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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Lincoln e Zé Dirceu

Lincoln

Por Plinio Bortolotti




“O Zé Dirceu tinha feito isso bem rapidinho.” O comentário eu ouvi à saída do filme Lincoln, que conta a história de como foi aprovada a 13ª emenda à Constituição americana - que pôs fim à escravidão - e esse momento na vida do homem que foi seu artífice: o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln.
O comentário do espectador tem a ver com o modo como a emenda foi aprovada; se é justo fazer paralelo com o chamado “mensalão” é outra história.

Em uma das cenas, um dos parlamentares mais radicais - que propunha o fim da escravidão acompanhado do confisco de terras dos fazendeiros do sul para distribuí-las entre os negros -, leva o documento recém-aprovado para casa, entrega-o à sua companheira, uma negra, e lhe diz: “A maior medida do século XIX foi aprovada pela corrupção”.

O filme se passa nas duas semanas em que Lincoln conseguiu sair de uma derrota - o Congresso havia rejeitado a proposta um mês antes - para uma vitória histórica: os mesmos congressistas aprovaram a emenda. Como ele faz para virar os 20 votos que lhe dariam os 2/3 necessários para a aprovação?

Chamou seu chefe de gabinete e mandou que negociasse os cargos no seu segundo governo com os parlamentares que perderam a eleição - e estariam “sem emprego” brevemente. Para fazer o serviço, digamos, pouco republicano, foi contratada uma turma de operadores -mostrada de forma um tanto cômica -, instruída a não citar o nome de Lincoln. O presidente lançou-se às negociações abertas, na tentativa de convencer os recalcitrantes e acalmar os radicais. Usou a sedução (era bom nisso), ameaças e trapaças, no que também saía-se muito bem.

Olhando o passado, quem ousaria criticar Lincoln por fazer o que fez, em plena guerra civil que dilacerava o país? Mirando o futuro, o que dirá a velha senhora, a História, sobre Lula, Zé Dirceu e o PT?

Resta perguntar: será que a política foi e será sempre assim? O filme mostra políticos dispostos a vender a alma. Por sua vez, Lincoln aparece como um homem isento de ambições particulares, exceto a maior de todas: deixar seu nome na história da humanidade, o que, sem dúvida, conseguiu.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/02/14/noticiasjornalopiniao,3005499/lincoln-e-ze-dirceu.shtml

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lincoln e o passarinho

Por Marcus Vinicius

Depois de cutucado, o passarinho que me falou sobre o filme Lincoln (ver post de ontem http://diumtudo-marvioli.blogspot.com.br/2013/01/lincoln-emenda-e-ap-470.html ) complementa a análise..


" O tema de maior interesse do filme é a complexidade da Política com P maiúsculo, ilustrando:
  • a dinâmica das negociações e a diferença entre o que ocorre nos bastidores e aos olhos do público - sem moralismo.
  • a dificuldade de mudar o status quo num regime democrático.
  • os dilemas decisórios enfrentados pelo líder político. Dilemas estratégicos (ex: "melhor momento para apresentar o projeto de lei") e dilemas ético/morais ("quais meios empregar para assegurar o número de votos necessário").
  • as sutilezas do processo de convencimento de seres humanos por outros seres humanos, navegando entre as dicotomias razão x emoção; interesse x convicção; coragem x conservadorismo; medo x ousadia, etc.
"Lincoln" pode gerar ótimas discussões sobre as teorias da política desde Maquiavel.
Diferença entre Política Ideal e Política Real.
Qual é o "limite da irresponsabilidade"?
Também ótimas discussões sobre as dificuldades, a beleza e os limites da democracia, um jogo intrinsecamente humano e necessariamente "impuro", "imperfeito" e "sujo". É preciso entender o que significam estas palavras e isto não é óbvio. 

Questão de fundo: é possível melhorar o sistema? Como?

Idem sobre o sentido de "fidelidade partidária" e, mais importante, sobre os mecanismos fundamentais da política em geral e da democracia em particular: o acordo; a concessão; a negociação.
Exemplo: a difícil e histórica negociação do líder (Lincoln) com a ala "radical" do seu partido; o abandono do "ideal" pelo "possível"; o apoio do político "radical" (entre aspas porque radical tem diferentes significados em diferentes contextos) a posições "moderadas" antes inaceitáveis.

Não foram poucos os desvios de conduta da turma do presidente. Lincoln deveria ter sido processado? Sua imagem de herói deve ser revista (deveria ele ser impedido depois de morto)?
Ou seria Lincoln um herói maquiavélico, condenado pelos meios, mas absolvido pelos fins? Estas não são apenas questões morais. Respeitam também ao significado de Estado de Direito e suas instituições.
Ao cabo e ao fim, o filme é simpático ao protagonista, condescendente e solidário com suas escolhas difíceis, talvez porque a força da causa (incontestável nos dias correntes), do mito (e do morto) domine outras considerações.
Maquiavelismo seletivo?
Para além do caso específico, a mensagem bem poderia ser: 
a (sempre odiada) política é uma merda, mas, às vezes, funciona."

assinado: Passarinho

Serviço:
A emenda 13 que aboliu a escravidão nos EUA:

"Emenda XIII
'Seção 1'
Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.
'Seção 2'
O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias"