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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Conversões - Luis Fernando Verissimo

o texto é de 2013. 
Com as devidas adaptações, atualíssimo. 
Dedico a todos e todas, que foram de esquerda e hoje chafurdam na lama da direita.

"Para quem ainda se considera de esquerda, apesar das desilusões e de um coração combalido, o rancor dos convertidos tem seu lado positivo. Mostra que a esquerda ainda existe, logo chateia. Ou chateia, logo existe."


Luis Fernando Veríssimo


Ninguém é mais direitista do que um ex-esquerdista. Talvez porque a desilusão com as promessas nunca realizadas da esquerda se misture com a necessidade do novo direitista de exorcizar seu passado, de se autopunir pela sua ingenuidade. Para repudiar o que era, o ex-esquerdista precisa arrasar o que era. Como está também arrasando o seu passado, a sua juventude e o tempo que perdeu acreditando em coisas como igualdade, solidariedade e a redenção da humanidade, não admira que sua crítica à esquerda seja tão ácida. Está lamentando a si mesmo, o que só aumenta sua raiva.


O adágio, tão repetido, segundo o qual quem não é de esquerda até uma certa idade não tem coração e quem não é de direita depois não tem cérebro, equipara a migração da esquerda para a direita como uma conquista da sabedoria. Idealismo, crença em justiça social etc. seriam coisas que iríamos largando pelo caminho rumo à maturidade, junto com outras baboseiras juvenis. Não se tem notícia de uma migração ao contrário, de direitistas que voltam a ser esquerdistas, até como uma forma de recuperar a juventude. E esquerdistas que continuam esquerdistas apesar de já terem idade para se darem conta do engano são alvos prioritários do escárnio dos convertidos. Ainda têm coração, os inocentes.

Os neoconservadores que levaram a política externa americana a sucessivos desastres nos últimos anos têm este nome porque muitos deles foram trotskistas na juventude. Abandonaram o internacionalismo trotskista e inauguraram o ultranacionalismo do “século americano”, e continuam influentes, mesmo sob o governo do Obama. Os ex-trotskistas odeiam o que foram um dia, e seu conservadorismo ativo é uma forma de expiação. Caso notório de conversão foi a do escritor John dos Passos, ex-comunista e autor de alguns livros memoráveis de crítica social, que acabou seus dias quase como uma caricatura de direitista americano, com bandeira na frente da casa e tudo.


Para quem ainda se considera de esquerda, apesar das desilusões e de um coração combalido, o rancor dos convertidos tem seu lado positivo. Mostra que a esquerda ainda existe, logo chateia. Ou chateia, logo existe.

Luis Fernando Verissimo


https://oglobo.globo.com/opiniao/conversoes-9102739

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Nas frestas do mundo

Por Luiz Antonio Simas


Cresci em uma cidade que sacraliza o profano e, ao mesmo tempo, profana o sagrado

O escritor Marques Rebelo, cronista dos saberes das ruas, dizia que uma cidade é feita de várias cidades. A sentença é um golaço que fala do Rio de Janeiro como uma segunda do Marçal numa primeira do Bide ou uma desaforada da dupla Bosco e Blanc. Por isso mesmo acho bom esclarecer, para abrir a gira neste espaço, de qual dos rios eu venho.

Cresci em uma cidade que sacraliza o profano e, ao mesmo tempo, profana o sagrado. Aprendi a rezar para os deuses sem deus nas arquibancadas de cimento do Maracanã, ao lado do pai e do avô, como um menino achando que o sabor da vida era o da laranja-lima que comprávamos na entrada do estádio e chupávamos subindo a rampa; aquela que levava ao túnel. Atravessado na corrida, dele se descortinava o umbigo do mundo entre duas traves e uma marquise mais alta que o céu incendiado.

Sou de um Rio em que o cantor de tangos Carlos Gardel baixava em um centro espírita na Fazenda da Bica, entre Quintino e Cascadura. Nas sessões em que descia, tendo como cavalo uma manicure de um salão cheio dos salamaleques e elegâncias tijucanas, Gardel cantava tangos em lunfardo, a fala cheia de gírias do porto de Buenos Aires. Acompanhando Gardel no bandoneon, baixava o espírito de um índio tupinambá que, segundo o próprio, saiu no cacete com os portugueses no século XVI, durante a batalha de Uruçumirim. O índio aprendeu a tocar bandoneon depois de morto e fez com Gardel, que meu avô que não falava espanhol só chamava de El Zorzal Criollo, uma dupla da pesada.

