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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ICE - El hielo com La Santa Cecilia


Ice - El hielo (La Santa Cecilia)

Eva pasando el trapo sobre la mesa, ahi esta
Cuidando que todo brille como una perla
Cuando llegue la patrona que no se vuelva a quejar
No sea cosa que la acuse de ilegal
José atiende los jardines, parecen de Disneyland
Maneja una troca vieja sin la licencia
No importa si fue taxista alla en su tierra natal
Eso no cuenta para el Tio Sam

Coro:
El hielo handa suelto por esas calles
Nunca se sabe cuando nos va a tocar
Lloran, los niños lloran a la salida
Lloran al ver que no llegará mamá
Uno se queda aquí
Otro se queda alla
Eso pasa por salir a tabajar

Martha llego de niña y sueña con estudiar
Pero se le hace dificil sin los papeles
Se quedan con los laureles los que nacieron aca
Pero ella nunca dejar de luchar

Coro:
El hielo handa suelto por esas calles
Nunca se sabe cuando nos va a tocar
Lloran, los niños lloran a la salida
Lloran al ver que no llegará mamá
Uno se queda aquí
Otro se queda alla
Eso pasa por salir a tabajar

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A carta de agradecimento de Snowden para Rafael Correa



“Existem poucos líderes mundiais que arriscariam estar do lado dos diretos humanos de um indivíduo frente ao governo mais poderoso do planeta, e a valentia do Equador e seu povo é um exemplo para o mundo.

Devo expressar meu profundo respeito por seus princípios e meu sincero agradecimento pela ação de seu governo ao considerar minha solicitação de asilo político.

O governo dos Estados Unidos da América montou o maior sistema de vigilância do mundo. Este sistema global afeta toda a vida humana vinculada à tecnologia; gravando, analisando e julgando secretamente cada membro do público internacional. Supõe uma violação muito grave dos nossos diretos humanos universais quando um sistema político perpetua a espionagem automática, generalizada e sem garantias contra pessoas inocentes.

De acordo a esta crença, revelei este programa a meu país e ao mundo. Enquanto o público expressou seu apoio à luz que joguei sobre este sistema secreto de injustiça, o governo dos Estados Unidos da América respondeu com uma caça extrajudicial que me custou a minha família, minha liberdade de movimento, e meu direito a uma vida pacífica, sem medo a uma agressão ilegal.

Enquanto eu enfrento esta perseguição, houve um silêncio por parte daqueles governos temerosos do governo norte-americano e suas ameaças.

Equador, no entanto, se ergueu para defender o direto humano de buscar asilo. A ação decisiva do seu Cônsul em Londres, Fidel Narváez, garantiu que meus direitos fossem protegidos durante minha saída de Hong-Kong. Nunca me arriscaria a viajar sem isso.

Agora, como resultado, me mantenho livre e capaz de publicar informação que serve ao interesse do público.
Sem importar quantos dias me restam de vida, estarei dedicado a lutar pela justiça em um mundo desigual. Se algum destes dias contribui ao bem comum, o mundo deverá agradecer aos princípios do Equador.

Por favor, aceite minha gratidão a você, como representante de seu governo, e do povo da República do Equador, assim como minha grande admiração pessoal por seu compromisso por fazer o que é correto, e não o que gera recompensa.”

Edward Joseph Snowden

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A maldição de Snowden e a subserviência ao Império

Editorial do O POVO

As atenções do mundo voltam-se para o drama vivido pelo ex-técnico da CIA, Edward Snowden, confinado na área de trânsito do aeroporto de Moscou, há mais de uma semana. Ele tenta escapar do cerco do governo norte-americano, que quer prendê-lo (e até, possivelmente, condená-lo à morte) por ter revelado a espionagem da Casa Branca contra seus concidadãos e contra os diplomatas e governos da União Europeia, por meio do Google, da Apple e do Facebook.

O norte-americano atrai a solidariedade das consciências democráticas e humanitárias, inclusive a Anistia Internacional. Esta classificou a atitude dos EUA como uma violação a um direito humano fundamental – o da busca de asilo por quem se sinta perseguido por motivos políticos ou de consciência, como prescreve a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU.

A perseguição a um defensor dos princípios da Constituição norte-americana, justamente por defendê-los, é um escândalo. O surgimento da internet e das redes sociais expôs cada vez mais as ilegalidades cometidas pelo governo norte-americano, contra seu próprio povo e as leis internacionais. Nos últimos anos, avolumaram-se os registros de espionagens, torturas contra prisioneiros de guerra, prisões clandestinas, assassinatos indiscriminados de líderes políticos e de civis inocentes – num crescendo assustador. Tudo sob a roupagem despudorada da “defesa da democracia”.

As novas gerações não aceitam mais essa hipocrisia. Daí, o porquê de jovens como Snowden preferirem correr riscos tão altos a sufocar a própria consciência. Mesmo ao custo de se tornarem “párias errantes”, dos quais é um perigo se aproximar.

A subserviência com que estados soberanos se curvam ao diktat de Washington - negando asilo a Snowden - é um espetáculo constrangedor. Os governos da França, Portugal, Espanha e Itália, por exemplo, não se acanharam de impedir que o avião do presidente da Bolívia, Evo Morales - proveniente de Moscou –, cruzasse seus espaços aéreos, pela suspeita de que trouxesse o norte-americano a bordo. Foi um ultraje não só a um chefe de estado estrangeiro, mas aos próprios povos dos quais são governantes, além de uma violação flagrante aos protocolos internacionais. Espera-se que o Brasil encontre uma maneira de honrar a tradição diplomática acolhedora da qual sempre foi portador - se for concitado a isso.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Prohíben a Danny Glover visitar a Gerardo Hernández

Por Silvio Rodríguez



Oakland, CA 8 de Abril

Otra injusticia se cometió ayer contra uno de los 5 cubanos en la Penitenciaría de Victorville, ubicada en el desierto de Mojave en California.

Se le prohibió al reconocido actor Danny Glover realizar la visita que tenía prevista a Gerardo Hernández. Las autoridades de la prisión dijeron a Glover, quien ha visitado a Gerardo en 9 ocasiones desde el 2010, que no sería admitido porque no tenían conocimiento de la realización de la visita. Esta es una decisión absolutamente arbitraria de la prisión. Cualquier persona que esté incluido en la lista de un preso tiene derecho a realizar las visitas.

Glover había tomado un vuelo ayer por la mañana desde el norte de California, alquiló un auto para llegar a la remota prisión, ubicada a 16 kilómetros a las afueras de Victorville, pero tuvo que regresar sin poder ver a su amigo. Danny Glover ha dejado bien claro que pronto volverá a Victorville.

Tratar de aislar a Gerardo de sus familiares y amigos ha sido un patrón del gobierno estadounidense durante casi 15 años. Durante ese período de tiempo el gobierno de EE.UU. le ha negado reiteradamente la visa a su esposa Adriana Pérez para visitar a Gerardo en prisión.

