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sábado, 24 de março de 2012

A pressão continua

Por Júlia Lopes

A ministra da Cultura voltou a ser tema do noticiário essa semana – não que estivesse se ausentado permanentemente. Pelo contrário: a gestão tem sido fartamente questionada. Essa semana, porém, algo bastante raro se deu: foi possível ouvir a Ana de Hollanda. Poucas vezes ela aparece para conversas mais demoradas, e tem negado entrevistas sistematicamente (salvo quanto tem a certeza de que não será questionada).

No último dia 21, a ministra se reuniu com os parlamentares da Comissão de Educação e Cultura para apresentar os projetos do MinC para 2012. Durante a audiência, ela falou por quase uma hora. Na pauta, projetos como o PAC das cidades históricas e a reforma do Teatro Brasileiro de Comédia. Sobre cultura digital e reforma da lei dos direitos autorais, Ana foi bem econômica. E enfática: “O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira”.

As redes sociais vieram abaixo. Na Internet, ganhou ainda mais força o manifesto assinado por Marilena Chauí e Eduardo Viveiros de Castro, entre outros – em que o grupo pede a saída da ministra. Estamos, diz o texto, a “constatar a decadência do protagonismo do Governo Federal na área da política cultural, com a trágica perda de capacidade para gerar consensos mínimos e coordenar o desenho de horizontes para os inúmeros segmentos que estavam sendo reconhecidos pelo governo Lula”. (Aqui: http://migre.me/8oAL5 )

O quadro se agrava já que desde o começo do mês são veiculadas notícias sobre fraudes e abusos do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).
No site Farofafá, o jornalista Jotabê Medeiros publicou documentos do MinC em que há uma clara defesa do órgão, (http://migre.me/8ozEY) imune de fiscalização pública desde o governo Collor. Algo sempre negado pela Ministra.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/03/24/noticiasjornalopiniao,2807845/a-pressao-continua.shtml

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E o Pré virou Carnaval

Por Julia Lopes

Prepare-se para o corso. Novas alas e integrantes desfilam nesse que é o Carnaval de Fortaleza. Não as prévias, não um ensaio, mas a festa. Do mesmo jeito que ela acontece há anos de perder na memória, e também mexendo e brincando com as expectativas: somos em maior número. Iniciativas semeadas há algum tempo começam a mostrar seus efeitos. O bloco Sanatório Geral, na rua há quatro anos, meio que por acaso, estimula um outro bloco, o Luxo da Aldeia, a ficar.
E também ritmistas, que no Pré formam aquele mar de gente dos blocos, engrossam a correnteza das escolas de samba que desfilam na Domingos Olímpio, na terça-feira. “Eu estava com tudo pronto para ir para o Rio de Janeiro, e, por um problema de saúde, tive que ficar. Mas agora estou adorando porque vou tocar na Escola Unidos do Acaracuzinho”, contou Silvio Queiroz, gerente de uma empresa local. Com o tema do cangaço este ano, a Escola fez fantasias de Lampião para os homens e Maria Bonita para as mulheres.
Ritmista do bloco Unidos da Cachorra, Silvio foi convidado semana passada, mas já está afinado com o samba enredo da Escola em que é visitante. Chico do Cavaco, integrante do bloco no Pré, também diretor de harmonia da Acaracuzinho, fez um ensaio improvisado e funcionou. “Teve um sábado que o bloco estava na rua, aí a gente ensaiou, o pessoal da harmonia da Cachorra já tinha ensaiado com ele e fez. Como a gente já tinha feito a música, já sabia como funcionava”.
Silvio não é o único integrante da Cachorra: “O pessoal que sai na bateria vai dar um reforço para a gente”, contou Chico do Cavaco. Katharina Santiago é uma das ritmistas que fica. Com ela, tem mais outros. “Nós formamos o bloco Unidos Dos Que Não Foram. A maioria do pessoal que está no grupo é da bateria, cada um teve seus motivos para ficar e como a gente gosta muito de samba resolveu combinar uma batucada, provavelmente na Marechal Deodoro”.
O samba está marcado para o domingo, final da manhã começo da tarde, onde a Cachorra costumava se apresentar. No mesmo dia, acontece o primeiro desfile do Sanatório Geral. O mais experiente deles, o Sanatório sai faz quatro anos, com duas características muito marcantes: as letras autorais das marchinhas e a ampla adesão ao costume das fantasias. “Já está todo mundo fazendo fantasia. E num dado momento sobem as crianças e os adultos fantasiados para brincar com a música, por exemplo”, comentou Arthur Costa, um dos organizadores.
Para ele, como bloco, muito mais interessante é o desfile durante o Carnaval, dado que os benefícios são mais atraentes e a logística é toda facilitada: “Ao invés de passar um mês, fora os ensaios anteriores, comprometido, melhor se concentrar e desfilar em dois dias, até o palco é mais fácil, porque a gente só paga uma vez. E os serviços são melhores, ao invés de atender a 60 blocos, a Polícia, por exemplo, atende só um”. O Sanatório é alegria certeira no domingo e na terça de Carnaval, a partir das 10 horas da manhã. A folia deles, nesse 2012, é intercalada com outra – o Luxo da Aldeia.
“A gente já estava querendo ficar e tocar aqui. O problema era a banda: alguns queriam ficar, outros queriam viajar. Esse ano deu certo todo mundo de ficar o Carnaval, e a gente acabou resolvendo fazer”, conta Mateus Perdigão, um dos músicos da banda do Luxo da Aldeia. Conhecidos pelo repertório todo feito em cima de autores cearenses, o Luxo levou uma pequena multidão para o Benfica nas sextas do Pré. A promessa é de festa animada também no Carnaval.
“A estrutura vai ser na rua, no mesmo canto do Pré. Vai ter palco, como a gente faz, não tem como desfilar por conta dos instrumentos”, detalhou Mateus. E o horário é que muda: das 14 às 18 horas. De resto, mesmo, fica aquela alegria pela festa que já começa, pelo encantamento dos dias de folia e um nervosinho pela novidade. “A gente está meio sem saber como vai ser, é a primeira experiência do Carnaval”. Quem fica ajuda a ser a melhor possível.
SERVIÇO
  • Bloco Luxo da Aldeia. Quando: sábado e segunda, das 14h às 18h. Onde: Rua Padre Francisco Pinto, 144 - Benfica (a rua do Bar do Chaguinha, próximo à Praça da Gentilândia)
  • Bloco Sanatório Geral. Quando: domingo e terça das 10h às 15h. Onde: Pracinha da Gentilândia (entre as ruas Paulino Nogueira e João Gentil - Benfica) 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jornal O POVO - O que há de melhor no Carnaval do Ceará? (2)

No comecinho de uma música do Ednardo, o folião se diz fantasiado de alegria, a sair pela cidade para brincar a festa da carne. É essa mesma fantasia que eu me visto agora: feliz porque já chega o Carnaval e com ele as fantasias que há muito deixaram de ser apenas Pierrot e Colombina. 

Vontade de música e sol, cerveja e suor. A folia, na capital cearense, de uns anos pra cá, ficou ainda mais bonita, e enquanto eu escrevo esse pequeno depoimento são anunciadas as apresentações do bloco Luxo da Aldeia, no bairro do Benfica, nos dias 18 e 20, sábado e segunda (durante a tarde). A moçada que fez muita gente vibrar com canções de cearenses carnavalescos e alegres era uma verdade apenas do Pré-Carnaval. Com o pessoal do bloco Sanatório Geral, a minha festa ficará ainda mais completa no Carnaval deste ano.

JÚLIA LOPES
Repórter do Núcleo de Cultura e Entretenimento do O POVO

domingo, 22 de janeiro de 2012

Concentra, Mas Não Sai. Alegria, brilho e disposição

Por Julia Lopes
Fotos Edimar Soares

Fantasiado de alegria, brilho e disposição, o público festejou a primeira noite do bloco Concentra, Mas Não Sai, que tomou a Praça do Ferreira na noite de ontem.


