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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

PARA ESPANTAR O BODE

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Quase não ouço música.
Tenho manifestado uma
opção preferencial pelo
silêncio. Escuto vozes o dia
inteiro, e quem me dera
fossem de “dead people”.


Meu querido Arthur Dapieve, eu li, como de hábito, o seu texto de sextafeira próxima passada — e uso essa expressão por pura curtição pessoal, em louvor ao dono dela, o grande locutor esportivo Orlando Batista. Mesmo presumindo que ele não seja um ícone da sua geração de rádio-ouvinte-esportivo, eu cito o Orlando como cumprimento viril a você, também fã do esporte bretão.
Pois, então, Dapi. Li suas bem traçadas, no caso apraz citado, focalizando o relançamento de “Tem que acontecer”, do Sérgio Sampaio. É um dos meus discos preferidos. Eu ia sorvendo feliz cada uma de suas exaltações à música do Sérgio, mais um de nossos ídolos levados pela maldita da cachaça. De repente, o texto já no último parágrafo, percebi o inexorável. Você não ia citar a minha música preferida do disco, a estupenda “Velho bode”, aquela do “Você é um fracasso/ do meu lado esquerdo do peito/ uma corda de nylon/ de aço/ que arrebenta quando eu faço dó”. Nesse “dó” final, ele tira o som da nota no violão, um dó pungente capaz de deixar humilhados os do Nélson Cavaquinho.

Eu estou te escrevendo, meu bom Dapi, para não deixar passar em branco o bode do Sérgio Sampaio, um dos bichos mais geniais da MPB (ao lado do “Pato”, do João, do “Sapo”, do Donato, da “Perereca”, da Dercy), e também porque está sendo lançado um livro com o título de “1001 músicas que você deve ouvir antes de morrer”. É o velho truque das listas, e eis que mais uma vez me deixo cair na armadilha de, primeiro, ficar curioso, e, em seguida, furioso. O livro deixou de fora o “Bode”, todas as outras músicas do Sérgio Sampaio, e também “Carinhoso”.

Faz sentido, Dapi, um cara ter vindo a esse mundo-de-meu-deus, se livrar de todos os carrinhos por trás da zaga adversária, sobreviver até a idade adulta aos rabos de arraia dos inimigos, e se despedir deste vale de lágrimas miserável sem alguém ter lhe recomendado a audição de Pixinguinha?

O livro é de um inglês, fala da música popular de todo mundo, e contempla o Brasil com indicações polêmicas que não vêm ao caso, porque música boa é a que assim lhe cai aos ouvidos.

Eu fui criado ouvindo o programa do César de Alencar na Rádio Nacional, depois, adolescente, passei para o “Hoje é Dia de Rock”, do Jair de Taumaturgo, na Mayrink da Veiga. Sei que Anísio Silva cantando “Quero beijar tuas mãos”, “Kokomo”, dos Beach Boys”, e o jingle do Café Capital, pela Dóris Monteiro, músicas que confundocom as harpas dos anjos, não são exatamente para uma listagem internacional.

Mas, meu bom Dapi, cá entre nós: o que sabem esses ingleses? O que sabe qualquer outro senão nós mesmos, da música que se deve ouvir antes do vento gélido soprar na nuca, dizer “chegou a hora” e a mão caridosa de uma amiga nos puxar o cobertor até a altura dos olhos, encerrando a vã jornada?

Eu vou confessar, querido companheiro, que alimento sobre você uma invejinha branca, embora ultimamente esteja preferindo as mais morenas. Quase não tenho ouvido música. Ouvi o “Rio”, do Keith Jarret, com empolgação, e as deliciosas babas-bregas do último CD da Marisa Monte. De resto, tenho manifestado uma opção preferencial pelo silêncio (já escuto vozes o dia inteiro, e quem me dera fossem de “dead people”). Quando pego o jornal e te vejo descobrindo novos sons, abrindo as orelhas sem preconceito aos tambores do planeta, sinto a tal invejinha — e por isso achei que serias o parceiro ideal para compartilhar as sugestões que pretendo mandar aos ingleses.

Que numa próxima edição, e livros de listas têm muitas, eles não se esqueçam de “Para ver as meninas”, do Paulinho da Viola, do “Preciso aprender a ser só”, dos irmãos Valle, e o “Nova ilusão”, do Pedro Caetano e Claudionor Cruz, cantada pela Marisa Monte. São canções para se cantar baixinho, porque eu vejo essas pessoas ouvindo música com o fone empurrado para dentro das orelhas, e faço tsk, tsk. Queria lhes apresentar o benefício do sussurro. Astrud Gilberto cantando “Insensatez” não faz mal ao ouvido antes do estrondo insuportável do bater das botas.

Eu sou de uma geração em que a ordem do mundo mudava ao sabor de um LP do Caetano, do Chico, dos Beatles. Hoje, eu ouço o Criolo, os crioulos do rap, e, a não ser que você me desminta, Dapi, não percebo as águas do mar se abrindo. A música não é mais o importante, mas o show. Por isso, vou dizer aos ingleses: as 1001 músicas que eu quero ouvir antes de morrer são as que já ouvi desde nascer. Toca aí “Desencontro”, do Chico, “Luzia luluza”, do Gil, “Qualquer bobagem”, do Tom Zé, e “Meu pobre blues”, do Sérgio Sampaio. Para animar o enterro, toquem “Oba”, do Bafo da Onça, e “Palmas no portão”, do Cacique.

Que tal, meu bom Dapi, se eu juntasse a minha lista daqui com as tuas daí, e para enfrentar os ingleses lançássemos o que realmente interessa, o nosso “Músicas para espantar o bode”?
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/09/para-espantar-o-bode-joaquim-ferreira.html

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Entre aspas


Por Lula Vieira



"Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato.

Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho.

Joaquim Ferreira dos Santos, em 'O Globo' de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa 'agregar valor'.

Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica 'mamando' de segundo em segundo é uma chata.

São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais, a vida está confirmando estas conclusões.

Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca.

Outro índice infalível é que atrás de (fumando) um cachimbo existe 1 de 2 tipos de pessoas: Ou inglês, ou babaca! Com cinqüenta e muitos anos de vida, nunca encontrei outra espécie...

Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável?

O sujeito que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra 'carne', fica falando o tempo todo em vida saudável. É a pessoa ideal para companhia na madrugada?

Eu detesto certos vícios de linguagem, do tipo 'chegar junto', 'superar limites', e os famosos 'gerundismos' que lembram papo de concorrente a big brother.

Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas.

Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. Vai ver que a pessoa transmite algum sintoma de chatice.

Se algum dia eu matar alguém, existe a grande possibilidade de ser um guardador de carros.

Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho menos raiva de um assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga.

Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer?

Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber 'energia positiva'.

Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa.

Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria.

E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando 'um beijo no coração'?"

domingo, 20 de março de 2011

Bar ruim é lindo, bicho. - de Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.)

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocandoreggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?


do livro As Cem Melhores Crônicas Brasileiras,ed Objetiva e  organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.