Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Clara Nunes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clara Nunes. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Aldir Blanc: "Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica"

por Pedro Alexandre Sanches 
Leo Martins/Agência O Globo


Um militante desavisado do MBL depara-se com uma letra de Aldir Blanc. Em rala-rala é que se educa a molhadinha/ se tu não peca, meu bem, cai a peteca, neném/ vira polícia da xereca da vizinha, canta a portuguesa Maria João no álbum recém-lançado A Poesia de Aldir Blanc (Sesc), para horror do jovem conservador empenhado na causa da sigla que esconde por trás de si o pícaro Movimento Brasil “Livre”.

Entre a santa e a meretriz/ só muda a forma com que as duas se arreganha/ eu só me queixo se criar teia de aranha, prossegue Maria João na feminina O Coco do Coco, lançada originalmente em 1996 pela paraense Leila Pinheiro. E lá se vai para a fogueira mais uma obra artística atentatória da “moral e dos bons costumes”.

Não é só O Coco do Coco. Letrista visado pela censura da ditadura anterior, o carioca Aldir teria parte substancial de uma obra colossal destroçada pelos dentes arreganhados e o ouvido que tudo escuta do neofascismo popular brasileiro. Vale para as ásperas parcerias mais recentes com o também carioca Guinga, como O Coco do Coco, e para a série histórica de arranhões musicais dos anos 1970 e 1980 em dupla com o mineiro João Bosco.
É bem possível que o jovem do MBL visse macumba e feitiçaria em versos de Bosco & Blanc, como levou as minhas cuecas pro bruxo rezar/ coou meu café na calça pra me segurar (de Incompatibilidade de Gênios, 1976) ou costurou na boca do sapo o resto de angu/ a sobra do prato que o pato deixou/ depois deu de rir feito Exu Caveira/ maridoinfiel vai levar rasteira (de Boca de Sapo, de 1979), ambas interpretadas na origem pela mãe preta de todos nós, Clementina de Jesus.

“Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica, fedendo a fezes”, afirma Aldir sobre o episódio da mostra Queermuseu, promovida e cancelada sob pressão pelo Santander Cultural em Porto Alegre (RS), terra da maior intérprete do imaginário de Blanc & Bosco, Elis Regina.

“Coco do Coco inspira-se na belíssima tradição picaresca de músicas nordestinas, baiões, cordel, que tratam o sexo de forma escrachada, e verdadeira”, ensina o mestre das palavras. “Algumas feministas politicamente corretas sentaram o pau, e o fizeram porque se arvoram em saber uma porção de merdas, mas não conhecem picas de cultura popular”, provoca, destemido em tocar pontos vulneráveis.

Hoje com 71 anos, Aldir vive entre a reclusão e altos papos via e-mail, ou entre osilêncio e o grito, como dizia a letra de O Chefão. Cantada em 1974 pela paulistana Marlene, a balada noir O Chefão foi retomada em 2014 pela mineira Maria Alcina, outra intérprete inaugural de Bosco & Blanc, com as antológicas Kid Cavaquinho e Beguine Dodói (1974).

Meses antes da reeleição de Dilma Rousseff, Alcina cantava a necessidade de manter as janelas sempre bem fechadas/ contra o perigo de um golpe/ contra o perigo de um golpe de ar. Pode ser mera simbologia, mas o autor de O Chefão ataca frontalmente temas e termos tornados tabus na oficialidade impopular brasileira de 2017. “Sociólogos, historiadores, professores e artistas (como o imenso Raduan Nassar) mais importantes do que eu já escreveram que estamos num estado de exceção”, afirma.

“Aqui ficaram todos os torturadores soltinhos da silva, conspirando. O golpe voltou, um golpe constitucional. Isso existe. A Constituição pode abrir frestas para vários tipos de golpes, e só babacas dizem ‘se está na Constituição, não é golpe’. Vão se fifar, burros – ou coniventes”, escreve, em pena ferina que transforma Michel Temer em “Temeroso” e “Temereca” e Janaína Paschoal em “Dra. Janaraca”.

“O que vi de palhaço que pegava jabá, corrupto até a alma, considerando julgamentos de pedaladas ‘técnicas e corretas’, sem levar em consideração que Tribunardis levava bola quando parlamentável, Anastasia é corrupto, Cunha já está com a mão na grade, sem falar da Dra. Janaraca. Pelo amor dos meus netinhos, sejam golpistas menos cínicos e safados.”

Jabaculê, jargão usado para designar o “mensalão” com que gravadoras suborna(va)m meios de comunicação para veicular este ou aquele artista, é vocabulário presente desde sempre no léxico de Aldir. Jabaculê/ vixe, espetacular/ assunto assim às vez é mió calar, cantou Maria Alcina em Foi-Se o Que Era Doce, também em 1974, entre referências culinárias a inhame, bobó, frango assado, cuscuz e maracujá.
Elis Regina foi a mais importante intérprete (Foto: Reprodução)

A verve faminta de Blanc sempre privilegiou os diversos prazeres da carne, mesmo na voz solene de Elis. Os boias-frias quando tomam umas birita espantando a tristeza/ sonham com bife à cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo, gravou Elis em O Rancho da Goiabada (1978), relicário assombroso de um Brasil que viria a resplandecer após três décadas, sob as caravanas de Luiz Inácio Lula da Silva.Elis Regina foi a mais importante intérprete.

São pais de santo, paus de arara, são passistas/ são flagelados, são pingentes, balconistas, desfilava o rancho, quando o comandante plantonista deste bordel dos Estados Unidos era Ernesto Geisel. “Dizem que ninguém é profeta em sua própria terra, mas João e eu fomos.

Veja o caso de De Frente pro Crime”, diz Aldir, citando o samba lançado pela baiana Simone em 1974, o mesmo ano-susto em que Elis apresentou Dois pra Lá, Dois pra Cá (e a ponta de um torturante/ Band-aid no calcanhar) e O Mestre-Sala dos Mares.

“Mais de 40 anos depois, De Frente pro Crime ainda retrata o Rio. Sabe o que parte da crítica dizia desses sambas? ‘João Bosco e Aldir Blanc, com suas habituais obsessões com uma violência inexistente’. Gostaria de soltar todos esses críticos no Jacarezinhopara uma injeção de Brasil na bunda.”

Previsto para outubro, o próximo álbum de João Bosco trará uma nova parceria da dupla, retomada em 2009, após duas décadas de afastamento. Duro na Queda trata de uma Janaína que certamente não é a Paschoal: Eu não sei viver sem minha Janaína/ mulata de olhos claros, vale o mundo/ no morro, é meu barraco com piscina.

“Começa com um clima sombrio dos sambas de antes e se abre, como se a Esperança Equilibrista se recusasse a cair”, define Aldir, em referência cruzada ao hino de anistia O Bêbado e a Equilibrista (1979), ápice do trio Blanc-Elis-Bosco.

Tal qual as bijuterias banhadas a ouro dos anos 1970, Duro na Queda encerra muito domistério poético do ex-médico psiquiatra Aldir Blanc. Nascido no Estácio de Ismael Silva e Luiz Melodia e criado na Vila Isabel de Noel Rosa e Martinho da Vila, ele transpira sensibilidade suburbana a cada verso.
m 2014, Maria Alcina resgatou O Chefão (Foto: Olga Vlahou)
“O que mais me revolta é que esse Brasil sempre esteve na cara de todos, só que aparece maquiado até hoje”, autodefine-se. “Temereca é o maior criminoso e entreguista do País. Sou contra a pena de morte, mas, quando vejo o que esse merda está fazendo, fico em dúvida se não seria melhor julgá-lo com rigor, direito amplo de defesa, mas com fuzilamento incluído na pena. Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos.”

Duro na queda, Aldir também visita a ternura. Ela aparece quando fala das cantoras que o têm interpretado, inclusive Clara Nunes, Maysa, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Nana Caymmi e Dorina (que em 2016 lançou CD devotado a ele).