E, como de costume, se dançou suor e cerveja, misturando por ali mascarados, velhinhos e crianças. Todos espalhados pela Praça, sem apertos - o que deixou o entrançado dos dançarinos algo mais eloquente. (Nada parecido com outras festas já queridas pela cidade, como o Pré-Canaval que acontece na Praia de Iracema - e mesmo de anos anteriores do próprio Concentra, ali no Centro).
No Pré-Carnaval celebrado ontem, ficou fácil marcar de encontrar os amigos, de se achar e de dançar puxando pelo braço.

"Acho tão bonito essas alegorias", comentava a feirante Silvia Moura, 46, quietinha num canto da Praça. Mesmo que não estivesse empolgada para dar um passo adentro da folia, ela ficava feliz em observar. Passava por ela uma freira de movimentos lascivos, um Chapolin vendedor de bugingangas, um folião de colar de havaiano.


Poucos metros dali, de braços abertos, cantando a toda voz, ao mesmo tempo em que trotavam compassadamente, os irmãos Pedro e Chico Cardoso reclamavam por Aurora, que não era sincera, ô, ô, ô.


As pequenas Maria Clara e Maria Luiza, as duas de três anos, foram de princesa e fadinha. E como as outras mulheres da família, elas dançavam, sorriam e achavam tudo divertido. "Eu vim com a minha mãe, minha filha, minha prima. É muito massa aqui", comentava uma delas, Socorro Guerra, 57, que também desfila no Carnaval, no Maracatu Rei do Congo. "E nas Bruxas, e no Bloco Doido é tu", dizia de novo, tentando abafar o barulho da banda de cima do palco montado.

Um dos organizadores do bloco atentou para a ausência das barracas fixas que antes vendiam bebidas e comidas. Os banheiros químicos formavam filas, mas o entorno parecia estar protegido dos descuidados. Táxis eram poucos, e não foi necessário conter o trânsito - ele praticamente não existia.

CURTI

MISTURA
Ao contrário da frase feita que repreende a origem diversificada dos foliões, o Concentra fica ainda mais divertido por ter um público de várias cores, idade e classe social. É na mistura que ele se fortalece.

QUEM LEVOU ISOPOR
Alguns foliões foram precavidos e levaram eles sua própria bebida. O gasto é menor e o conforto maior.

FANTASIAS
Muitos foliões brincaram de fantasias feitas por eles mesmos, com muitobrilho e movimento. Já os adereços femininos faziam a cabeça das mais discretas

NÃO CURTI

POUCOS AMBULANTES
Para cerveja, água ou refrigerante, era preciso dar uma voltinha pela Praça do Ferreira e procurar pelos ambulantes

VIDA INDIGNA
Na Praça moram pessoas esquecidas pelo poder público. Alguns deles com filhos crianças, sem condições mínimas de sobrevivência.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Eu quero me trepar num pé de coco

Por Julia Lopes
Messias Holanda é um sujeito emotivo. Mareja os olhos d’água quando sobe ao palco, num encontro familiar, na certeza da alegria dos filhos. Deixou de frequentar a igreja evangélica, da qual fazem parte alguns dos herdeiros, porque chorava demais – hoje prefere a igreja católica. “Sou muito emotivo. Se a pessoa ganhar muito dinheiro eu choro, se perder eu choro”, comentou, na tarde da última sexta-feira. Amanhã (18 de Janeiro), no Kukukaya, é capaz que parte do público compartilhe o sentimento: o cantor completa 70 anos e uma festa bonita está sendo preparada.

“70 anos é uma vida. Tem tanta gente querendo ter 70 e eu ainda vou viver mais 10, 15”, comemora o cantor. Hoje, a alegria é grande, como ele mesmo contou, ao pensar nos filhos crescidos e ajeitados, nos netos orgulhosos do vô – “só uns 16”, enumerou Messias – nas coisas que tomaram seu lugar e no reconhecimento, que por muito tempo esteve adormecido. O cantor foi daqueles artistas que fez sucesso, com direito a muito barulho, viagens, apresentações e discos gravados. Suas músicas correram Brasil inteiro e festanças fizeram e desfizeram casais.



