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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O que sobra entre a rua e o prédio

Por Bruno Perdigão
ESPECIAL PARA O POVO

Muito além de pensar apenas os meios de locomoção das pessoas, a mobilidade urbana pode facilitar a democratização do espaço ou aumentar a segregação de uma cidade. Quanto mais prioritário for o uso do carro, maiores serão os problemas de trânsito e de segregação espacial. Um raciocínio bastante usado pelos planejadores urbanos hoje em dia é “se você planeja sua cidade pensando nos carros, você vai ter uma cidade cheia de carros. Mas se você planeja sua cidade pensando nas pessoas, você vai ter uma cidade cheia de pessoas”. Isso é muito revelador se pensarmos que a grande maioria dos espaços públicos da nossa cidade é formada por ruas. Estas são feitas principalmente para passar carros. Ou seja, temos pouquíssimos espaços na cidade pensados para o tráfego de pessoas. Será justo e democrático haver tanto espaço público na cidade voltado para o uso do carro?

Foto - Tatiana Fortes
Dentro dessa lógica, podemos concluir que o caminhar é o meio de transporte mais democrático, pois é a forma de deslocamento básica do ser humano. Se as calçadas são a infraestrutura que dá suporte para a caminhada, deveriam, portanto, ter total prioridade de investimentos do poder público. Se bem projetadas de acordo com as normas de acessibilidade, incluem ainda o deslocamento de portadores de necessidades especiais de maneira confortável. Infelizmente, hoje as calçadas são tratadas apenas como o que sobra entre a rua e o prédio.

O planejamento urbano para Fortaleza deveria ser pensado a partir de suas calçadas. Isso possibilitaria conseguir uma relação mais harmoniosa entre espaços públicos e privados, visto que a calçada é o primeiro mediador entre estas duas esferas. Além disso, os benefícios de uma cidade pensada para o pedestre são enormes. Quanto mais gente nas ruas, mais segura, mais viva e mais atrativa é a cidade. Quanto menos carros nas ruas, menor o número de acidentes de trânsito, de poluição, de barulho, de estresse, etc. A caminhada melhora a qualidade de vida das pessoas e uma cidade pensada a partir de suas calçadas se torna mais pública e coletiva, onde as pessoas convivem mais harmoniosamente e desenvolvem um senso maior de cidadania e pertencimento.

É claro que as calçadas não resolvem os problemas dos grandes deslocamentos. Sua integração com vias exclusivas de ônibus, ciclovias e metrôs se faz necessária. Mas mesmo para esses meios de transporte, as calçadas são complementares, pois existe um deslocamento a pé até o veículo que a pessoa vai utilizar.

É importante lembrar que fazer boas calçadas é algo muito maior do que reformar e padronizar seu piso. Precisamos de calçadas largas, bem mantidas, com faixas de livre passagem para pedestre, desobstruídas de postes e bancas de revistas, bastante arborizadas para criar sombras e com pequenas áreas de estar e descanso. Mas como conseguir dinheiro e espaço para tudo isso? É preciso que o poder público se ocupe menos com soluções para os problemas de engarrafamento dos carros. Dinheiro público é pra ser investido em meios de transporte democráticos e não para dar satisfação para uma classe média individualista, contribuindo para uma cidade cada vez mais apartada.

Bruno Perdigão, arquiteto, músico. Sócio do escritório Rede Arquitetos e organizador do Fórum Jovens Arquitetos Latino-americanos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Crescimento Urbano e Sustentabilidade

Por Fausto Nilo

Há milênios os homens têm vida e memória compartilhadas e constroem lugares para compartilhar vida e memória. A intensidade e a eficiência das trocas ensejadas por essa matriz de intercâmbio dependem dos graus de proximidade, sinergia e conectividades entre suas estruturas físicas, devidamente combinadas com a base natural e a variedade de contatos. São essas estruturas e as demandas de movimentação para conectá-las que, uma vez construídas, expressam materialmente o desenvolvimento urbano.

Com a mudança de escala das pequenas cidades para metrópoles esse desenvolvimento passou a exceder a capacidade da base natural em suportá-lo. A intensificação da industrialização no século XX, a crescente motorização, o incremento da população, as migrações, a incontrolável tendência às urbanizações e a concentração de impactos nas metrópoles desenharam a nova realidade ambiental do planeta.

Foi por essa razão que, em 1987, a Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, liderada pela primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland, atendeu à solicitação da Organização das Nações Unidas (ONU) e publicou o documento Nosso futuro comum. É aí que aparece, pela primeira vez, o termo “sustentabilidade”, definido como “respostas às necessidades do presente sem comprometer a oportunidade das futuras gerações para responder às próprias necessidades.”

As cidades, desde sua origem até o início do século XX, podiam ser consideradas como estabelecimentos sustentáveis. Isso porque os insumos indispensáveis ao seu funcionamento, bem como os meios energéticos e as fontes para alimentação de seus habitantes produziam resíduos e efeitos em tal escala que o próprio meio ambiente estava capacitado a assimilar.

Infelizmente, algumas cidades brasileiras, hoje, com escala de metrópole insistem em não acreditar na urgência em adotar procedimentos sustentáveis. Pelo contrário, ainda apostam no crescimento por processos de expansão descontrolada, amparado pela persistência em tratar problemas complexos e sistêmicos por meio de ações fragmentárias e dispersivas.

Nossa realidade metropolitana contemporânea indica urgência na adoção de formas de crescimento urbano compacto com mais prioridade à inserção de estruturas a serem construídas no velho tecido existente que à expansão urbana. Assim, estar-se-á promovendo a reabilitação do espaço público, reconstruindo a vida comunitária, melhorando a acessibilidade, incrementando a segurança, concretizando a proteção da herança cultural edificada e reduzindo a dependência do transporte motorizado. Não há outra forma efetiva de conviver com a força descomunal do processo urbano que nos legou essas cidades infinitas e imersas nas cinzas da desigualdade.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/09/16/noticiaopiniaojornal,2299416/crescimento-urbano-e-sustentabilidade.shtml