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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Editais e mudanças em 2014

Por Ana Mary C. Cavalcante

“A primeira grande mudança da Prefeitura é essa compreensão de que não vão ser mais dois eventos, serão um evento só”, planeja o secretário de Cultura de Fortaleza, Magela Lima, para o Carnaval de 2014. O secretário quer aproveitar a elaboração do Plano Plurianual de Fortaleza, este ano, para incluir o apoio financeiro ao Pré-Carnaval e ao Carnaval oficial em uma única rubrica orçamentária.

“Se eu conseguir liberar todo o dinheiro em um período só, consigo que o Carnaval seja melhor porque vai ter um tempo maior de utilização do recurso”, credita Magela. Os recursos que, comumente, são liberados a uma ou duas semanas da festa seriam disponibilizados até um mês antes, exemplifica o gestor. E os valores seriam calculados de acordo com o número de apresentações (dias de saída): “Um bloco que deseja fazer seis saídas: faz quatro no (período do) Pré e duas no Carnaval. Vai ganhar diferente de quem quer sair só as do Pré”.

Ao transformar os dois editais – de apoio ao Pré e ao Carnaval, hoje, distintos – em um, o secretário de Cultura intenciona ainda criar a categoria “blocos de primeira saída”: grupos que não tenham a obrigação de desfilar mais de uma vez.

Magela Lima considera a política de editais “um instrumento absolutamente democrático e importante”. E deve mantê-la, mas com alterações, reforça: “Tem que está sendo, constantemente, avaliado. Os editais, como estão hoje, são muito nefastos porque criam um ambiente de competição além do necessário. É um clima de guerra absurdo para se inserir dentro do edital”. 

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999090/editais-e-mudancas-em-2014.shtml

O bloco dos contra e a turma a favor

Por Ana Mary C. Cavalcante
As mudanças para o Carnaval de 2014, já anunciadas e em planejamento pela nova gestão cultural do município, desafiam carnavalescos e produtores culturais a pensar e repensar o Carnaval que se tem e aquele que se quer. “A gente tem que se relacionar com as agremiações de forma mais antecipada. Imagino que, juntando as duas coisas, Pré e Carnaval, consiga ver o que funciona em um e em outro e fazer essa ponte”, propõe o secretário Magela Lima.

A turma a favor da fusão dos editais acredita que nenhuma das festas terá prejuízo, porque “cada qual tem sua especificidade” – concordam carnavalescos ouvidos pelo O POVO. E, com a união, deve-se ganhar mais tempo de Carnaval e uma “diversificação de ritmos”, concorda o produtor cultural Dilson Pinheiro. “O Réveillon poderia ser um marco: o Carnaval de Fortaleza começaria no primeiro minuto do ano e iria até a data oficial”, sugere.

Já o bloco dos contra questiona a própria política de editais. “Dependendo da banca, pode ser favorável para um e não para outros. Por que não ter uma entidade séria, que receba esse recurso (e faça o repasse), como no Rio de Janeiro? A Prefeitura não é para gerir Carnaval”, avalia Francisco José, presidente do Maracatu Rei de Paus.

Para ele, também a união entre Pré e Carnaval “não funciona”: “Não se pode juntar uma situação que são coisas distintas. O Pré são pessoas que estão naquele momento. E, no Carnaval, vão para Guaramiranga, para o sítio... Têm outro pensamento de Carnaval”.
Raimundo Praxedes, presidente do maracatu Nação Baobá, pede cautela nas mudanças: “Tem que repensar porque pode ser um estouro ou um ato negativo, uma divisão de público. Esse Carnaval da Praia de Iracema (shows) prejudica o da (avenida) Domingos Olímpio. Quando dá 11 horas (noite), começa a esvaziar (a avenida)”. Por outro lado, Praxedes reconhece os editais como “o ponto (de apoio financeiro) mais forte que o maracatu encontra”. 


http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999998/o-bloco-dos-contra-e-a-turma-a-favor.shtml

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Folia em Xeque


Por Paulo Renato Abreu
Luxo da Aldeia - Foto:André Salgado

O sambista Ivo Meirelles desembarca em Fortaleza para comandar a festa Na Batida do Samba. Com o projeto Samba Pop, Ivo se apresenta amanhã na Praça Verde do Centro Dragão do Mar em festa com os blocos Unidos da Cachorra, Bons Amigos e Baqueta. Amanhã, o bloco Luxo da Aldeia também se apresenta na casa de show Kukukaya.