Foto Alex Costa
Com as reviravoltas do mercado fonográfico, caiu no esquecimento. Voltou a viver a vida simples do início, mas, pelos bons ventos, viu aparecer alguns padrinhos, como o próprio Kukukaya e a Associação Cearense do Forró. Há alguns anos, o compositor foi reapresentado à cidade, que voltou a celebrar um dos seus maiores forrozeiros. Autor dos agora clássicos Pra tirar coco, Coma ovo, entre outros, Messias chora também de satisfação. Na noite de amanhã, 19 convidados sobem ao palco para se apresentar e incrementar a celebração.

“Nós temos uma banda base e alguns tocam com ela. Mas nem todo mundo, Cyrano e o Cirino, por exemplo, tocam com a banda deles. Adelson Viana também. A banda é completa, acompanhando os artistas que não vieram com a banda. São cinco horas de festa. Cada pessoa cantando três músicas, quatro músicas”, descreveu o próprio Messias. A apresentação dele, ele mesmo descreve: “Vou subir pra agradecer os amigos, cantar o pé de coco”.

Messias costumava ter mais fôlego, mas uma queda de uma escada, enquanto consertava o telhado, lhe deixou com um problema na perna. Mas ele se cuida. “Cedinho na cama, eu me estiro, levanto uma perna, faço com a outra. Me aqueço, mas não dá pra dançar muito”. O público dá conta de dançar, ele próprio, o tanto que o cantor gostaria de fazê-lo. Com muito bom humor: por ali o duplo sentido impera, e é bem mais que uma vontade de criar uma armadilha. É quase como uma brincadeira, sem apelação ou grandes sustos. É coisa de dançar e ser feliz.

Quem
Messias Holanda nasceu em 11 de janeiro de 1942, em Missão Velha. Veio para Fortaleza aos 8 anos, quando foi adotado pela família. Já comemorou os 50 anos de carreira e teve seu começo nos programas de calouros de Fortaleza mesmo, fazendo parte da Era de Ouro do rádio cearense. Lançou 14 LPs e quatro CDs, além de ter participado de 14 coletâneas.

SERVIÇO

70 anos de Messias Holanda, com convidadosOnde: Kukukaya (Avenida Pontes Vieira, 55, Bairro de Fátima)

Quando: Amanhã, 18 de janeiro, a partir das 21h

http://www.2011.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/01/17/noticiavidaeartejornal,2374787/vai-ter-bolo-e-forro.shtml

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Acende e Passa

Por Júlia Lopes



Foto Rafael Cavalcante
Surpresas de uma cidade – por vezes de uma forma bem silenciosa, misteriosa até, que zomba com a desatenção nossa de cada dia. Um sujeito, que ninguém viu, nem sabe quem é, se homem ou mulher, menino ou o quê, deve ter pego um cavalete (daqui a pouco o leitor há de concordar) e pintou uma folhinha no “verde” do semáforo da avenida Visconde do Rio Branco com a rua Padre Valdevino, quando a primeira encontra a Aguanambi, fechando a bifurcação.

O semáforo é daqueles de chão (daí o cavalete) e a pintura parece (impossível afirmar com precisão) ser feita de tinta spray. Um adesivo simples, na forma da folha da cannabis sativa ajudou a definir a forma que ali ficou, há cerca de três meses. Quase quatro, talvez. Mais que dois, com certeza.

“Eu fiquei na minha. Achei estranho, porque geralmente ou é redondo ou tem aquele bonequinho de atravessar a rua. Desses aí, eu nunca vi, não”, se espantou a estudante Ana Carine Ferreira, 17. Raissa Martins, 18, ia ao lado, avoada que só ela, nem prestou atenção: “Gente, eu sou muito dispersa. Não vi nada”. E voltaram caminhando à casa da tia, residente das redondezas.