El Comité Internacional para la Libertad de los 5 Cubanos agradece a Danny Glover por su continuo esfuerzo por apoyar a Gerardo y sus cuatro hermanos en la lucha por su libertad.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Post card

Via Pedro Jorge B. F. Lima

O cartão postal de Ho Chi Minh foi comprado na Califórnia há anos por Pedro Jorge B. F. Lima e recém encontrado num caderno abandonado.
A foto é de Michael  Ochs. (http://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Ochs)





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Lincoln e Zé Dirceu

Lincoln

Por Plinio Bortolotti




“O Zé Dirceu tinha feito isso bem rapidinho.” O comentário eu ouvi à saída do filme Lincoln, que conta a história de como foi aprovada a 13ª emenda à Constituição americana - que pôs fim à escravidão - e esse momento na vida do homem que foi seu artífice: o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln.
O comentário do espectador tem a ver com o modo como a emenda foi aprovada; se é justo fazer paralelo com o chamado “mensalão” é outra história.

Em uma das cenas, um dos parlamentares mais radicais - que propunha o fim da escravidão acompanhado do confisco de terras dos fazendeiros do sul para distribuí-las entre os negros -, leva o documento recém-aprovado para casa, entrega-o à sua companheira, uma negra, e lhe diz: “A maior medida do século XIX foi aprovada pela corrupção”.

O filme se passa nas duas semanas em que Lincoln conseguiu sair de uma derrota - o Congresso havia rejeitado a proposta um mês antes - para uma vitória histórica: os mesmos congressistas aprovaram a emenda. Como ele faz para virar os 20 votos que lhe dariam os 2/3 necessários para a aprovação?

Chamou seu chefe de gabinete e mandou que negociasse os cargos no seu segundo governo com os parlamentares que perderam a eleição - e estariam “sem emprego” brevemente. Para fazer o serviço, digamos, pouco republicano, foi contratada uma turma de operadores -mostrada de forma um tanto cômica -, instruída a não citar o nome de Lincoln. O presidente lançou-se às negociações abertas, na tentativa de convencer os recalcitrantes e acalmar os radicais. Usou a sedução (era bom nisso), ameaças e trapaças, no que também saía-se muito bem.

Olhando o passado, quem ousaria criticar Lincoln por fazer o que fez, em plena guerra civil que dilacerava o país? Mirando o futuro, o que dirá a velha senhora, a História, sobre Lula, Zé Dirceu e o PT?

Resta perguntar: será que a política foi e será sempre assim? O filme mostra políticos dispostos a vender a alma. Por sua vez, Lincoln aparece como um homem isento de ambições particulares, exceto a maior de todas: deixar seu nome na história da humanidade, o que, sem dúvida, conseguiu.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/02/14/noticiasjornalopiniao,3005499/lincoln-e-ze-dirceu.shtml

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lincoln e o passarinho

Por Marcus Vinicius

Depois de cutucado, o passarinho que me falou sobre o filme Lincoln (ver post de ontem http://diumtudo-marvioli.blogspot.com.br/2013/01/lincoln-emenda-e-ap-470.html ) complementa a análise..


" O tema de maior interesse do filme é a complexidade da Política com P maiúsculo, ilustrando:
  • a dinâmica das negociações e a diferença entre o que ocorre nos bastidores e aos olhos do público - sem moralismo.
  • a dificuldade de mudar o status quo num regime democrático.
  • os dilemas decisórios enfrentados pelo líder político. Dilemas estratégicos (ex: "melhor momento para apresentar o projeto de lei") e dilemas ético/morais ("quais meios empregar para assegurar o número de votos necessário").
  • as sutilezas do processo de convencimento de seres humanos por outros seres humanos, navegando entre as dicotomias razão x emoção; interesse x convicção; coragem x conservadorismo; medo x ousadia, etc.
"Lincoln" pode gerar ótimas discussões sobre as teorias da política desde Maquiavel.
Diferença entre Política Ideal e Política Real.
Qual é o "limite da irresponsabilidade"?
Também ótimas discussões sobre as dificuldades, a beleza e os limites da democracia, um jogo intrinsecamente humano e necessariamente "impuro", "imperfeito" e "sujo". É preciso entender o que significam estas palavras e isto não é óbvio. 

Questão de fundo: é possível melhorar o sistema? Como?

Idem sobre o sentido de "fidelidade partidária" e, mais importante, sobre os mecanismos fundamentais da política em geral e da democracia em particular: o acordo; a concessão; a negociação.
Exemplo: a difícil e histórica negociação do líder (Lincoln) com a ala "radical" do seu partido; o abandono do "ideal" pelo "possível"; o apoio do político "radical" (entre aspas porque radical tem diferentes significados em diferentes contextos) a posições "moderadas" antes inaceitáveis.

Não foram poucos os desvios de conduta da turma do presidente. Lincoln deveria ter sido processado? Sua imagem de herói deve ser revista (deveria ele ser impedido depois de morto)?
Ou seria Lincoln um herói maquiavélico, condenado pelos meios, mas absolvido pelos fins? Estas não são apenas questões morais. Respeitam também ao significado de Estado de Direito e suas instituições.
Ao cabo e ao fim, o filme é simpático ao protagonista, condescendente e solidário com suas escolhas difíceis, talvez porque a força da causa (incontestável nos dias correntes), do mito (e do morto) domine outras considerações.
Maquiavelismo seletivo?
Para além do caso específico, a mensagem bem poderia ser: 
a (sempre odiada) política é uma merda, mas, às vezes, funciona."

assinado: Passarinho

Serviço:
A emenda 13 que aboliu a escravidão nos EUA:

"Emenda XIII
'Seção 1'
Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.
'Seção 2'
O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A derrota de um conservador de Jardim Zoólogico

Por Paulo Moreira Leite

Menos relevante por suas realizações na Casa Branca, Barack Obama merece ser festejado pela capacidade de derrotar Mitt Romney.
Foi uma vitória apertada de verdade, por uma diferença de pouco mais de 1 milhão de votos, embora até folgada do ponto de vista de delegados no Colégio Eleitoral que têm a palavra final na escolha do Presidente dos Estados Unidos.
Numa situação carregada de muitos “poréns” e “mas”, cabe reconhecer que Obama fez menos do que o possível para vencer a quase estagnação econômica norte-americana.
A questão é que, num mundo já em dificuldade para sair da pior crise depois de 1929, a vitória de Romney seria um passo atrás.
Daria ânimo para as lideranças mais retrógradas do planeta.

Ajudaria Angela Merkel em sua política de universalizar o Estado mínimo pelo corte de gastos e planos sucessivos de austeridade.
Netanyahou teria suporte completo para iniciar a prometida guerra de lsrael contra o Irã no Oriente Médio.
Residência do maior mercado interno do mundo, um colapso dos EUA jogaria o planeta numa terceira recessão desde 2008. Ou já seria uma depressão? Não sei.

No plano interno, seria uma ofensiva contra o que ainda resta do Estado de Bem-Estar Social criado durante o New Deal. Limitado, com muitas restrições, até o rudimentar plano de saúde de Obama estaria em risco.
Com ideias de um reacionário de jardim zoológico, as propostas econômicas que sustentavam o candidato republicano e seu vice seriam o golpe de misericórdia numa perspectiva de dias melhores no futuro. Não por acaso, foram tratadas com folclore – ainda que perigoso — por analistas como Martin Wolff, editor do Financial Times, que é conservador mas não irresponsável.