A minha cidade é a das barbearias de rua, botequins vagabundos, açougues e quitandas de esquina. É bem distante, portanto, da onda mais recente das barbearias descoladas dos shoppings, dos bares de grife, das butiques de carne e dos hortifrutis que mais parecem enfermarias de frutas. Um Rio das sociabilidades meninas dos debicadores nas alamedas dos cemitérios suburbanos em tempo de pipa, dos pregoeiros da Central, dos torneios de sueca nas praças, dos artistas anônimos do Japeri, dos boiadeiros cavalgadores dos ventos e de certo Zé de terno de linho e chapéu panamá; malandro que saiu das Alagoas e chegou firmando ponto no Largo da Lapa, no arrepiado das capoeiras.

Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura.

O segundo é o de que recebi da minha criação uma herança da qual não quero abrir mão. Nasci dentro de um terreiro, neto de uma mãe de santo versada nos segredos da encantaria que rezava pra tirar quebranto com guiné, saião e fedegoso. Fui batizado nos conformes da curimba, protegido pelo caboclo Peri e oferecido aos cuidados da Dindinha Lua num terreiro de Nova Iguaçu. Corri descalço nas ruas das Baixada Fluminense — numa delas meu umbigo está enterrado —, morei em Laranjeiras, bairro querido, joguei bola no Jardim Clarice, brinquei de pique-esconde no Valqueire, frequentei matinês nos cinemas de Botafogo e me apaixonei pela moça que se transformava na Konga, a mulher gorila do Parque Shangai. Nunca fui de praia. Gosto do sol, mas ele me detesta.

No meio do fuzuê, entre sons de tiro, ladainhas, aleluias, sambas, tambores, tombos, tapas, ruídos de buzinas, espasmos de amor e ódio, flores de feira e punhais afiados, vou seguindo em um território em disputa, com a certeza de que o tempero da cidade é o sal da memória dos dias longos e da noite grande. A lufada de esperança vaga que tenho é porque continuo apostando que nos deslocamentos e nas frestas — entre as gigantescas torres empresariais viradas em esqueletos de concreto, as ruínas de arenas multiuso e as vielas de lama e sangue — os couros percutidos continuarão cantando a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande da Guanabara.

A nossa história afirma isso em cada gargalhada zombeteira dos exus, no desengasgo de São Brás e nos três pulinhos de São Longuinho. Somos filhos das sonoridades insinuantes e dos corpos em transe; crias dos gritos, cantos e acalantos que saem dos terreiros entocados, das brechas do fim do mundo, das tocas de bicho-homem, das saias das pombagiras, da lua de Luanda, e da terra que nos pariu e nos ensinou que a vida, feito o samba do Hermínio e do Paulinho pra Mangueira, não é só isso que se vê. Tem que ser um pouco mais.



Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/nas-frestas-do-mundo-21793788#ixzz4sU50FB8f
stest

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Tatu subiu no pau


 O gatuno e atiçador dos cães assassinos da ditadura militar J. M. Marin foi preso na Suíça. Por que não aqui? A resposta cabe à Polícia Federal, Receita e outros órgãos complacentes diante da corrupção de direita. J. Hawilla, da Traffic (que não se perca pelo nome), também está entre os envolvidos e já foi confessando geral. Só no caso dele, a roubalheira pode chegar, por baixo, a quase meio bilhão de reais. Será que os outros membros dessa quadrilha de trafficantes serão presos no Brasil?

Aos 68 anos, vi a tal foto que vale por mil, ou bilhões de palavras: no evento de 1º de Maio da Força (faz força, Paulinho, que a sujeira sai!), quase abraçadinhos sob o pé do flamboayant, Dudu Cucunha e Anéscio Neves, o canibal do avô, cochichavam. Cucunha enfiou o indicador da mão direita na deep narina, enquanto fazia Aócio rir feito Mutley, o cachorro do Dick Vigarista. A chopeidança primou pelos discursos que pediam a cabeça da Dilma. Por isso, um dos seus aliados estava lá, quase osculando o Abóstulo do Terceiro Turno. De vomitar. Aócio chamou Dilma de covarde por ter evitado pronunciamento na telinha. Está exercendo seu direito de livre expressão em uma democracia. Minha opinião é diferente: covarde é marmanjo que, entupido de pó, bate em mulher. Outra frase jocosa foi de FHC I e II: “Nunca se roubou tanto nesse país”. Não, Fernandinho. Nunca se apurou e se prendeu tanto, o que não acontece quando os criminosos pertencem à tucanagem. Taí o mensalão do Azeredo, 20 anos de esbórnia nos trens metropolitanos de São Paulo, escândalos nas privatizações selvagens etc. que não me deixam mentir. Empreiteiros corruptos estão sendo soltos. Banqueiro condenado a 21 anos de cadeia tem a sentença anulada, todos em casa, aliviados, preparando o próximo golpe. A balança da Cegueta precisa de um ajuste fiscal...

O cenário pornopolítico foi dominado pelo massacre dos professores no Paraná. Depois do “prendo e arrebento”, temos Bato Racha, vulgo Beto 9.9 em violência na escala Richa. Bato Racha levou nove dias para se arrepender, e com a frase mais — desculpem, não há outra palavra — escrota que pode brotar da boca de um covarde: “Machucou mais a mim...” O perdigoto não agradou, Racha deu ré e agora aprova de novo a pancadaria sanguinolenta, balas na cara, bombas, pitbulls... Foi um tremendo rasgo na Cortina de Penas do bom-mocismo tucano. Eles são aquilo mesmo. Bato Racha mandou fitas para jornalistas comprovarem a ação de “elementos infiltrados” no protesto. Ninguém encontrou um único agente provocador. Bato Racha é também um deslavado mentiroso.

Estão soltas no pedaço as feras do CCE (Comando de Caça aos Esquerdistas). Parecia que o senadô Lulu Menopausa Nunes dedaria sem luva a próstata do Fachin, em plena sabatina. Dez horas de humilhação. Mas vento que venta pra lá... Uma delação premiada saiu pela culatra: propinas para caixa 2 na reeleição de Bato Racha. Não invadiram a casa do espancador para apreender obras de arte. Afinal, convenhamos, são todos “artistas” medíocres.

Aldir Blanc é compositor

http://oglobo.globo.com/opiniao/tatu-subiu-no-pau-16309174?topico=aldir-blanc


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Conceição Lemes, 33 anos de estrada: Resposta em público a O Globo

Por Conceição Lemes
Via Bruno Perdigão

Nessa segunda-feira 13, uma repórter de O Globo enviou-nos um e-mail:

“Estou fazendo uma matéria sobre a entrevista que o ex-presidente Lula concedeu a blogueiros na semana passada. Gostaria de conversar contigo por telefone”.

Pedi que enviasse as perguntas por e-mail. Hoje, às 12h27 elas foram encaminhadas:



Nada contra a repórter. Embora não a conheça, respeito-a profissionalmente como colega.

Já a empresa para a qual trabalha, não merece a nossa consideração.

Com essas perguntas aos blogueiros, O Globo parece estar com saudades da ditadura, quando apresentava como verdadeira a versão dos órgãos de repressão. Exemplo disso foi a da prisão, tortura e assassinato de Raul Amaro Nin Ferreira, em 1971, no Rio de Janeiro.

Com essas perguntas, O Globo parece querer promover uma caça aos blogueiros progressistas. Um macartismo à brasileira.

O marcartismo, como todos sabem, consistiu num movimento que vigorou nos EUA do final da década de 1940 até meados da década de 1950. Caracterizou-se por intensa patrulha anticomunista, perseguição política e dersrespeito aos direitos civis.

O interrogatório emblemático daqueles tempos nos EUA:

Mr. Willis: Well, are you now, or have you ever been, a member of the Communist Party? (Bem, você é agora ou já foi membro do Partido Comunista?)

A sensação com as perguntas de O Globo é que voltamos à ditadura. Agora, a ditadura midiática das Organizações Globo. É como estivéssemos sendo colocados numa sala de interrogatório.

Afinal, qual o objetivo de saber se pertencemos a algum partido político?

Será que O Globo faria essa pergunta aos jornalistas de direita, travestidos de neutros, que rezam pela sua cartilha?

E se fossemos nós, blogueiros progressistas, que fizessemos essas perguntas aos jornalistas de O Globo?

Imediatamente, seríamos tachados de antidemocratas, cerceadores da liberdade de expressão, chavistas e outros mantras do gênero.

Como um grupo empresarial que cresceu graças aos bons serviços prestados à ditadura civil-militar tem moral de questionar ideologicamente os blogueiros que participaram da entrevista coletiva?

Liberdade de imprensa e de expressão vale só para direita e para a esquerda, não?

Como uma empresa que tem no seu histórico o colaboracionismo com a ditadura, o caso pró-Consult, o debate editado do Collor vs Lula, ter sido contra a campanha Pelas Diretas, pode se arvorar em ditar normas de bom Jornalismo e ética?

Como uma empresa que deve R$ 900 milhões ao fisco tem moral para questionar outros brasileiros?

Como um grupo empresarial que recebe, disparadamente, a maior fatia da publicidade do governo federal pode criticar os poucos blogs que recebem alguma propaganda governamental?

O Viomundo, repetimos, não aceita propaganda dos governos federal, estaduais e municipais. É uma opção nossa. Mas respeitamos quem recebe. É um direito.

No Viomundo, não temos nada a esconder. Só não admitimos que as Organizações Globo, incluindo O Globo, com todo o seu histórico, se arvorem no direito de fiscalizar a blogosfera.

Por isso, eu Conceição Lemes, que representei o Viomundo na coletiva, não respondi a O Globo. Preferi responder aos nossos milhares de leitores. Diretamente. E em público.

Seguem as perguntas de O Globo e as minhas respostas.

Qual a sua formação acadêmica?

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Qual a sua atuação profissional antes do blog? Já cobriu política por outros veículos?

Sou editora do Viomundo, onde faço política, direitos humanos, movimentos sociais. Toco ainda o nosso Blog da Saúde.

No início da carreira, fiz um pouco de tudo: economia, política, revistas femininas, rádio…

Há 33 anos atuo principalmente como jornalista especializada em saúde, tendo ganho mais de 20 prêmios por reportagens nessa área. Entre eles, o Esso de Informação Científica, o José Reis de Jornalismo Científico, concedido pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), e o Sheila Cortopassi de Direitos Humanos na área de Comunicação, outorgado pela Associação para Prevenção e Tratamento da Aids e Saúde Preventiva (APTA) com apoio do Unicef.

Conquistei também vários prêmios Abril de Jornalismo, a maioria por matérias publicadas na revista Saúde!, da qual foi repórter, editora-assistente, editora e redatora-chefe.

Em 1995, fui premiada pela reportagem “Aids — A Distância entre Intenção e Gesto”, publicada pela revista Playboy. O projeto que desenvolvi para essa matéria foi selecionado para apresentação oral na 10ª Conferência Internacional de Aids, realizada em 1994 no Japão.

Pela primeira vez um jornalista brasileiro teve o seu trabalho aprovado para esse congresso. Concorri com cerca de 5 mil trabalhos enviados por pesquisadores de todo o mundo. Aproximadamente 300 foram escolhidos para apresentação oral, sendo apenas dez de investigadores brasileiros. Entre eles, o meu. Em consequência, fui ao Japão como consultora da Organização Mundial da Saúde.

Tenho oito livros publicados na área.

O mais recente, lançado em 2010, é Saúde – A hora é agora, em parceria com o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, e o médico Mario Ferreira Júnior, coordenador de Centro de Promoção de Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em 2003/2004, foi a vez da coleção Urologia Sem Segredos, da Sociedade Brasileira de Urologia, destinada ao público em geral.

Os primeiros livros foram em 1995. Um deles, o Olha a pressão!, em parceira com o médico Artur Beltrame Ribeiro.

O outro foi a adaptação e texto da edição brasileira do livro Tratamento Clínico da Infecção pelo HIV, do professor John G. Bartlett, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. A tradução e supervisão científica são do médico Drauzio Varella.

Você é filiada a algum partido político?

Não sou nem nunca fui filiada a qualquer partido político.

Mas me estranha muito uma empresa que apoiou a ditadura, cresceu devido a benesses do regime e hoje se alinhe com todos os espectros da direita brasileira, questione a a filiação partidária de um jornalista.

Quer dizer de direita, tudo bem, e de esquerda, não?

Como você definiria os “blogueiros progressistas”? Existe uma linha política?

Somos de esquerda.

Defendemos:

Melhor distribuição da renda no país.

Reforma agrária.

Os movimentos sociais por melhores condições de moradia, trabalho, defesa do meio ambiente, saúde e educação.

Regulamentação dos meios de comunicação.

Valorização do salário mínimo.

Política de cotas raciais nas universidades.