“Era só o que faltava”, comentou o motorista de ônibus, avexado com o dito sinal – mais pela pressa que pela curiosidade. Comandando uma linha freguesa daquela via, ele nunca tinha atentado para a mudança. Queria até saber se era como aqueles que tem uma bicicleta desenhada. Era não.

O Osmanir, que é Alves Ferreira e dono do restaurante na pontinha de quadra que se forma com a junção da Visconde com a Aguanambi, não tinha tanto tempo para conversas na última segunda-feira, pelo começo do expediente. Ele, que mora em cima do estabelecimento, não prestou atenção na marca do semáforo.

Com muito serviço, que impedia delongas, se disse contra as drogas, e a liberação delas. “É bom fazer essa pesquisa, pra tirar. Agora, se for pra liberar, eu estou fora”, declarou, solene. Por dois anos, o pagode do lugar transcorria bem, mas uma briga, grande, feia, deixou três “com a cabeça quebrada” e um prejuízo de R$ 3 mil. Ele está certo de que foi coisa de gangue e droga.

Se o dono não viu, parte da clientela viu. Aurélio Oliveira, 32, e Paulo Basílio, 23, almoçavam com os colegas da oficina de carros ali do lado e todo mundo comentou o ocorrido. “Eram uns seis meninos (almoçando). E tinha um que era especialista, tirou até foto”, brincam. Uma cliente da oficina ficou deveras intrigada e resolveu dar uma olhadinha de perto. Lá se vem ela de volta. “Não, isso não é desenho”, explica. “É que ficou sujo e o sujo penetrou por cima da luz. Mas isso é só sujo”. Será?

“É legal o cara ter essa ideia”, imagina Basílio, que não é primo de ninguém dessa história. “Isso é coisa de desocupado”, repreendeu Aurélio, que até agora não fez nenhum dicionário, enquanto voltava a cabeça para a conversa. E logo mudou de ideia: “Mas é legal, sim”.

O Jovenildo dos Santos, 27, que também trabalha ali perto, imagina que tenha sido um pichador mesmo, já que “eles picham os lugares mais difíceis”. Ele não tinha reparado na folhinha. E todo mundo da empresa ficou com um olhar curioso quando soube do chiste. Os colegas de trabalho, José Nildo, 27, e Francisco Wellington, 23, acharam graça. Um tinha visto, o outro, não. Mas aí foi o jeito continuar o trabalho, satisfeitos com aquele tempinho de distração. Com o carro estacionado na Visconde do Rio Branco, a professora Tereza Esteves, da escola ali do lado, sugeriu uma discussão mais ampliada sobre o tema, “para não estimular essa alusão”.

Nem a turma de um lado, nem a turma do outro fazia ideia de quem tenha sido o pintor. Chegamos, nós todos, à conclusão de que seria impossível empreender tal façanha à luz do dia, porque depredar o patrimônio público é ilegal, como lembrou Aurélio. De madrugada, provavelmente. Que tenha um spray à mão, uma ideia na cabeça e algum tempo livre. Ou seja: quase meio mundo. “Mas vai ser difícil, viu”, desestimula o Aurélio. De qualquer forma, a gente teima. E jura que não conta para ninguém.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O discotecário mais lindo da cidade

Por Júlia Lopes

Reza a cartilha (invisível e informal) da discotecagem que o disc jóquei tem que ficar com um olho no peixe, outro no gato. Quais sejam: um nos discos e outro na pista. As reações dela a cada faixa tocada é que vão oferecer caminhos para a continuidade, ou não, daquela batida. Bem, existem ainda os rebeldes. Seja por desinteresse, presunção ou praticidade, eles deixam o toca-discos (micro system, MP3 player, Ipod) à própria sorte. Com uma seleção prévia, das mais queridas, esses DJs chegam prontinhos para, também, aproveitar a festa. Caso esse do novato Miguel Ângelo Azevedo, o Nirez.