Reaganista nostálgico, Romney pretendia cortar benefícios sociais dos pobres e assegurar privilégios aos mais ricos em nome do mercado e da preservação da liberdade individual.
Sim: em sua visão de mundo, a cobrança de impostos é sempre uma forma de opressão. Jamais pode cumprir uma função de redistribuição de renda nem de estimular a criação de empregos e o crescimento. Já receber o salário mais baixo que o mercado pode oferecer é uma forma de liberdade, fruto de escolhas individuais — como não ter estudado na hora certa – ou ter pais que não tiveram “competência pessoal” para deixar uma boa herança para os filhos. Em qualquer caso, o Estado não deve envolver-se nisso.

Neste universo, a população pobre precisa de estímulos para trabalhar e produzir, sem preocupar-se com mordomias como jornada de trabalho, seguro de saúde, garantia de emprego. Como observou o historiador Tony Judt, referindo-se aos pensadores do capitalismo primitivo, quanto mais desesperada a pessoa estiver, mais produtiva ela será — e isso era ótimo, eles diziam. Continua ótimo, dizem os fanáticos do mercado, hoje.
A derrota de Romney foi sim a derrota de ideias conservadoras que não ousam se apresentar às claras. Não foi uma simples opção entre campanhas de publicidade e jogadas de marketing, ainda que cada concorrente tenha levantado perto de US$ 1 bilhão em suas campanhas, o que é um assombro.

O conservadorismo republicano atingiu um padrão tão descarado que estimulou uma divisão nítida entre classes sociais no país.
O New York Times observa que, na eleição, os mais ricos ficaram com Romney e os mais pobres com Obama.

O candidato democrata conseguiu vitórias importantes em estados onde sua política de estímulos e subsídios a preservação e reconstrução de empregos trouxe resultados práticos. A vantagem obtida em Ohio, sempre um local que simboliza os ventos de uma vitória nos EUA, teve relação direta com a defesa dos trabalhadores.

Embora Romney tivesse tentado culpar Obama pela tragédia econômica do país, o eleitor mostrou-se capaz de sutilezas analíticas – diz o jornal – e deixou claro que não esqueceu quem é responsável pela crise.

Pesquisas divulgadas pelo NYT mostram que o cidadão americano apoia medidas que abrem caminho para Obama fazer mais do que realizou até agora. Altar sagrado dos fanáticos do mercado, o déficit público é prioridade para 1 em 10 eleitores, apenas. Para surpresa da turma do impostômetro, 60% são favoráveis ao aumento de impostos – seja para os mais ricos, seja para todos.

Não chega a ser surpresa, num país onde Warren Buffet, bilionário e ídolo nacional, reclama que paga menos imposto do que sua secretaria.
A dúvida é saber até onde Obama pode ir em seu segundo mandato.

(Pegue o link para o editorial do NYT, em ingles: http://www.nytimes.com/2012/11/07/opinion/president-obamas-majority.html?hp&_r=0)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Direto de Philly - Philly de uma Égua

Por Lucas Barros

Acordei com uma ideia fixa: hoje é dia de votar! Só que não pra mim, temporariamente expatriado... Será que eu estaria empolgado assim no Brasil ou meu civismo aumentou só porque não posso votar mesmo? Idem no segundo turno, porque estarei ainda morando na Filadélfia, para onde mudei há cerca de um mês. Até julho do próximo ano ficarei pesquisando e estudando na Universidade da Pensilvânia. Neste período, serei o correspondente exclusivo e gratuito do Diumtudo para assuntos da América do Norte, ideia também exclusiva e gratuita do meu amigo Marvioli. Enviarei relatos de quando em vez – uma espécie de Jorge Não Muito Pontual – sobre diferentes assuntos, por exemplo...... hum... sei lá, depois a gente vê.

Posso começar pelas impressões iniciais do lugar? Posso. A Filadélfia combina ares de metrópole multiétnica moderna, cheia de imigrantes e universitários dos mais variados rincões – principalmente se os rincões forem da China – com os de cidade pequena e antiga, orgulhosa de ser o berço da república, ninho da águia americana.

O núcleo urbano é menor do que Fortaleza, mas a região metropolitana é bem grande e rica. Para quem mora no centro da cidade, como eu, é fácil andar a pé; o trânsito não é tão ruim quanto nas nossas metrópoles e o transporte coletivo é bastante bom (ressalva: ainda não andei na periferia).

Claro, também não faltam problemas. Pra começar, o povo daqui carece de uma boa reforma ortográfica. Eles ainda escrevem farmácia com PH e o nome da cidade tem dois PHs! Inaceitável para quem tanto preza a eficiência. No mais, diz-se que o melhor de Philly é mesmo ser perto de Nova Iorque, menos de duas horas de ônibus. Exagero. Tem muito o que fazer e ver por aqui, além das locações dos filmes do Rocky Balboa.

Filadélfia, em grego, quer dizer literalmente ‘amor fraternal’, explicou-me a Wikipedia. De fato, as pessoas costumam ser simpáticas (mas também não é esse amor todo!). Depois conto se a simpatia sobreviveu ao frio. Cheguei aqui no verão e agora estamos no Fall (outono), época em começam a cair a temperatura, as folhas e o astral dos moradores.

Voltando ao pleito, aqui também tem eleição – e com a campanha na reta final (taí um bom tema para uma próxima reportagem)! O curioso é que a disputa está acirradíssima, mas todo o embate se dá no mundo virtual da TV e da internet. Os discursos e debates são analisados exaustivamente, em geral sem qualquer pretensão de neutralidade ou isenção.

Por exemplo, o canal MSNBC apoia 100% os Democratas, enquanto a Fox News apoia 100% os Republicanos, sem concessões. Já nas ruas não se vê quase nada, nenhum cartaz, nenhum outdoor (digressão: outdoor aqui não chama outdoor e nem shopping center chama shopping center), raros adesivos, raríssimas camisetas. Também não vejo as pessoas discutindo política em lugares públicos. A única movimentação detectável é a dos voluntários convidando as pessoas a se alistarem para votar.

Não obstante, o mais chocante pra mim, vindo do Brasil, é a ausência completa dos carros de som gritando jingles de Obama ou de Mitt Romney. Que alívio.

Lucas Barros - é cearense e professor universitário em São Paulo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Billie, a música e o livro

Por Marcus Vinicius

  • Billie Holiday

  • A música
Strange Fruit(Wiggins,Dwayne P./Pearl,Maurice/Alan, Lewis)

Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

Estranha Fruta (versão de Carlos Rennó)

“Árvores do Sul dão uma fruta estranha,
Folha ou raiz em sangue se banha,
Corpo negro balançando, lento,
Fruta pendendo de um galho ao vento,

Cena pastoril do Sul celebrado,
A boca torta e o olho inchado,
Cheiro de magnólia chega e passa,
De repente o odor de carne em brasa,

Eis uma fruta para que o vento sugue,
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue,
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta,
Eis uma estranha e amarga fruta”.



  • O LIVRO - recém lançado pela Cosac Naify, é excelente.

