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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






quarta-feira, 29 de abril de 2015

A linguagem do trauma

por Gilson Iannini



Não é de bom tom começar um texto com uma citação longa. Mas há certas coisas que precisam ser ditas, mesmo fora do tom. O parágrafo que se segue é uma citação. Mas não vou usar aspas, nem recuar o texto. Vou me apropriar dele, como se fosse meu, mesmo não sendo.

Diz-se que os sobreviventes que voltavam – e voltam – dos campos não tinham nada para contar, que quanto mais seu testemunho era autêntico, tantos menos conseguiam comunicar o que haviam vivido. Como se eles mesmos fossem os primeiros a serem assaltados por uma dúvida sobre a realidade do que lhes tinha acontecido – se não teriam, por acaso, trocado um pesadelo por um acontecimento real. Eles sabiam – e sabem – que em Auschwitz ou em Omarska não tinham se tornado mais sábios ou mais profundos, nem melhores, mais humanos ou mais benévolos diante dos confrontos do homem, saíram deles, ao contrário, despidos, esvaziados, desorientados. E não tinham vontade de falar sobre isso. Tomadas as devidas distâncias, essa sensação de suspeita nos confrontos com o próprio testemunho vale, de algum modo, também para nós. Parece que nada, no que vivemos nesses anos, nos autoriza a falar. A suspeita nos confrontos com as suas próprias palavras se produz todas as vezes que a distinção entre o público e o privado perde seu sentido.

Parece que o texto fala da realidade brasileira recente, onde as certezas acerca do que estamos vivendo parecem se dissolver no ar. Mas o trecho acima, extraído do texto “Neste exílio – Diário italiano 1992-94”, foi publicado por Giorgio Agamben como uma espécie de epílogo ao seu livro Meios sem fim e descrevia seu próprio estupor diante da crise italiana, ainda no rescaldo da operação “mãos limpas”. O que nos autoriza a falar, a escrever, a tomar publicamente a palavra?

Atônito com o ressurgimento meio difuso, meio artificial e também meio anacrônico de um sentimento de nostalgia em relação à ditadura civil-militar nos cartazes e nas palavras de ordem de algumas manifestações ocorridas recentemente no Brasil e disseminadas nas redes sociais, decidi perguntar a colegas psicanalistas (em um dos casos, um intelectual marcado pela psicanálise) como entender esse quadro. Minha sensação era de espanto. Quando menino e depois, em minha juventude, sempre me intrigava a seguinte questão: quem eram os apoiadores da brutal ditadura militar brasileira? Naquele tempo, a tese, quase banal, de que uma parcela expressiva da classe média teria apoiado fervorosamente o golpe me parecia meio metafísica.

Eu, que nasci em 1969, sempre suspeitei que essa tese fosse verdadeira, mas nunca consegui individualizar, dotar de imagem ou de nome esse ou aquele indivíduo. Para mim, os entusiastas do regime nunca tiveram rosto. Confesso que essa questão era para mim um enigma. O vizinho do primeiro andar, que usa óculos escuros estilo coronel? Aquele tio durão? Os pais daquele colega de turma? A beata da primeira fila na missa de domingo? Tudo me parecia distante e improvável. Como se o meu bairro, o meu círculo de amizades ou a minha família estivessem protegidos desse tipo, que, no entanto, estatisticamente deveria estar mais próximo do que gostaria. Mas eles continuavam, para mim, sem rosto. Como lembra Agamben, “o rosto é o ser irreparavelmente exposto do homem, e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto nessa abertura”. E continua: “o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Pois aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para o político é a tragicomédia da verdade na qual ele há sempre cai e para a qual deve encontrar uma solução”.

Nas conturbadas eleições do ano passado, esse enigma se desfez por completo para mim. Como se caísse o último véu de ilusão que convenientemente me protegia de uma verdade mais insuportável e mais próxima de mim. De uma hora para outra, os nostálgicos da ditadura mostraram o rosto, fizeram cartazes e gritaram nas ruas, em alto e bom som. Queriam a volta da “ordem”, queriam o verde-e-amarelo contra o vermelho. Não estou discutindo se as razões de uma certa insatisfação com a política atual eram legítimas ou não. Havia e continua havendo muitos motivos de insatisfação, sempre a depender, claro, do lugar de onde se olha. O que me intrigava era o ódio. Era o quantum afetivo que acompanhava as declarações, os proferimentos. Não parecia possível analisar apenas o discurso, os argumentos. Trata-se de outra coisa, de posições afetivas extremamente enraizadas em nossa forma de vida.

Os saudosos da ditadura surgiam com rosto, endereço e voz. E eles estavam muito mais próximos do que gostaríamos de acreditar. Talvez fosse um vizinho, um parente, um colega. É evidente que uma análise desse fato social merece um estudo amplo, que requer o olhar do cientista político, do antropólogo, do teórico da comunicação, entre outros. Mas o que me interessava era outra coisa. Tudo aquilo me parecia um grande retorno do recalcado. Como se o verniz cultural que nos encobre em nosso contato cotidiano de repente se desprendesse, como aquela casquinha de tinta podre que arrancamos com as unhas na parede úmida. Num célebre artigo sobre a guerra, Freud afirma que o conflito desnuda as camadas de cultura que se depositaram nos homens pelo processo civilizatório e “faz vir à tona o homem primitivo em nós”. Algo desse tipo me interessava. A virulência e o ódio que se manifestaram nos discursos e nos gritos eram absolutamente aterradores. E ainda estamos escutando os ecos dessa gritaria, agora sob as vestes pseudojurídicas do “impeachment”, sentença que antecede o crime. Não por acaso, busca-se o crime depois de decidida a sentença, como num conto de Kafka.


Alguma coisa parece ter irrompido no frágil tecido social brasileiro. Como se esse tecido nunca tivesse realmente costurado, apenas alinhavado. Nossas fraturas históricas vieram de repente à tona, sem pudor, de uma forma escancarada, obscena. Aquilo que é traumático na história brasileira – o extermínio dos índios, a escravidão e a ditadura militar – não cessa de produzir efeitos sintomáticos.