Nirez estreia como discotecário no mesmo dia em que a exposição Purgatório Paraíso Inferno chega ao fim – este sábado, das 15 às 19 horas, no Sobrado Dr. José Lourenço. A moçada que compõe o coletivo Monstra fez o convite. “Tinha que ser cara de pau pra dizer do que se tratava, quem era que tava envolvido, e esperar que o Nirez topasse”, explicou Jabson Rodrigues, um dos integrantes. “O Weaver (Lima) já conhecia o Nirez e pensou ‘todo DJ diz que está fazendo uma pesquisa musical... Pesquisador musical mesmo é o Nirez!’”, conta Franklin Stein. O convidado, por sua vez, não fez objeção. “Eu não posso negar nada ao Weaver porque é meu amigo particular e gente muito boa”, detalhou Nirez, para logo depois começar a rir.

Dono de um dos mais extensos acervos de discos de cera e de vinil no Brasil, Nirez é sabedor, como ninguém, das coisas dessa Capital. O pesquisador é também caprichoso com os limites das palavras. “DJ não toca nada, fica misturando”. Como ficou impossibilitado de levar o gramofone (que participa de outro evento) para o Sobrado, onde escuta sua coleção, ele vai levar um CD com MP3 mesmo, gravado em seu pequeno estúdio, dentro da sua casa no antigo Porangabussu. No dito estúdio, são dois computadores e programas diversos para reverter cera e vinil em ondas eletrônicas – tudo manuseado com habilidade pelo dono. “Eu vou levar e vou botar os sons para tocar no ambiente. Essa história de eu ser DJ vai ser uma enganação”, e começa a rir de novo.

Da seleção, ele não fala muito, mas sabe-se que são músicas oriundas de épocas e estilos diversos. Nirez também não se preocupa demasiadamente se as pessoas vão, ou não, dançar. “Vai ter até música que não são dançáveis, do tipo canções”. É provável que seja obra independente, sem conexões com os trabalhos da mostra, posto que Nirez ainda não viu a exposição. O coletivo fecha a temporada de dois meses e meio com saldo positivo. “Surgiram convites de pessoas que administram outros espaços de arte, para futuras exibições, artistas que visitaram também ficaram com boas impressões...”, coloca Jabson.

Alguns integrantes tiveram contato com possíveis compradores, enquanto outros fecharam venda. A exposição trouxe desenhos, ilustrações, pinturas em diferentes suportes, como grafite, escultura, fotografia e experimentações em vídeo. Trabalhos que traziam para dentro das salas do Sobrado um tanto de violência, outro de agressividade, e também candura e graça. O coletivo tem uma forte ligação com os quadrinhos e a arte pop, o que reverbera com força nas obras apresentadas. No mundo virtual, eles podem ser encontrados aqui: http://www.flickr.com/nucleoartz.

terça-feira, 29 de março de 2011

O futuro cada vez mais à leste

Por Júlia Lopes

O número 938 da Santos Dumont, morada da família de Manuel Ricardo de Holanda no tempo em que se contava a história de uma verdejante e arejada Aldeota, passou por transformações, assim como o próprio bairro. De novas linhas fronteiriças, a Aldeota de hoje se assemelha ao Centro da Cidade: comércio, serviços, órgãos públicos. Ensurdece de tanto barulho, cega de tanta poeira, é prática como o Centro já o era, quando estimulou a saída das famílias mais abastadas rumo a um inexplorado leste da Capital. E assim como o número 938: de casa de família rica, é hoje um restaurante self-service para quem trabalha nos arredores, comporta cerca de 200 pessoas e aceita Hipercard.

“É bom trabalhar por aqui porque é perto de tudo”, confirma Felipe Lima, 22, gerente do restaurante. Prefere aquela sede às outras. “A nova centralidade comercial e de serviços de Fortaleza está na Aldeota, que se consolidou com os shoppings”, conta o professor de geografia José Borzacchiello da Silva. Na dança orquestrada dos bairros, nessa reorganização social e simbólica dos espaços, a Aldeota perdeu lugar, segundo Borzacchiello, em prestígio e importância entre os ricos de Fortaleza, para o Meireles. “O Shopping Aldeota tem esse nome, mas quem mora ali diz que mora no Meireles. A Praça Portugal é Meireles”, delimita Borzacchiello.