As duas festas marcam o início do Pré-Carnaval de Fortaleza em 2013. Apesar do “lançamento informal”, os preparativos para a realização dos dias de folia ainda estão cercados de indefinição. Com a falta do Edital de Fomento ao Pré-Carnaval de Rua, os blocos ainda estão correndo atrás de patrocinadores e realizando reuniões com a Prefeitura de Fortaleza.

O secretário da Cultura de Fortaleza, Magela Lima, diz que não há tempo hábil para lançar edital para os blocos de Pré-Carnaval. Ele afirma que há “articulação forte” por parte da Prefeitura e a determinação de Roberto Cláudio para que a festa seja organizada o mais rápido possível. Segundo Magela, “o Pré-Carnaval é uma prioridade pela importância que adquiriu na cidade”. O secretário afirma que o procurador-geral do município está buscando soluções jurídicas para a realização do evento e que novas informações serão divulgadas.

Segundo Mateus Perdigão, do Luxo da Aldeia, o bloco tem duas apresentações confirmadas para o Pré-Carnaval, mas afirma que o Luxo “está se bancando sem o apoio dos órgãos públicos”. A festa marcada para amanhã visa arrecadar dinheiro para a realização de mais apresentações do bloco durante janeiro. Apesar de contar com o apoio do Kukukaya, o Luxo da Aldeia ainda está sem patrocínio.

Mateus, que é guitarrista e organizador do Luxo, diz que não foi convidado para as reuniões com a equipe de Roberto Cláudio. “Nós ouvimos falar das reuniões da Prefeitura com os blocos, mas até agora não fomos convidados”. As apresentações já marcadas pelo Luxo da Aldeia serão nos dias 25 de janeiro e 1° de fevereiro. Além das apresentações de pré, o bloco planeja ainda duas apresentações durante o Carnaval.

Segundo Farley Lopes, do Unidos da Cachorra, o bloco está tendo reuniões semanais com equipe da Prefeitura e as datas das apresentações do grupo já estão marcadas. “Está tudo certo, vamos nos apresentar amanhã na Praça Verde e a partir do dia 12 na rua”. O grupo se apresenta também nos sábados - 19 e 26 de janeiro e 2 de fevereiro. Farley diz que a agremiação ainda não pode divulgar “a cervejaria que vai patrocinar”, mas que o bloco está “correndo atrás” dos patrocínios.

A Ambev foi procurada pela equipe de reportagem do O POVO para esclarecer se seria a patrocinadora de alguns dos blocos de pré-Carnaval de Fortaleza. Segundo informações da assessoria de imprensa da Ambev, “ainda tem muita coisa que não está ajustada” e, por isso, nem a Ambev nem a Prefeitura vai se pronunciar sobre o patrocínio.

Serviço

Luxo da Aldeia no Kukukaya
O quê: festa de lançamento da camisa do Luxo da Aldeia 2013
Onde: Kukukaya Casa de Show (avenida Pontes Vieira - Dionísio Torres)
Quando: amanhã, às 17 horas
Quanto: R$ 10


Na Batida do Samba
O quê: festa com Ivo Meirelles e os blocos Unidos da Cachorra, Bons Amigos e Baqueta
Onde: Praça Verde do Dragão do Mar (rua Dragão do Mar - Praia de Iracema)

Quando: amanhã, às 17 horas
Quanto: pista de R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia), camarote de R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia).
Outras informações: Pontos de Venda – Esposende Iguatemi e North Shopping.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/01/04/noticiasjornalvidaearte,2982131/folia-em-xeque.shtml

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ponto de Vista

Felipe Araújo
Por Felipe Araújo

A escolha do jornalista Magela Lima para a Secultfor me parece uma boa surpresa em meio ao anúncio do secretariado de Roberto Claudio. Dentro de um governo de composição majoritariamente conservadora, seu nome é uma das (caras) exceções progressistas. Se não é exatamente uma opção técnica, na medida em que não possui experiência de gestão na área pública, pelo menos não é resultado de uma ingerência partidária. Sua nomeação, aliás, soa como um aceno a muitos setores da vida cultural e política de Fortaleza e abre importantes canais de diálogo para a futura gestão.