Gilson Iannini é psicanalista, doutor em filosofia, professor da UFOP e editor da coleção “Obras incompletas”, de Sigmund Freud (Ed. Autêntica)

http://revistacult.uol.com.br/home/2015/03/a-linguagem-do-trauma/

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mordaça (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro) 1976

Por Marcus Vinicius

Para aqueles e aquelas jovens que nunca viveram um estado de exceção - uma ditadura - mas que insistem, hoje, em dizer que vivemos.

Oh tempus! Oh mores!



Mordaça (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)

TUDO O QUE MAIS NOS UNIU SEPAROU
TODO O QUE TUDO EXIGIU RENEGOU
DA MESMA FORMA QUE QUIS RECUSOU
O QUE TORNA ESSA LUTA IMPOSSÍVEL E PASSIVA

O MESMO ALENTO QUE NOS CONDUZIU DEBANDOU
TUDO O QUE TUDO ASSUMIU DESANDOU
TUDO QUE SE CONSTRUIU DESABOU
O QUE FAZ INVENCÍVEL A AÇÃO NEGATIVA

É PROVÁVEL QUE O TEMPO FAÇA A ILUSÃO RECUAR
POIS TUDO É INSTÁVEL E IRREGULAR
E DE REPENTE O FUROR VOLTA
O INTERIOR TODO SE REVOLTA
E FAZ NOSSA FORÇA SE AGIGANTAR

MAS SÓ SE A VIDA FLUIR SEM SE OPOR
MAS SÓ SE O TEMPO SEGUIR SEM SE IMPOR
MAS SÓ SE FOR SEJA LÁ COMO FOR
O IMPORTANTE É QUE A NOSSA EMOÇÃO SOBREVIVA

E A FELICIDADE AMORDACE ESSA DOR SECULAR
POIS TUDO NO FUNDO É TÃO SINGULAR
É RESISTIR AO INEXORÁVEL
O CORAÇÃO FICA INSUPERÁVEL
E PODE EM VIDA IMORTALIZAR




quarta-feira, 9 de abril de 2014

Testemunha privilegiada

Por Gabriel Priolli

Amazonense radicado em São Paulo, o advogado Almino Afonso viveu o governo João Goulart do primeiro ao último dia. Foi líder na Câmara do partido do presidente, o PTB, ministro do Trabalho e da Previdência Social, aconselhou Jango em decisões importantes e testemunhou episódios centrais da história do País. Afonso recorda os momentos que antecederam ou se desenvolveram durante o golpe de 1964. Seu depoimento foi gravado no início de fevereiro, para o documentário Jango – Marcado para Cair, produzido por Paulo de Tarso Santos Filho. São observações de quem viveu um dos períodos mais conturbados da vida brasileira, no olho do furacão.

Golpe desde a posse

Num certo momento, após a renúncia de Jânio, o presidente João Goulart me telefona de Paris, vindo de Cingapura, no retorno da China. Queria saber como estava o quadro e revela o seguinte: “Eu recebi um telefonema do senador Afonso Arinos e do deputado San Tiago Dantas, informando de que há uma cogitação de, através do parlamentarismo, superar a crise e permitir que eu assuma como chefe de Estado. Qual a sua opinião?”

Eu disse: “Presidente, eu sou parlamentarista por formação doutrinária, mas neste momento é golpe de Estado. E, como golpe, eu não aceito”. Ele disse: “Bem, eu não estou assumindo nenhuma aceitação, mas gostaria que a bancada analisasse”.

No dia seguinte, no gabinete do presidente interino Ranieri Mazzilli, com a presença dos três ministros militares que queriam impedir a posse de Jango, somos convocados. Todos os líderes dos partidos, inclusive eu, um jovem líder do PTB. Eu me vi no dever de relatar o diálogo que tinha tido com o presidente. Ao meu lado estava o líder da UDN na Câmara, coronel Menezes Cortes, que se entusiasmou e transformou a conversa exploratória entre Arinos, San Tiago e Jango numa proposta. A detonação real do parlamentarismo nasce nesse episódio. Menezes Cortes ouve a narrativa que fiz e passa a defender a ideia com entusiasmo.

Eu me mantive na liderança do PTB até o último minuto. A esmagadora maioria do partido votou contra, mas, se a memória não me falha, 15 votaram a favor. Ou porque se consideravam parlamentaristas, ou porque eram mais amigos do presidente. Se Jango aceitou, votavam com ele. Mas o PTB, em sua maioria, ficou contra o parlamentarismo.

Aquilo era um golpe de Estado no sentido mais amplo. A Constituição de 1946 não permitia que uma emenda, alterando a ordem constitucional, fosse votada em clima de choque interno, ou de “convulsão intestina”, essa expressão curiosa.

O inimigo americano

A informação do quanto podia haver, comprovadamente, de participação dos Estados Unidos na articulação de um golpe vem num crescendo. Além daquela batalha campal de dizer que o presidente era comunista, e que influiu enormemente na coesão dos militares, foi a nossa política internacional que realmente passou a chocar os interesses americanos.

Há um momento em que os EUA descem para uma conferência em Punta del Este. Congresso da Organização dos Estados Americanos. O secretário de Estado americano propõe, formalmente, a expulsão de Cuba da OEA. Por quê? Ela tinha passado a ser um órgão comunista. Em nome disso, não podia continuar na OEA.

Quem faz a sustentação excepcional contra isso chama-se San Tiago Dantas. Nosso ministro das Relações Exteriores. Argumenta, demonstra juridicamente. Tudo o que você pode imaginar. E ganha. Os EUA perderam a batalha em Punta del Este. Você pode imaginar, para o orgulho americano, o quanto isso foi?

Há um segundo momento, na crise dos mísseis soviéticos incrustados na costa cubana, apontados em direção à Flórida. John Kennedy manda uma carta que não era um convite, era uma convocação para que o presidente do Brasil apoiasse a posição dos Estados Unidos – e invadíssemos Cuba com eles. Bom, o presidente reúne no seu gabinete. Ele chega com a carta do Kennedy, que tinha recebido do embaixador. Já trazia à mão anotações com a opinião dele. E houve uma tarde admirável de encontro político. Ao término, ficou deliberada a recusa.

