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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Qual a expectativa para o Pré-Carnaval 2012? O que precisa melhorar e o que está funcionando bem? (2)


Depois de cinco anos desfilando como ritmista do bloco Unidos da Cachorra, este ano, serei apenas público no Pré-Carnaval de Fortaleza. A expectativa de que, mais uma vez, a cidade protagonize uma das mais democráticas e belas festas do Estado é tão grande quanto nos anos anteriores. A cada edição, vê-se a tentativa do poder público de se organizar mais para proporcionar uma festa tranquila a ritmistas e foliões, principalmente no que diz respeito ao controle do tráfego. Bom também é ver a quantidade crescente de blocos ocupando as ruas e sempre tentando inovar para aprimorar a folia. Nestes tempos de Carnaval popular, o que ainda preocupa (e muito) são os paredões de som que insistem em estragar a festa alheia, impondo sua música %u2013 geralmente de gosto duvidável %u2013, sem que haja uma fiscalização eficaz para coibir tal abuso. Como foliã e cidadã, repito o mantra que é de todos que apoiam uma festa de paz e alegria: xô, paredão!
NAARA VALE
Repórter do Núcleo de Cultura e Entretenimento do O POVO


O Pré-Carnaval é a prova dos nove da convivialidade, do bem-estar coletivo, da educação no trânsito, da educação patrimonial e do cuidado com o outro. Para o bloco passar é preciso que a cidade dê sua licença poética, entendendo o período como pausa vibratória de nossas lutas diárias. A Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secultfor, festeja e legitima a qualidade da festa, que só cresce graças ao fino entendimento entre a população e o poder público municipal. Os animadores de blocos estão mais organizados e conscientes de seus direitos e deveres. Os músicos se aprimoram a olhos vistos. Os foliões estão mais tolerantes, politizados. Diminuir o número de veículos em circulação, sobretudo aos sábados, ainda é um desafio, assim como redesenhar rotas específicas de ônibus para os locais de maior convergência. Mas ano após ano afinamos a música. E assim brincar Carnaval em Fortaleza vem se tornando coisa séria.
FÁTIMA MESQUITA
Secretária de Cultura de Fortaleza


Desde que comecei a frequentar os pré-carnavais de Fortaleza tenho me surpreendido com a evolução da festa. A cada ano descubro novos blocos espalhados pela cidade, mas geralmente fico no eixo Praia de Iracema-Centro-Benfica. Para mim é uma das melhores festas do ano. Um ponto positivo é o incentivo do governo municipal durante todo o processo, desde antes, com os editais de fomento aos blocos de Pré-Carnaval até a própria infraestrutura, com ênfase na organização do trânsito e segurança nos dias de festejo. Eu particularmente nunca presenciei uma confusão durante o evento. Mas como nem tudo são flores, no ano passado observei o transtorno causado pelos conhecidos "paredões" de som. A fiscalização é insuficiente para inibir essa prática que realmente atrapalha quem quer se divertir ao som das marchinhas. Espero que neste ano isso não seja mais um problema e que tudo seja só alegria.
MADSON GOMES
Assistente social


http://www.2011.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/01/14/noticiaopiniaojornal,2373787/qual-a-expectativa-para-o-pre-carnaval-2012-o-que-precisa-melhorar-e-o-que-esta-funcionando-bem.shtm

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Gildo, o carnavalesco da Unidos da Cachorra