Magela também tem a seu favor um rico lastro intelectual. É jornalista com mais de dez anos de experiência em redações, foi editor exitoso neste Vida & Arte, tem mestrado em teatro na Universidade Federal do Rio de Janeiro e transita constante e consistentemente na vida cultural de Fortaleza. É, sobretudo, um militante da cultura e da Cidade.

Na medida em que o que o programa de governo do PSB apresentou para a área durante a campanha eleitoral não passou de um punhado de platitudes e generalidades, o novo secretário terá de formular e consolidar, a partir de agora, suas metas, estratégias e prioridades. Para quem se inquietava com a folclórica possibilidade de a próxima secretaria de Cultura ter a cara do que foi o palanque de Roberto Claudio – apinhado de “artistas” como Wesley Safadão e Rasga Baleia -, a presença de Magela na Secultfor é um alento e nos leva a crer que o debate não será nivelado por baixo.

Por fim, em que pese o atraso no pagamento de alguns editais, Magela assume a Secultfor com a casa em ordem e herdando avanços institucionais importantes: o Sistema Municipal de Cultura está consolidado, equipamentos importantes (Vila das Artes, Teatro dos Pinhões, etc) estão amparados legalmente, espaços públicos revitalizados como o caso do Passeio Público renovaram a relação de Fortaleza com seu espaço urbano e o calendário de festas e eventos culturais nunca foi tão dinâmico. Sem falar numa nova e reformulada política de patrimônio.

Magela assume a secretaria em uma Cidade que passou a olhar para cultura (e para si) de modo diferente e mais rico ao longo dos últimos oito anos. E também de modo mais exigente. Um olhar que ele próprio, com sua atuação como jornalista e militante da cultura, ajudou a fomentar. Do outro lado do “balcão”, Magela terá de cumprir uma gestão à altura dessas expectativas e exigências.

Boa sorte ao secretário.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/12/21/noticiasjornalvidaearte,2975615/ponto-de-vista.shtml

O novo secretário

Magela Lima - foto de Sara Maia
Por Raphaelle Batista e Felipe Araújo

O jornalista Magela Lima é o novo secretário de cultura do Município. O anúncio foi feito ontem pelo prefeito eleito Roberto Claudio (PSB), durante a apresentação de seu secretariado, e pegou muita gente de surpresa. Desde o fim do processo eleitoral, vários nomes vinham sendo ventilados como prováveis titulares da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) a partir de janeiro. Entre eles, o de Karlo Kardoso, atual presidente municipal do PSB; e o da bailarina e coréografa Dora Andrade, diretora da Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente (Edisca).


Segundo o futuro secretário, seu nome não foi um plano B dentro das negociações para a composição da equipe de trabalho de Roberto Claudio. De acordo com Magela, que concedeu uma rápida entrevista exclusiva ao O POVO na manhã de ontem, ele foi o primeiro nome a ser consultado pelo futuro prefeito para assumir a Secultfor. O convite foi feito na semana passada e a secretaria teria sido a segunda a ser definida pelo prefeito eleito - o que mostra, segundo o novo secretário, que a cultura será uma área prioritária na próxima gestão.


“O prefeito me pediu que tratasse basicamente de duas prioridades. A primeira é cuidar de uma cidade alheia ao circuito cultural, aproximando os moradores das periferias do circuito de exposições, peças, shows, etc”, explicou. “A outra prioridade é não pensar pequeno. É trabalhar para que possamos colocar Fortaleza no mapa cultural do País. Tanto atraindo artistas e pensadores de relevância para a Cidade quanto projetando nossas produções”. Magela disse que não considera impossível atender a esses pedidos.