Um governo desinformado

Na manhã de 31 de março, quando as tropas do general Olímpio Mourão Filho seguiam em direção ao Rio de Janeiro, desde lá de Juiz de Fora, eu fui à Câmara, em Brasília. A Câmara reunia-se habitualmente pela tarde e, com alguma frequência, à noite. Pela manhã, nunca. Portanto, havia algo estranho. Entrei numa das rodas. “Começou o golpe”, diziam uns. Outros, favoráveis, comemoravam: “Começou a Revolução”. Enfim, revelavam a marcha do general Mourão. Eu não sabia de nada.

O presidente estava no Rio, no Palácio das Laranjeiras. O senador Artur Virgílio Filho, que era líder do governo no Senado, ligou para ele. Eu fiquei ouvindo na extensão. “Presidente, está aqui o Almino, me contando o quadro que acaba de ouvir, a respeito da marcha do general Mourão. Como vou ter de falar necessariamente sobre esse assunto no Senado, estou lhe telefonando para pedir as suas instruções.” Responde o ilustre presidente João Goulart, ao meio-dia de 31 de março de 64. “Artur, isso tudo é fantasia da oposição. Ficam criando um quadro de alarme para ver se nos tiram do controle da situação. É um absurdo isso.”

Passava por ele o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar. O presidente o interpelou. “General, o senador Artur Virgílio acaba de me dizer alguma coisa sobre uma marcha de revoltosos. O que há disso?” Pergunta ao chefe de sua Casa Militar. Responde o general: “Presidente, não há nada. É um movimento de tropas rotineiro que se dá no Exército. Não há absolutamente nada”. Jango insiste: “General, não há nada?” Ele garante: “Nada, presidente, estou lhe dizendo”. Desligamos.

A Câmara não era mais um fervedouro. Era um comício. Um barulho, uma agitação. Eu entro numa roda e digo o que acabo de ouvir do presidente. Aí o deputado Carlos Murilo me tira da roda.

“Almino, se o presidente João Goulart está dizendo isso como uma forma de suavizar o clima de tensão, eu não sei se isso terá efeito. Agora, se ele está acreditando na verdade do que disse a vocês, está perdido. Porque, desde a madrugada de hoje, Belo Horizonte está em pé de guerra. O governador Magalhães Pinto já assumiu o comando da revolução. Isso é público desde a madrugada.”

Bom, seria injusto, leviano, dizer que o general Assis Brasil tenha de alguma maneira contribuído para um desfecho negativo do nosso governo. Seria uma acusação irresponsável. Mas que ele era de uma incompetência absoluta, isso eu posso dizer. Não saber ao meio-dia de um fato que vinha desde a madrugada é inacreditável. E o pior: o presidente João Goulart só foi formalmente comunicado da marcha do general Mourão às 6 da tarde do dia 31. Por um bilhete do ministro da Justiça, Abelardo Jurema.

Duas cusparadas cívicas

Na casa do deputado Bocayuva Cunha toca o telefone. Era uma das secretárias do senador Auro de Moura Andrade convocando para uma reunião extraordinária do Congresso, reunião conjunta da Câmara e do Senado. À 1h30 da manhã de 2 de abril. Não seria para loas, certamente.

Na hora da sessão, Moura Andrade começa um discursinho horroroso, de poucas linhas, depois publicado em toda parte. “Todo mundo sabe que o senhor presidente da República, já a esta altura,tendo deixado Brasília, na verdade deixou o governo acéfalo. Portanto, eu me sinto no dever de, neste instante, declarar vago o cargo de presidente da República. E que o senhor Ranieri Mazzilli, na qualidade de presidente da Câmara, assuma em caráter interino a Presidência da República. Está encerrada a sessão.”

Aí vou contar duas coisas admiráveis. Tancredo Neves, baixinho, normalmente suave, levantou e disse: “Canalha! Canalha!” Com essa voz! E o deputado Rogê Ferreira, um líder socialista, hercúleo, atlético, vai até a escadinha da mesa. Moura Andrade vinha descendo, cercado de guardas, uma segurança maior que a habitual. O Rogê mete os cotovelos, consegue abrir espaço naquela guarda e dá duas cusparadas no Moura Andrade. Que eu chamo de público, já disse muitas vezes, “duas cusparadas cívicas”.

Imprensa em campanha

Com a exceção honrosa da Última Hora, todos os jornais tiveram uma atitude de bloqueio a respeito do presidente João Goulart. Até para justificar a atitude deles próprios, que tramaram e ajudaram o golpe. Trataram de obscurecer inteiramente tudo quanto pudesse de algum modo significar algo favorável ao presidente. Houve certo instante em que o deputado Bilac Pinto, da UDN, passou a fazer sistematicamente discursos na Câmara, com a acusação de que o presidente estava armando a chamada “Campanha Revolucionária”. Para quem conhecesse o presidente, imaginar ele próprio assumindo uma ação desse tipo era tão fora de propósito. Mas Bilac Pinto insistia.

Estou convencido de que técnicos de ação revolucionária o ensinaram a fazer esses discursos. Não acredito que ele, o jurista que era, sequer soubesse dos dados com que argumentou. Mas o importante é que os principais jornais de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, do Recife, estampavam o assunto nas manchetes. “Deputado Bilac Pinto denuncia o golpe de João Goulart”, “Bilac Pinto mostra onde o presidente está armando a Revolução”.

Todos os jornais, fora a Última Hora. Manchete! Manchete!

Eu diria que foi antidemocrático. Profundamente. Porque, quando você deforma a verdade, você desserve à história e ao País. Isso hoje eu digo da maneira mais clara.

A verdade enjaulada

Vladimir Safátle

A mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, a violência da inexistência. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se trata apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que afirma que nada existiu, que a violência não deixou traços e indignação. Neste exato momento, o Brasil é vítima, mais uma vez, dessa forma mais brutal de violência.

Talvez ninguém esperasse que, em 2014, 50 anos após o golpe militar, estaríamos em um embate para saber se, no fim das contas, existiu ou não uma ditadura no País, com todas as suas letras. Era de se esperar que neste momento histórico estivéssemos a ler cartas abertas das Forças Armadas com pedidos de perdão por terem protagonizado um dos momentos mais infames da história brasileira, cartas de desculpas de grupos empresariais que financiaram fartamente casas de torturas e operações de crimes contra a humanidade. Todos esses atores não se veem, no entanto, obrigados a um mínimo mea-culpa.

