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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Música, Comida e Bebida (3)

Ethel de Paula
O  Diumtudo "está fazendo" uma nova enquete com amigxs que gostam de bebida, comida e música. São quatro categorias:
  • Bar, Botequim 
  • Local de boa comida
  • Local para beber, comer nas altas horas
  • Local com boa música

Ethel de Paula - 
Jornalista(excelente texto), autora do livro "Mário Gomes" edições Demócrito Rocha, boêmia,  indica:
  • Bar - Raimundo dos Queijos
  • Comida - Cantinho do Frango
  • Altas horas - Brazão
  • Música - Todos onde a Renatinha Feito Música e o Alan Morais Doido da Asa tocam!

Serviço:
Raimundo dos Queijos - Rua General Bezerril, 151 - Centro - Fortaleza Ce

Cantinho do frango - Rua Torres Câmara, 71 - Aldeota Fortaleza Ce

Brazão - R. João Cordeiro, 43 - Praia de Iracema, Fortaleza Ce

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

MÁRIO GOMES... as vezes Américo


As fotos complementam o texto: "A Praça e o Poeta são do Povo"  
















A praça e o poeta são do povo

Por Américo Souza

Américo de Souza
Criada a partir do processo de urbanização que remodelou a cidade na década de 1870, (muito embora formalmente fundada apenas em 1902) a Praça do Ferreira ganhou este nome em homenagem ao seu idealizador, o boticário e político Antônio Rodrigues Ferreira.

Em seus mais de 100 anos de existência, a praça passou por diversas reformas, que modificaram sua aparência, seu tamanho e seus usos. Uma coisa no entanto, permaneceu perene, a sua vocação como espaço maior da arte e da irreverência na cidade de Fortaleza.

Foi na Praça do Ferreira, mais especificamente no Café Java, o mais boêmio dentre os quatro que nela existiram, que nasceu, em 1892, a Padaria Espiritual, agremiação literária fundada por jovens escritores de origem modesta, que sacudiram a cidade com seus textos de refinada ironia e contumaz crítica aos ideais burgueses. 

Nos primeiros anos do século XX eram célebres as serestas em noites enluaradas promovidas pelo poeta e artista plástico Raimundo Ramos de Paula Filho, mais conhecido como Ramos Cotoco, cujas pinturas enfeitavam fachadas de várias lojas situadas no entorno na praça. 

A praça tem sido, também, o cenário preferido para a experiência underground de sujeitos incomuns, que com suas esquisitices, seus trajes invulgares, saberes e fazeres de caráter pouco, ou nada ordinário, protagonizaram, ao seu modo, a rebeldia contra establishment imposto pela invariavelmente reacionária elite alencarina. Neste grupo, consagrado pelo historiador Tião Ponte sob o conceito de “tipos populares”, destacam- se Chagas dos Carneiros, Casa de Urubu, Pilombeta e Tostão. 

Nas últimas décadas, especialmente nestes primeiros anos de século XXI, as tradições artística e irreverente da praça tiveram em Mário Gomes a sua expressão mais eloquente.

Nascido em 1947, Mário Ferreira Gomes teve uma vida dedicada a verso, o que lhe valeu, merecidamente, o epíteto de poeta. Poeta Mário Gomes é como todos o chamavam.

Nunca gostei de suas poesias, li duas ou três, não mais. Entrementes, também não gosto de arte cubista, o que não me impede de reconhecer Pablo Picasso como um dos maiores artistas plásticos do século XX. 

Mário Gomes era, antes de mais nada e é depois de tudo, um poeta, reconhecido como tal por escritores e críticos do porte de Márcio Catunda, Juarez Leitão, Beatriz Alcântara e Ayrton Monte. Não gostar de seus versos jamais de impediu de reconhece-lo poeta, nem de perceber aquilo que nele mais me fascinava: o espírito provocador, a alma desbragada, que nos tirava do conforto de uma visão burguesa e conformada e nos obrigava enxergar as contradições da cidade, a “deselegância bela” como ele cantou em poema sobre a Praça do Ferreira. Praça do Ferreira que ele tomou para si, tornando-a seu castelo, de onde, qual um Dom Quixote pós-moderno, partia a percorrer a cidade. 

“Viveu uma vida dentro dos sapatos”, afirmou certa vez a jornalista Ethel de Paula, uma
das pessoas que lhe foi mais próxima nos últimos anos. 

A morte do Poeta Mário Gomes, em 31 de dezembro de 2014, aos 67 anos, deixou a cidade órfã de um andarilho, que com palavras, gestos e atitudes redesenhou-a a partir de uma geografia estética a um só tempo elegante e bizarra.
 