Tradução: José Rubens Siqueira
Prefácio: Hilton Als
Apresentação: André Midani
Editora Cosac Naify

Strange Fruit é uma poética canção de protesto contra o racismo. Na voz de Billie Holiday, a canção adquiriu imensa força expressiva, afetando profundamente todos que a ouviam. Neste breve mas rico relato, o jornalista David Margolick nos abre uma janela para um mundo: os Estados Unidos dos anos 30 e 40, um país dividido entre negros e brancos, progressistas e retrógrados, no qual Holiday ousou levar o terror do linchamento para dentro dos cafés e boates.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

EUA já têm acusação pronta contra Assange, revela vazamento do Wikileaks


O Wikileaks teve acesso em janeiro do ano passado à caixa de e-mails do vice-presidente da companhia de métodos de espionagem Stratfor e encontrou mensagens que comprovam que os Estados Unidos possuem "uma acusação selada contra Julian Assange".
De acordo com o jornal espanhol Público, o executivo Fred Burton refere-se a Assange em diversos momentos como “babaca” e garante que armazenou todas as publicações do Wikileaks em seus servidores para usá-las em favor da empresa.
Em uma troca de e-mails datada de 26 de janeiro deste ano, Burton reconhece que a justiça norte-americana havia emitido há um mês uma ordem secreta de prisão contra Assange por práticas de espionagem.

Em outras mensagens obtidas pelo Wikileaks e divulgadas pelo Público, é o analista tático Sean Noonan quem atesta os esforços de seu país pela prisão de Assange.
Em uma delas ele se questiona quanto à rapidez com que a Interpol (Polícia Internacional) ordenou a detenção do jornalista. Para Noonan, “as questões de crimes sexuais raramente geram alertas especiais da Interpol”, o que “não deixa dúvidas de que se tenta impedir a publicação dos documentos do governo pelo Wikileaks".
Um dia antes, Chris Farnham, membro da Stratfor na China, diz possuir um amigo próximo da família de uma das jovens que denunciou Assange por estupro. Essa fonte teria assegurado a Farnham que "não há absolutamente nada por trás a não ser procura dos fiscais por um nome”.
Antes do vazamento
Antes mesmo do vazamento dos documentos diplomáticos, Assange já era procurado pela Stratfor. Em junho de 2010, o especialista em segurança Shane Harris entra em contato com Fred Burton para avisar que Assange organizaria uma conferência em Las Vegas e ressalta que "nosso pessoal poderia detê-lo pela suspeita de seu envolvimento com os vazamentos".
"Como estrangeiro, poderíamos revogar seu estatus de turista e deportá-lo. Poderíamos ter uma acusação selada e prendê-lo. Depende do quão avançado é este caso militar", respondeu Burton na ocasião, referindo-se ao processo contra o soldado Bradley Manning, o responsável pelo vazamento de dados da missão norte-americana do Iraque e no Afeganistão. Assange cancelou essa viagem por questões de segurança.
"Descobrir quem são seus cúmplices também é chave. Checar quais trapaceiros infelizes existem dentro do grupo e fora. É preciso levá-lo de um país a outro para que seja obrigado a se defender de acusações pelos próximos 25 anos. Tomar dele tudo o que ele e sua família têm”, chegou a defender Burton.
Antes de ocupar seu cargo atual, Burton foi o responsável pelo departamento de prevenção de práticas terroristas do serviço de segurança diplomática do Departamento de Estado dos Estados Unidos. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quem matou o facínora ?

Por Celso Amorim


Naquele que viria a ser o seu último grande western, John Ford conta a história de um velho senador, Rance Stoddard (encarnado por James Stewart), que, acompanhado da esposa, Hallie (Vera Miles), viaja rumo a uma cidadezinha do Oeste americano para poder prestar a última homenagem a um velho amigo, recém-falecido, Tom Doniphon (John Wayne).


O filme logo nos transpõe, em um longo flash-back, para um período já distante, em que o então jovem advogado e futuro senador Stoddard, um tipo suave e urbano, chega ao vilarejo e conhece a bela Hallie, com quem viria mais tarde a se casar, mas que na época era a paquera de Tom, um sujeito rude, mas de bom caráter.

A rivalidade pela mocinha entre o brando e intelectualizado (para os padrões locais, bem entendido) Stewart e o caubói machão, vivido por Wayne, é sempre um subtema do filme, mas o verdadeiro enredo gira em torno da prepotência de um malfeitor que domina a cidade, Liberty (!) Valance.

Em razão de peripécias várias, em que questões de representação popular e liberdade de imprensa estão, de algum modo, envolvidas, o pacato Rance Stoddard é levado a um duelo com o violento Liberty. A cidade aguarda, aterrorizada, a morte certa do bom moço. Mas, miraculosamente, é ele quem mata o bandido e liberta os habitantes de um agente do mal.

Voltando à época atual, um velho jornalista (que fora ele próprio agredido e humilhado pelo bandido) conta a um foca a verdadeira versão. Não fora o mocinho da fita, mas o grosseiro, ainda que de boa índole, Tom (Os Brutos Também Amam, como filosoficamente afirmou o título em português de outro western famoso) quem, num misto de amor e desprendimento, além é claro de um sentido de defesa do bem comum, abatera o facínora. E o fizera escondido.

Diante da revelação inesperada, o jovem repórter, com seu zelo profissional pela verdade e a pureza da idade, pergunta se o público não teria o direito de conhecer os fatos tais como ocorreram, ainda que isso viesse a empanar o brilho da carreira do bem-sucedido senador, cujos primeiros passos estiveram ligados à improvável façanha. Ao que seu experiente colega responde, com proficiência paternal: “No Velho Oeste, há uma regra: quando o fato vira lenda, publique-se a lenda”.

O clássico de John Ford é uma metáfora quase perfeita de vários dos aspectos que cercaram a morte do arquiterrorista Osama bin Laden. Talvez a principal diferença seja a de que o personagem vivido por Lee Marvin (cuja curiosa alcunha era “liberdade”) estava armado e chegou a sacar do revólver. Entre os paralelos, o que mais salta aos olhos é a convicção de que a verdadeira justiça dispensa as formalidades de um julgamento.

Os bons e os justos sabem que o são, nasceram com essas virtudes, e o seu julgamento não falha: sabem também onde está o bem e onde está o mal. Não padecem de dúvidas hamletianas sobre a complexidade da existência humana. Rance Stoddard não o fez, mas poderia perfeitamente dizer depois de ter matado o facínora Valance (segundo ele cria, naquele momento): “Justice is done”. Ou, justiça foi feita. Seguramente foi esse o pensamento de todos os habitantes da cidadezinha de uma região onde não havia lugar para a ambiguidade moral (ou para uma “moral da ambiguidade”, como diria Simone de Beauvoir).

Tampouco deixa de chamar a atenção de quem acompanhou as reações iniciais ao momentoso feito, a questão, colocada de maneira talvez mais sutil, sobre quem foi o verdadeiro autor da façanha: o urbano, suave e pacifista presidente atual ou seu antecessor, cujo estilo e ideias, digamos assim, estavam mais próximos (até em razão de sua origem) do Velho Oeste. Quem foi o responsável pelo início da caçada, quem determinou ou aprovou os procedimentos ampliados ou aprimorados (enhanced) de investigação? E quem foi que disse, em tom de quem sabe perseguir uma causa justa, “nós o arrancaremos de sua toca” (we will smoke him out).

Tudo isso parece irrelevante quando o secretário-geral da ONU sacramenta do alto de sua autoridade moral de representante da Comunidade das Nações a ideia de que a justiça foi feita. Se for assim, pode alguém ingenuamente perguntar-se: para que tantos tribunais internacionais, tantos conselhos e comissões, já que a justiça pode ser obtida de forma tão mais simples e barata?