Há de se perguntar como chegamos a esse ponto. Uma resposta-padrão consiste em dizer que os setores progressistas da sociedade brasileira não tiveram força suficiente para impor aos governos exigências de dever de memória e justiça de transição. A história brasileira recente é, em larga medida, uma história de transformações abortadas.

Já a luta pela anistia foi abortada quando o regime militar conseguiu impor sua própria lei da anistia, que livrava os funcionários de Estado responsáveis por crimes contra a humanidade, isso enquanto ainda deixava na cadeia integrantes da luta armada que participaram de assaltos a bancos e ações com mortes. Àqueles que têm o despudor de afirmar que a lei da anistia foi fruto de acordo nacional, devemos lembrar que a votação que aprovou a referida legislação no Congresso Nacional foi de 206 votos a favor e 201 contrários, sendo os votos favoráveis saídos todos das fileiras do então partido governista (a Arena). Faz parte das ditaduras a criação de uma novilíngua, na qual os termos ganham sentidos contrários. No Brasil, a imposição da sua vontade por meio da coerção é chamada de “acordo”.

Depois, a luta por eleições diretas para presidente da República foi abortada em famosa votação no Congresso, o afastamento de líderes ligados ao regime militar foi abortado com a elevação de José Sarney à Presidência do Brasil, seguido de Fernando Collor. Em todos esses processos não foi a sociedade brasileira que se mostrou fraca, mas o poder que se demonstrou suficientemente astuto para se perpetuar sob o manto da transformação. Falamos de uma ditadura que conseguiu permanecer no governo mesmo depois de seu fim, graças a uma manobra transformista que alçou o então PFL a fiador da República.

Da mesma forma, as Forças Armadas conseguiram criar a ilusão de ser um ator que deveria ser deixado em paz, sob o risco de maiores instabilidades institucionais. Essa lógica levou os primeiros governos realmente pós-ditadura (Fernando Henrique Cardoso e Lula) a nunca adotar uma política efetiva de criminalização da ditadura. Assim, chegamos em 2014 sem um torturador punido, sem um general obrigado a reconhecer a experiência terrível dos anos de chumbo.

Dentro desse quadro desolador, o governo Dilma Rousseff resolveu criar uma Comissão da Verdade, que deve entregar o relatório de suas atividades ainda neste ano. Composta de alguns nomes de inquestionável valor e dedicação, indivíduos com largo histórico de defesa dos direitos humanos e intervenções na mídia em favor de uma política efetiva de memória, a comissão teve condições mínimas de trabalho.

Dos sete integrantes iniciais, ela agora funciona com cinco. Mesmo ao levantar novos dados, principalmente a respeito da repressão no campo e contra indígenas, ela não conseguiu mobilizar a opinião pública, talvez por ter preferido não divulgar parcialmente resultados ou encaminhá-los diretamente às cortes internacionais de Justiça (pois as cortes brasileiras estão açodadas devido à decisão canalha do Supremo Tribunal Federal a respeito da perpetuação das leituras correntes a respeito da lei da anistia). Caso tivesse optado pela ampla divulgação e enviado os resultados às cortes internacionais, uma situação jurídica nova teria sido criada e obrigaria o governo a sair de sua política de minimização de conflitos. Foi graças a uma intervenção exterior, lembremos, que o Chile conseguiu, enfim, começar a enfrentar a brutalidade de seu passado. Se Augusto Pinochet não tivesse sido preso na Inglaterra por causa de um pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, há de se imaginar que o Chile estaria em situação muito diferente.

A Comissão da Verdade brasileira deveria assumir experiências de outras comissões e, ao menos, desenvolver um procedimento parecido àquele aplicado na África do Sul. Nesse caso, antigos funcionários do apartheid tiveram seus crimes perdoados se os confessassem abertamente diante das vítimas ou familiares das vítimas, pedindo publicamente perdão. Certamente, no Brasil, algo dessa natureza teria, neste momento, grande força, certamente muito maior do que aquela que o procedimento demonstrou na própria África do Sul. Pois, entre nós, o verdadeiro problema é interromper, de uma vez por todas, a violência produzida pela tentativa de jogar o sofrimento social do período militar à condição de inexistência.

Creio ser útil partilhar um fato pessoal. Depois de escrever um artigo a respeito da tendência de negação predominante em parte de nossa historiografia recente, com seu desejo de apagar os traços da ditadura, recebi uma mensagem singela de alguém que dizia que a ditadura não existiu para ele, cidadão ordeiro e trabalhador. Ela existiu apenas para os indivíduos que queriam transformar este país em uma nova União Soviética. Eu diria que ele tem razão. De fato, a ditadura não existiu para ele, pois esse senhor, como vários outros, fez parte da ditadura. Não haveria ditadura sem cidadãos como este, que hoje não temem em demonstrar claramente suas escolhas.

Não há ditadura sem um conjunto de “carrascos voluntários”, que, mesmo não trabalhando diretamente nos aparatos repressivos, atua indiretamente no suporte e na reprodução das justificativas de suas ações. Há de se apontar para os carrascos voluntários da ditadura brasileira. Por isso, o País nunca conseguirá encerrar o legado ditatorial sem um processo de culpabilização coletiva. Quem votou na Arena foi um carrasco voluntário da ditadura e há de se tratar tais indivíduos dessa forma. Muito mais gente deveria estar no banco dos réus. Pois devemos lembrar, mais uma vez: só há perdão quando há, do outro lado, reconhecimento do crime. Você não pode perdoar o que não existiu. Então, se para certas parcelas da população, a ditadura não existiu, não há razão alguma para perdoá-los. O Brasil segue e seguirá em conflito, como quem vive uma história em suspenso.

Jornalismo golpista

Por Juremir Machado da Silva

No Brasil, 1964 pode ser descrito como o ano da imprensa colaboracionista. Os intelectuais jornalistas traíram o compromisso com a verdade e com a independência por desinformação, conservadorismo e ideologia. Alberto Dines, Antonio Callado e Carlos Heitor Cony ajudaram a derrubar Jango. O poeta Carlos Drummond de Andrade sujou as mãos com algumas mal traçadas crônicas destinadas, pós-golpe, a chutar cachorro morto. Em 1954, a mesma imprensa havia empurrado Getúlio Vargas ao suicídio. Nas únicas três vezes em que o Brasil teve governos do centro para a esquerda – 1951-1954, 1961-1964 e 2003 até hoje –, a mídia aliou-se aos mais conservadores ao agitar os mesmos espantalhos: corrupção, anarquia, desgoverno, aparelhamento do Estado, tentações comunistas e outras ficções mais ou menos inverossímeis.

