias públicas para entregar ao menino Cony um sanduíche de presunto, um prato com deliciosa comida de botequim. Para quem viver era mais importante que ganhar dinheiro, os sonhos eram fundamentais: uma viagem à Itália, para estabelecer contatos promocionais entre uma estação de águas medicinais e o Brasil, ficou pela metade, mas era contada para sempre como se tivesse acontecido, com os detalhes precisos, com entusiasmo e convicção. No quase-romance, pequenos gestos ganham dimensão de grande aventura e poesia: separar papéis de seda de várias cores, fazer balões, soltar balões, recolher o balão que volta à casa em que foi construído. 

Cruzando os céus e o tempo, os balões são o símbolo da mais forte e definitiva relação entre dois homens - pai e filho. O escritor Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, é um grande nome da literatura brasileira da atualidade. Com este romance, que ganhou o prêmio Jabuti em 1996, rompe com a tradição dos memorialistas brasileiros para quem escrever sobre o passado é uma forma de fazer um acerto de contas com a família, de se vingar de pessoas que ficaram pelo caminho. A memória, quando é quase-memória, não se apresenta como testemunha da história, nem como escrita do ressentimento. Torna-se, principalmente, uma maneira de se expressar a alegria de lembrar do passado, além de reafirmar cumplicidades definitivas, como a criada com o homem que nos toma pela mão e nos leva para o mundo, o nosso pai."

Dois filhos em um – a carta de Toninho Cerezo para a filha, Lea T.

Por Toninho Cerezo

Qual pai um dia não pensou desta maneira? Como seria bom se existisse um manual completo, que ensinasse e orientasse como ser pai em todas as etapas da vida dos filhos!

Por mais que existam livros, manuais, conselhos bem-intencionados, a grande verdade é que exercer a paternidade vai muito além de conselhos e teorias. Todos sabem que cabe à paternidade uma parcela da responsabilidade de cuidar, educar, proteger e preparar os filhos para o ingresso na sociedade. Mas a alma humana é muito complexa, e estamos bem longe de saber tudo o que esse ser mutante chamado Homem é capaz de fazer, querer e ser…

Meu menino, minha menina pra sempre, eternamente, os dois serão meus.

Ainda no ventre, Leandro foi um filho esperado e amado. Na sua infância, seu sorriso doce e os cabelos cacheados não me indicavam qualquer tendência, era apenas uma criança, era apenas meu filho. Com o passar dos anos e a chegada da adolescência, conheci, na intimidade e nos momentos que passamos juntos, seu jeito diferente — a clara ausência de predileção por brincadeiras masculinas. Percebi interesse por assuntos ligados à arte e ao universo feminino.

Por conta da minha formação familiar ter sido baseada em respeito, cresci em um ambiente livre e pude escolher jogar futebol e viver apenas com meus dons no campo. Como não tive o tão sonhado manual, “Como Criar Filhos”, criei os meus igualmente livres também para suas escolhas, sem cobranças nem imposições. Apesar de notar as diferenças, percebi também que nada poderia fazer, e tudo o que poderia dar a ela/ele era o meu amor incondicional, a segurança, o conforto e a certeza de que, em qualquer circunstância, por mais que longe, eu estaria sempre ao seu lado.

Em alguma entrevista, Lea disse que a única coisa que gostaria de ter aprendido no futebol eram as embaixadinhas (veja só!), e que até tentou aprender, mas não foi muito bem-sucedida. Sei que trabalho em um ambiente teoricamente machista, mas nunca houve influência nem espaço para cobranças, apenas dei oportunidade de estar comigo caso quisesse.

Pode ser que eu tenha sido negligente como pai, mas não há motivos para frustrações. Não podemos ser bons em tudo. E você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar, sim, as diferenças, ser tolerantes com a diversidade, entender e não julgar aquilo que não conhecemos.

O caminho pode ser longo, mas com certeza não será o mesmo depois de você. A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade, filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independentemente de sua orientação sexual.

Como diria o poeta Cazuza, “O tempo não para, não para, não, não para”, e filho crescido não cabe mais aos pais educar. Sendo assim, aqui ou lá, torço por você, Lea. Menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim.”