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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Conceição Lemes, 33 anos de estrada: Resposta em público a O Globo

Por Conceição Lemes
Via Bruno Perdigão

Nessa segunda-feira 13, uma repórter de O Globo enviou-nos um e-mail:

“Estou fazendo uma matéria sobre a entrevista que o ex-presidente Lula concedeu a blogueiros na semana passada. Gostaria de conversar contigo por telefone”.

Pedi que enviasse as perguntas por e-mail. Hoje, às 12h27 elas foram encaminhadas:



Nada contra a repórter. Embora não a conheça, respeito-a profissionalmente como colega.

Já a empresa para a qual trabalha, não merece a nossa consideração.

Com essas perguntas aos blogueiros, O Globo parece estar com saudades da ditadura, quando apresentava como verdadeira a versão dos órgãos de repressão. Exemplo disso foi a da prisão, tortura e assassinato de Raul Amaro Nin Ferreira, em 1971, no Rio de Janeiro.

Com essas perguntas, O Globo parece querer promover uma caça aos blogueiros progressistas. Um macartismo à brasileira.

O marcartismo, como todos sabem, consistiu num movimento que vigorou nos EUA do final da década de 1940 até meados da década de 1950. Caracterizou-se por intensa patrulha anticomunista, perseguição política e dersrespeito aos direitos civis.

O interrogatório emblemático daqueles tempos nos EUA:

Mr. Willis: Well, are you now, or have you ever been, a member of the Communist Party? (Bem, você é agora ou já foi membro do Partido Comunista?)

A sensação com as perguntas de O Globo é que voltamos à ditadura. Agora, a ditadura midiática das Organizações Globo. É como estivéssemos sendo colocados numa sala de interrogatório.

Afinal, qual o objetivo de saber se pertencemos a algum partido político?

Será que O Globo faria essa pergunta aos jornalistas de direita, travestidos de neutros, que rezam pela sua cartilha?

E se fossemos nós, blogueiros progressistas, que fizessemos essas perguntas aos jornalistas de O Globo?

Imediatamente, seríamos tachados de antidemocratas, cerceadores da liberdade de expressão, chavistas e outros mantras do gênero.

Como um grupo empresarial que cresceu graças aos bons serviços prestados à ditadura civil-militar tem moral de questionar ideologicamente os blogueiros que participaram da entrevista coletiva?

Liberdade de imprensa e de expressão vale só para direita e para a esquerda, não?

Como uma empresa que tem no seu histórico o colaboracionismo com a ditadura, o caso pró-Consult, o debate editado do Collor vs Lula, ter sido contra a campanha Pelas Diretas, pode se arvorar em ditar normas de bom Jornalismo e ética?

Como uma empresa que deve R$ 900 milhões ao fisco tem moral para questionar outros brasileiros?

Como um grupo empresarial que recebe, disparadamente, a maior fatia da publicidade do governo federal pode criticar os poucos blogs que recebem alguma propaganda governamental?

O Viomundo, repetimos, não aceita propaganda dos governos federal, estaduais e municipais. É uma opção nossa. Mas respeitamos quem recebe. É um direito.

No Viomundo, não temos nada a esconder. Só não admitimos que as Organizações Globo, incluindo O Globo, com todo o seu histórico, se arvorem no direito de fiscalizar a blogosfera.

Por isso, eu Conceição Lemes, que representei o Viomundo na coletiva, não respondi a O Globo. Preferi responder aos nossos milhares de leitores. Diretamente. E em público.

Seguem as perguntas de O Globo e as minhas respostas.

Qual a sua formação acadêmica?

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Qual a sua atuação profissional antes do blog? Já cobriu política por outros veículos?

Sou editora do Viomundo, onde faço política, direitos humanos, movimentos sociais. Toco ainda o nosso Blog da Saúde.

No início da carreira, fiz um pouco de tudo: economia, política, revistas femininas, rádio…

Há 33 anos atuo principalmente como jornalista especializada em saúde, tendo ganho mais de 20 prêmios por reportagens nessa área. Entre eles, o Esso de Informação Científica, o José Reis de Jornalismo Científico, concedido pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), e o Sheila Cortopassi de Direitos Humanos na área de Comunicação, outorgado pela Associação para Prevenção e Tratamento da Aids e Saúde Preventiva (APTA) com apoio do Unicef.

Conquistei também vários prêmios Abril de Jornalismo, a maioria por matérias publicadas na revista Saúde!, da qual foi repórter, editora-assistente, editora e redatora-chefe.

