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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A defesa do poeta

Por Natália Correia

A defesa do poeta 

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

  • Natália Correia, poetisa, romancista, ensaísta, dramaturga, ficcionista, jornalista, editora, tradutora e política (foi deputada à Assembleia da República), nasceu na Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel, arquipélago dos Açores, em 1923 e morreu em Lisboa em 1993. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Fortaleza 286 anos (3) por Paula Nei



FORTALEZA [Paula Nei]
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loura desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada,
Na brancura de místicos altares.

Lá, canta em cada ramo um passarinho
Há pipilos de amor em cada ninho
Na solidão dos vastos matagais.

É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado, esplêndido poema
De alegria e beleza universais.


FRANCISCO DE PAULA NEI

Francisco de Paula Ney (Aracati, 2 de fevereiro de 1858 — Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1897) foi um poeta, jornalista que marcou o boêmio Rio de Janeiro dabelle époque. Era amigo de Aluízio Azevedo e Olavo Bilac.