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terça-feira, 26 de setembro de 2017
terça-feira, 28 de abril de 2015
Por Merecimento
por Karina Buhr
| foto Pri Burr |
Durante algum tempo só me importava com a sua chegada. Não tinha exatamente um controle de qualidade, era principalmente uma maneira de me manter educada, demônio sedado.
Depois te recebia. Braços abertos bruços.
Você era estilo prêmio semibom, superlombra selfie sexo de si mesmo, ego ótimo, bastante hipervalorizado pelo entorno e eu, a essa altura, parecia embarcar na alta do passe e entendia ter uma sorte plena, pelo meu merecimento, pelo bom comportamento.
No dia a dia não via essa figura, assim, tão atenta a minha figura mesma, mesmo conhecendo direitíssimo, era tão mais fácil me camuflar e me deixar quietinha. Dopada. Fluindo.
Até que tinha algo naquele líquido, aquele veneno no copo, que dava uma náusea que curava um pouco mas não deixava, assim, perfeitamente segura de si a pessoa eu.
E a pessoa você era um monstro, mas por que cargas, eu, minha própria monstra de mim, permitia essa vacilação, perda de horizonte, de chão, essa mesquinhez tosca diária. Por que deixava o veneno meu me corroer e ser o seu adubo?
De cabeça baixa aceitando toda merda e seguindo sem freio na destruição das vontades próprias, na preparação do shape de um jeito estranho, nem bonita ficava pra minha opinião.
Até o sapato usava de outro tipo. O comprimento da saia. Até as palavras regulava. Pensava duas vezes antes do palavrão, antes amigo íntimo e adorado, palavrão bronco, sucesso da língua portuguesa, tradução perfeita, idioma campeão.
E logo eu, que parecia tão, mas tão super dona de mim, pras malfadadas línguas, pra opinião social do meio, pequeno meio.
Grande instrutor de passos, o meio.
Chamava-se machismo.
Esse texto estará no livro Desperdiçando Rima, que o selo Fábrica 231, da editora Rocco, lança em abril
quarta-feira, 22 de abril de 2015
JOGO DAS IDEIAS
Por Karina Buhr
Opinião é coisa que se tem. E cada vez mais se tem antes de se saber o suficiente sobre o assunto da vez.
Velocidades das comunicações todas, que é bom e, às vezes, não. Às vezes, de tão veloz, passa reto, não faz uma marquinha, uma ondinha na água parada.
E aí, o que poderia ser agir junto, forte, com outras ideias parecidas, vira um clube de ideias fechadas, no qual o importante é não divergir, importante é se sentir seguro, agradar.
Repare dos lados.
Os discursos vão se padronizando, pasteurizando e surgem blocos imensos de pessoas que pensam igual, isso valendo pra todas as ideologias e gostos e vontades.
Vozes dissonantes são vistas como inimigas e gente, que é bicho que vai e volta nas ideias o tempo todo, reflete, persegue o que disse pra pensar no que vai dizer, vira gente apagada. Manada é apagada. Pensamento de rebanho, seja de que lado for, só fortalece quem manda em todos.
E é pra lá que estamos indo, nessa ribanceira que caímos vertiginosamente.
Saber no raso é fácil e gera resultados imediatos. Buscas rápidas, nas primeiras páginas de pesquisas, já dá pra ter repertório interessante de termos que nos façam especialistas. Podemos usar aquele charme de que: “Ah nem tanto”; que é isso, eu só me informo.
E o kung fu das ideias que é bom, dos combates de argumentações que fritam o juízo do sabido e do receptor da sabedoria que, por sua vez, cospe outras sapiências de volta na cara, esse está meio bêbado, de bode, apagadinho o bichinho, coitado.
Ler a notícia, analisar por que ela vem pra tirar conclusões próprias e daí se partir pro combate de ideias, isso está caducando. Bom mesmo é repassar e depois ler, melhor ainda repassar, ter muita opinião e não ler. Seguir a cartilha da sua equipe de encaixe, onde você escolheu jogar, o ponto de vista de onde escolheu olhar, é o essencial nessa hora. Pouco importam nuances, contextos, vírgulas, entonações de cada acontecimento.
Importante é provar e novamente deixar claro e sem sombra de dúvidas a que time você pertence. O resto é pra que mesmo?
