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terça-feira, 12 de junho de 2012

A última crônica de Ivan Lessa


Ivan Lessa: Orlando Porto

Orlando Porto. Taí um nome como outro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, deputado, ministro, farmacêutico. Mas não é. Trata-se de um anagrama de um escritor francês – e ator e ilustrador bom e autor e figurinha difícil francesa e aquilo que se poderia chamar de "frasista".

Feio como um demônio, no meio da década de 50 cansei de dar com ele dando comigo lá pelo Boulevard St. Germain, xeretando o Flore, o Lipp, fazia uma cara que quem ia dizer algo importante e logo sumia na companhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluquinho dos filmes autobiográficos do Truffaut.

Dupla estranha. Os desenhos do —esse seu nome, artístico ou de batismo, Roland Topor— eram bacaninhas. Mas sempre foi Orlando Porto para mim.
Fez cinema também. O Inquilino do Polanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner Herzog. Até que bateu o que ocultava seus pés: umas botas estranhas como ele.

De vez em quando, numa revista esotérica, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com "100 boas frases para eu matar agorinha mesmo". Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo cachê. Meros galicismos literários.

E aí trago à cena, mais uma vez, porque cismei, mestre Millôr Fernandes.
Esse era profissional.
Nada a ver com "frasista". Trabalhava com a enxada dura da língua. Nunca para dar a cara no Flore, principalmente com Topor e Léaud.

Reli umas 100 frases do Orlando, ou Topor, e não resisti à tentação de, em algumas delas dar-lhes uma ginga por cima e outra por baixo, à maneira do frescobol querido do mestre, só para exercitar os músculos muito fora de forma.

Cem razões: Faço por bem menos, mas mais Copacabana e Leblon.
Algumas raquetadas minhas em homenagem ao mestre cuja falta continuo sentindo:

- Melhor maneira de verificar, antes, se já não estou morto.

- Mas não se mata cavalos e malfeitores?

- Pelo menos eu driblaria o câncer.

- Milênio algum jamais me assustará.

- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação!

- Levo comigo a reputação de meu terapeuta.

- Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!

- Aí está: uma cura definitiva para a calvície.

- Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê.

- A vida está pelos olhos da cara. Pra morte eles fazem um precinho especial, combinado?

- Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.

- Ao menos é uma boca de menos a sustentar.

- Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.

- Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.

- Sabe que minha vida não daria um filme. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraçado em paz, peço-lhes.

- Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.

- Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.

- Roncar, nunca mais. Nem eu nem ninguém ao meu lado.

- Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!

- Consegui preservar o mistério sempre girando em meu torno.

- Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.

- Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.

- Ei, juventude, pode vir que pelo menos uma vaga está aberta.

- Emagrecer é isso aqui.

- Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim.

E assim, cada vez que um ”frasista”  passar por perto de mim, leve uma nossa: minha e de Millôr. Dois contra um a gente ganha mole.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/06/120608_ivan_lessa_rw.shtml

sábado, 9 de junho de 2012

Adeus, Ivan e muito obrigada.

O Fanho – Ivan Lessa

Agora falando de saudades: saudades mesmo eu tenho de pastel e fanho. Pastel de queijo aqui não tem,
fanho não é a mesma coisa. Fanho bom é aquele bem mal humorado, agressivo. Fanho acha que a humanidade está por fora, que tudo isso é uma safadeza enorme pra cima dele que, afinal de contas, não tem nada com isso e é, no fundo, um bom sujeito. É o que ele diz. Mas diz criando caso.Fanho briga, dá com a mão em cima da mesa e diz: “eu sou um profissional, pomba!” E repete: “Profissional”.Fanho vive dizendo que é profissional: “tenho 20 anos de rádio, boto qualquer programa no ar, manjo tudo, ta?” E diz muito palavrão. Palavrão fica horrendo na boca de fanho. É sempre sobre a gente que tá falando com ele. Nunca sobre a vida ou os outros por aí. É com a gente, nós, os não-fanhos. Agora tem um troço: fanho você pode chamar de fanho que ele não se aborrece. “Que é que há, ô,Fanho, tudo bem?” Ele responde, meio desaforado, mas responde. É que ele é assim mesmo. Fanho conhece todos os truques de todas as repartições. Documento, atestado, não fica 24 horas preso numa mesa de seção. Ele vai e quebra o galho. É um profissional, pomba!
   