Em 1964, João Goulart, fervido no caldo borbulhante da Guerra Fria, enfrentou a ira moralista de veículos como o Correio da Manhã,Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo,Folha de S.Paulo, Tribuna da Imprensa, O Dia e dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. A queda de Jango começou a se definir em 13 de março, uma sexta-feira. O presidente cometeu o pecado de abraçar a reforma agrária e de encampar as refinarias de petróleo. A reação conservadora pôs nas ruas as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Consumado o golpe, o diretor de O Estado de S. Paulo, Julio de Mesquita, não se constrangeu em publicar, em 12 de abril de 1964, o “roteiro da revolução”, que ajudara a preparar com auxílio do professor Vicente Rao, em 1962.

O patriarca da imprensa golpista clamava pelo fechamento do Congresso Nacional e das assembleias legislativas. “Há mais ou menos dois anos, o Dr. Júlio de Mesquita Filho, instado por altas patentes das Forças Armadas a dar a sua opinião sobre o que se deveria fazer caso fosse vitoriosa a conspiração que então já se iniciara contra o regime do Sr. João Goulart, enviou-lhes em resposta a seguinte carta...” Sugeria a suspensão do habeas corpus, um expurgo no Judiciário e a extinção dos mandatos dos prefeitos e governadores. A solução “democrática” contra o governo de Jango seria uma junta militar instalada no poder por, no mínimo, cinco anos.

A “Mensagem ao Congresso”, enviada por Jango em 15 de março, detonou o horror na imprensa golpista. O confronto com os marinheiros reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, em 25 de março, deu nova e poderosa munição para o golpismo midiático: as Forças Armadas estariam minadas pela indisciplina. Os marinheiros da base da hierarquia tinham reivindicações subversivas, entre elas... o direito ao casamento. A mídia considerava tudo isso muito radical. Em 30 de março, Jango compareceu ao encontro dos sargentos no Automóvel Clube do Rio. Foi a senha para o autodenominado “vaca fardada”, o general Olympio Mourão Filho, dar o seu coice mortal, marchando com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio. A mídia exultou.

O golpe partiu de Minas sob a liderança civil do governador Magalhães Pinto. Alberto Dines, hoje decano dos críticos de mídia e pregador de moral e cívica no seu Observatório da Imprensa, brindou o governador, no livro que organizou e publicou ainda em 1964 para tecer loas ao golpismo – Os Idos de Março e a Queda em Abril –, com o mais alto elogio disponível na época, um cumprimento aos colhões do pacato golpista: “Enfim, apareceu um homem para dar o primeiro passo. Este homem é o mais tranquilo, o mais sereno de todos os que estão na cena política. Magalhães Pinto, sem muitos arroubos, redimiu os brasileiros da pecha de impotentes”.

O Correio da Manhã deveria constar no livro dos recordes como o mais rápido caso de arrependimento da história do jornalismo. Em 31 de março e 1º de abril de 1964, golpeava furiosamente. No editorial “Basta!”, decretava: “O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta”. De quê? “Basta de farsa. Basta da guerra psicológica que o próprio governo desencadeou com o objetivo de convulsionar o país e levar avante a sua política continuísta. Basta de demagogia para que, realmente, se possam fazer as reformas de base”.

O jornal iludia-se como uma senhora de classe média desinformada: “Queremos as reformas de base votadas pelo Congresso. Queremos a intocabilidade das liberdades democráticas. Queremos a realização das eleições em 1965. A nação não admite nem golpe nem contragolpe”. No editorial “Fora!”, saiu do armário: “Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: 'Saia!”' Veredicto: “João Goulart iniciou a sedição no país”. E mais: “A nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor”. Como poderia de um golpe vir um “legítimo sucessor”? Mistérios do jornalismo: “Hoje, como ontem, queremos preservar a Constituição. O Sr. João Goulart deve entregar o Governo ao seu sucessor porque não pode mais governar o País”.

Os grandes jornais paulistas e cariocas atolaram-se com o mesmo entusiasmo. Apoiaram o golpe e a ditadura. AFolha de S.Paulo ficou famosa por emprestar suas caminhonetes para a Operação Bandeirantes transportar “subversivos” para o tronco. Em 22 de setembro de 1971, o jornal de Octavio Frias tecia em editorial o seu mais ditirâmbico elogio ao pior momento da ditadura: "Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social, realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama".

Esse apoio explícito da Folha de S.Paulo ao governo de Emílio Garrastazu Médici ganha nesse editorial um tom de confissão apaixonada: “Um país, enfim, de onde a subversão – que se alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear”. Em 2009, a Folha de S.Paulo chamou a ditadura de “ditabranda”. O arrependimento nunca chegou.

O Globo, em editorial de 2 de abril de 1964, notabilizou-se pela bajulação surrealista: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem”. Em 7 de outubro de 1984, nos 20 anos do regime, Roberto Marinho reincidiu: “Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Só 49 anos depois do golpe, O Globo publicaria uma retratação contraditória e pouco convincente. Assim foi com outro representante do jornalismo carioca. Em 31 de março de 1973, o Jornal do Brasil comemorava: “Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer”.

Em 2 de abril de 1964, a Tribuna da Imprensa deu em manchete uma lição do mau jornalismo que sempre a distinguiu: “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas”.

Se os jornais apoiaram o golpe e a ditadura, muitos intelectuais jornalistas marcharam na linha de frente do golpismo. Cony, que logo percebeu o tamanho da encrenca e passou a criticar o novo regime, admitiu ter participado da confecção dos editoriais “Basta” e “Fora” do Correio da Manhã: “Minha participação limitou-se a cortar um parágrafo e acrescentar uma pequena frase”. Quanta modéstia retrospectiva! Para Cony, João Goulart era um “homem completamente despreparado para qualquer cargo público, fraco, pusilânime e, sobretudo, raiando os extensos limites do analfabetismo”.

