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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Nu, de botas - Antonio Prata

Por Marcus Vinicius

Recomendação - pra quem tem de 25 a 40 anos ou é pai ou mãe de "jovens" de 25 a 40 anos. Um bom livro de Antonio Prata.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

O melhor conselheiro do autor: a gaveta

Por Luis Vilela
Karina Freitas

Naquela tarde, que longe vai no tempo, o adolescente de 13 anos, depois de anotar no seu diário que escrevera uma redação e um pequeno conto, acrescentou: “Agradeço a Deus por estar tão inspirado.” Sua inspiração, pelo visto, continuou, pois ele, que já começara a publicar, em jornais estudantis, aos 14 publicava, pela primeira vez, um conto num dos jornais da cidade, e aos 15 passou a colaborar com o principal jornal, nele publicando crônicas e contos.

Mas já então, por experiência própria e depois de ter lido alguns dos maiores autores da literatura mundial, além de suas biografias, cartas e diários, o jovem escritor sabia que para ser um dia um grande escritor a inspiração somente não bastava, era preciso outra coisa tão importante quanto ela, ou até mais: a transpiração. Foi nessa ocasião que leu, em algum lugar, o dito de que o gênio era um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração.

O escritor ficou moço, publicou seu primeiro livro, depois outros, foi premiado, traduzido, adaptado e chegou aos 70 anos. Se a inspiração continua com ele, não posso garantir, mas a transpiração, esta sim, continua. Hoje como ontem, e como sempre ao longo desse percurso de mais de meio século, as páginas, escritas primeiro à mão, ao serem relidas, cobrem-se de rabiscos. São alterações, cortes, acréscimos — tantos rabiscos, que o próprio autor, que os fez, tem as vezes, depois, dificuldade em entendê-los.

O texto é então datilografado. (Sim, você leu certo, é datilografado mesmo; ainda uso, e gosto de usar, essa coisa antiga chamada máquina de escrever.) E aí, nova leitura, com novas alterações, cortes e acréscimos, que, em certos momentos, parecem que nunca terão fim, que a obra, seja ela um conto de uma página ou um romance de trezentas, jamais estará terminada.

Nesse processo, quando começo a recuperar hoje o que ontem risquei, e a novamente riscá-lo amanhã, e a não saber, depois de amanhã, se o mantenho ou não, é hora de afastar-me do texto e entregá-lo ao que chamo de o melhor conselheiro de um escritor: a gaveta. É pôr o texto na gaveta e lá deixá-lo por semanas, meses e às vezes até anos.

Com o texto de novo na mesa de trabalho, depois que as novas alterações são feitas, eu o mando a um digitador. Quando ele volta, começa o teste da leitura em voz alta. Leio o texto de ponta a ponta em voz alta — não para outra pessoa, mas para mim mesmo. Aliás, a simples proximidade de outra pessoa tornaria a leitura inviável. O teste é infalível. Não há frase mal-escrita que a ele resista.

Segue-se então o que é o último teste: a leitura de pé, sentado e deitado. Dele falei uma vez em público; a informação circulou no meio literário e virou folclore a meu respeito. Mas é verdade, eu faço mesmo isso. É que em cada uma das três posições a visão que se tem do texto é diferente, o que só pode ajudar a melhorá-lo.

Pois, meus amigos, não contente com o meu método, e prosseguindo na minha incansável busca da perfeição, pretendo ir mais longe ainda: ler o texto de cabeça para baixo. Não, não é o texto que ficaria de cabeça para baixo: é o autor mesmo. É o autor que ficaria, como nós, mineiros, dizemos, plantando bananeira. Não será fácil,eu sei, mas... Enfim, tudo pela arte!

E assim, por fim, o texto vai para o jornal, a revista, ou a editora, definitivamente pronto. Definitivamente? Bom, não exageremos, pois, quando há uma republicação ou, no caso de um livro, quando vêm as provas — benditas provas —, a gente acaba dando com algo que nos havia escapado. O que pode acontecer ainda numa 2.ª edição. Talvez numa 3.ª. Numa 4.ª. Numa... Ufa!