Em suma, para que relatores especiais sobre execução sumária, quando na verdade quem determina se um ato foi uma execução sumária ou a efetivação da justiça (natural, divina?) é seu próprio autor? Não entremos na discussão sobre a legalidade das ações recentes, à luz da Carta da ONU, da integridade territorial dos Estados ou das resoluções do Conselho de Segurança.

Supor que o direito à legítima defesa, para legitimar um ato praticado dez anos depois do que deu origem à reação, é esticar a corda um pouco demais. Como também é zombar da inteligência mesmo dos mais tolos e ingênuos sustentar que uma pessoa vivendo isolada do mundo, com algumas mulheres e filhos (e aparentemente se deleitando com filmes pornográficos), sem telefone ou internet, continuava a controlar a elaboração e execução de ações terroristas de alguma envergadura.

Certamente, ninguém, salvo os familiares mais próximos e alguns fanáticos, vai chorar a morte de Bin Laden. “O mundo tornou-se um lugar melhor com seu desaparecimento”, poderá alegar-se, o que de resto é verdade em relação a muitas outras pessoas, que nem por isso são abatidas sumariamente.

O que está em jogo são procedimentos de justiça interna e internacional, aquilo que os anglo-saxões chamam de due process. Com tantas outras situações no mundo, em que o vilão pode ser posto para correr (ou morrer), há razões para temer que o dito comum no faroeste sobre ladrões de gado passe a ser uma norma não escrita do Direito Internacional: “Enforque-se o cara, depois deem a ele um julgamento justo”.

Neste caso, aliás, a julgar pelo segredo em torno das fotos e a liberação altamente seletiva das informações, nem mesmo esse tipo de justiça póstuma deve ser esperada.


Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fabricar pretextos


Editorial do GRANMA

A Revolução cubana foi alvo de centenas de campanhas de desinformação, geralmente orquestradas pelo governo norte-americano, com a cumplicidade de aliados europeus e o concurso das poderosas forças e interesses que controlam os empórios da mídia, mas nada conseguiu desviar os cubanos de seus ideais de independência e socialismo, nem confundir os povos do planeta que, apesar de tudo, com sua sabedoria e instinto, descobrem qual a verdade.

São campanhas sem limite político nem ético, que chocam com a força moral de Cuba e somente maculam seus autores.

A manobra mais recente, procedente de seus "várias vezes premiados" informantes, se desfez em 72 horas. Os políticos mentirosos, os meios de imprensa que caluniaram por interesse político e os jornalistas que noticiaram um fato que não existiu, sem tentar fazer uma mínima confirmação, não deveriam ficar impunes. Pelo menos, deveriam confessar o erro e pedir desculpas à família, cujo funeral desrespeitaram.

Curiosamente, todos elem mantêm silêncio sobre o milhão de mortos civis no Iraque e no Afeganistão, que definem como "danos colaterais" e sobre as execuções extrajudiciais com aviões não tripulados em países soberanos.

Mantêm silêncio sobre o uso da tortura, ocultam a existência de cárceres secretos norte-americanos na Europa, dificultam a investigação dos crimes cometidos em Abu Ghraib e na base naval de Guantánamo, usurpada a Cuba, e dos vôos secretos da CIA com pessoas sequestradas em outros Estados.

Também não se comovem ante a forma brutal em que os governos na Europa descarregam as consequências da crise econômica nos mais pobres e nos imigrantes.

Olham para outro lado quando os desempregados e os estudantes são reprimidos com inusitada violência nessas sociedades opulentas.
Contudo, andam à caça de pretextos para atacar Cuba. E como não os encontram, então os fabricam.

Com grande desvergonha, batalharam por converter uma pancreatite em um assassinato político; uma justificada detenção policial de menos de três horas por alteração da ordem, sem o uso da força, em uma surra mortal; uma pessoa com cadastro policial, condenada a dois anos de prisão por delito comum, num dissidente político, vítima de longa condenação.

O povo compartilha o protesto da família pela campanha fabricada e a indignação dos médicos, praticamente acusados de cumplicidade num homicídio.

O mundo tem exemplos suficientes da vocação humanística dos nossos médicos que, sem pouparem energias e pondo em risco suas vidas, prestam seus serviços em todos os continentes.

O legislador David Rivera, célebre por corrupção eleitoral e por suas campanhas extremistas para eliminar o direito dos cubanos emigrados a viajarem a seu país, que há só umas semanas acusou o presidente Carter de ser "um agente cubano", afirmou sob juramento, no Congresso dos Estados Unidos, que o falecido "foi assassinado a pancadas e cacetadas no parque Vidal de Villa Clara, no domingo passado".

Nem sequer se incomodou em verificar que o homem esteve no parque, antes e depois da breve detenção, quinta-feira, 5 de maio, e não domingo, quando já estava hospitalizado. Não surpreende que minta, mas sim que o faça de maneira tão estúpida.

Um tal Salafranca, parlamentar europeu do Partido Popular, de muitos méritos anticubanos e pró-ianque, que diz que os relatórios sobre os vôos secretos da CIA não oferecem dados adicionais, e fecha os olhos para se abster ante qualquer condenação, afirmou no Parlamento Europeu que a pessoa "morreu depois de sua detenção e surra por parte da polícia cubana".

O jornal El País, da Espanha do Grupo Prisa e as confabulações do PP, publicou um artigo intitulado "Dissidente cubano morre depois de receber uma surra da polícia". O ABC, historicamente a serviço das piores causas, noticiou "Opositor cubano morre após uma surra da polícia castrista". Não lhes interessa confirmar a verdade dos supostos fatos e nem sequer se incomodam em dissimular o conluio com títulos diferentes.

Insolitamente, até o presidente Barack Obama, em Miami e ante uma pergunta da tendenciosa rede Univisón, embora dissesse que faltavam por precisar alguns detalhes, se pronunciou sobre os fatos do parque Vidal que jamais ocorreram.
É curioso que Obama, sempre tão ocupado, possa lembrar o caso de uma pessoa detida num parque cubano, que depois de algum tempo retornou ao lugar.

Contudo, ele não disse coisa alguma e possivelmente nem se lembre do rosto angustiado ou do relato da menina iraquiana Samar Hassan, publicado no jornal The New York Times, em 7 de maio passado, enquanto contava a terrível experiência do assassinato de seus pais por uma patrulha norte-americana, quando retornavam do hospital, após sarar as feridas de seu irmão.

Mas, no caso de Cuba, a pior falta não são as burdas mentiras que dia após dia se fabricam e reproduzem. O imperdoável é que se censurem as grandes verdades e a história dum povo heróico e bloqueado, capaz de atingir o que para a grande maioria da Humanidade ainda é um sonho.

No passado, tentaram isolar a Cuba ou provocar desordens internas para que se produzisse uma intervenção norte-americana. O que pretendem com estas campanhas? Somente denegrir ou algo pior? Será que os que mexem os fios e a seus empreiteiros internos lhes gostaria invocar a "proteção de civis" para bombardear Havana?

Nosso povo não se deixará confundir pelos contrarrevolucionários internos que buscam o pretexto da mídia, com o objetivo de promover um conflito com os Estados Unidos e saberá responder com serenidade e firmeza ante as ações destes mercenários.