“Essa relação com as cantoras é uma das grandes alegrias da minha vida profissional. Se as lindas homenagens quase simultâneas de Dorina, Maria João e Mariana Baltar (ainda inédita) não me matarem, nem preciso fazer novos exames. Por trás da pose, sou um tremendo chorão. Às vezes, um neto telefona de outro estado e minha mulher tem de tirar o telefone da minha mão e dizer: ‘Peraí um pouco! Deixa ele acabar de chorar!’ E é assim também com música.”

Há que se acrescentar, aí, a literatura: por meio de financiamento coletivo, Aldir acaba de bater a meta de 28 mil reais para completar a coleção Aldir 70, de crônicas reunidas em cinco volumes.

Por ora, Aldir prossegue incólume ao moralismo de fachada engarrafado na pátria de Donald Trump e encampado pela juventude MBL. Ainda que a sanha venha a colhê-lo, gritarão em silêncio os versos de Querelas do Brasil, eternizada por Elis em 1978 e resistente, até hoje, como um dos nossos mais cruéis autorretratos: O Brasil nunca foi ao Brazil/ (...) o Brazil não merece o Brasil/ o Brazil tá matando o Brasil.


https://www.cartacapital.com.br/revista/970/aldir-blanc-estamos-vivendo-uma-ditadura-com-luvas-de-pelica

sábado, 17 de agosto de 2013

Um ser de luz

Por Alfredo Pessoa

Em 12 de agosto de 2013 Clara Francisca Gonçalves, Clara Nunes, natural de Paraopeba (MG), faria 71 anos se estivesse viva. Esta música é uma bela homenagem de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Mauro Duarte. Depois da morte de Clara, em abril de 1983, João idealizou a homenagem com o parceiro. Paulo César, viúvo, não tinha cabeça pra pensar em nada. Um tempo depois Mauro Duarte insistiu: "vamos fazer antes que outros façam". Logo, Paulo César entregou a letra aos dois, depois de pronta ouviu uma só vez e nunca mais. No disco que Paulo César gravou com João em 1994, Parceria, pelo selo Velas, produção de Eduardo Gudim, João canta "Um Ser de Luz" sozinho. Clara também foi homenageada por Martinho da Vila e Francis Hime em belíssimos sambas.


Um Ser de Luz ( João  Nogueira/PC Pinheiro/Mauro Duarte)

A7(b13) Dm7 G7                 C7M  D#º                       E7 Am7
Um        dia, um ser de luz nasceu, numa cidade do interior 
Em7(b5)      A7             Dm7    A#7                               A7 Dm7 
E o menino Deus lhe abençoou de manto branco ao se batizar      A7     Dm7      A7 Dm7 Bm7(11)                             E7 Am7   
Se transformou num sabiá.   Dona dos versos de um trovador
D#º                    E7 Am7  Dm7(9)  G7(4/9) G7(9/b5) C7M  
E a rainha do seu lugar. Sua voz então, ao se espalhar,
                                 F#m7(11)  B7      E7
Corria chão, cruzava o mar, levada pelo ar.
Bm7(11)                 E7         Am7  D#º                   E7  Am7     
Onde chegava espantava a dor, com a força do seu cantar
G7                       C7M Bm7(11)      E7       Gm6     A7 
Mas aconteceu um dia   foi que o menino Deus chamou
Dm7 G#º      Am/G      F#m7(b5) Dm6/F      E7        Gm6 A7
ela foi pra cantar para além do luar onde moram as estrelas
Dm7       E7      Am7               Am/G   B7  
A gente fica a lembrar, vendo o céu clarear
            E7            Am7       E7       
Na esperança de vê-la, sabiá
Am7 E7 Am7         Dm7           D#º E7 Gm6 A7 Dm7 Dm/C
Sabi--------- á, que falta faz tua a---legri-------a, sem você
Bm7(b5)                               D#º   E7  Am7
                Meu canto agora é só, melancolia
Dm7           Am7  G7          C7M   C7              F7
Canta meu sabiá, voa meu sabiá, adeus, meu sabiá
E7        Am7 [C7(9) F7M Bb7(b5) Am7M(9)]
Até um dia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

“... E o povo na rua cantando. É feito uma reza, um ritual”

Por Marcus Vinicius

Letra do samba enredo da Portela para o carnaval de 2012.