Dines vomitaria uma das maiores asneiras da época: “É preciso muita convicção para não se enredar pelo glamour de uma façanha esquerdista. Quem tem coragem para dizer que aqueles marinheiros, que arriscaram a vida com aquele motim por uma causa tão distante e abstrata, como reformas de base, eram oportunistas e agitadores”. Entre as causas distantes e abstratas defendidas naqueles tempos estavam o direito ao casamento e ao voto para os analfabetos. Em 1968, depois do AI-5, em discurso numa formatura, Dines criticou a censura. Enrolou-se com os velhos amigos. O Serviço Nacional de Informações forneceu-lhe um atestado de bons antecedentes descoberto pelo pesquisador Álvaro Larangeira: “Sempre se manifestou contrário ao regime comunista. Colaborou com o governo revolucionário, escrevendo livro sobre a revolução e orientou feitura de cadernos para difundir objetivos da revolução”. Não foi denunciado. Perdoou-se o deslize.

Callado faz de Jango um bêbado, incompetente e inculto, casado com uma mulher fútil, e com um vício terrível, “o de aumentar o salário mínimo”. O futuro escritor atrapalhava-se com as palavras: “A Presidência da República foi transformada numa espécie de grande Ministério do Trabalho, com a preocupação constante do salário mínimo”. Chafurdava na maledicência: “Ao que se sabe, muitos cirurgiões lhe garantiram, através dos anos, que poderia corrigir o defeito que tem na perna esquerda. Mas o horror à ideia de dor física fez com que Jango jamais considerasse a sério o conselho. Talvez por isso tenha cometido o seu suicídio indolor na Páscoa”. Raízes de certo jornalismo de nossos dias.

Juremir Machado da Silva é jornalista e autor de 1964, Golpe Midiático-Civil-Militar

http://www.cartacapital.com.br/revista/793/jornalismo-golpista-1057.html

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Que as crianças cantem livres - Taiguara



Que as crianças cantem livres ( Taiguara)

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é

Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dom Eugenio Salles: ótima relação com os jornais antes da morte e depois dela

por Hildegard Angel


Muito impressionantes os obituários publicados hoje (10 de Julho de 2012) sobre dom Eugênio Salles. Li, reli e fui conferir de novo o nome do retratado, pois achei que devia haver algum equívoco. Pensei que se tratasse de algum obituário tardio do saudoso dom Helder Câmara, este sim um santinho, que deixou suas pegadas missionárias, como exemplo de caridade cristã. Ele pregava uma igreja voltada para os pobres, era um exemplo de desprendimento, humildade, absoluta ausência de qualquer tipo de vaidade ou arrogância, um sacerdote de "pés descalços", totalmente solidário aos jovens perseguidos pela ditadura e, por isso mesmo, ele próprio um perseguido e removido, devido às políticas do clero, do Rio de Janeiro, então centro dos acontecimentos nacionais, para Olinda...

Dom Helder foi chamado de "Arcebispo Vermelho", teve seu acesso à mídia vetado pelo AI-5, foi pessoalmente perseguido pelo ditador Médici e, como contraponto a tantas maldades, dom Helder só havia plantado coisas boas: construiu a Cruzada São Sebastião no Jardim de Alah, fundou a Comissão de Justiça e Paz, fundou oBanco da Providência, que multiplicou e até hoje multiplica bondades aos pobres neste estado. Faz pensar que, não fosse por dom Helder, a posição da Igreja Católica no Rio de Janeiro, onde não tem mais a liderança que tinha, estaria bem pior...

Curiosamente, foi justamente durante o "período dom Eugenio" que a Igreja Católicano Rio de Janeiro e, por consequência, no Brasil - já que o Rio, sabemos, era, poisera mesmo, no tempo passado, o tambor de ressonância nacional, formava opinião, dava o exemplo - viu acontecer o início e a precipitação de seu declínio. Pois não vamos atribuir apenas à competência das igrejas evangélicas, das seitas pentecostais ou, como querem alguns, à "ingenuidade dos fiéis", a queda da Igreja Católica nesse ranking...

"Você é 100% responsável pelo que lhe acontece", disse-me outro dia uma adepta daMandala olhando-me dentro dos olhos. Estava certa. Somos mesmo. Assim foi com aIgreja Católica no Brasil. Com dom Eugenio à frente, fechando os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões doSumaré aos familiares dos jovens ditos "subversivos", que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe, Zuzu Angel (e isso está documentado), e hoje, supreendentemente, os jornais querem nos fazer acreditar que ocorreu justo o contrário!...

Era público e notório e mais do que sabido naquela época que dom Eugênio endossava que fossem chamados de "padres vermelhos" (alcunha que, então, mesclava rejeição e pânico) aqueles religiosos que abrigavam, sob suas batinas poídas, em suas paróquias suburbanas, os jovens que tentavam escapar das torturas e das sentenças de morte sumária...

Mas não é isso que os obituários de hoje contam...

Como não contam da mágoa de padres jovens, brilhantes pregadores, que conseguiam lotar as missas de suas paróquias com legiões de fiéis, multidões de católicos, jovens padres que ganhavam visibilidade, convites, apareciam na imprensa, somavam admirações e logo eram removidos por dom Eugenio para paróquias bem distantes, como se fossem ironicamente punidos, em vez de serem premiados, pelo belo trabalho que realizavam para a Igreja Católica. Os bons pregadores eram afastados...

Alguns desses padres, que poderiam ter feito belíssimas carreiras no clero, foram podados na origem. Uns caíram no mais completo esquecimento. Outros entraram em depressão. Soube de alguns que abandonaram a batina. Não era de boa política sobressair-se na "era dom Eugenio Salles"...

Duplo castigo: para os padres e para os paroquianos, que assim iam acumulando decepções com sua religião. Outro fator que contribuiu para o declínio católico no Rionesse período foi a série de proibições tolas, que, em vez de inspirar bondade, em vez de agregar seguidores, só motivaram afastamentos...

Nas cerimônias de casamento, foram proibidas músicas classificadas como "não sacras", e sabe-se lá por quais critérios. Então, por exemplo, uma jovem chamada Luciana não podia mais entrar na igreja ao som da singela cantiga "Luciana", de Edmundo Souto ePaulinho Tapajós, como esteve tão em moda. Caprichos, arbitrariedades, tolices, que só afastavam os católicos de sua igreja...