Em 1995, fui premiada pela reportagem “Aids — A Distância entre Intenção e Gesto”, publicada pela revista Playboy. O projeto que desenvolvi para essa matéria foi selecionado para apresentação oral na 10ª Conferência Internacional de Aids, realizada em 1994 no Japão.

Pela primeira vez um jornalista brasileiro teve o seu trabalho aprovado para esse congresso. Concorri com cerca de 5 mil trabalhos enviados por pesquisadores de todo o mundo. Aproximadamente 300 foram escolhidos para apresentação oral, sendo apenas dez de investigadores brasileiros. Entre eles, o meu. Em consequência, fui ao Japão como consultora da Organização Mundial da Saúde.

Tenho oito livros publicados na área.

O mais recente, lançado em 2010, é Saúde – A hora é agora, em parceria com o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, e o médico Mario Ferreira Júnior, coordenador de Centro de Promoção de Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em 2003/2004, foi a vez da coleção Urologia Sem Segredos, da Sociedade Brasileira de Urologia, destinada ao público em geral.

Os primeiros livros foram em 1995. Um deles, o Olha a pressão!, em parceira com o médico Artur Beltrame Ribeiro.

O outro foi a adaptação e texto da edição brasileira do livro Tratamento Clínico da Infecção pelo HIV, do professor John G. Bartlett, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. A tradução e supervisão científica são do médico Drauzio Varella.

Você é filiada a algum partido político?

Não sou nem nunca fui filiada a qualquer partido político.

Mas me estranha muito uma empresa que apoiou a ditadura, cresceu devido a benesses do regime e hoje se alinhe com todos os espectros da direita brasileira, questione a a filiação partidária de um jornalista.

Quer dizer de direita, tudo bem, e de esquerda, não?

Como você definiria os “blogueiros progressistas”? Existe uma linha política?

Somos de esquerda.

Defendemos:

Melhor distribuição da renda no país.

Reforma agrária.

Os movimentos sociais por melhores condições de moradia, trabalho, defesa do meio ambiente, saúde e educação.

Regulamentação dos meios de comunicação.

Valorização do salário mínimo.

Política de cotas raciais nas universidades.

Direitos reprodutivos e sexuais das mulheres brasileiras.

Combate à discriminação e promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais

Imposto sobre grandes fortunas.

Financiamento público de campanha.

Reforma política.

Fortalecimento da Petrobras.

Sistema Único de Saúde.

Como você foi chamada para a entrevista? Recebeu alguma ajuda de custo do instituto?

Por e-mail. Nenhuma ajuda.

O que você achou da seleção de blogueiros para a entrevista? Incluiria, por exemplo, representantes da mídia ninja ou blogueiros “de oposição”, como Reinaldo Azevedo?

O Instituto Lula tem o direito de chamar para entrevistar o ex-presidente quem ele quiser.

Engraçado O Globo perguntar isso. De manhã à madrugada, de domingo a domingo, todos os veículos das Organizações Globo privilegiam, ostensivamente, sem o menor pundonor, vozes do conservadorismo brasileiro e internacional. Pior é que travestido de uma falsa neutralidade.

Por que O Globo pode chamar quem quiser e o ex-presidente Lula, não?

Por que as Organizações Globo não dão espaços iguais à esquerda e à direita, garantindo a pluralidade de opiniões?

No dia em que as Organizações Globo garantirem efetivamente a pluralidade de opiniões, respeitando a verdade factual, aí, sim, seus profissionais poderão questionar os nomes escolhidos por Lula.

Qual foi o ponto mais relevante da entrevista para você?

Ter falado três horas e meia com os blogueiros. Uma conversa em que nenhum assunto foi proibido. Tivemos liberdade plena de perguntar o que queríamos. Uma lição de democracia.

O instituto arcou com os seus custos de deslocamento?

Não. Fui de táxi. Paguei do meu próprio bolso.

Por que você acredita ter sido escolhida para a entrevista?

Quantos jornalistas brasileiros têm o meu currículo profissional? Quantos repórteres da mídia tradicional e da blogosfera produziram tantos furos jornalísticos quanto nós no Viomundo nos últimos cinco anos?

Por isso, deixo essa pergunta para você e os leitores do Viomundo responder.

O que você acha do movimento “Volta Lula”?

Quem tem de achar é a população e os militantes dos partidos da base de apoio do governo.

Sou apenas repórter. Cabe a mim, portanto, retratar o que presencio.

Qual nota você daria ao governo Dilma? Por quê?