Saber das entranhas do assunto? Dissecar possibilidades de interpretação? Se preocupar em ser justo caso haja possíveis vítimas e algozes no inquérito da vez? Tudo bijuteria, adorno de opinião.
Bom é seguir no raso, parecer saber, ter aquela opinião quente, certeira e blindada da notícia da hora.
Bom atentar, a turba ensandecida, nós, pro que também vira tiro no pé. A faina de ter razão, transformar acontecimentos frescos em matéria pura de confirmação de discursos pode maquiar, transformar no que não é.
Não ponderar é o mais fácil.
Um fato acontecido, metido numa ideia pré-concebida sobre ele é boia. Faz nem força. Ele já vem ali, prontinho pra te servir, pra te dar razão a cada vociferação, vem educado pra ser seu número.
Fico torcendo pra gente largar mão, nem que seja um pouquinho, mas de preferência um “muitinho”, dessa soberba das ideias. Da vaidade extrema de ter sempre razão, aquela prova de pertencimento àquela equipe, pra esfregar na cara de quem é do time outro na competição da vez.
Poder voltar três casas, pensar, no silêncio da tentativa de compreensão, não necessariamente gritar opinião de pronto, poder respirar e falar, gostar de escutar, poder mudar de ideia quando ouve o outro falante.
Ou ganhar de volta o direito da desobrigação de emitir opinião formada quando mal acaba de ouvir o acontecido.
Que aconteçam nossas opiniões sempre! Mas numa velocidade que não nos anule, que não deixemos de acontecer nós mesmos, no verbo mesmo, na nossa individualidade, até o fim do acontecimento chamado nossa vida.
Velocidades das comunicações todas, que é bom e, às vezes, não. Às vezes, de tão veloz, passa reto, não faz uma marquinha, uma ondinha na água parada.
E aí, o que poderia ser agir junto, forte, com outras ideias parecidas, vira um clube de ideias fechadas, no qual o importante é não divergir, importante é se sentir seguro, agradar.
Repare dos lados.
Os discursos vão se padronizando, pasteurizando e surgem blocos imensos de pessoas que pensam igual, isso valendo pra todas as ideologias e gostos e vontades.
Vozes dissonantes são vistas como inimigas e gente, que é bicho que vai e volta nas ideias o tempo todo, reflete, persegue o que disse pra pensar no que vai dizer, vira gente apagada. Manada é apagada. Pensamento de rebanho, seja de que lado for, só fortalece quem manda em todos.
E é pra lá que estamos indo, nessa ribanceira que caímos vertiginosamente.
Saber no raso é fácil e gera resultados imediatos. Buscas rápidas, nas primeiras páginas de pesquisas, já dá pra ter repertório interessante de termos que nos façam especialistas. Podemos usar aquele charme de que: “Ah nem tanto”; que é isso, eu só me informo.
E o kung fu das ideias que é bom, dos combates de argumentações que fritam o juízo do sabido e do receptor da sabedoria que, por sua vez, cospe outras sapiências de volta na cara, esse está meio bêbado, de bode, apagadinho o bichinho, coitado.
Ler a notícia, analisar por que ela vem pra tirar conclusões próprias e daí se partir pro combate de ideias, isso está caducando. Bom mesmo é repassar e depois ler, melhor ainda repassar, ter muita opinião e não ler. Seguir a cartilha da sua equipe de encaixe, onde você escolheu jogar, o ponto de vista de onde escolheu olhar, é o essencial nessa hora. Pouco importam nuances, contextos, vírgulas, entonações de cada acontecimento.
Importante é provar e novamente deixar claro e sem sombra de dúvidas a que time você pertence. O resto é pra que mesmo?
Saber das entranhas do assunto? Dissecar possibilidades de interpretação? Se preocupar em ser justo caso haja possíveis vítimas e algozes no inquérito da vez? Tudo bijuteria, adorno de opinião.
Bom é seguir no raso, parecer saber, ter aquela opinião quente, certeira e blindada da notícia da hora.
Bom atentar, a turba ensandecida, nós, pro que também vira tiro no pé. A faina de ter razão, transformar acontecimentos frescos em matéria pura de confirmação de discursos pode maquiar, transformar no que não é.
Não ponderar é o mais fácil.