Depois de tudo isso,vejam vocês, depois de tudo isso vem um cidadão que havia lido pela primeira vez um livro meu e, impressionado com a fluência, a clareza e a simplicidade do texto — para resumir os comentários dele feitos na hora —, candidamente me pergunta: “Você senta e tudo aquilo vai saindo?”

Sentar e tudo aquilo ir saindo, respondi, eu sabia era de outra coisa, não de escrever...

Pois é...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Poesia jovem - Anos 70

Seleção de Marcus Vinicius da
Seleção de Heloísa Buarque de Holanda e Carlos AlBerto Messeder Pereira, em Literatura Comentada (Abril Educação)

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Cidade 

Poesia -
espinha dorsal
Não te quero
fezes
nem flores
Quero-te aberta
para o que der
e vier
              Francisco Alvim (RJ)

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Compre o meu poema
Tenho uma dívida
grande com a vida 

                 Sérgio Santeiro (RJ)

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dizer não
tantas vezes
até formar um nome
                              Alice Ruiz (PR)
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Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas sem fim. 
 
                         Torquato Neto (RJ)






domingo, 27 de novembro de 2011

Das Vantagens de ser Bobo - Clarice Lispector


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo      para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas.
Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”.

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de 
sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.

O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente.Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. 
Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. 
Resultado: não funciona.


Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás,não se importam que saibam que eles sabem. Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
É que só o bobo é capaz de excesso de amor.
E só o amor faz o bobo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O poeta e a lua - Vinicius de Moraes

Via Mateus Perdigão

O POETA E A LUA (Vinicius de Moraes)

Em meio a um cristal de ecos 
O poeta vai pela rua 
Seus olhos verdes de éter 
Abrem cavernas na lua. 
A lua volta de flanco 
Eriçada de luxúria 
O poeta, aloucado e branco 
Palpa as nádegas da lua. 
Entre as esferas nitentes 
Tremeluzem pêlos fulvos 
O poeta, de olhar dormente 
Entreabre o pente da lua. 
Em frouxos de luz e água 
Palpita a ferida crua 
O poeta todo se lava 
De palidez e doçura. 
Ardente e desesperada 
A lua vira em decúbito 
A vinda lenta do espasmo 
Aguça as pontas da lua. 
O poeta afaga-lhe os braços 
E o ventre que se menstrua 
A lua se curva em arco 
Num delírio de volúpia. 
O gozo aumenta de súbito 
Em frêmitos que perduram 
A lua vira o outro quarto 
E fica de frente, nua. 
O orgasmo desce do espaço 
Desfeito em estrelas e nuvens 
Nos ventos do mar perspassa 
Um salso cheiro de lua 
E a lua, no êxtase, cresce 
Se dilata e alteia e estua 
O poeta se deixa em prece 
Ante a beleza da lua. 
Depois a lua adormece 
E míngua e se apazigua... 
O poeta desaparece 
Envolto em cantos e plumas 
Enquanto a noite enlouquece 
No seu claustro de ciúmes.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


terça-feira, 14 de junho de 2011

Quase Memória - Carlos Heitor Cony

Depois da carta do Cerezo, outro post  que tem a ver com paternidade. O livro do Cony é ótimo. Abaixo um resumo do livro.


"Uma tarde, o jornalista Carlos Heitor Cony recebe inesperadamente um envelope. Reparando bem, identifica no sobrescrito a letra do pai falecido havia dez anos.

A visão do embrulho desata a memória, e tem início, assim, a cerimônia de reencontro de um filho com seu pai. De um simples pacote, ainda não aberto, saltam alguns sinais: a técnica de fazer o embrulho, a perfeição do nó no barbante, o formato da letra, a tinta roxa e certos cheiros (de alfazema, de brilhantina e de manga). 

Cada sinal trás de volta uma história inesperada do homem Ernesto Cony Filho, que possuía um formidável apetite de viver. Apetite que se manifestava nas maneiras de reinventar a vida com muito bom-humor, mesmo em momentos difíceis, quando perde o posto nas redações de jornais devido a reviravoltas na política brasileira. 

Nem quando Carlos Heitor Cony esteve no Seminário houve separação e ausência. O pai dava um jeito de aparecer, sempre inesperadamente, no meio de cerimônias públicas para entregar ao menino Cony um sanduíche de presunto, um prato com deliciosa comida de botequim. Para quem viver era mais importante que ganhar dinheiro, os sonhos eram fundamentais: uma viagem à Itália, para estabelecer contatos promocionais entre uma estação de águas medicinais e o Brasil, ficou pela metade, mas era contada para sempre como se tivesse acontecido, com os detalhes precisos, com entusiasmo e convicção. No quase-romance, pequenos gestos ganham dimensão de grande aventura e poesia: separar papéis de seda de várias cores, fazer balões, soltar balões, recolher o balão que volta à casa em que foi construído. 

Cruzando os céus e o tempo, os balões são o símbolo da mais forte e definitiva relação entre dois homens - pai e filho. O escritor Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, é um grande nome da literatura brasileira da atualidade. Com este romance, que ganhou o prêmio Jabuti em 1996, rompe com a tradição dos memorialistas brasileiros para quem escrever sobre o passado é uma forma de fazer um acerto de contas com a família, de se vingar de pessoas que ficaram pelo caminho. A memória, quando é quase-memória, não se apresenta como testemunha da história, nem como escrita do ressentimento. Torna-se, principalmente, uma maneira de se expressar a alegria de lembrar do passado, além de reafirmar cumplicidades definitivas, como a criada com o homem que nos toma pela mão e nos leva para o mundo, o nosso pai."

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A bênção do pai

por Ronaldo Correia de Brito


Era lei na nossa casa que os filhos homens não podiam chorar. No dia em que fui embora para o Recife senti um aperto no coração, a garganta travou, os olhos encheram-se de lágrimas. Sobravam razões para isso. Ia morar numa cidade grande e desconhecida, não tinha endereço certo e nem havia feito matrícula no colégio. Tudo nebuloso no futuro do menino de dezessete anos que deixava a casa paterna, o paraíso verdejante do Cariri cearense e sua gente acolhedora. Como na canção de Caetano Veloso, minha mãe e meus sete irmãos me acompanharam até a porta. Apertei suas mãos sem dizer uma única palavra, os dentes cerrados. Se deixasse escapar um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. Meu pai me olhava firme, vigilante. Com ele planejara largar a vidinha feliz, conhecer outro mundo, tentar a sorte. Traçamos um projeto que eu deveria seguir à risca: me formaria em medicina, levaria os irmãos mais novos ao Recife e ajudaria a educá-los. Árduo compromisso.

Desde o ciclo migratório da década de cinquenta, quando as fazendas sertanejas se esvaziaram dos seus moradores, meus pais compreenderam não existir mais futuro no campo. Largaram o plantio de algodão, os criatórios de gado, as lavouras, e tomaram para si a tarefa de iniciar os filhos numa outra vida. No que dependesse deles, todos nós frequentaríamos a universidade. Sábia escolha do nosso pai, um homem que aprendeu a ler sozinho e atravessou noites brigando com os enigmas do português e da aritmética. Por algum mistério que nunca desvendei, os livros eram objetos de fetiche na família, prestando-se verdadeiro culto aos tios letrados, homens sábios e faladores.

Foi meu pai quem me acompanhou até a garagem do ônibus, pois não existia rodoviária no Crato. Caminhava ao meu lado, solene e silencioso. Um carregador transportava na cabeça minha parca mudança: uma mala de couro e uma caixa de papelão amarrada com cordas de barbante. A mais franciscana pobreza. Eu não enxergava nada à minha frente, os olhos cegos de lágrimas. Lembrei uma história que minha avó me contava, a de três irmãos que abandonam o lar em busca de fortuna. A todos eles o pai perguntou na hora da despedida: – Você prefere muito dinheiro e minha maldição ou pouco dinheiro e minha bênção? Apenas o mais novo escolheu a bênção e pouco dinheiro, alcançando sucesso.

Eu não podia me despedir de meu pai sem um adeus e sem pedir a bênção. Precisava ouvir de seus lábios a fórmula protetora do “Deus te abençoe”. Atravessava a cidade a pé, com a sensação de que me empurravam para o desterro. Nunca um trajeto me pareceu tão longo. Chegamos. O carregador instalou as bagagens no ônibus, recebeu o pagamento e deixou-nos sozinhos com meia hora de espera e constrangimento. Foi uma eternidade. Meu pai apertou minha mão, o máximo de afeto permitido entre nós, não me olhou, de modo que nunca soube o que sentiu naquela tarde. Na família, não existiam trocas de afagos e confidências, apesar dos fortes vínculos que nos uniam. Apertei a mão dele, e consegui pedir a bênção sem chorar. Ele me abençoou e parti sozinho. Sozinho, chorei horas seguidas e tive a primeira de muitas consciências, a de que eu era senhor do meu pranto.

