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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A questão do aborto

Por Drauzio Varela

Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como consequência, milhões de adolescentes e mães de família que engravidaram sem querer recorrem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte frequente entre as mulheres brasileiras em idade fértil. Para ter ideia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 1993 a 1998, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de dez a quatorze anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozoide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico, o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as consequências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12ª semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tornou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições díspares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e
encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Diante da dor dos outros

Por Magela Lima 


A ensaísta norte-americana Susan Sontag, num de seus últimos títulos, olha o pavor em torno do ataque às torres gêmeas do World Trade Center e conclui que a memória e a sensibilidade na contemporaneidade deixam de ser episódicas para ser imagéticas. Assim, a gente deixaria de lembrar ou atentar os fatos por eles mesmos e passaria a deslocá-los no tempo ou identificá-los pela força de suas imagens. Na verdade, ela não diz nada de novo. Hiroshima e Nagasaki já tinham sinalizado para isso. A queda do muro de Berlim também.

Sontag, porém, flagra um momento de ápice. Fico pensando eu, onde foi parar a nossa capacidade de indignação. Se a memória e a sensibilidade demandam grandes catástrofes, o que dizer da revolta? É nisso que penso, por exemplo, quando sou forçado a me deparar com um escândalo como esse envolvendo uma verba destinada para a construção de banheiros populares aqui no Ceará. Definitivamente, a gente perdeu o respeito diante da dor dos outros. Tirar algo de quem já não tem é tão escabroso que deveria ser coagido, reprimido e punido como muito mais vigor.

O dicionário recomenda classificar como furto uma ação indevida de apropriação sem uso da violência. Já assalto seria um roubo com uso da força. A mim, me faltam palavras para classificar esse desvio vergonhoso de verba de tão violento que ele é. Subtrair de uma parcela da população, carente de tudo, o direito de uma melhoria nas condições sanitárias do seu cotidiano é algo só comparável a roubar dinheiro de merenda escolar ou destinado a compra de remédios para vítimas de doenças crônicas. É um absurdo.

Um banheiro, por mais modesto que seja, na vida modesta de uma pessoa qualquer, é algo que promove uma mudança extraordinária. Além de agregar uma perspectiva de higiene pessoal, muda substancialmente a condição coletiva, pública. Não é firula, é qualidade de vida, é saúde. Quem não enxerga isso certamente não é capaz de ver o mundo para além do próprio umbigo. Ou, o que é pior: do próprio bolso. É inaceitável imaginar que, em pleno século XXI, a gente ainda conviva com necessidades tão básicas sendo subjugadas a interesses tão escusos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ministério da Saúde e McDonald’s juntos por “alimentação saudável"


por Jorge Américo - Radioagência NP

Para Conselho de Segurança Alimentar, convênio não obedece a critérios para a promoção de hábitos saudáveis.

O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) questionou o Ministério da Saúde pela renovação de um convênio com a rede de “fast food” McDonald’s. Os conselheiros avaliam que a parceria não obedeceu a critérios fundamentais para a promoção de hábitos alimentares saudáveis.

O presidente do Consea, Renato Sérgio Maluf, lembra que é comum a existência de ações conjuntas entre o governo e a iniciativa privada. Ele cita como exemplo de coerência os acordos com fabricantes e fornecedores, no sentido de reduzir a quantidade de sódio nos alimentos. No entanto, Maluf considera contraditória a relação com o McDonald’s.

“Nossa preocupação é de que quando as parcerias forem fechadas, não seja feito uso de uma espécie de chancela do setor público para a atuação de empresas que estão na direção contrária de uma alimentação adequada e saudável, como é o caso das redes de alimentação rápida. E também que esse tipo de parceria não comprometa a função reguladora do Estado”.

No início de junho, a Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos encaminhou uma carta ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, condenando a parceria. A organização considerou absurda a vinculação entre programas e imagem do Ministério com a marca, produtos e campanhas publicitárias da empresa.

Na campanha anterior, a toalha de bandeja dos restaurantes – uma das peças publicitárias – exibia dicas de cuidados com a saúde e, no verso, disponibilizava uma lista com o cardápio oferecido pela rede. Os alimentos são de alto teor calórico, com excesso de sal, açúcares e gorduras.

O McDonald´s possui mais de 600 lojas no Brasil e emprega 34 mil funcionários. Os processos trabalhistas contra a empresa já resultaram em indenizações milionárias

http://segalinut.wordpress.com/