O novo secretário explicou que está conversando com a equipe de transição para saber de informações detalhadas sobre a atual situação da secretaria. Também evitou antecipar nomes que irão compor sua equipe de trabalho - e preferiu não detalhar quais serão suas prioridades e estratégias à frente da Secultfor. Magela disse que não acompanhou o processo de elaboração do programa de governo e que o detalhamento do trabalho vai se definir ao longo das conversas com o prefeito e com a equipe de transição.

No momento, o futuro titular da Secultfor não pensa em nenhuma grande interrupção em relação a projetos em andamento. Mas disse que quer transformar o Teatro São José em um importante lugar público de cultura na Cidade. A Casa da Fotografia é outro equipamento que, por orientação de Roberto Cláudio, ganhará atenção especial da nova secretaria de Cultura. 


Sobre o pagamento dos editais em atraso, Magela disse que isso é que mais lhe preocupa e que vai dar prioridade ao tema.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Plácido, para uns. Wesley Safadão, para outros

Por Magela Lima

Confesso: eu preferia outro assunto para discutir hoje neste espaço. Estava mais para o ministro da nossa mais alta corte que cospe palavrões do baixo escalão contra o jornalista que lhe teceu críticas. A faixa exclusiva de ônibus, anunciada para a avenida Bezerra de Menezes, pela sua importância para a nossa Cidade, também me atraia profundamente. No entanto, a apresentação do tenor Plácido Domingo na inauguração do Centro de Eventos do Ceará, praticamente, reivindicou minha atenção.


Gente, quanta deselegância política! Desde que foi anunciado que o concerto do celebrado artista espanhol abriria oficialmente os trabalhos do novo equipamento, nunca achei correto o caráter fechado da programação. Afinal, era um ato inaugural de um prédio público, feito com dinheiro público. Ou seja: de todos nós. O Centro de Eventos nos custou R$ 380 milhões, por baixo, e nos causou uma série de transtornos durante sua construção. Então, por que não festejarmos todos agora que ele, enfim, está pronto?


Deixei a crítica de lado, porém, porque julguei ser de direito do governador Cid Gomes promover uma solenidade formal mais reservada. Seria algo, imaginei, como um jantar entre chefes de Estado ou Governo. Não vou mentir, queria muito ver Plácido Domingo aqui em praça pública. Talvez, uma pontinha de inveja de sua famosa apresentação de 2011 em Buenos Aires, na Argentina, quando reuniu 150 mil pessoas nas ruas por conta de uma briga entre o governo e o sindicato dos artistas do famoso Teatro Colón.


Eis que me surpreendo com a divulgação de que, no próximo dia 18, o mesmo governo que, na quarta, banca o tenor para uma plateia seleta fará um megashow combinando axé e forró para entregar ao povo o Centro de Eventos. Voltei atrás no meu raciocínio. A mim, não faz sentido algum os dois atos. Plácido Domingo, para uns. Wesley Safadão, para outros. Isso é demais. Volto a dizer: deselegante, até. É uma segregação cultural e social desnecessária, promovida com uma verba que ou é de todos ou não é de ninguém. Uma situação constrangedora. Sobretudo, para o governador e sua corte. Duvido muito que todos os poderosos compareçam aos dois dias de programação.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Há um perigo rondando o nosso Pré-Carnaval

Por Magela Lima

Ouvi uma, duas, três vezes. Chega. É como diz o ditado. Há um discurso, no mínimo equivocado, que vem ganhando voz entre algumas lideranças dos blocos de Pré-Carnaval. Discurso que deveria era ser dado por encerrado. Fala-se que a festa chegou ao seu limite de público. Já? Muitos dos responsáveis pela folia olham para a multidão que se forma atrás de seus cordões com ar de preocupação, quando deveriam estar comemorando.

Nada em Fortaleza foi tão bem sucedido nos últimos tempos como esse movimento que se articula em torno da ideia do Pré-Carnaval. Fortaleza, nesses seis últimos anos em que a Prefeitura decidiu colaborar mais diretamente com a folia, viu suas ruas se colorirem, viu novos grupos se articularem, memórias serem resgatadas e paradigmas sociais serem vencidos. O Pré-Carnaval movimenta Fortaleza e é o movimento que dá vida a uma cidade. Uma cidade parada é uma cidade morta.