O carnaval é, em muitos aspectos, uma festa louca, um estado de exceção, em que nos permitimos concretizar fantasias, fazendo do desvario uma expressão de grande lucidez. Desvariadamente lúcido foi como viveu e morreu o Poeta Mário Gomes. 

Foi na perspectiva de demarcar a dimensão da sua ausência, bem como a importância da sua presença (física e simbólica) para a cidade que, fantasiado como o personagem maltrapilho-refinado de que ele, como gesto final e maior de provocação e escárnio, se travestiu nestes derradeiros anos prestei, no palco do bloco Concentra Mas Não Sai, na Praça do Ferreira – seu lugar predileto – uma singela e necessária homenagem ao Poeta Mário Gomes. 

Que seu legado provocador e inconformado siga nos revelar a cidade que insistimos em não ver. 
Que este artista maior da praça do povo se torne, para este mesmo povo, um ícone da resistência à pasteurização asséptica das relações, que fez a aparência sobrepujar o conteúdo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida dentro dos sapatos

Por Ethel de Paula

A imagem do poeta andarilho que entrou para o imaginário coletivo de uma cidade através de seu próprio engenho, inventando para si uma errância deliberada como extensão da franca recusa ao trabalho, alinhada à também confessa vocação para a boemia sem freios, é poeira nos olhos. E colírio pingado a conta gotas. Aos 66 anos, Mário Gomes perambula pelas ruas de Fortaleza desde a juventude, quando, aposentado por invalidez após controversas internações psiquiátricas, fundou o seu “mundo”: um “escritório” ao ar livre em plena Praça do Ferreira, coração do Centro, com direito à banco preferencial e audiência fiel para poemas escritos e recitados ao sereno, a qualquer hora do dia ou da noite, em estado de graça ou embriaguez.

Por anos a fio, o filho de dona Nenzinha e de seu Benedito - ela costureira, ele motorista -, vem fazendo da rua lugar de permanência e reinvenção de si. A casa da família, no bairro Bom Sucesso, serviu-lhe, na melhor das hipóteses, como mero dormitório. E o entra-e-sai fora de hora só deixara pistas de sua passagem relâmpago pelo ambiente doméstico graças a um refazer-se diário, à preparação minuciosa do corpo outsider para a gesta ambulante. Metido em trajes elegantes, o bon vivant sem posses, mas com carisma e inteligência incontestes, sensível às artes, dedicou-se a construir um personagem até hoje atento ao que veste e ao que lhe adorna precariamente, aos moldes de um dândi desafortunado das ruas. Assim, o paletó sem gravata virou marca-registrada, como também o charuto em punho e os sapatos bico-fino. Arranjo plástico que lhe conferiu singularidade em meio às informais rodas de conversa literárias improvisadas em torno do “escritório” do poeta da Praça do Ferreira, onde escritores e jornalistas de renome se misturavam a novos e anônimos, emergentes e anarquistas.

A camaradagem fez do poeta da Praça um dos mais reconhecidos no circuito alternativo de quem escreve por linhas tortas nas bordas da Academia. Mário Gomes conta oito livros de poemas publicados com o auxílio luxuoso de amigos endinheirados. E já venceu concurso de poesia “comendo lagartas e defecando borboletas” ou ainda armando uma orgia metafórica entre mulheres famintas que lhe devoraram em meio a um banquete antropofágico, para, ao final, salivantes, exclamarem: “como é gostoso esse Mário Gomes!”. Um homem para se comer com os olhos, é fato, lentamente, com desvelo.
Foto Deivyson Teixeira
Devorar o poeta, chupando-lhe todos os ossinhos, é, antes de tudo, entender o caminhar não como algo natural, mas como problema e experiência. A partir mesmo da estranheza e da dificuldade do ato de equilíbrio intrínseco à deriva de quem realizou seu destino praticamente sem apoio, nas franjas da cidade, como um declarado vagabundo, do tipo chapliniano. O errante, em Mário Gomes, diz sobre a falta de lugar no mundo de quem ousa andar na contramão, ou melhor, no “entre”, dentro, mas fora, em ziguezague existencial, persistindo em colar o que, no humano, se separou do animal - ou da ânima -, na colisão dos tempos. Mas diz também sobre a sobrevivência política dos “vaga-lumes”, imagem trazida pelo filósofo Georges Didi-Huberman para recolocar em jogo nuances entre a luz ofuscante da vida mercantilizada sob os holofotes da sociedade do espetáculo e os lampejos e pequenas chamas dos seres luminescentes que, em momentos de exceção, vagam intocáveis e resistentes, “como se uma luz pudesse gemer”, emitindo sinais de resistência, transgressão e inocência. “Clarão errático, certamente, mas clarão vivo, chama de desejo e de poesia encarnada”.