O Globo tem fetiche por nota. Quem tem de dar a nota é o eleitorado. Sou repórter e minha opinião neste caso é irrelevante. A não ser que O Globo pretenda usá-la para fazer o que costuma fazer: manipular informação com objetivos políticos, em defesa de interesses da direita brasileira.

PS do Viomundo: Todas as nossas batalhas são financiadas exclusivamente pela contribuição de assinantes, a quem agradecemos por compartilhar conteúdo exclusivo generosamente com outros internautas. Torne-se um deles!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Fracasso Socialista de Mandela

por Slavoj Zizek, em The Stone

Nas duas últimas décadas de sua vida, Nelson Mandela foi celebrado como modelo de como a libertação de um país de seu colonizador pode ser feita sem que se caia na tentação do poder ditatorial e na pose anticapitalista.
Em resumo, Mandela não era Mugabe, a África do Sul continuou sendo uma democracia pluripartidária com imprensa livre e economia vibrante bem integrada ao mercado global e imune às ligeiras experiências socialistas.
Agora, com sua morte, sua estatura como homem santo e sábio parece confirmada para a eternidade: existem filmes de Hollywood sobre ele – ele foi interpretado por Morgan Freeman que, por sinal, também fez o papel de Deus em outro filme; astros do rock e líderes religiosos, atletas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, estão todos unidos em sua beatificação.
É muito simplista criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: mas ele realmente tinha escolha?
E essa é toda a história? Dois fatos-chave continuam escondidos por esta visão celebratória.
Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da insegurança, da violência e do crime.
A grande mudança é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite negra.
Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas também justiça social e até mesmo uma espécie de socialismo.
Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando.
Neste ponto, a África do Sul é apenas uma versão da história contemporânea e recorrente da esquerda.
Um líder do partido é eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” – porém, mais cedo ou mais tarde, ele tropeça no dilema chave: ousa tocar nos mecanismos capitalistas ou decide “jogar o jogo”?
Se ele escolhe perturbar esses mecanismos, ele é rapidamente “punido” por distúrbios no mercado, caos econômico e todo o resto.
É por isso que seria muito simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: ele realmente tinha escolha? A mudança em direção ao socialismo era uma opção real?
É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas existe uma pitada de verdade no famoso “hino ao dinheiro” de seu romance “Atlas Shrugged”: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de tudo que há de bom, você está pedindo sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam as ferramentas uns dos outros. Sangue, chicotes e armas ou dólares. Faça sua escolha – não existe outra”.
Marx não disse algo similar em sua bem conhecida fórmula sobre como, no universo das commodities, “as relações entre as pessoas assumem a aparência das relações entre as coisas”?
Na economia de mercado, as relações entre as pessoas podem parecer relações baseadas na igualdade e na liberdade: a dominação não é mais direta e visível como tal.
O que é problemático na premissa subjacente de Rand: que a única escolha é entre relações diretas ou indiretas de dominação e exploração — qualquer alternativa é descartada como utópica.
Entretanto, devemos ter em mente o momento da verdade na alegação ideologicamente ridícula de Rand: a grande lição do socialismo de Estado foi efetivamente a abolição direta da propriedade privada e das trocas reguladas pelo mercado; não ter formas concretas de regulação social do processo de produção necessariamente ressuscita relações diretas de servidão e dominação.
Se meramente abolimos o mercado (inclusive a exploração de mercado) sem substituí-lo por uma forma apropriada de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta com sede de vingança e com sua exploração direta.
A regra geral é que, quando uma revolta contra um regime semidemocrático começa, como foi o caso do Oriente Médio em 2011, é muito fácil mobilizar as massas com slogans que não se caracterizam de outra forma a não ser como agradáveis ao povo  – em defesa da democracia, contra a corrupção, por exemplo.
Mas então, aos poucos, chegamos a escolhas mais difíceis: quando nossa revolta é vitoriosa em seu objetivo principal, nos damos conta de que o que realmente nos incomodava (nossa falta de liberdade, a humilhação, corrupção social, falta de perspectiva de uma vida decente) continua sob novo disfarce.
A ideologia dominante mobiliza então todo seu arsenal para evitar que cheguemos a essa conclusão.
Começa a nos dizer que a liberdade democrática traz com ela reponsabilidade, que vem com um preço, que ainda não amadurecemos se esperamos demais da democracia.
Dessa forma, nos culpa por nossos fracassos: em uma sociedade livre, nos dizem, somos todos capitalistas investindo em nossas vidas, devemos investir mais na nossa educação do que em nos divertir se quisermos ser bem sucedidos.
Em um nível político mais direto, a política externa dos Estados Unidos elaborou uma estratégia detalhada para exercer o controle desse problema de forma que recanaliza as revoltas populares para constrangimentos parlamentares-capitalistas aceitáveis – como foi feito com sucesso na África do Sul depois da queda do regime do apartheid, nas Filipinas depois da queda de Marcos, na Indonésia depois da queda de Suharto, e em outros lugares.
Nessa conjuntura precisa, políticas emancipatórias radicais encaram um grande desafio: como levar as coisas adiante depois que o primeiro estágio de entusiasmo passa, como dar o próximo passo sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária” – em resumo, como ir além de Mandela sem se tornar Mugabe.
Se queremos nos manter fiéis ao legado de Mandela, devemos nos esquecer das lágrimas de crocodilo celebratórias e focar nas promessas não cumpridas que sua liderança fez nascer.
Podemos seguramente supor que, levando em conta sua grandeza moral e política inquestionável, ele chegou ao fim da vida um homem idoso e amargo, consciente de que seu triunfo político e sua elevação à categoria universal de herói era uma máscara da derrota amarga.
A glória universal de Mandela também é um sinal de que ele realmente não perturbou a ordem e o poder globais.
Slavoj Zizek é um filósofo esloveno, psiquiatra e teórico social da Escola de Direito de Bikbeck, Universidade de Londres. Ele é autor de vários livros, entre eles “Less Than Nothing, “The Year of Dreaming Dangerously” e “Demanding the Impossible.”
PS do Viomundo: Alguns jornalistas descerebrados, que se encantam com a oratória de Obama, se esquecem do essencial. Os Estados Unidos deram décadas e décadas de sustentação ao regime do apartheid, aberta ou clandestinamente. Enquanto isso, milhares de cubanos morreram na luta contra os racistas africanos. Ao defender o regime do MPLA em Angola, deram uma sova militar tão grande no regime do apartheid que contribuiram para seu enfraquecimento e isolamento. Quem estava do lado certo da História: os antecessores de Obama ou Fidel Castro?                                   