Ao contrário do que acontecia naquela época. “Dizia-se até que os restaurantes lá não davam sorte porque as pessoas queriam sair do bairro para jantar fora”, conta o colunista Lúcio Brasileiro. De tanta pompa e circunstância, a imagem do bairro não se desfez, apesar de já não ostentar o luxo de outrora. “Na Aldeota, só tem gente besta”, sentenciou o Evandro, que vende coco e assessórios para celular, na esquina da Santos Dumont com Desembargador Moreira. “Rico só quer tomar o coco inteiro. Quando é mais pobre toma no copo”. Medo de alteração na água do coco, quem sabe. “Eles pensam que eu mexo. Quem mexe é no Centro. No Centro nem eu tenho coragem de tomar”.

Para Romeu Duarte, arquiteto e ex-titular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-CE), a primeira pincelada desse quadro de mudanças veio com a derrubada do Palacete do Plácido, no início dos anos 1970. “Essa é a história da Aldeota: inicia-se com a demolição do castelo do Plácido e depois a demolição de outras casas. Muitos dos exemplares arbóreos foram mutilados”. Romeu chama atenção para outro dado: foi na Aldeota onde se concretizou o maior número de construções de arquitetos cearenses. Lembrando do episódio da derrubada das árvores, o arquiteto diz ser urgente a confecção de um inventário de arquitetura – “tanto do construído quanto do ambiental. Seria interessante se ter o valor histórico, valor artístico de todas essas construções”.

Decadência e elegância
Dona Silvana Alves Costa acha ótimo o crescimento do bairro, a popularização do comércio. Aos 90 anos, desde 1984 dentro do Center Um administrando a lojinha que leva seu nome em neon na entrada, ela se diz satisfeita. “Esse shopping melhorou muito. Quando eu cheguei aqui, tinha uma feira de verduras onde hoje é o Banco do Brasil”, lembra. Hoje Aldeota é nome mercadinho, auto-escola e shopping center. Ano passado foi até nome de revista. “O nome veio como uma sátira, a gente queria brincar com essa coisa do bairro que tem a área mais chique de Fortaleza. Para periferia, a Aldeota é grandiosa, onde tudo acontece. E não é”, especificou Ricardo Lisboa, editor da extinta publicação.

E assim, histórias foram registradas e contadas. Como a do livro Aldeota, de Jáder de Carvalho. Até hoje o livro é visto com ressalvas pela elite da Cidade. A ficção chega muito perto da realidade quando detalha a construção da fortuna de muitas famílias ricas da Aldeota. “Em Aldeota prestei o maior serviço à moral política e à moral social do Estado, trazendo aos olhos do povo, do governo e das autoridades, os sonegadores de impostos, os ladrões, os contrabandistas que numa terra paupérrima, de economia que é preciso se ver com binóculo, de tão pequena que é, dar lugar à existência de um bairro aristocrático como é a Aldeota”, disse o autor à sua biógrafa Ângela Barros Leal.

No livro, essas histórias são conhecidas através dos olhos de Catarina Simões de Oliveira, esposa do protagonista Chico. Filha de portugueses, nascida em terras amazonenses, Catá convive harmoniosamente com os amigos contrabandistas do esposo. Até que um dia cai em si e percebe o que está à sua volta. “Referem-se à marca dos carros da família e no grande número de banheiros e privadas das suas principescas residências. O jornalista Djalma, nosso amigo, explica assim este fato: a ascensão econômica se processou com tanta rapidez que não deu tempo ao polimento do espírito”. (Júlia Lopes)

 Jornal O Povo - http://migre.me/48MOF

A Fortaleza que a Aldeota inventou

 Por Júlia Lopes 

A leste e avante: quando o Centro ficou povoado demais, comercial demais, barulhento demais, as famílias abastadas procuraram a paisagem e o vento fresco do Outeiro. Logo depois, Outeiro era Aldeiota, que se transformava em Aldeota e se estabelecia como o bairro mais nobre da Cidade. Hoje, não mais persiste aquele panorama idílico, mas mantém-se a áurea de glamour e riqueza. Será? O Vida & Arte Cultura lembra as árvores derrubadas pela na esquina da avenida Santos Dumont com Virgílio Távora e lamenta: naquelas calçadas, o pedestre já não tem mais sombra para se esquivar do sol. E haja óculos escuros.