Batizados só podiam ser coletivos. Padres só eram autorizados a celebrar batizados e casamentos na igreja, não mais em residências, sítios, casas de festas. O que antes era corriqueiro passou a ser proibido. Então, tornou-se usual acontecerem casamentos de católicos oficiados por pastores protestantes. Logo, o oficiante mais procurado, era o pastor Jonas Rezende, pai da atriz Lidia Brondi, lembram? Que aliás prega lindamente. A sociedade católica do Rio de Janeiro acostumou-se a escutar as belíssimas preleções do pastor Jonas, seus inspiradíssimos sermões matrimoniais...

Tudo passou a ser difícil na Igreja Católica no Rio de Janeiro. Conseguir marcar uma missa de sétimo dia, só com pistolão. Uma extrema unção em casa, só gente muito bem relacionada. Vários pátios paroquiais laterais às igrejas, onde os fiéis antes confraternizavam, onde aconteciam as quermesses, os bazares, as reuniões pós-missas, antigos centros de convívio, foram entregues à especulação imobiliária. Viraram edifícios, shopping centers. Antigas igrejas foram passadas nos cobres. Instalaram-se em andares de prédio. Outras se tornaram construções espremidas entre um edifício e outro, como aconteceu com a Nossa Senhora da Paz. Igrejas sem horário pra abrir nem pra fechar, "por questões de segurança"...

A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugenio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%...

Não há, neste texto, qualquer intenção de ressentimento. Apenas o desejo jornalístico da correção histórica. Dom Eugenio padeceu na terra de um mal de saúde. Os pecados, já pagou por eles. Em seus últimos tempos de vida, a lucidez e a ausência dela alternaram-se. Atenciosos, o arcebispo dom Orani Tempesta, assim como o cardeal-arcebispo anterior, dom Eusébio, mantinham o antigo cardeal do Rio, dom Eugenio, vivendo na residência do Sumaré, com todos os cuidados, a família, a estrutura proporcionada pela Arquidiocese, a que não mais teria direito, por já estar afastado do cargo...

Dom Eugenio teve, em vida, uma grande habilidade: manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos. Ótimas relações com os jornais, os jornalistas e os donos dos jornais antes da morte. E, como vimos pelo que foi publicado no dia de hoje, também após ela. E são os jornais que legam os registros que escrevem a História...

http://noticias.r7.com/blogs/hildegard-angel/2012/07/10/dom-eugenio-salles-otima-relacao-com-os-jornais-antes-da-morte-e-depois-dela/

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ

Por Tiago P., especial para o Diumtudo

O acervo documental do período da ditadura militar (1964 - 1985), do Arquivo Público do Estado do Ceará, foi recentemente contemplado com o Certificado de Patrimônio Documental Mundial, pelo Programa Memory of the World da UNESCO.
A seguir entrevista com o Diretor do Arquivo Público do Ceará - Márcio Porto

- O que foi a certificação que o Arquivo Público do Ceará recebeu da UNESCO?

Márcio Porto - O Acervo Documental do período do regime militar (1964 – 1985), sob custódia do Arquivo Público do Estado do Ceará, foi destacado com o Certificado “Fonds of networks of information of the military regime in Brazil”, pelo Programa Memória do Mundo da UNESCO.

- O que é esse programa da UNESCO?

Márcio Porto - O Programa Memória do Mundo da UNESCO/ Memory of the World, foi instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura com o propósito de preservar e dar acesso ao patrimônio documental que integra a memória coletiva dos povos, estimulando a consciência mundial sobre sua importância. Entre os anos de 2007 e 2011, foram nominados mais de quarenta acervos brasileiros expressivos de uma enorme diversidade cronológica e de tipologias documentais, custodiados pelas mais diferentes instituições. 



- Quais os acervos documentais brasileiros que já foram contemplados pelo Programa Memória do Mundo, da UNESCO?

Márcio Porto - O filme Limite, de Mário Peixoto (Fundação Cinemateca Brasileira); a Lei Áurea (Arquivo Nacional); os manuscritos musicais de Carlos Gomes (Fundação Biblioteca Nacional); o Diário de Viagens de D. Pedro II pelo Brasil e pelo mundo (Museu Imperial) são alguns exemplos de acervos agora reconhecidos como Memória do Mundo.

- De que maneira o Arquivo Público do Estado do Ceará participou do processo de seleção dos acervos documentais contemplados com o Programa Memória do Mundo, para 2012?
 
Márcio Porto - Desde o ano de 2008 até hoje, o Arquivo Público do Estado do Ceará é parceiro do Arquivo Nacional, com sede no Rio de Janeiro, do Projeto Memórias Reveladas: as lutas políticas no Brasil (1964 – 1985), como também o Arquivo Público do Estado do Espírito Santo; O Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – Pernambuco; o Arquivo Público do Estado do Maranhão; o Arquivo Público Mineiro; O Arquivo Público do Paraná; o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro e o Arquivo Público de São Paulo. Essas instituições, junto ao Arquivo Nacional, submeteram seus acervos referentes ao período da ditadura civil militar, de 1964 a 1985 ao processo de seleção da UNESCO.

O que é o Centro de Referência “Memórias Reveladas”?

Márcio Porto - O Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964 – 1985)- Memórias Reveladas, é o resultado de diversas ações de governo voltadas para o fortalecimento de políticas públicas de valorização do patrimônio histórico documental brasileiro e de promoção do direito à memória e à verdade.

Quando o Centro de Referência foi instituído?

Márcio Porto - Criado em 13 de maio de 2009, pela Portaria da Chefe da Casa Civil da Presidência da República Dilma Rousseff, o Memórias Reveladas atua como pólo difusor de informações contidas em registros documentais sobre as lutas políticas no Brasil nas décadas de 1960 a 1980. Nele, fontes documentais primárias e secundárias são gerenciadas e colocadas à disposição do público, incentivando a realização de estudos, pesquisas e reflexões sobre o período. O Centro de Referência tem como gestor o Arquivo Nacional e promove, também, o fortalecimento das instituições arquivísticas parceiras do projeto, transformando-as em espaços de cidadania. Nesse sentido, o Memórias Reveladas é uma iniciativa pioneira que procura facilitar e popularizar o conhecimento do período do regime militar no Brasil, “para que não se esqueça , para que nunca mais aconteça”.

O Centro dispõe de uma página na web? 