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

John Kirk: “Brasil e Cuba estão fazendo uma troca sensata de serviços”

Via Felipe Araújo

Por Heloisa Villela

Para quem só entende a lógica capitalista, John Kirk explica: no mundo globalizado, cada país vende aquilo que faz de melhor ou que tem de excedente.

A Colômbia vende muito café, o Chile exporta frutas e Cuba hoje vende ao mundo serviços na área de saúde.

John Kirk é britânico, estudou na Espanha e é radicado no Canadá onde, há três décadas, tornou-se um dos mais respeitados professores de estudos espanhóis e latino americanos. É professor da Universidade Dalhousei.

Ele tem se dedicado a um assunto em particular: Cuba. Especialmente à política externa e ao sistema de saúde do país. Por isso se voltou para o que chama de internacionalismo médico.

Ele visita Cuba desde 1976 e se interessou pelo país porque sempre viajou muito pela América Latina.

Nas viagens, começou a encontrar mais e mais médicos cubanos por toda parte.

Há cinco anos ele escreveu o primeiro livro sobre este intercâmbio médico e está preparando o segundo. Desta vez, vai corrigir dois erros. Vai mudar de editora e de conclusão.

A University Press, da Flórida, empresa que distribui Cuban medical internationalism: origins, evolution and goals (Internacionalismo médico cubano: origens, evolução e metas) cobra mais de US$ 100,00 por cópia.

John Kirk desconfia que o objetivo seja dificultar ao máximo a venda.

Quanto à conclusão, expressa logo na abertura do livro, ele mudou de ideia. Ele achava, anteriormente, que o principal motivo para tanta dedicação de Havana à saúde alheia era uma forma de conquistar votos e apoio nas Nações Unidas.

Hoje, John Kirk está convencido de que o espírito humanitário, a noção de que é um dever ajudar quem precisa estão sedimentados na cultura cubana, além de fazer parte da Constituição do país.

No mundo capitalista globalizado, onde os interesses econômicos determinam as ações governamentais e vale tudo para conseguir novos negócios, até mesmo espionar governos amigos, soa irreal e ingênuo.

Mas Cuba investiu muito no programa, nos últimos 50 anos. E continua investindo.

Só que agora, depois que Raúl Castro assumiu a direção do país, houve uma mudança. Cuba passou a cobrar de quem tem, para continuar oferecendo ajuda a quem não pode pagar. Assim, governos árabes, como o do Qatar, pagam pela experiência dos médicos cubanos, enquanto o Haiti continua recebendo todo o apoio de graça.