Daí, ser um erro frases do tipo “não, a gente não quer mais divulgar nossa programação na imprensa, que é para não vir mais gente do que já vem” ou “na semana que vem, não precisa mais vocês chamarem ninguém; venham só vocês mesmos, que aqui já está lotado”. Antes de querer limitar o acesso, um absurdo já que as festas acontecem em espaço e com dinheiro público, o que se deveria era entender a alegria como um direito conquistado. A festa cresceu? Maravilha! Então, que se batalhe agora para que a multidão seja tratada de forma digna.

A lógica é justamente o contrário. Se falta segurança e organização de trânsito, por exemplo, por que não reivindicar isso dos órgãos competentes ao invés de jogar o caos na cota de responsabilidade da multidão? Fosse assim, jamais o famoso Galo da Madrugada e seus 34 anos de história (sim, o maior bloco de rua do mundo não tem 300 anos, não) seriam o que são hoje no Carnaval do Recife. Eu, que brinco esta retomada do Pré-Carnaval de Fortaleza desde quando ele não passava de um encontro de meia dúzia de amigos, prefiro vê-lo crescendo sempre e mais, que minguando atenção. Festa boa é festa cheia. O resto é consequência.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Que tal a gente parar de reclamar de Fortaleza?

Por Magela Lima


Liguei meu desconfiômetro. Definitivamente, 
tem algo de errado. Comigo? Talvez. Cada vez de forma mais recorrente, tenho me deparado com amigos ou pessoas próximas cada vez mais desencantadas e desgostosas com Fortaleza. É a falta de educação no trânsito. É o lixo nas ruas. É o desrespeito às regras mais básicas de civilidade. É a concorrência num mercado de cartas marcadas. É o assalto disfarçado de aluguel. É o medo da insegurança. É uma greve atrás da outra. É obra que começa e nunca termina. Enfim.

Os argumentos que escuto são todos reais e expressivos. Sim, meus amigos têm toda razão para querer fugir daqui. Eu, porém, acho que Fortaleza pode mais. Tudo isso que incomoda tanta gente, na verdade, não é a cidade, mas, sim, a gente mesmo. Nós – eu também, claro – contribuímos para que Fortaleza esteja assim, nesse caos. Somos nós, por exemplo, que estacionamos em locais proibidos. Somos nós, por exemplo, que jogamos lixo nas ruas. Somos nós, por exemplo, que aceitamos modismos que fazem a cidade mudar de rota à cada estação.

Aquilo que se apresenta como Fortaleza, de uma forma geral, nada mais é do que a expressão da nossa vontade e do nosso comportamento. Toda vez que vejo a nossa Beira Mar mais parecendo um feirão do automóvel, me convenço ainda mais de que aquilo não é um problema público. No Rio de Janeiro, onde há muito mais carros e gente do que aqui, a Avenida Atlântica não para por falta de estacionamento. Nosso espaço urbano é desordenado porque a gente não é capaz de organizar. Fortaleza não é uma cidade sem jeito, é uma cidade sem zelo.

Com isso, num jogo de empurra-empurra ridículo, a gente transfere uma responsabilidade que é nossa para o poder público. É evidente que o prefeito de plantão tem compromissos decisivos para a vida da cidade, mas não mais que as pessoas que nela vivem. É preciso que cada pessoa assuma sua parcela de responsabilidade nesse complexo movimento que faz de um emaranhado de ruas e gentes uma cidade. Por isso, eu ainda não desisti de Fortaleza. O que nos falta não é nada tão mirabolante: falta coragem para entender e aceitar que a cidade é nossa, e não da Prefeitura.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Diante da dor dos outros

Por Magela Lima 


A ensaísta norte-americana Susan Sontag, num de seus últimos títulos, olha o pavor em torno do ataque às torres gêmeas do World Trade Center e conclui que a memória e a sensibilidade na contemporaneidade deixam de ser episódicas para ser imagéticas. Assim, a gente deixaria de lembrar ou atentar os fatos por eles mesmos e passaria a deslocá-los no tempo ou identificá-los pela força de suas imagens. Na verdade, ela não diz nada de novo. Hiroshima e Nagasaki já tinham sinalizado para isso. A queda do muro de Berlim também.