Tem um fanho aqui onde eu trabalho. Melhor: uma fanha. Não tem nome de fanha. Chama-se Audrey. Também não tem cara de Audrey. É servente na Cantina. Muito preocupada, sempre, mas delicada. Chama a gente de luv, de dear. Não é, evidentemente uma profissional.

(Pasquim, antologia. Vol.1 – 1969 a 1971 - Ed.Desiderata 2006)

Ivan Pinheiro Themudo Lessa
Nasceu em São Paulo a 9 de maio de 1935 e faleceu em Londres a 9 de junho de 2012
Era filho do escritor Orígenes Lessa
Editor e um dos colaboradores do Pasquim, tinha no jornal a coluna GipGip Nheco Nheco; também no Pasquim criou juntamente com Jaguar o ratinho Sig (referência a Sigmund Freud).

Escreveu:
Os Garotos da Fuzarca (1986,contos)
Ivan Vê o Mundo (1999, crônicas)
O Luar e a Rainha (2005, crônicas)

http://www.livroerrante.blogspot.com.br/2012/06/adeus-ivan-e-muito-obrigada.html

terça-feira, 27 de março de 2012

Ivan Lessa: A volta do vinil



Um grande jornalista. Foi da turma do Pasquim. Vive em Londres há anos. O texto é de 2005. 

Para Alan Morais


Por Ivan Lessa

Era um ritual simples e gostoso. Você tirava o bichinho da capa, punha no prato da vitrola, pegava a pequena alavanca do braço (ou pick-up), virava para o lado que queria (78 ou 33 e 45) e, com cuidado, deixava pousar no sulco do disco.

Daí ficava curtindo o som gordo e amigo. E, às vezes tinha uns estalinhos ou chiado. Igualzinho à vida. E tome polca, com ou sem Adelaide Chiozzo. Ou valsa, samba, chorinho, fox-trot, Bach, Beethoven, Mozart.

Nessa desordem que chamam de progresso, se fué o vinil. Digitalizamo-nos. Viramos vítimas das “armas espertas” daqueles que manobram a tecnologia das indústrias.

Fomos invadidos como um Iraque e nos deram até o relativíssimo poder de decidir nossa constituição. Contanto, é lógico, que não fosse analógica e em vinil.

Não satisfeitos, tacaram o MP3. Nome que bem define o torpedo arrasador que nos acabou com a vida. Nem vou falar das capas dos LPs. Uma arte que também acabou.

Capinhas dos 45 rotações, agora chamados de singles, como corretores safados registrados com nome falso em motel, também dava para virar arte. Bastaria imaginação e engenho.

Tudo acabado, como cantava Dalva de Oliveira. Mas acabado mesmo?

Não é o que informa a BPI, ou seja, a Indústria Fonográfica Britânica (eles morrem de vergonha desse “fonográfica”). O vinil está voltando. Feito Madonna, para ficar numa comparação desagradável porém inteligível ao grande público.

Dizem os números que as vendas dos singles aumentaram em 87,3%. E mencionam o cidadão Paul Weller que vendeu 55,44% em CD e 38,56% em vinil. Que bom para o vinil. Tanto se me dá o tal de Weller.

Por fim, a HMV, a maior rede de lojas de discos do Reino Unido, vem se gabando de que nunca vendeu tanto vinil quanto neste ano, agora, neste século que nos põe para rodar na vitrola. Ou fonógrafo. Ou toca-discos. Ou aparelho de som. Qualquer coisa. Contanto que seja em vinil.

Um dia, ainda chegaremos a Artie Shaw, Charlie Parker, Sarah Vaughan, por aí. Tudo em vinil.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2005/11/051130_ivanlessa.shtml