Um fato acontecido, metido numa ideia pré-concebida sobre ele é boia. Faz nem força. Ele já vem ali, prontinho pra te servir, pra te dar razão a cada vociferação, vem educado pra ser seu número.
Fico torcendo pra gente largar mão, nem que seja um pouquinho, mas de preferência um “muitinho”, dessa soberba das ideias. Da vaidade extrema de ter sempre razão, aquela prova de pertencimento àquela equipe, pra esfregar na cara de quem é do time outro na competição da vez.
Poder voltar três casas, pensar, no silêncio da tentativa de compreensão, não necessariamente gritar opinião de pronto, poder respirar e falar, gostar de escutar, poder mudar de ideia quando ouve o outro falante.
Ou ganhar de volta o direito da desobrigação de emitir opinião formada quando mal acaba de ouvir o acontecido.
Que aconteçam nossas opiniões sempre! Mas numa velocidade que não nos anule, que não deixemos de acontecer nós mesmos, no verbo mesmo, na nossa individualidade, até o fim do acontecimento chamado nossa vida.
http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-04-08/Jogo_das_ideias.aspx
sexta-feira, 28 de março de 2014
De normal bastam os Outros - Novo CD de Maria Alcina
Por Marcus Vinicius
Tem Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Karina Buhr, Felipe Cordeiro.
Mas tem também - Jorge Ben Jor, Totonho, Osvaldo Nunes, Adoniran Barbosa, Paquito, Romeu Gentil, Sebastião Gomes, Chico Anisio, Haydee de Paula, João e Aldir, Anastácia, Liane e Péricles Cavalcanti.
No vídeo abaixo Maria Alcina e Ney Matogrosso cantando Bigorrilho (Sebastião Gomes / Paquito / Romeu Gentil)
NOVA ESTAÇÃO - www.novaestacao.art.br - Produção de Thiago Marques Luizquarta-feira, 14 de agosto de 2013
Diga o Nome do Homem
Via Leonardo Costa
Por Karina Buhr
Passa a boiada na correria do dia.
Demora uma vida pro último boi, mas é feito pressa de raio.
Garante o leite, a vaca, o couro do boi, a picanha do almoço, o osso pro outro bicho e o bicho preguiça e o da seda desistem.
Todos os dias de manhã eles desistem e voltam a tentar tudo de novo, mais próximo do meio-dia, porque não tem jeito, fazer o quê?
Vai dizer que trabalha muito e até trabalha, mas tem vontade mesmo de ficar no mar, num rio, numa lagoa, numa piscina não, porque é pequena.
Dá vontade até de não ter vontade, mas pior que tem tantas...
Dá uma pena esses dias.
O dia escravo da gente, a gente escravo do dia, todos em estado de escravo, do governador do nosso estado, do presidente dos Estados Unidos, do representante da fábrica de tecido, de comida, de computadores.
De roupa também. Contém escravos.
No Brasil oficial, isso faz tanto tempo...
Era pra não esquecer, mas não esquecer num sentido de ter memória e não com as coisas diárias te lembrando toda hora que não é lembrança nada, é aqui e agora e que faz tempo que começou, mas ainda não acabou.
Se são diárias não são lembranças.
Lembrança é melhor, mesmo quando é ruim, porque não esquece.
Se esquece, repete.
O mundo é do dinheiro, somos pessoas com preço.
Pessoas com preço menor, pessoas com preço nenhum.
Pessoas com mais preço, se sentindo bem, embriagadas pelo alto preço próprio.
Escrevo de nós e de outros.
Juramos que escrevemos juntos.
Vai que um dia vira.
Tem até andado virando.
E ainda é luta e briga.
E guerra pra se provar da justiça, pra se tirar terra de quem escraviza.
De quem é escravo é fácil tirar.
É fácil, pra quem tem, tirar qualquer coisa de quem não tem.
Como se o pouco fosse nada, como se nada, pra alguns, de fato fosse o certo.
Fácil atirar também.
De longe e até de perto.
Fácil não apurar, não procurar provar.
Difícil é provar da dor.
Fácil é até levar um tiro no palco. Teatro. Show da morte.
Cacilda Becker teve é sorte.
Dinheiro incomoda muita gente.
Polícia incomoda muito mais.