Márcio Porto - Sim. O Portal Memórias Reveladas, disponível no endereço www.memoriasreveladas.gov.br, apresenta informações sobre o perfil institucional do Memórias Reveladas e de seus parceiros, como no caso do Arquivo Público do Estado do Ceará. Por intermédio do Portal, o usuário tem acesso, também, ao Banco de dados Memórias Reveladas.

Quais serão os resultados práticos dessa certificação para o Arquivo Público do Estado do Ceará?

Márcio Porto - Veja bem. Só pelo fato de termos no Arquivo Público do Estado do Ceará, acervos documentais reconhecidos como de importância para a “Memória do Mundo”, por um órgão internacional como a UNESCO, já constitui um reconhecimento que muito gratifica e honra a todos e todas que fazem a Secretaria da Cultura do Ceará e, em especial, o Arquivo Público. Por outro lado, de setembro a dezembro de 2012, o Arquivo Nacional, em sua sede no Rio de Janeiro, realizará exposição comemorativa em homenagem aos 20 anos de existência do Programa memória do Mundo da UNESCO e aos 5 anos de instalação do Comitê Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo. Na ocasião serão apresentados vídeos com os acervos nominados do Memória do Mundo 2012, mostra de originais nas instituições custodiadoras dos acervos contemplados com a certificação aqui referida, lançamento de publicações impressas e eletrônicas com os acervos contemplados. 

Marcio Porto,  é Diretor do Arquivo Público do Estado do Ceará.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Raul Seixas - 28 de junho de 1945


Dentadura postiça (Raul Seixas)

Vai cair, vai cair, vai cair
A estrela do céu
Vai cair
A noite no mar
Vai cair
O nível do gás
Vai cair
A cinza no chão
Vai cair
Juízo final
Vai cair
Os dentes de Jó
Vai cair
O preço do caos
Vai cair
Peteca no chão
Vai sair
O sol outra vez
Vai sair
Um filho pra luz
Vai sair
Da cara o terror
Vai sair
O expresso 22
Vai sair
A máscara azul
Vai sair
O verde do mar
Vai sair
Um novo gibi
Vai sair
Da cara o suor
Vai subir
Cachorro urubu
Vai subir
O elevador
Vai subir
O preço do horror
Vai subir
O nível mental
Vai subir
O disco voador
Vai subir
A torre babel
Vai subir
O Cristo pro céu
Vai subir
A chama do mal
Vai cair
Estrela do céu
Vai cair
A noite no mar
Vai cair
O nível do gás
Vai cair
A cinza no chão
Vai cair
Juízo final
Vai cair
Os dentes de Jó
Vai cair
O preço do caos
Vai cair
Peteca no chão
Vai sair
O sol outra vez
Vai sair
Um filho pra luz
Vai sair
Da cara o terror
Vai sair
O expresso 22
Vai sair
A máscara azul
Vai sair
O verde do mar
Vai sair
Um novo gibi
Vai sair
Da cara o suor
Vai subir
Cachorro urubu
Vai subir
O elevador
Vai subir
O preço do horror

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O criminoso cordial


Por Sandra Helena de Souza

Em artigo semanal, neste jornal, Leonardo Boff escreveu: “Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A nós cabe condenar o que é objetivo e saber localizá-lo no âmbito da condição humana”. É um belo texto que nos remete ao assassino que dorme em cada um de nós, entrega a Deus o que lhe cabe e nos põe diante da tarefa propriamente humana de enfrentar o “Trabalho do Negativo”. Vamos lá.

Em 30 de março último, assisti estupefata ao Conexão Repórter no SBT, do jornalista Roberto Cabrini sobre a memória de um agente da repressão. Este, um conterrâneo nosso de Brejo Santo, José Lucena Leal, atualmente advogado e morador de Porto Velho (RO), que também foi advogado de defesa do acusado de assassinar Chico Mendes no Acre.

Diante das câmeras e muito à vontade contou com detalhes, e sem demonstrar nenhum arrependimento ou vergonha, as sessões de tortura de que participou ativamente, bem como execuções a sangue frio de
opositores ao regime, já devidamente dominados. 

Registrou um ligeiro mal-estar ao referir-se à morte de uma jovem de 17 anos no Araguaia, menos pela idade e mais pela coragem dela ao negar-se a revelar a identidade: “guerrilheira não tem nome”, ela teria dito antes de levar um tiro na testa do major Curió, segundo depoimento. Referiu-se à tortura como crueldade excessiva, chegou a tergiversar sobre sua necessidade, mas mostrou-se inabalável em sua convicção de ter prestado um relevante serviço à Pátria.

Dorme bem, não tem pesadelos, não escuta os gritos. Enfim, faria de novo se cresse necessário e se, agora digo eu, fosse para isso convocado por uma autoridade legitimada por suas crenças. Julguei que o programa poria em chamas o noticiário nacional, descartado o caráter preparatório da novela “Amor e Revolução” que estrearia dias depois.

Ledo engano. Salvo manifestações dos envolvidos, as vítimas diretas da repressão, fez-se um silêncio ensurdecedor. Nada de análises sobre mentes criminosas, reflexões antropológicas, psico-sociológicas, políticas, etc. Quem viu, viu. Ficou como um relato banal aquilo que em mim provocou horror.

O que antes se negava, por vergonha ou medo de punição, agora se confessa às claras e não sem certa ironia declara: “mas por que tanto alvoroço se todos sabem que a tortura até hoje é praticada por todas as polícias militares e civis do país?” Nenhuma interpelação a essa desconcertante afirmação. Ninguém se incomodou. Nada de discursos inflamados nos parlamentos, comandos policiais indignados, jornalistas enfurecidos. Nada.

Nos anos 60, o experimento Milgram confirmou que se pode acordar e até tornar cômico o assassino que repousa sob nossa boa-consciência de homens de bem. Basta uma autoridade convincente. Wellington Menezes foi-se, livrando-nos da difícil tarefa de julgá-lo com justiça. Já Lucena Leal, como seus comparsas, passeia tranquilo e bonachão entre nós com a subjetividade intacta, criando corvos que podem despertar para nos arrancar os olhos, sempre bem fechados quando nos convém. O que Deus tem mesmo a ver com isso, não?

Sandra Helena de Souza -Professora de Filosofia e Ética da Universidade de Fortaleza
sandraelena@uol.com.br