Para John Kirk, o sucesso incontestável do programa de saúde cubano, e da diplomacia médica, é o segredo mais bem guardado da história.

Segredo, diz ele, que os meios de comunicação ocidentais fazem questão de manter guardado. Muito bem guardado. Ele conta que observou com atenção o trabalho da imprensa internacional logo após do terremoto do Haiti, em 2010.

A imprensa não falava dos médicos cubanos, que já estavam na ilha antes do terremoto e estão lá até hoje.

Uma reportagem na rede de tevê a cabo americana CNN chegou a entrevistar um médico obviamente cubano, porque o sotaque não nega, que vestia uma camisa com o retrato de Che Guevara, e foi identificado como um médico espanhol, conta John Kirk.

O pesquisador britânico entrevistou mais de 70 profissionais de saúde cubanos em Cuba e no exterior, nos últimos sete anos.

Ele está escrevendo outro livro, que deve ficar pronto em janeiro. Mas adiantou ao Viomundo alguns resultados do estudo. Diz que hoje Cuba tem um número maior de profissionais de saúde trabalhando em missões de cooperação fora do país do que todos os países do G-8 somados.

Os médicos cubanos estão dando aulas em 15 países (entre eles Etiópia, Iêmen e Gana). Foram os profissionais de Cuba que, através do programa Operação Milagre, salvaram a vista de Mario Terán, o soldado boliviano que executou Che Guevara em outubro de 1967.

A informação foi confirmada pelo filho de Terán em carta enviada a um jornal boliviano.

John Kirk se mostrou indignado com reação de algumas organizações da classe médica, no Brasil, contra o programa que começa a levar assistência aos municípios que não têm profissionais de saúde para cuidar da população. Mas tem certeza de que, a exemplo do que já se passou em outros países, em breve a população brasileira, atendida pelos cubanos, vai mudar a opinião de quem ainda resiste ao programa.



VIOMUNDO – Por que você escolheu esse tema para suas pesquisas?

JK – Vou a Cuba desde 1976. Escrevi 13 livros sobre Cuba. Conheço bem o país e recentemente, quase todo o meu trabalho tem sido sobre a política externa de Cuba. Viajei muito pela América Latina e toda hora esbarrava em médicos cubanos.

Então escrevi um livro sobre internacionalismo médico há cinco anos. Agora estou escrevendo um segundo sobre internacionalismo médico analisando o que os médicos cubanos estão fazendo, onde estão e qual é o impacto do trabalho deles. É algo que me interessa muito e que é um dos segredos mais bem guardados do mundo.

VIOMUNDO – Por que a necessidade de um novo livro? O programa mudou?

JK – Com o Raul Castro, que assumiu o poder em 2008, como interino e depois como presidente, Cuba inaugurou uma política de cobrar dos países que podem pagar pelo serviço médico para cobrir ao menos pelo custo do programa. Antes disso, desde 1960, Cuba mandava delegações médicas, sem custo.

Em 1960 houve um terremoto no Chile. Cuba mandou uma delegação médica apesar de o governo do Chile, na época, ter péssimas relações com Cuba. Em 1972, o Somoza, na Nicarágua, um dos grandes inimigos do governo de Castro, sofreu um grande terremoto em Manágua. Cuba também enviou ajuda médica e vem fazendo isso sem cobrar nada.

VIOMUNDO – Mas este socorro de emergência não é o único projeto médico de Cuba no exterior…

JK – Eles também têm o programa Operação Milagre, as operações de vista que já recuperaram a visão de 3 milhões de pessoas na América Latina. Em Chernobyl, em 1996, quando o reator nuclear implodiu, Cuba tratou, de graça, 25.000 pacientes. Além disso, a ELAM, a Escola Latino Americana de Medicina, já formou 13.000 alunos, de graça.

Esse programa tem várias faces. Mais e mais, Cuba tem um excesso de médicos. O Brasil tem uma relação bem baixa, de 1,8 médicos para cada 1.000 habitantes, enquanto Cuba tem 6,7 para cada mil. Cuba tem um superávit de médicos e está usando a exportação de capital humano como forma de levantar recursos para a sociedade cubana.

VIOMUNDO – Então os médicos se tornaram um item importante da pauta de exportações?

JK – No ano passado, estima-se que o turismo rendeu 2,7 bilhões de dólares para a economia cubana e a exportação de serviços profissionais, 6 bilhões de dólares. Esses serviços profissionais significam, basicamente, médicos.