Incômoda de nausear, afogar em mágoas, de magoar a própria tristeza, coitada, despreparada.
Banzo ancestral.
Se a vida não vale um nome...
“Morreram dez suspeitos” em troca de tiros.
Tiro não se troca. Tiro é outro troco.
“Assassinaram dez pessoas” devia dizer a notícia.
Mas quanto vale um nome num anúncio da polícia.
Notícias correm irresponsáveis e ainda bem que existem outras.
Morte matada de sobremesa.
A primeira pessoa anda com problemas faz tempo.
O Brasil às vezes não sabe falar.
O Brasil também fala muito bem.
O mundo parece com o Brasil.
O Nordeste também.
O Brasil é um certo Rio, um certo São Paulo.
Outros choram.
Sem nome.
MC Daleste é um nome bonito.
Nome com endereço de sobrenome. Um nome mirado.
9 (ou 13) na Favela da Maré. Nem um nome.
Nome é importante.
Número é importante. Seis MCs assassinados em três anos em São Paulo.
Lugar também é importante.
Nomes aos bois.
Os que passam, devagar no dia rápido e rápido no dia lento.
Quem mata o suspeito por direito?
Suspeito não é nome.
Diga o nome do homem!
Um grave acidente, numa avenida grave da cidade.
Um amigo viu uma cabeça de cavalo decepada.
Como cabeça de boi.
Perguntou pro homem se tinha tido morte.
Ouviu que morreram seis pessoas e uma mulher.
Mulher é como vaca.
Luana apanhou, mas é rica, Joana apanhou, mas é pobre.
O juiz ajuíza no salão nobre.
Seguimos, comendo migalhas, jogando migalhas, espalhando e respirando as tralhas, raspando as traças, boiando de graça.
Dormindo na curva.
Batendo no outro.
De olho no choro. De molho na chuva.
Melhor assim.
Bem pior assim.
----
*texto e ilustração publicados na edição de agosto da Revista da Cultura
Por Karina Buhr
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| Ilustração: Karina Buhr |
Passa a boiada na correria do dia.
Demora uma vida pro último boi, mas é feito pressa de raio.
Garante o leite, a vaca, o couro do boi, a picanha do almoço, o osso pro outro bicho e o bicho preguiça e o da seda desistem.
Todos os dias de manhã eles desistem e voltam a tentar tudo de novo, mais próximo do meio-dia, porque não tem jeito, fazer o quê?
Vai dizer que trabalha muito e até trabalha, mas tem vontade mesmo de ficar no mar, num rio, numa lagoa, numa piscina não, porque é pequena.
Dá vontade até de não ter vontade, mas pior que tem tantas...
Dá uma pena esses dias.
O dia escravo da gente, a gente escravo do dia, todos em estado de escravo, do governador do nosso estado, do presidente dos Estados Unidos, do representante da fábrica de tecido, de comida, de computadores.
De roupa também. Contém escravos.
No Brasil oficial, isso faz tanto tempo...
Era pra não esquecer, mas não esquecer num sentido de ter memória e não com as coisas diárias te lembrando toda hora que não é lembrança nada, é aqui e agora e que faz tempo que começou, mas ainda não acabou.
Se são diárias não são lembranças.
Lembrança é melhor, mesmo quando é ruim, porque não esquece.
Se esquece, repete.
O mundo é do dinheiro, somos pessoas com preço.
Pessoas com preço menor, pessoas com preço nenhum.
Pessoas com mais preço, se sentindo bem, embriagadas pelo alto preço próprio.
Escrevo de nós e de outros.
Juramos que escrevemos juntos.
Vai que um dia vira.
Tem até andado virando.
E ainda é luta e briga.
E guerra pra se provar da justiça, pra se tirar terra de quem escraviza.
De quem é escravo é fácil tirar.
É fácil, pra quem tem, tirar qualquer coisa de quem não tem.
Como se o pouco fosse nada, como se nada, pra alguns, de fato fosse o certo.
Fácil atirar também.
De longe e até de perto.
Fácil não apurar, não procurar provar.
Difícil é provar da dor.
Fácil é até levar um tiro no palco. Teatro. Show da morte.
Cacilda Becker teve é sorte.
Dinheiro incomoda muita gente.
Polícia incomoda muito mais.