Os argumentos da Revolução cubana não se fabricam como as mentiras dos nossos inimigos, se constroem com a dignidade e integridade do nosso povo que aprendeu que a verdade é a arma mais limpa dos homens. 
 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Rosas de maio e de sangue

Por Aldir Blanc

Sabe aquele pessoal que toma a saideira no Sopão, da Pereira Nunes, não consegue dormir, e parte pra rondar o Momo, de manhã cedo? Já fui da turma. Soube que, no assassinato de Osama bin Laden, pintou uma certa confusão. É natural. A rapaziada ainda estava meio zonza, não havia tomado a vitamina de ovo e caracu, nem pingado fogo paulista — tem mel — na média, etc., etc.

A moçada estava lavando a serpentina quando espocaram as primeiras notícias:

Osama explodiu Osaka!

Obama matou o Obina!

Obina nasceu no Alabama!

Obama atacou a Brahma!

Osama de tanga em Copacabana!

O vice do Obama vai ser o Carvana!

Um bonobo traçou a Madonna!

Mourinho que vá pra Bafana-Bafana!

Até que um limão da casa e algumas Originais deixaram tudo claro-turvo: O Obama conseguira matar o Osama. Ufa!



Incrível. A Casa Branca não consegue tramar, durante 10 anos, um assassinato sem se contradizer. Primeira versão: “Obama estava armado e reagiu.” No dia seguinte: “Obama estava desarmado e levou, ao reagir (cuspindo?), um tiro no peito e um no rosto.”

Por que Osama não foi preso? Seria julgado e as promessas de campanha de seu quase xará pareceriam mais verdadeiras. Queimaram o arquivo Obama para que ele não falasse sobre a corrupção entre o governo Baby Bush e a família Bin Laden. O jornalista Willian J. Dobson, do “Washington Post”, escreveu: “Se ex-funcionários do alto escalão egípcio fossem obrigados a se defender durante um tribunal internacional, qual seria a probabilidade de manterem em segredo informações (sobre) o mandante dos crimes, principalmente em se tratando daqueles cometidos para atender aos interesses americanos?” Ou seja, Mubarak corre o risco de aparecer “suicidado”. Foi prática comum em nossa ignóbil ditadura.

Os levantes continuam na Síria. Assad, que é um aloíta (seita dentro da xiita), pode massacrar, usando tanques, insurgentes desarmados em várias cidades. A pergunta que não quer calar é: por que a capital de Assad, Damasco, não é bombardeada como Trípoli? A pergunta envolve a maior encrenca. O Hezbollah está, coberto pela Síria, no Líbano, atacando Israel, que, por sua vez, tem como líder um notório corrupto chamado Bibi...

Sobre o Bahrein, declarou Noam Chomsky à revista “Caros Amigos”: “Em relação ao Bahrein o que preocupa (...) é a Arábia Saudita. Teme-se que um levante xiita — que são maioria da população — se estenda ao leste da Arábia Saudita. Portanto nada pode acontecer lá.” Resumindo: insurgentes no Bahrein e na Arábia Saudita? Pau neles, com total consentimento dos Estados Unidos.

Hillária Clinton, secretária de Estado interessante, proclamou que na operação contra Bin Laden viveu os 38 minutos mais intensos de sua vida, muito melhores de que toda a atividade sexual com Bill.

Kadafi pode ser um “louco assassino”. Como devemos chamar os que incineraram seus três netos? O problema é que o Ocidente usa ditadores a seu bel-prazer, com um incrível cinismo, e os descarta quando não são mais úteis.

Patética a lamúria de Kadafi: “Cadê o meu amigo Berlusconi?” Ora, Kadafi, que pergunta idiota! Berlusca já mandou ampliar a casa de praia para receber as refugiadas menores de idade. Serão muito bem tratadas e a única obrigação delas será participar, com a presença de Ronaldinho Gaúcho, da folclórica dança do Bunga-Bunga. A filha do ítalo-bandido, namorada do jogador Pato, já o proibiu defrequentar o pagode:

— O ganso desse Pato é da minha marreca e galinha nenhuma tasca!

Sábio mesmo foi o sujeito que disse:

— Tinha medo de Osama e tenho medo de quem o matou.

Na verdade, o fim de Osama bin Laden é puro Nelson Rodrigues, sem gelo: mais cedo ou mais tarde, todo mundo é traído.

Inclusive nós, os que acreditamos. Num discurso, Obama foi aclamado ao proferir as palavras “os Estados Unidos não torturam”. Seu diretor da CIA e futuro secretário de Defesa, Leon Panetta, vulgo “Panettone”, admitiu que informações valiosas foram obtidas por métodos reforçados de interrogatório, o eufemismo americano para tortura.

Gore Vidal nos preveniu: não vai mudar nada. O governo do negro Obama passaria em brancas nuvens, não fosse o sangue vermelho de um terrorista.

ALDIR BLANC é compositor.

http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/05/08/rosas-de-maio-e-de-sangue-artigo-aldir-blanc

sábado, 7 de maio de 2011

O ASSASSINATO DE OSAMA BIN LADEN


Por Fidel Castro

 Os que se encarregam desses temas sabem que, em 11 de setembro de 2001, nosso povo ficou solidário com o dos Estados Unidos e ofereceu a modesta cooperação que no campo da saúde podíamos oferecer às vítimas do brutal atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque.

Também oferecemos de imediato as pistas aéreas do nosso país para os aviões norte-americanos que não tivessem onde aterrar, por causa do caos reinante nas primeiras horas após aquele golpe.

É conhecida a posição histórica da Revolução Cubana que sempre se opôs às ações que colocassem em perigo a vida de civis.

Partidários decididos da luta armada contra a tirania de Batista; éramos, no entanto, opostos por princípios a todo ato terrorista que ocasionasse a morte de pessoas inocentes. Tal conduta, mantida ao longo de mais de meio século, outorga-nos o direito de expressar um ponto de vista sobre o delicado tema.

Em um ato público maciço realizado na Cidade Esportiva expressei naquele dia a convicção de que o terrorismo internacional jamais seria resolvido mediante a violência e a guerra.
Na verdade, ele foi durante anos amigo dos Estados Unidos que o treinou militarmente, e foi adversário da URSS e do socialismo, mas quaisquer que fossem os atos atribuídos a Bin Laden, o assassinato de um ser humano desarmado e rodeado de familiares constitui um fato aborrecível. Aparentemente foi isso o que fez o governo da nação mais poderosa que jamais existiu.

O discurso elaborado com esmero por Obama para anunciar a morte de Bin Laden afirma: “…sabemos que as piores imagens são aquelas que foram invisíveis para o mundo. O assento vazio na mesa. As crianças que foram forçadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai. Os pais que nunca voltarão a sentir o abraço de um filho. Cerca de 3 000 cidadãos marcharam longe de nós, deixando um enorme buraco em nossos corações”.

Esse parágrafo encerra uma dramática verdade, mas não pode impedir que as pessoas honestas se lembrem das guerras injustas desatadas pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, das centenas de milhares de crianças que foram obrigadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai, e aos pais que nunca voltariam a sentir o abraço de um filho.

Milhões de cidadãos marcharam longe de seus povos no Iraque, no Afeganistão, no Vietnã, Laos, no Camboja, Cuba e noutros muitos países do mundo.