A família Barroso ocupou a primeira casa do que viria a ser a Aldeota. Duas, na verdade: “Eram dois blocos iguais. Sabe-se lá porquê”, pergunta-se Nirez, o memorialista Miguel Ângelo de Azevedo. E ficamos sem resposta. Nós e ele. As duas casas remontam ao começo do século passado, no início da Santos Dumont, logo depois da Dom Manuel, no sentido Centro-praia, à frente do Casarão do Outeiro – que hoje a gente conhece por Colégio Militar. As casas deram início à ocupação da região: foi quando as gentes de Fortaleza aprenderam a empinar nariz e varrer as dores para debaixo do tapete de seus graciosos palacetes. Gente rica de modos aristocráticos.

Logo vieram as outras construções, como a de número 938 da mesma via, abrigando a família de Manuel Ricardo de Holanda a partir de 1919. Ou a Villa Alsace, que no mesmo ano foi adquirida por Myrtil Meyer. É de 1921 o palacete que o empresário Plácido de Carvalho fez para a sua amada Maria Pieirina Rossi. Em 1930, o engenheiro Abel Ribeiro Filho construiu, à moda dos casarões do sul dos Estados Unidos, uma mansão que seria comprada por Deusdedit Vasconcelos. Já na década de 1940, viam-se cada vez mais os bangalôs, como a moradia do médico Luiz Gonzaga da Silveira. Tudo isso quem conta é Marciano Lopes, em seu Mansões, palacetes, solares e bangalôs de Fortaleza.

Moravam os ricos em áreas mais afastadas, mas continuavam espairecendo no Centro, frequentando lugares como o Majestick Palace, que é de 1917, ou nas festas do Clube dos Diários, quando ainda era no Centro. Enquanto isso, a população caminhava em outro rumo. “No mesmo ano da inauguração do Cine Majestic Palace, veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929”, como escreveu Sebastião Rogério Ponte em seu Fortaleza Belle Époque. Ele conta ainda de como os trabalhadores começaram e fortaleceram um movimento pelos seus direitos.

A classe alta ignorava. Ou, pelo menos, tentava. “O Pirambu vê o mesmo oceano que nós vemos aqui da Aldeota. Bebe o mesmo ar que nós aspiramos. Em certos pontos, os de lá ainda levam vantagens sobre nós: bebem água de coco no pé e nós não bebemos”, dizia, acintoso, Napoleão, um dos personagens misteriosos de Aldeota, livro de Jáder de Carvalho, de 1963. Napoleão comentava, na roda de amigos, o recente levante dos moradores do bairro mais pobre, incomodados com a pobreza excessiva. O livro conta de uma Aldeota enriquecida pelo contrabando e sonegação fiscal, pela roubalheira nunca comprovada, mas sempre sabida de hoje ricas famílias.

“O auge da Aldeota, que já era Nova Aldeota, foi na primeira metade dos 1950, quando surgiram uma série de casas muito bonitas”, descreve Lúcio Brasileiro, colunista social, habitué da high society alencarina desde o primeiro dos seus 55 anos de trabalho. “Eu destaco quatro casas: a de Manuel Porto, de Raul Carneiro, de José Moreira e de Raimundo de Oliveira. Essas quatro casas marcaram socialmente o que se chamava naquela época o final da Santos Dumont”, detalha. A casa de Raimundo de Oliveira, cópia da casa do filme ...E o vento levou é, desde 1974, o Center Um, primeiro shopping da Cidade. Depois disso? “Na década de 1960, a Santos Dumont já não tinha mais aquele charme”, sentencia.

Júlia Lopes
julialopes@opovo.com.br
http://migre.me/48MFl