Incômoda de nausear, afogar em mágoas, de magoar a própria tristeza, coitada, despreparada.
Banzo ancestral.
Se a vida não vale um nome...
“Morreram dez suspeitos” em troca de tiros.
Tiro não se troca. Tiro é outro troco.
“Assassinaram dez pessoas” devia dizer a notícia.
Mas quanto vale um nome num anúncio da polícia.
Notícias correm irresponsáveis e ainda bem que existem outras.
Morte matada de sobremesa.
A primeira pessoa anda com problemas faz tempo.
O Brasil às vezes não sabe falar.
O Brasil também fala muito bem.
O mundo parece com o Brasil.
O Nordeste também.
O Brasil é um certo Rio, um certo São Paulo.
Outros choram.
Sem nome.
MC Daleste é um nome bonito.
Nome com endereço de sobrenome. Um nome mirado.
9 (ou 13) na Favela da Maré. Nem um nome.
Nome é importante.
Número é importante. Seis MCs assassinados em três anos em São Paulo.
Lugar também é importante.
Nomes aos bois.
Os que passam, devagar no dia rápido e rápido no dia lento.
Quem mata o suspeito por direito?
Suspeito não é nome.
Diga o nome do homem!
Um grave acidente, numa avenida grave da cidade.
Um amigo viu uma cabeça de cavalo decepada.
Como cabeça de boi.
Perguntou pro homem se tinha tido morte.
Ouviu que morreram seis pessoas e uma mulher.
Mulher é como vaca.
Luana apanhou, mas é rica, Joana apanhou, mas é pobre.
O juiz ajuíza no salão nobre.
Seguimos, comendo migalhas, jogando migalhas, espalhando e respirando as tralhas, raspando as traças, boiando de graça.
Dormindo na curva.
Batendo no outro.
De olho no choro. De molho na chuva.
Melhor assim.
Bem pior assim.
----
*texto e ilustração publicados na edição de agosto da Revista da Cultura
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Eu menti pra você - Karina Buhr
Eu menti pra você (Karina Buhr)
Eu sou uma pessoa má
Eu menti pra você
Eu sou uma pessoa má
Eu menti pra você
Você não podia esperar ouvir uma mentira de mim
Que pena eu não sou o que você quer de mim (2x)
Se você tiver que escolher entre você e o seu amor
Você escolhe quem, você escolhe quem?
Se você tiver que escolher entre você e o seu amor
Your love, your love, your love
Talvez o tempo possa me livrar da culpa
Que eu não sei se vem de mim ou da cruz de Jesus
Mas eu tenho ainda um grande amor pra te dar
Quero saber se você aceita ele como for
My love is your love
Eu menti pra você
Eu sou uma pessoa má
Eu menti pra você
Você não podia esperar ouvir uma mentira de mim
Que pena eu não sou o que você quer de mim (2x)
Se você tiver que escolher entre você e o seu amor
Você escolhe quem, você escolhe quem?
Se você tiver que escolher entre você e o seu amor
Your love, your love, your love
Talvez o tempo possa me livrar da culpa
Que eu não sei se vem de mim ou da cruz de Jesus
Mas eu tenho ainda um grande amor pra te dar
Quero saber se você aceita ele como for
My love is your love
Ouvindo Vozes
Por Karina Buhr
2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...
No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.
Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.
Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".
Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.
No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...
Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.
Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.
Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.
Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.
Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.
Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?
É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.
Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.
Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.
Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.
1992. Eu tocava tambor e cantava na chamada "nova cena mundial pernambucana".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".
2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
Cantora é um cargo que cai muito bem em uma mulher brasileira. E passei a fazer parte da chamada "nova cena mundial paulista". Zerou tudo. Elixir da juventude.
O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...
No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.
Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.
Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".
Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.
No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...
Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.
E existe a ideia de um certo glamour. Pipocam eternas comparações sem sentido e a vibração picuinha-dos-inferno se estabelece jornais afora. Às vezes, lembra concurso de miss. Botam as mina pra competir, como de costume, como na vida real, que dizem que é assim. Não é assim. Só te socam isso goela abaixo. Foie gras. É só fazer as contas de novo, como no caso das duplas sertanejas.
Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.
Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.
Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.
Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.
Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?
É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.
Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.
Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.
Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.
(da coluna de Karina Buhr- revista da Livraria Cultura)
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