“... E o povo na rua cantando. É feito uma reza, um ritual”
Autores: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo

Meu Rei
Senhor do Bonfim alumia
Os caminhos da Portela
Que eu guardo no meu patuá
Eu vim com a proteção dos meus guias
Com Clara Guerreira à Bahia
Cheguei, eu cheguei pra festejar
Deixa lavar, nos altares e terreiros
Tem jarro com água de cheiro
Vou jogar flores no mar

No mar
Procissão dos Navegantes
Eu também sou almirante
De Nossa Senhora Iemanjá

Vou no gongá
Bater tambor
Rezo no altar
Levo o andor
Vem chegando os batuqueiros
Desce a ladeira, meu amor
Que a patuscada começou
Eu vim pra rua
Que o samba de roda chegou

Iaiá
De saia rendada em cetim
Bota o tempero na festa
Oi, tem abará e quindim

Portela cheia de encantos
Acolhe a Bahia em seu canto
De festas, rezas, rituais
Vestido de azul e branco
Eu venho estender o nosso manto
Aos meus santos do samba que são orixás

Madureira sobe o Pelô...tem capoeira
Na batida do tambor...samba Ioiô
Rola o toque de Olodum...lá na Ribeira
A Bahia me chamou

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Clara ( Francis Hime e Geraldo Carneiro)

Por Alfredo Pessoa


Esta é uma belíssima homenagem de Geraldo Carneiro a Clara Nunes, musicada por Francis Hime. Paulo César Pinheiro, seu marido, já havia feito "Um Ser de Luz" juntamente com Mauro Duarte e João Nogueira. PC Pinheiro confessa que fez a letra ouviu a música, depois de pronta, e nunca quis ouvir. É Clara guerreira, é Clara, "Mineira", outra homenagem de João Nogueira. Salve Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, e lá se foram 28 anos sem Clara.

Registro: A EMI Music lançou em 2004 box com 18 cds de Clara + bônus.
Vale a pena também conferir a gravação de "Clara" na voz de Beth Carvalho: obra "Francis Hime - Albúm Musical (1997)" - Biscoito Fino.


Clara (Francis Hime-Geraldo Carneiro)

Am4/7                    A4/7(b9)
Luz, uma luz que se ascendeu
Am4/7                A4/7(9) A7/9-
Fogo era o fogo de xangô
Dm7/9            G7/9 C7+/9
Estrela que um dia despencou
C7/9                    F#m5-/7 B7/9- Bm5-/7 E7/9-
Das Estrelas lá do céu e caiu na minha vi da
Am4/7               A4/7(b9)
Não, era uma constelação
Am4/7         A4/7(9) A7/9-
Era paixão de clarear
Dm7/9           G7/9 C7+/9
A Clara magia de de viver
C7/9             F#m5-/7 B7/9- Bm5-/7 E7/9-
Diz o mar Ilê-Ayê, tantas coisas diz o mar
B7/9- E7/9- Am7 Am4/7 A4/7(9) A7/9- Dm7/9
É Cla____ra sereia que navega noutro mar, vagueia
Dm7 G4/7(9) G7/9 Fm6/C C7+
Pela noite pelo ar me incendeia
F7+ F#m5-/7 B7/9- F7/9 E7/9-
Porque o fogo de cantar não se apaga
B7/9- E7/9- Am7 Am4\7 A4/7(9) A7/9- Dm7/9
É Cla____ra princesa no país da escuridão, acesa
Dm7 G4/7(9) G7/9 Fm6/C C7+
Feito luz de incendiar da certeza
F7+ F#m5-/7 B7/9- F7/9 E7/9- E4/7(b9) A4/7(9)
Que a mania de sonhar não, não vai se acabar
A7/9 Dm7/9 D#ºAm7/E F7+/9 B7/9- E7/9- E4/7(b9) A4/7(9)
É Cla___ra, a estre____la, rebrilha no ar
A7/9 Dm7/9 D#º Am7/E F7+/9 B7/9- E7/9- E4/7(b9) A4/7(9)
A estre__la de Cla_____ra, não vai se apagar