As velhas fórmulas caíram em desuso, já não se pede a bênção a ninguém. Ah! O poder mágico dessa invocação! Toda noite, antes de dormir, escutava os irmãos gritarem dos seus quartos, para o quarto dos pais: A bênção! Só calavam depois que ouviam o “Deus te abençoe”. As três palavras pareciam o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos da chuva, na casa de telha vã. A fórmula não se referia ao Deus de nenhuma instituição religiosa, era apenas uma graça pacificadora, um sonífero sem droga.

Chegaram os dias em que desprezei os costumes da família, virei o rosto para os velhos que cobravam o pedido de bênção, senti nojo das mãos descarnadas das tias, estendidas para que eu as beijasse. Morreu a geração de bisavôs, depois caíram os avôs e já começaram as baixas nos tios paternos. Quando não restarem vivos na fileira dos pais, assumirei a linha de frente. Todos estarão depois de mim, ninguém mais antes de mim para abençoar-me. Serei eu a abençoar.

Por esses dias, meu filho mais novo viajou para estudar na Inglaterra. Achei que minha história se repetia em condições diferentes e por uma estrada bem mais comprida. Conversei com ele sobre seus projetos para o futuro. Ajudei-o a comprar as passagens, o curso, o seguro saúde, a arrumar a mala. Levei-o ao aeroporto na companhia festiva dos amigos, da namorada, e dos irmãos. Minha mulher e eu éramos as únicas pessoas graves na comitiva.

Meu filho transpôs o portão de embarque, tudo estava certo, não faltava nada. De repente, ele voltou até junto de mim, me estendeu a mão e pediu: A bênção, pai! Pronunciei o “Deus te abençoe” e a ordem do mundo se refez, uma ordem em que se recompõem os elos com o passado, sem nenhuma culpa pelas formas que o presente assume. Não sei o que meu filho sentia, nem em que pensava quando me pediu a bênção. Talvez tenha lembrado a história dos três irmãos, a que minha avó me contava e contei para ele. Todas as experiências do homem são de algum modo análogas, está escrito no Eclesiastes, o livro em que aprendi a ler, ajudado por meu pai.

Ronaldo Correia de Brito é autor de Galiléia, publicado pela Alfaguara

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sou X mas, valho CS, Z, CH, C e S

Do Livro "16 linhas cravadas" de Mário Lago, editora Publisher Brasil. 1998


/// No quadro-negro estava escrito que as palavras com acentuação tônica na última sílaba são oxítonas e Nino quis saber como se pronunciava aquele x.
    - Como se fosse cs.
    O ano letivo estava no fim e Nino perguntou quando seriam os ecsames.
    - Não é ecsames, Nino.
    - A tia disse que x se diz cs.
    - Na palavra oxítona. Em exame soa como z.
    Nino tinha 15 anos e ainda no 1º grau. Seu pai prometeu férias na Disneylândia se passasse. Inútil. Reprovado.
    - Tia, dei vezame.
    - Não é vezame.
    - A tia falou: x vale z.
    Em exame. Em vexame é como se fosse ch.
    O menino descendia de italianos, sua aprovação envolvia honra pátria. Três explicadores. Nota 9 na recuperação.
    - Muito bem, Nino.
    - Tia, eu sou o máchimo.
    - Não é máchimo, menino.
    - X não é igual a ch?
    - Em vexame. Em máximo, o x soa como c. Mas você passou. Ótimo.
    - Eram tectos fáceis.
    - Na palavra textos, o x se pronuncia como s.
    As primeiras vítimas da fúria de Nino foram Ximena, a professora, seu irmão Alexandre e o Xavier da farmácia. No manicômio Judiciário, onde está há vinte anos, já matou Xisto, enfermeiro-chefe, e um chinês, porque acha que a palavra se escreve com x.///