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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Poesia jovem - Anos 70

Seleção de Marcus Vinicius da
Seleção de Heloísa Buarque de Holanda e Carlos AlBerto Messeder Pereira, em Literatura Comentada (Abril Educação)

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Cidade 

Poesia -
espinha dorsal
Não te quero
fezes
nem flores
Quero-te aberta
para o que der
e vier
              Francisco Alvim (RJ)

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Compre o meu poema
Tenho uma dívida
grande com a vida 

                 Sérgio Santeiro (RJ)

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dizer não
tantas vezes
até formar um nome
                              Alice Ruiz (PR)
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Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas sem fim. 
 
                         Torquato Neto (RJ)






domingo, 6 de maio de 2012

A poesia de José Paulo Paes (17)

Por José Paulo Paes


Ana e o pernilongo


para a Aninha Vogt

1
Toda semana
eu me lembro da Ana.
Para mim não há semAna
sem Ana.

2.
Havia um pernilongo
chamado Lino
que tocava violino.
Mas era tão pequenino
o Lino
e tocava tão fino
o seu violino,
que nunca ouví o Lino
nem vi o Lino.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A poesia de José Paulo Paes (14)

Paraíso
Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Poesia de José Paulo Paes (13)

Cadê

Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O poeta e a lua - Vinicius de Moraes

Via Mateus Perdigão

O POETA E A LUA (Vinicius de Moraes)

Em meio a um cristal de ecos 
O poeta vai pela rua 
Seus olhos verdes de éter 
Abrem cavernas na lua. 
A lua volta de flanco 
Eriçada de luxúria 
O poeta, aloucado e branco 
Palpa as nádegas da lua. 
Entre as esferas nitentes 
Tremeluzem pêlos fulvos 
O poeta, de olhar dormente 
Entreabre o pente da lua. 
Em frouxos de luz e água 
Palpita a ferida crua 
O poeta todo se lava 
De palidez e doçura. 
Ardente e desesperada 
A lua vira em decúbito 
A vinda lenta do espasmo 
Aguça as pontas da lua. 
O poeta afaga-lhe os braços 
E o ventre que se menstrua 
A lua se curva em arco 
Num delírio de volúpia. 
O gozo aumenta de súbito 
Em frêmitos que perduram 
A lua vira o outro quarto 
E fica de frente, nua. 
O orgasmo desce do espaço 
Desfeito em estrelas e nuvens 
Nos ventos do mar perspassa 
Um salso cheiro de lua 
E a lua, no êxtase, cresce 
Se dilata e alteia e estua 
O poeta se deixa em prece 
Ante a beleza da lua. 
Depois a lua adormece 
E míngua e se apazigua... 
O poeta desaparece 
Envolto em cantos e plumas 
Enquanto a noite enlouquece 
No seu claustro de ciúmes.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O PINTINHO CEGO

Lembrança da Nova Seleta, poemas lidos na infância que a www faz reviver.


O Pintinho cego
de Olegário Mariano


É ridículo, não nego:
Mas como me comovia
Aquele pintinho cego
Que eu criava e não me via.

O meu cuidado primeiro,
Quando cansado chegava,
Era indagar do caseiro
Meu ceguinho como estava.

E ele que vivia a sós,
Num momento aparecia.
Certamente conhecia
O timbre
 da minha voz.

Vinha vinda e tateando
Pela grama do jardim.
Abaixava-se piando
A esperar com alegria
A festa que eu lhe fazia
Quando o tinha junto a mim.

Uma vez... (se bem me lembro
Era o mês de dezembro)
Pus a criadagem tonta...
Ninguém dele dava conta.

Fiquei louco, furibundo
,
Pus em campo todo mundo,
Gente corria assustada
Pelo jardim, pela estrada,

Até que o acharam com frio,
Longe, num campo baldio,
Tonto, sem poder voltar.
O seu caminho de volta
Era escuro e misterioso
Como uma noite sem luar.

Então resolvi prende-lo:
Fiz-lhe uma casa de palha
E a todo instante ia vê-lo.
Desse modo procurava
Dar-lhe paciência e esperança
Enquanto ele era criança,
Para aguardar o futuro
Mais escuro que o esperava.

Mas o destino, na trama

Como a aranha o prendeu.

O caseiro resolveu
Soltá-lo um pouco na grama...
E ele desapareceu.

Quando no fim de semana
Voltei à minha choupana..
.
Vinha feliz! Mal sabia
Que ele não mais existia.

E me acreditem, não nego,
Chorei com pena e saudade
Daquele pintinho cego
Que não via a claridade
Do sol que ilumina o dia,
Que dá vida a todos nós,
E entanto me conhecia
E era feliz quando ouvia
O timbre da minha voz.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Plano de Trabalho

Por Antonio Orlando Rodriguez

Segunda-feira,
cortar as unhas
dos duendes;

Terça-feira,
levar o dinossauro
para aula de música;


Quarta-feira,
escrever três histórias alegres
e uma muito triste;

Quinta e Sexta,
deixar em todas as praias,
rios
e lagoas do mundo
garrafas com mensagens assim:
'te amo',
'me dá um presente-surpresa'
'vivam as lagartixas!'

Sábado,
dar um passeio
de tapete mágico
com os(as) meninos(as) do bairro;

E Domingo
dar alpiste
muito alpiste
pros sonhos.


Antonio Orlando Rodriguez,  nasceu em Cuba e é escritor. Publicou numerosas obras para crianças e jovens, entre elas  El rock de la momia, Mi bicicleta es un hada y otros secretos por el estilo, La isla viajera, ¡Qué extraños son los terrícolas! y La maravillosa cámara de Lai-Lai.

Tradução de Luiz Raul Machado