Passadas mais de quatro décadas de deriva e reação silenciosa ao choque paralisante da moral e dos bons costumes, gerando curtos-circuitos na engrenagem normativa e disciplinadora de um capitalismo cultural que exige produtividade e lucro diante da comercialização incessante de desejos e formas de vida, Mário Gomes acende um cigarro. Derby, comprado no retalho entre os muitos ambulantes do Centro que lhe confiam vender fiado, visto que a aposentadoria tarda mas não falha e o devedor em questão, desprendido da matéria, é de uma reconhecida honestidade. Com crédito na Praça e acenos por onde passa, há muito a tríade “casa, comida e roupa lavada” foi relativizada. Assim é que afirma, contundente: “Minha casa é meu corpo, meu carro também. Moro dentro dos meus sapatos, ora! Meu nome é Pensamento!”.

E se a apresentação impecável do poeta de outrora já não é mais a mesma, assim como encerrou-se a safra de poemas sobre papel, seu gênio permanece afiado, combinando perfeitamente com o casaco surrado junto à calça risca-de-giz amarrada com cordão. “Agora tá tudo na minha cabeça. A Oi capta tudo por satélite. Não precisa mais escrever. Fotografa e manda pela internet. Não é assim não?”, provoca o poeta, em dia com as notícias do Brasil e do mundo que ele “capta” em jornais que lê diariamente, sem falha. “Não leio mais livro e nem vejo mais filme. Tenho 66 anos, já li muita coisa!!! Então é só saber o que tá acontecendo. Você sabia que o Uruguai liberou a maconha? Pois foi. Mas o Brasil ainda não tem cabeça para isso!”, emenda, crítico.

Envergado sobre si mesmo, o homem-caracol, agora com vistas recaídas sobre o chão aonde pisa, ouve tudo e tudo vê, desta perspectiva mesmo, basta que lhe chegue uma provocação ou a palestra venha a interessar. Caminhando ao seu lado, é ele quem avisa sobre postes sem luz; calçadas deterioradas; fontes de água insuspeitadas; o melhor baião-de-dois do pedaço, a ele, e só a ele, gentilmente servido no balcão do Duda´s Burguer, em copo de plástico, como prefere; a hora exata da “fresca” para descer até o Centro Dragão do Mar e lá tomar um trago por sua conta; o número catastrófico de mortes violentas praticadas naquele mês em Fortaleza e o tipo de pássaro que, em revoada, sobrevoa a Coluna da Hora para depois segui-lo até próximo à Catedral, em uma cúmplice sinfonia ouvida diariamente.

Mário Gomes, o praticante ordinário da cidade, para usar Michel de Certeau, “joga com espaços que não se vêem e tem deles um conhecimento tão cego quanto no corpo-a-corpo amoroso”. Por último, inventou para si um guarda-roupas a céu aberto, onde casacos, calças e camisas estão embaixo de pedras e árvores que só ele identifica. Pelos olhos ardósia, a cidade que passa e também se refaz teimosamente não é a do Forte de Nossa Senhora da Assunção, fechada em si, monumentalizada, mal planejada ou aterrorizada diante das próprias feridas. Subtraído da lei do presente, Mário escreve e organiza em torno de si, como exímio aprendiz de uma história da não-linguagem, o romance de uma outra Fortaleza possível, aberta a outros modos de ser e de estar no mundo. A Fortaleza onde queremos viver e estar-com.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

É assim que eu vejo... A Toca do Plácido

Toca do Plácido
Por Ethel de Paula


A Toca do Placido é um bar de calçada e de dentro de casa. 
Tudo em um só espaço físico. 

Quem entra experimenta um ambiente intimista, à meia luz, com eventuais velas acesas, uma quase penumbra para rodas, pares, brindes ou conversas mais reservadas. Mas o quintal da pequena casa do bairro Joaquim Távora também pode ser visto como o depositário das experimentações estéticas e arquitetônicas do dono, Marcelo Costa.

Para começar, pisamos em um chão de pedregulhos e à nossa volta, inusitadamente casados, temos alguns móveis rústicos e outros antigos, dialogando com uma coleção incontável de objetos e penduricalhos que beiram o kitsch. Mais ao lado, um pequeno recanto verde, que também é de coelhos, tartarugas e aves criadas soltas. 