O Mais Médicos em pesquisa da CNT divulgada neste 10.09.2013

VIOMUNDO – Então o que o Brasil está fazendo com Cuba, no programa Mais Médicos, é uma troca comercial?

JK – Eu fui a Cuba quatro vezes no último ano e estou indo novamente no mês que vem. A empresa Odebrecht, do Brasil, é muito importante lá agora. O Porto de Mariel está todo sendo reformado pela Odebrecht.

Brasil e Cuba fecharam vários acordos na área de biotecnologia e transferência de tecnologia. Existem rumores de que uma grande empresa de ônibus vai se instalar no Porto de Mariel. Então, o Brasil e Cuba, no governo Lula e no governo Dilma, se tornaram excelentes aliados e parceiros comerciais.

VIOMUNDO – Algumas pessoas no Brasil reclamam que o programa, na verdade, é uma maneira de o Brasil financiar a revolução cubana…

JK – Na economia global, todo país exporta o que tem de excedente. A Colômbia tem muito café por isso exporta café, o Chile tem muita fruta e exporta isso. Nessa economia global, Cuba tem um excesso de serviços profissionais e os está exportando.

O Brasil, importando 4.000 médicos, está dando dinheiro para a revolução cubana? Claro que está. Mas como parceiro comercial de Cuba, a Odebrecht está ganhando dinheiro em Cuba desenvolvendo um grande programa de construção e Cuba está preocupada com uma tomada do capitalismo por causa de um império de construção brasileiro? Claro que não.

Na economia internacional, você troca aquilo que tem ou faz de bom ou tem em excesso. Neste sentido, Brasil e Cuba estão fazendo uma troca sensata de produtos e serviços.



VIOMUNDO – Essa nova maneira de usar o programa de medicina no exterior muda, de alguma forma, o programa em si, os objetivos, a maneira com que eles atuam em outros países?

JK – No momento, o país que não tem como pagar ainda recebe o serviço de graça e o melhor exemplo disso é o Haiti. Se o país pode pagar, o melhor exemplo é o Qatar. Existe um hospital cubano em Qatar. E vários países árabes, agora, contrataram os serviços médicos de Cuba.

Existem aproximadamente 40.000 agentes de saúde cubanos, no momento, trabalhando em 67 países do mundo. Majoritariamente na América Latina, no Caribe e na África. Porém, mais e mais nos países árabes que têm dinheiro para pagar pelo serviço.

VIOMUNDO – Essa mudança afeta, de alguma maneira, a filosofia do serviço médico cubano?

JK – Em nada. Eu passei dois meses em El Salvador e na Guatemala trabalhando com os médicos cubanos e o interessante é que eles adotam a mesma filosofia de medicina preventiva, promover a educação local. Os médicos cubanos vivem em meio à população, frequentam as mesmas lojas, são muito visíveis e ativos na comunidade.

Eles também são bem treinados. Quase todos já participaram de outras missões no exterior. Estão muito acostumados a viver em condições difíceis, ao contrário dos colegas brasileiros dos bairros mais ricos de São Paulo e Rio.

Esses médicos cubanos vão se dar muito bem no meio da Amazônia, especialmente porque já viveram em condições bastante difíceis em outros países do terceiro mundo. Eles não são elitistas, vivem com o povo.

É importante entender que depois de crescer em condições difíceis em Cuba, eles se adaptam muito bem a qualquer situação. Vendo a reação das associações médicas no Brasil, é importante ressaltar que entre 80 e 85% dos problemas de saúde podem ser diagnosticados com uma boa consulta, com a observação apropriada, ouvindo o paciente e conversando com a família dele.

Em outras palavras, a tecnologia que se encontra nos hospitais top dos grandes centros não existe nas cidades menores. E essa é compreensão da medicina que os cubanos têm. Os médicos que preferem que essas populações não tenham assistência nenhuma, ao invés de ter os cubanos, estão negando qualquer juramento que fizeram. É impressionante!

Mas aconteceu o mesmo em outros países onde os cubanos chegaram pela primeira vez. Em Honduras, foram depois de um grande furacão e os dois países não tinham relações. A associação médica reclamou, exigiu a revalidação dos diplomas, e a população se rebelou. O governo de direita teve que voltar atrás.

Na Venezuela, a Federação Médica também não queria porque é competição com uma filosofia totalmente diferente e a elite não queria perder o controle da situação. Os médicos cubanos mostram que atendem melhor a população do que essa elite médica.