Por Naara Vale
Gildo da Unidos da Cachorra ( Foto André Salgado)
    Quem um dia ousou cantar que “todo Carnaval tem seu fim” nunca entrou na casa de um carnavalesco nato. Sim, ali as quartas-feiras de cinzas também se vão, mas a essência que move os carnavais nunca larga a morada de seu fazedor. Na casa 374 da rua Marechal Deodoro, pelo menos, é assim. Desde que assumiu a presidência da bateria Unidos da Cachorra, em 2003, Gildo não se despediu mais do Carnaval.
    A casa que há 30 anos foi morar com a sua Odilva, no bairro Benfica, passou a ser também a sede da agremiação. Desde então, a alegria do verde e laranja que estampa o estandarte da Cachorra enfeita o seu quintal o ano inteiro e toma seu tempo com a confecção e consertos de instrumentos de percussão para a bateria. “Isso aqui pra mim é uma vida, é o meu terceiro amor. Primeiro, minha esposa, meu filho, depois vem a Cachorra”, anuncia. 
    Nascido em 14 de abril de 1954, em uma localidade de Quixadá, no Sertão Central do Ceará, Gildo foi registrado Hermenegildo, o nome do avô, mas depois que a mãe perdeu sua certidão de nascimento e foi procurar a segunda via, descobriu que o nome do menino tinha sido oficializado José de Castro Moreira. Assim ficou nos documentos, mas foi o apelido que pegou e é o que vale até hoje. Carregando a alcunha dada pelo avô, Gildo chegou a Fortaleza para estudar ainda meninote. “Vim chorando como se estivesse indo pra prisão. Foi um baque pra mim porque eu adorava o sertão, aquela liberdade, vivia sem medo de ser feliz”, lembra Gildo, hoje engenheiro mecânico formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).
    Logo se casou e mudou-se para a rua Marechal Deodoro, então conhecida como rua da Cachorra Magra. Diz-se que o nome surgiu por conta de uma cadela faminta que andava por ali, caçando os bichos que passavam pela rua a caminho de um matadouro das proximidades. Se é verdade, ninguém sabe, mas o apelido ficou e deu nome à troça criada, em 1988, por um magote de festeiros que todo Carnaval tinha vontade de se juntar aos blocos que desfilavam pela avenida Domingos Olímpio. No Carnaval daquele ano, pela primeira vez desceu pela Marechal Deodoro, ao som de instrumentos de sopro e percussão, o bloco da Cachorra Magra.
    Gildo, que até então não se dizia um carnavalesco, viu a movimentação puxada pelos vizinhos Amauri, Joãozinho Barry White e Paulo Brasil virar Carnaval. Ele, no entanto, ficou de fora, só acompanhando o repertório de marchinhas e frevos. Em 1998, o bloco montou sua própria bateria de escola de samba, bem aos moldes do Carnaval carioca. Na falta de gente para tocar, foi o jeito Gildo juntar-se aos vizinhos e cair no samba também, se arriscando em um surdo de terceira. Nascia aí a bateria Porra da Cachorra. O nome nada familiar acabou sendo trocado por Unidos da Cachorra, para manter a ligação com o berço.
    Depois da saída do então presidente Paulo Brasil, já nos anos 2000, o bloco passou dois anos sem desfilar. Gildo, nesses tempos já um amante assumido do Carnaval, para não deixar o samba morrer, se propôs a comandar a agremiação. A esposa, antes cabreira, passou a abrir a casa para os ritmistas e oferecer o caldinho da sustança pra quem estava nas últimas. “O samba foi um acaso na minha vida. Apareceu na frente da nossa casa e foi o jeito a gente aceitar”, conta, rindo. 
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    No próximo sábado, 7, a Cachorra lança o clipe oficial do samba enredo Balança Cachorra!, de autoria de Haroldo Guimarães, Leandro Rodrigues e Felipe Splinter. 
    A música foi a ganhadora de um concurso promovido pelo bloco para escolher o samba de 2012. A exibição acontece a partir das 15 horas, durante o último ensaio da bateria, na Quadra da Unidos da Cachorra (Rua Dragão do Mar quase esquina com  Almirante Jaceguai). 
    Neste ano, os desfiles do bloco acontecem nos dias 14, 21 e 28 de janeiro e 4 e 11 de fevereiro, a partir das 16 horas, com concentração em frente ao Clube 20, na Praia de Iracema.
    Vídeo do Samba enredo da Unidos da Cachorra 2012

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Bar do Chaguinha completa 55 anos de tradição no Benfica


Artigo de Naara Vale, publicado no Vida e Arte de ontem, 2 de fevereiro de 2011 - Jornal O POVO.