Tudo envolto por um manto sonoro que vem dos vinis.

O som de dentro é o mesmo de fora, mas o clima é o inverso: mesas quase se beijando de tão próximas e tudo muito às claras porque a ordem ali é ver e ser visto, já que a rua vira passarela e alternativa para quem quer beber e conversar mas não conseguiu assento. 

No cardápio, chamariz é o que não falta: cerveja litrão a preço honesto, drinks diferenciados e que seduzem pela aparência, comidinhas de boteco de dar água na boca. 

Vale se entocar.

Toca do Plácido – Rua Fiscal Vieira com Rua Castro Alves, s/n – Joaquim Távora. Perto da Soriano Albuquerque. De terça a sábado, das 18h até o último cliente. Não aceita cartão.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Farol - A rua em revista


A rua em revista
Por Ethel de Paula
Em sua sexta edição, a revista Farol, publicação da Prefeitura Municipal de Fortaleza, editada através de sua secretaria municipal de cultura, amalgama histórias de vida, cama, mesa e banho. De cama, ou melhor, sobre um jeito todo particular de deitar e dormir, quem fala é o vendedor ambulante Cícero Araújo Soares, que desde 1982 trança com as próprias mãos redes tarrafinhas vendidas a preços honestos na esquina da Praça do Ferreira. De mesa, ou de como a culinária ensina a ver e “ler” o mundo, quem trata são as mulheres do Poço da Draga que aprenderam a soletrar cozinhando. De banho, ou de um jeito próprio de se higienizar e compor o visual, quem deixa escapar é o poeta errante Mário Gomes, cuja indumentária é mote para um exercício de compreensão acerca do belo e dos modismos vigentes.
Farol também passa em revista o que pode o riso quando desconectado dos clichês e do grotesco. De perto, ao vivo e em cores, alguns dos representantes do humor espontâneo e até ingênuo, aquele nascido e criado nas ruas, contam sobre o preparo de cada elogio à comicidade inteligente, tendo como principal ferramenta a reconhecida presença de espírito tipicamente cearense. Arrochando o nó do todo bem-humorado e em franco diálogo com a galhofa reinante, a entrevista do jornalista Xico Sá com o humorista Falcão é uma hilária conversa entre inspirados mestres da gaiatice cabeça-chata.
Do riso ao pesar é um passar de páginas. No dia de visitas do presídio feminino, Farol abriu passagem para os relatos de detentas e familiares, no esforço por captar a intensidade das poucas horas de contato direto entre o dentro e o fora. Um olho em quem se prepara para visitar e espera conviver novamente. Outro em quem está enclausurado e reinventa tempo e espaço. E toda a atenção voltada para o arsenal de sentimentalidades à solta, os claros e escuros extra-muros, comuns a todos.  
Comum a todos e demasiado humano também é o que resplandece à flor da pele de quem cultua e faz tatuagem. Supercoloridos e prenhes de significados, os corpos ilustrados estão no centro da reportagem de capa da revista Farol. São telas vivas em movimento exibindo imagens que valem mais do que mil palavras, potencialmente capazes de exteriorizar intimidades e subjetividades diversas.
Com lançamento marcado para a próxima sexta-feira, dia 02 de setembro, no Passeio Público, a sexta edição da revista Farol vem afirmar uma política de comunicação pública para a cultura voltada à valorização da memória e à difusão das narrativas e bens simbólicos dos moradores da cidade. Enfatizando as histórias de vida, a oralidade, as singularidades ignoradas pela chamada história oficial e as existências comuns soterradas em meio aos estereótipos da contemporaneidade, a publicação flerta justamente com a capacidade imemorial que cada indivíduo tem de narrar e narrar-se.
À luz da grande reportagem e do texto narrativo, próximo da crônica, a revista passa ao largo da agenda oficial da indústria do espetáculo e da cobertura meramente factual para dar visibilidade ao acontecimento atemporal e (extra)ordinário. Apostando na reinvenção da figura do repórter flâneur, o cronista andarilho para quem a cidade é uma espécie de caleidoscópio, e não uma massa de concreto amorfo, o foco recai justamente sobre a pulsação das ruas, a dinâmica interna dos bairros, os modos de viver, fazer, criar, pensar, festejar, trabalhar e transcender de grupos sociais e indivíduos que também reinventam o próprio cotidiano. Assim, Farol é um convite à polifonia das muitas cidades - visíveis ou não - que existem em uma só.
SERVIÇO: 
Lançamento da sexta edição da revista Farol. 
Quando - 02 de setembro, de17h às 22h.
Local - Passeio Público