VIOMUNDO – Mas essa mudança, que começa a levar em conta algum interesse financeiro, influencia de alguma forma o trabalho dos médicos cubanos?

JK – Deve haver algum impacto. Se Cuba não tivesse tantos médicos como tem, teria efeito adverso. Mas Cuba tem muitos, muitos médicos. Mais de 80 mil para uma população de 11 milhões. E acho que o Partido Comunista disse que vai continuar. Está na Constituição cubana, que enfatiza a necessidade de oferecer ajuda humanitária onde quer que seja necessário, especialmente na América Latina e no Caribe.

Isso vai continuar e não vão negar ajuda a países que não têm dinheiro. Porém, mais e mais, acho que os médicos que Cuba em excesso serão exportados. Acho que terá impacto, sem dúvida. Mas a política governamental, sob Raúl Castro, ele deixou bem claro, o aumento da exportação de serviços será canalizada para benefício da população.

Então, todo o dinheiro que os médicos ganham para o estado vai para os cofres do estado para comprar livros e penicilina para as crianças, por exemplo, e mais dinheiro para os médicos.

VIOMUNDO – Qual seria o melhor exemplo de mudança profunda em um sistema de saúde nacional por conta do contato com médicos cubanos?

JK – O Haiti talvez seja o melhor exemplo. Quando o país sofreu com um grande furacão, o George, os médicos cubanos foram para lá. Centenas deles.

Quando aconteceu o terremoto, em 2010, ainda havia 400 médicos cubanos trabalhando no Haiti, de graça.

Em termos de mortalidade infantil, acesso a médicos, qualquer estatística que você quiser usar, o Haiti é o melhor exemplo.

Mas se você observar qualquer outro país no qual os cubanos estiveram envolvidos, na Guatemala, em Honduras, onde você teve um grande número de médicos cubanos, se pegar as estatísticas da Organização Pan-Americana de Saúde, e olhar as áreas onde os médicos cubanos estiveram, vai ver que essas áreas desassistidas se beneficiaram tremendamente do papel de Cuba.

VIOMUNDO – E o sistema de saúde mesmo, muda também?

JK – Isso é mais difícil avaliar. Talvez a Venezuela porque com o apoio financeiro de Hugo Chávez e as ideias dos cubanos, existe agora uma segunda ELAM, Escola Latino Americana de Medicina que foi instituída na Venezuela. Ela começou a funcionar no ano passado.

Existem cerca de 30 mil agentes de saúde cubanos na Venezuela. Destes 30 mil, uns 13 mil são médicos e eles começaram a trabalhar nos bairros treinando jovens venezuelanos que não têm dinheiro para frequentar a faculdade de medicina.

No passado, muitos eram enviados para a ELAM, para estudar em Havana. Mas a combinação Chávez-Castro decidiu treinar as pessoas na Venezuela mesmo. Este ano, os primeiros 8 mil médicos treinados para se tornarem médicos comunitários integrais se formaram. Até agora, 50 mil médicos venezuelanos já foram treinados por médicos cubanos.

VIOMUNDO – Essa segunda ELAM vai aceitar alunos apenas da Venezuela ou também de outros países?

JK – De outros países também. Este ainda é um trabalho em andamento, sendo criado, mas a filosofia médica… se você puder imaginar, Chávez e Fidel fizeram um pacto para treinar 100 mil médicos da América Latina e do Caribe sem custo algum para os estudantes. Eles foram escolhidos porque têm uma origem pobre, ao contrário de muitos médicos de vários países — tenho certeza que o Brasil não é uma exceção, ou a Venezuela — que foram embora para Miami, para o Canadá ou para a Europa.

Esses outros não. Quando se formam, voltam para suas comunidades. Tem dado resultado e vai continuar dando resultado.

Acho que se a gente refizer essa entrevista dentro de 10 anos, você verá, por toda a América Latina, que os médicos que se formaram sob a forma de pensar de Cuba e da Venezuela, tanto em Havana como em Caracas, terão modificado a forma que se pratica medicina na América Latina.

VIOMUNDO – Quando o programa começou em 1960, a ideia básica era a ajuda humanitária ou também havia um viés ideológico ou o objetivo de conquistar votos na ONU?

JK – A introdução do meu livro fala que quando comecei a pesquisa, achava que Cuba estava fazendo isso por motivos políticos, para ganhar votos na ONU. Isso está bem na abertura do meu livro. Mas eu estava errado.