Da mente de centenas de milhões de pessoas também não se apagaram as horríveis imagens de seres humanos que em Guantánamo, território ocupado de Cuba, desfilam silenciosamente submetidos durante meses e inclusive anos a insofríveis e enlouquecedoras torturas; são pessoas seqüestradas e transportadas a cárceres secretos com a cumplicidade hipócrita de sociedades supostamente civilizadas.

Obama não tem forma de ocultar que Osama foi executado na presença dos seus filos e esposas, agora em poder das autoridades do Paquistão, um país muçulmano de quase 200 milhões de habitantes, cujas leis têm sido violadas, sua dignidade nacional ofendida, e suas tradições religiosas ultrajadas.

Como impedirá agora que as mulheres e os filhos da pessoa executada sem Lei nem julgamento expliquem o acontecido, e as imagens sejam transmitidas ao mundo?

Em 28 de janeiro de 2002, o jornalista da CBS Dan Rather, difundiu por essa emissora de televisão que a 10 de setembro de 2001, um dia antes dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, Osama Bin Laden foi submetido a uma diálise do rim em um hospital militar do Paquistão. 
Não estava em condições de ocultar-se e proteger-se em profundas cavernas.
Assassiná-lo e enviá-lo às profundezas do mar demonstra temor e insegurança, tornam-no em uma personagem muito mais perigosa.

A própria opinião pública dos Estados Unidos, após a euforia inicial, terminará criticando os métodos que, em vez de proteger os cidadãos, terminam multiplicando os sentimentos de ódio e vingança contra eles.

Fidel Castro Ruz
4 de maio de 2011
20h34.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sin violencia y sin drogas - Fidel Castro

10 ENERO 2011 

Ayer analicé el atroz acto de violencia contra la congresista norteamericana Gabrielle Giffords, en el cual 18 personas fueron alcanzadas por las balas; seis murieron y otras 12 fueron heridas, varias de suma gravedad, entre ellas la congresista, con un balazo en la cabeza, dejando al equipo médico sin otra alternativa que tratar de preservarle la vida y evitar en lo posible las secuelas de la criminal acción.
La niña de nueve años que murió había nacido el mismo día que las Torres Gemelas fueron destruidas, y era destacada en su escuela. La madre declaró que había que poner fin a tanto odio.
A mi mente acudió una dolorosa realidad, que seguramente preocuparía a muchos norteamericanos honestos que no hayan sido envenenados por la mentira y el odio. ¿Cuántos de ellos conocen que América Latina es la región del mundo con la mayor desigualdad en la distribución de las riquezas? ¿Cuántos han sido informados de los índices de mortalidad infantil y materna, perspectivas de vida, atención médica, trabajo infantil, educación y pobreza prevalecientes en los demás países del hemisferio?
Me limitaré solo a señalar el índice de violencia a partir del hecho detestable que tuvo lugar ayer en Arizona.
Señalé ya que cada año cientos de miles de emigrantes latinoamericanos y caribeños que perseguidos por el subdesarrollo y la pobreza se trasladan a Estados Unidos son arrestados, muchas veces separados incluso de familiares allegados y devueltos a los países de origen.
El dinero y las mercancías pueden cruzar libremente las fronteras, repito; los seres humanos, no. Las drogas y las armas cruzan en cambio sin cesar en una y otra dirección. Estados Unidos es el mayor consumidor de drogas en el mundo y, a la vez, el mayor suministrador de armas, simbolizadas con la mirilla publicada en el sitio web de Sarah Palin o el M-16 exhibido en los carteles electorales del ex marino Jesse Kelly con el mensaje subliminal de disparar el peine completo.
¿Conoce la opinión pública de Estados Unidos los niveles de violencia en América Latina, asociada a la desigualdad y la pobreza?
¿Por qué no se divulgan los datos pertinentes?
En un artículo del periodista y escritor español Xavier Caño Tamayo, publicado en el sitio web ALAI, se ofrecen datos que los norteamericanos debieran conocer.
Aunque su autor es escéptico acerca de los métodos utilizados hasta hoy para vencer el poder acumulado por los grandes narcotraficantes, su artículo aporta datos de incuestionable valor que trataré de sintetizar en unas pocas líneas.
“…el 27% de muertes violentas del mundo se da en Latinoamérica, aunque su población no llega al 9% del total del planeta. En los últimos 10 años, 1.200.000 personas han muerto violentamente en la región.
“Violentas favelas ocupadas por la policía militar; matanzas en México; desaparecidos forzosos; asesinatos y masacres en Colombia [...] La mayor tasa de asesinatos del mundo se da en América Latina.”
“¿Cómo explicar tan terrible realidad?”
“La respuesta la proporciona un estudio reciente de la Fundación Latinoamericana de Ciencias Sociales. El informe muestra cómo la pobreza, la desigualdad y la falta de oportunidades son los fundamentos principales de la violencia, aunque el narcotráfico y el tráfico de armas ligeras actúen como aceleradores de la criminalidad asesina.”
“Según la Organización Iberoamericana de la Juventud, la mitad de los más de 100 millones de jóvenes de 15 a 24 años latinoamericanos no tiene trabajo ni posibilidades de tenerlo. [...] según la Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL), la región tiene uno de los más altos índices de empleo informal en jóvenes, además de que uno de cada cuatro jóvenes latinoamericanos no trabaja ni estudia.”
“Según la CEPAL, en los últimos años la pobreza y la pobreza extrema en América Latina han afectado y afectan a un 35% de la población. Casi 190 millones de latinoamericanos. Y, según la OCDE, unos 40 millones más de ciudadanos han caído o caerán en la pobreza en América Latina antes de acabar este 2010.”
“Según Naciones Unidas, hay pobreza cuando las personas no pueden satisfacer, para vivir con dignidad, necesidades básicas: alimentación suficiente, agua potable, vivir bajo techo digno, atención sanitaria esencial, educación básica… El Banco Mundial cuantifica esa pobreza añadiendo que es pobre extremo quien malvive con menos de un dólar y cuarto al día.”
“Según el Informe sobre la riqueza mundial 2010, publicado por Capgemini y Merrill Lynch, las fortunas de los latinoamericanos ricos [...] crecieron un 15% en 2009.  [...] en los últimos dos años las fortunas de los latinoamericanos ricos crecieron más que las de cualquier región del mundo. Son 500.000 ricos, según el informe de Capgemini y Merrill Lynch. Medio millón contra 190 millones. [...] si pocos atesoran mucho, muchos carecen de todo.”
“…hay otras razones para explicar la violencia en América Latina [...] pobreza y desigualdad siempre tiene que ver con la muerte y el dolor. [...] ¿acaso es casualidad que [...] el 64% de los ocho millones de muertes por cáncer en el mundo se den en las regiones de ingresos más bajos, a las que, por cierto, sólo se dedica el 5% del dinero contra el cáncer?
“De corazón y mirándonos a los ojos, ¿podría usted vivir con un dólar y cuarto al día?”, concluye su análisis Xavier Caño.
Las noticias sobre la matanza de Arizona ocupan hoy los principales comentarios de los medios norteamericanos de prensa.
Los especialistas del Centro Médico de la Universidad de Arizona, en Tucson, se muestran cautamente optimistas. Elogiaban la tarea del personal de socorro, que permitió intervenir a la congresista 38 minutos después del disparo. Tales datos se conocían a través de Internet entre las 6 y 7 de la tarde de hoy.
Según ellos, “la bala penetró por la parte frontal muy próxima a la masa encefálica, por el lado izquierdo de la cabeza.”
“Puede seguir instrucciones simples, pero sabemos que la inflamación cerebral provocaría un giro desfavorable”, afirmaron.
Explican los detalles de cada uno de los pasos que han dado para controlar la respiración y disminuir la presión en el cerebro. Añaden que la recuperación podría durar semanas o meses. Los neurocirujanos en general, y las especialidades asociadas a esta disciplina, seguirán con interés las informaciones que de ese equipo emanen.
Los cubanos siguen de cerca todo lo que se relaciona con la salud, suelen estar bien informados y se alegrarán también del éxito de esos médicos.
Del otro lado de la frontera sabemos los extremos a que ha llegado la violencia en los Estados mexicanos cercanos, donde también hay excelentes médicos. Sin embargo, no son pocas las ocasiones en que las mafias del narcotráfico, equipadas con las más sofisticadas armas de la industria bélica de Estados Unidos, penetran en los salones de operaciones para rematar.
La mortalidad infantil de Cuba es menos de 5 por cada mil nacidos vivos; y las muertes por actos de violencia, menos de 5 por cada cien mil habitantes.
Aunque lastima nuestra modestia, constituye un amargo deber consignar que nuestro bloqueado, amenazado y calumniado país, ha demostrado que los pueblos latinoamericanos pueden vivir sin violencia y sin drogas. Pueden incluso vivir, y así ha ocurrido durante más de medio siglo, sin relaciones con Estados Unidos. Esto último, no lo hemos demostrado nosotros; lo demostraron ellos.
Fidel Castro Ruz