Sontag, porém, flagra um momento de ápice. Fico pensando eu, onde foi parar a nossa capacidade de indignação. Se a memória e a sensibilidade demandam grandes catástrofes, o que dizer da revolta? É nisso que penso, por exemplo, quando sou forçado a me deparar com um escândalo como esse envolvendo uma verba destinada para a construção de banheiros populares aqui no Ceará. Definitivamente, a gente perdeu o respeito diante da dor dos outros. Tirar algo de quem já não tem é tão escabroso que deveria ser coagido, reprimido e punido como muito mais vigor.

O dicionário recomenda classificar como furto uma ação indevida de apropriação sem uso da violência. Já assalto seria um roubo com uso da força. A mim, me faltam palavras para classificar esse desvio vergonhoso de verba de tão violento que ele é. Subtrair de uma parcela da população, carente de tudo, o direito de uma melhoria nas condições sanitárias do seu cotidiano é algo só comparável a roubar dinheiro de merenda escolar ou destinado a compra de remédios para vítimas de doenças crônicas. É um absurdo.

Um banheiro, por mais modesto que seja, na vida modesta de uma pessoa qualquer, é algo que promove uma mudança extraordinária. Além de agregar uma perspectiva de higiene pessoal, muda substancialmente a condição coletiva, pública. Não é firula, é qualidade de vida, é saúde. Quem não enxerga isso certamente não é capaz de ver o mundo para além do próprio umbigo. Ou, o que é pior: do próprio bolso. É inaceitável imaginar que, em pleno século XXI, a gente ainda conviva com necessidades tão básicas sendo subjugadas a interesses tão escusos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ela vigiava a nossa alegria

Por Magela Lima  

Tem gente que a gente faz um esforço danado para gostar. Em compensação, tem gente que a gente gosta de graça e, se preciso for, até põe a mão no bolso para garantir a amizade. Dona Mocinha era uma dessas. Mais que a dama do samba, mais que a dona do bar, era ela uma alma boa. Quanta besteira eu falei para lhe arrancar gargalhadas ao pé do seu balcão! Quanta sabedoria e exemplo de vida ela me deu em troca!

Sob as vistas de Dona Mocinha, tomei meus primeiros porres históricos. Sob as vistas de Dona Mocinha, fortaleci amizades que pretendo carregar até o meu samba acabar. Sob as vistas de Dona Mocinha, conheci uma Fortaleza absolutamente fascinante e escondida do cotidiano comum da cidade. Dona Mocinha era uma aula de como é possível viver e se reinventar diante da vida. Sofrer, ela sofreu muito. A vida lhe tirou o maior dos amores, e ela ainda sorria.

Como uma rainha, sem necessariamente sair do castelo, ela sabia tudo o que se passava no seu reino. E como era generosa! Olhava os rapazes com seus companheiros de sempre e as moças com seus companheiros de uma noite só sem preconceito algum. Nunca negou seu ouvido, muito menos o ombro amigo, a um coração sofrido. Reconhecia cada um de seus súditos e, mesmo quando já lhe faltava as forças, erguia-se do trono e não abria mão de um abraço acalorado.

Sim, Dona Mocinha vai fazer uma falta absurda. E como vai! Com ela por perto, era como brincar na rua com a avó na calçada: nada de errado aconteceria. Diante do inevitável, já que não se pode (ainda) parar o relógio da vida, o que resta é esperar que o legado deixado por ela não se perca. Dona Mocinha fez de Fortaleza, ou pelo menos da Fortaleza onde viveu, um lugar pleno de alegria, apesar dos pesares. Pois que seja assim: vá com Deus, Dona Mocinha, e deixe aqui a sua-nossa alegria.




http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/04/18/noticiaopiniaojornal,2129062/ela-vigiava-a-nossa-alegria.shtml