Claro que também é um fator. Mas se você analisa o papel de Cuba no Timor Leste, por exemplo, quando o país se tornou independente, tinha apenas 47 médicos.

O governo pediu a Cuba que fornecesse alguns médicos e 250 foram enviados. Mas Castro disse: no lugar de fornecermos uma solução band-aid, por que não treinamos pessoas das suas comunidades que não podem pagar uma universidade de medicina?

Então, no ano passado, 400 médicos já estavam formados, treinados tanto em Havana como na faculdade que agora existe em Díli, capital do Timor Leste. Eu menciono isso porque Cuba pode conseguir no máximo um voto na ONU com este investimento massivo em capital humano no Timor Leste, sem custo para os timorenses.

VIOMUNDO – Essa faculdade no Timor Leste foi montada por Cuba?

JK – Sim. Os cubanos decidiram que, por uma questão de eficiência e custo, seria melhor, ao invés de levar centenas de timorenses para Havana, estabelecer uma faculdade no Timor Leste para treinar os estudantes locais.



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VIOMUNDO – Como funciona, o país forneceu o prédio e Cuba montou o curso, forneceu os professores?

JK – Exatamente. E o Timor Leste é um exemplo do que Cuba fez por motivos humanitários, por solidariedade. Eles não ganham muitos votos na ONU com isso, mas fizeram assim mesmo. Foi assim também quando enviaram pessoas a Honduras, El Salvador, depois de furacões, à Nicarágua quando nem tinham relações diplomáticas.

Nada disso foi para ganhar votos na ONU porque não tinham relações diplomáticas com esses países. Eu escrevi um artigo a respeito dos motivos pelos quais Cuba faz isso. E listei várias razões.

Primeiro, por causa de Fidel Castro. Eu tive a sorte de passar duas semanas com ele em 1994 e 1996.

O premier da minha província, a Nova Escócia, que é um médico de família, estava em Cuba para discutir trocas comerciais. Mas como o premier tinha muito interesse em saúde pública, era um médico bastante liberal que trabalhou com ajuda humanitária na Nicarágua na época dos sandinistas e na África, ele e o Fidel Castro ficaram muito amigos.

Eu estava traduzindo e ouvia os dois. A ideologia do Fidel Castro foi crucial desde o começo e continua sendo ainda hoje.

Segundo, existem razões históricas. Na guerra da independência, contra a Espanha, de 1868 a 1898, vários estrangeiros foram a Cuba dar apoio e lutar pela independência. Por outro lado, o contingente Henry Reeve foi uma brigada de 2.000 especialistas de emergência formada depois do furacão Katrina. O Henry Reeve era um norte-americano que lutou pela independência de Cuba.

Então, a tradição da solidariedade internacional era muito importante. O fato de que Cuba foi mantida pela ajuda da União Soviética e pelos países do Leste Europeu, entre 1960 e 1990, também é parte dessa solidariedade internacional.

Em terceiro lugar, a Constituição cubana faz referência à obrigação de Cuba de ajudar quem está em uma situação mais difícil do que ela mesma. Está dentro da Constituição cubana essa necessidade de prover solidariedade e cooperação.

Um quarto fator seria a possibilidade de ganhar apoio internacional. Cuba, como você sabe, foi eleita como líder do movimento dos países não alinhados duas vezes. Cuba foi eleita para presidir a Comissão de Direitos Humanos da ONU com o apoio de 135 países. O Canadá foi eleito com o apoio de 130. E os votos que você comentou, da ONU, condenando o embargo dos Estados Unidos.

Seria muita inocência dizer que Cuba não pensou nessa perspectiva internacional e na possiblidade de conquistar votos na ONU. Mas acho que não foi um fator primordial.

Por todos estes motivos, Cuba mandou missões médicas a vários países quando não era nem tão bom assim para ela. Esse é um processo que já tem mais de 50 anos. Agora acho que está sendo usado como uma forma de conseguir capital e também como uma oportunidade para dar os médicos cubanos a chance de ganhar um salário decente.

Como você deve saber, em Cuba eles não ganham um salário decente. Indo ao Brasil, terão a oportunidade de ganhar muito mais do que podem ganhar em casa.

Por todos esses motivos, Cuba se envolveu em um programa internacional de cooperação, principalmente por razões humanitárias no começo, o que ainda é o fator essencial, mas também, mais recentemente, como forma de manter a economia cubana em dia.

http://www.viomundo.com.br/entrevistas/john-kirk-brasil-e-cuba-estao-fazendo-uma-troca-sensata-de-produtos-e-servicos.html