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O ministro X-9 - por Leandro Fortes


Aí, eu disse para o embaixador: "Esse Samuel é uma cobra!"

Uma informação incrível, revelada graças às inconfidências do Wikileaks, circula ainda impunemente pela equipe de transição da presidente eleita Dilma Rousseff: o ministro da Defesa, Nelson Jobim, costumava almoçar com o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Clifford Sobel para falar mal da diplomacia brasileira e passar informes variados. Para agradar o interlocutor e se mostrar como aliado preferencial dentro do governo Lula, Jobim, ministro de Estado, menosprezava o Itamaraty, apresentado como cidadela antiamericana, e denunciava um colega de governo, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, como militante antiyankee. Segundo o relato produzido por Clifford Sobel, divulgado pelo Wikileaks, Jobim disse que Guimarães “odeia os EUA” e trabalha para “criar problemas” na relação entre os dois países.
Para quem não sabe, Samuel Pinheiro Guimarães, vice-chanceler do Brasil na época em que Jobim participava de convescotes na embaixada americana em Brasília, é o atual ministro-chefe da Secretaria Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE). O Ministério da Defesa e a SAE são corresponsáveis pela Estratégia Nacional de Defesa , um documento de Estado montado por Jobim e pelo antecessor de Samuel Guimarães, o advogado Mangabeira Unger – com quem, aliás, Jobim parecia se dar muito bem. Talvez porque Unger, professor em Harvard, é quase um americano, com sotaque e tudo.

Após a divulgação dos telegramas de Sobel ao Departamento de Estado dos EUA, Jobim foi obrigado a se pronunciar a respeito. Em nota oficial, admitiu que realmente “em algum momento” (qual?) conversou sobre Pinheiro com o embaixador americano, mas, na oportunidade, afirma tê-lo mencionado “com respeito”. Para Jobim, o ministro da SAE é “um nacionalista, um homem que ama profundamente o Brasil”, e que Sobel o interpretou mal. Como a chefe do Departamento de Estado dos EUA, Hillary Clinton, decretou silêncio mundial sobre o tema e iniciou uma cruzada contra o Wikileaks, é bem provável que ainda vamos demorar um bocado até ouvir a versão de Mr. Sobel sobre o verdadeiro teor das conversas com Jobim. Por ora, temos apenas a certeza, confirmada pelo ministro brasileiro, de que elas ocorreram “em algum momento”.

Mais adiante, em outro informe recolhido no WikiLeaks, descobrimos que o solícito Nelson Jobim outra vez atuou como diligente informante do embaixador Sobel para tratar da saúde de um notório desafeto dos EUA na América do Sul, o presidente da Bolívia, Evo Morales. Por meio de Jobim, o embaixador Sobel foi informado que Morales teria um “grave tumor” localizado na cabeça. Jobim soube da novidade em 15 de janeiro de 2009, durante uma reunião realizada em La Paz, onde esteve com o presidente Lula. Uma semana depois, em 22 de janeiro, Sobel telegrafava ao Departamento de Estado, em Washington, exultante com a fofoca.

No despacho, Sobel revela que Jobim foi além do simples papel de informante. Teceu, por assim dizer, considerações altamente pertinentes. Jobim revelou ao embaixador americano que Lula tinha oferecido a Morales exame e tratamento em um hospital em São Paulo. A oferta, revela Sobel no telegrama a Washington, com base nas informações de Jobim, acabou protelada porque a Bolívia passava por um “delicado momento político”, o referendo, realizado em 25 de janeiro do ano passado, que aprovou a nova Constituição do país. “O tumor poderia explicar por que Morales demonstrou estar desconcentrado nessa e em outras reuniões recentes”, avisou Jobim, segundo o amigo embaixador.
Não por outra razão, Nelson Jobim é classificado pelo embaixador Clifford Sobel como “talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil”. Não é difícil, à luz do Wikileaks, compreender tamanha admiração. Resta saber se, depois da divulgação desses telegramas, a presidente eleita Dilma Rousseff ainda terá argumentos para manter Jobim na pasta da Defesa, mesmo que por indicação de Lula.

Há outros e piores precedentes em questão.

Jobim está no centro da farsa que derrubou o delegado Paulo Lacerda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), acusado de grampear o ministro Gilmar Mendes, do STF. Jobim apresentou a Lula provas falsas da existência de equipamentos de escutas que teriam sido usados por Lacerda para investigar Mendes. Foi desmentido pelo Exército. Mas, incrivelmente, continuou no cargo. Em seguida, Jobim deu guarida aos comandantes das forças armadas e ameaçou renunciar ao cargo junto com eles caso o governo mantivesse no texto do Plano Nacional de Direitos Humanos a idéia (!) da instalação da Comissão da Verdade para investigar as torturas e os assassinatos durante a ditadura militar. Lula cedeu à chantagem e manteve Jobim no cargo.

Agora, Nelson Jobim, ministro da Defesa do Brasil, foi pego servindo de informante da Embaixada dos Estados Unidos. Isso depois de Lula ter consolidado, à custa de enorme esforço do Itamaraty e da diplomacia brasileira, uma imagem internacional independente e corajosa, justamente em contraponto à política anterior, formalizada no governo FHC, de absoluta subserviência aos interesses dos EUA.

Foi preciso oito anos para o país se livrar da imagem infame do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer tirando os sapatos no aeroporto de Miami, em dezembro de 2002, para ser revistado por seguranças americanos.
De certa forma, os telegramas de Clifford Sobel nos deixaram, outra vez, descalços no quintal do império.