Tinha tudo para ser mais uma mercearia de esquina. Um daqueles mercadinhos para onde a vizinhança corre quando falta o ingrediente de qualquer receita. Quando faltava combustível, também era para lá que os vizinhos iam porque até querosene encontrava ali. Isso lá pelos idos de 1956, quando Francisco Ferreira Neto, vulgo Chagas, mais conhecido como Seu Chaguinha, veio do Piauí trazer o sogro para um tratamento de saúde e por aqui decidiu construir sua vida. 
Chaguinha e dona Arabenes - foto de Edmar Soares
 
O rumo do negócio mudou quando os grandes supermercados apareceram. As prateleiras cheias de mantimentos começaram a ser preenchidas por combustível para as noitadas de seus frequentadores. A mercearia de esquina virara lugar de ir e se deixar ficar para uma conversa ao pé do balcão. O comerciante piauiense agora ganhava a vida como dono de bar. Tornara-se o proprietário do Bar do Chaguinha, que hoje chega aos seus 55 anos de vida, com o respeito de ser um dos mais tradicionais bares da cidade.

Luxo e chiqueza passam longe do bar incrustado bem no meio do Benfica. A arquitetura continua quase a mesma da mercearia de esquina aberta em 1956. Mas quem liga pra isso? A freguesia enche o local todos os finais de semana, nem que seja para comer uma panelada sentado numa mesa do outro lado da rua. “Se fosse um bar chique, num tinha a clientela que eu tenho, não. É só gente de classe. ‘Perrapado’ num vem aqui, não”, diz Seu Chaguinha, tido, para alguns, como o Seu Lunga do Benfica. “São 50 e tantos anos e os clientes velhos que não morreram ainda aparecem.”, garante o comerciante, na beirada de completar seus 79 anos.

A tradição e a clientela fiel do Bar do Chaguinha se fez em cima da simplicidade. Além do espaço – que inicialmente funcionava em frente a onde é hoje -, o cardápio não dá tantas opções assim para cliente, mas é suficiente para atrair gente de toda a Cidade. As oito delícias oferecidas ali são preparadas diretamente das mãos de Dona Arabenes Ferreira, companheira de Seu Chaguinha há 56 anos. “Eu tenho a melhor panelada da Cidade. A minha patroa é que faz em casa”, orgulha-se ele. Ela, no entanto, aposta na limpeza do bar como o principal atrativo. “Nossos banheiros são sempre limpos e cheirosos. O que importa é limpeza”, ressalta.

Se a comida atrai, a música é que faz voltar sempre. Pelo menos é o que seu Chaguinha imagina. “É a música que mexe com o coração do povo, minha filha. E a minha seresta é muito boa”, promete. Foi dessa paixão que o quase octogenário topou receber, em 2008, em frente ao seu bar, um dos blocos de Pré-Carnaval mais famosos de Fortaleza, o Luxo da Aldeia. Ele mesmo não se considera um carnavalesco, mas toda sexta-feira não deixa de ir para trás do balcão acompanhar o movimento dos foliões que tomam o seu bar. “O pessoal é que gosta, aí a gente tem que fazer”, esquiva-se.

O tempo já passou, mas os muitos anos ainda não foram suficientes para tirar desse senhor a “mania” de, diariamente, às 8 horas da manhã, ir para o bar esperar um velho cliente que queira uma companhia uma cerveja, ou apenas para um papo. “O que a gente tinha que fazer na vida já fez. Os filhos já estão criados... Agora é só complemento”, pontua. “Isso aqui é o que me mantém vivo. Se não tivesse o bar para fazer essa horinha, já tinha morrido. Gente velha, se parar, é caixão!”.

Onde
ENTENDA A NOTÍCIA
Aberto há 55 anos, o Bar do Chaguinha fica no coração do Benfica (Rua Padre Francisco Pinto, 144), mas seus frequentadores vêm de todos os cantos da Cidade para experimentar a famosa panelada do Chaguinha e a cerveja sempre geladíssima.

Naara Vale
naara@opovo.com.br