Direitos reprodutivos e sexuais das mulheres brasileiras.

Combate à discriminação e promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais

Imposto sobre grandes fortunas.

Financiamento público de campanha.

Reforma política.

Fortalecimento da Petrobras.

Sistema Único de Saúde.

Como você foi chamada para a entrevista? Recebeu alguma ajuda de custo do instituto?

Por e-mail. Nenhuma ajuda.

O que você achou da seleção de blogueiros para a entrevista? Incluiria, por exemplo, representantes da mídia ninja ou blogueiros “de oposição”, como Reinaldo Azevedo?

O Instituto Lula tem o direito de chamar para entrevistar o ex-presidente quem ele quiser.

Engraçado O Globo perguntar isso. De manhã à madrugada, de domingo a domingo, todos os veículos das Organizações Globo privilegiam, ostensivamente, sem o menor pundonor, vozes do conservadorismo brasileiro e internacional. Pior é que travestido de uma falsa neutralidade.

Por que O Globo pode chamar quem quiser e o ex-presidente Lula, não?

Por que as Organizações Globo não dão espaços iguais à esquerda e à direita, garantindo a pluralidade de opiniões?

No dia em que as Organizações Globo garantirem efetivamente a pluralidade de opiniões, respeitando a verdade factual, aí, sim, seus profissionais poderão questionar os nomes escolhidos por Lula.

Qual foi o ponto mais relevante da entrevista para você?

Ter falado três horas e meia com os blogueiros. Uma conversa em que nenhum assunto foi proibido. Tivemos liberdade plena de perguntar o que queríamos. Uma lição de democracia.

O instituto arcou com os seus custos de deslocamento?

Não. Fui de táxi. Paguei do meu próprio bolso.

Por que você acredita ter sido escolhida para a entrevista?

Quantos jornalistas brasileiros têm o meu currículo profissional? Quantos repórteres da mídia tradicional e da blogosfera produziram tantos furos jornalísticos quanto nós no Viomundo nos últimos cinco anos?

Por isso, deixo essa pergunta para você e os leitores do Viomundo responder.

O que você acha do movimento “Volta Lula”?

Quem tem de achar é a população e os militantes dos partidos da base de apoio do governo.

Sou apenas repórter. Cabe a mim, portanto, retratar o que presencio.

Qual nota você daria ao governo Dilma? Por quê?

O Globo tem fetiche por nota. Quem tem de dar a nota é o eleitorado. Sou repórter e minha opinião neste caso é irrelevante. A não ser que O Globo pretenda usá-la para fazer o que costuma fazer: manipular informação com objetivos políticos, em defesa de interesses da direita brasileira.

PS do Viomundo: Todas as nossas batalhas são financiadas exclusivamente pela contribuição de assinantes, a quem agradecemos por compartilhar conteúdo exclusivo generosamente com outros internautas. Torne-se um deles!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Procuro Saber

Hermínio Bello de Carvalho

Herminio Bello de Carvalho
A discussão me atrai, sobretudo porque ainda não a vi tratada pelo seu viés cultural. Desde menino sou atraído por biografias, autorizadas ou não. E também por autobiografias. Fico arrepiado em lembrar o que Ruy Castro passou com seu livro sobre Garrincha, interditado pelas filhas do jogador. E agora me deparo com a notícia de que a biografia de Noel Rosa continua interditada pela sua família, herdeira de sua história. Tão logo surgiram rumores de que o Roberto Carlos iria judicialmente retirar de circulação a sua bela biografia, tratei de comprar logo uns três exemplares. Ótimo e respeitoso livro, por sinal. 
A biografia de Clementina de Jesus está sendo negociada com seus “herdeiros”, uma nova profissão a ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho.

Mas vamos lá, ao tal viés cultural. Foi com o pseudônimo de Quincas Laranjeiras, violonista muito admirado por Villa-Lobos, que Sergio Cabral iniciou sua carreira de biógrafo tendo Pixinguinha como foco de sua pesquisa. Contextualizemos: 1978, a Presidência da República era ocupada pelo General Ernesto Geisel, Nei Braga era o Ministro da Educação e Cultura e a Funarte, recém-fundada, tinha na Presidência o escritor José Candido de Carvalho (“O Coronel e o lobisomem”) e Roberto Parreira na direção executiva. 

Nessa mesma época o Macalé e o Sergio Ricardo pensaram numa sociedade sem fins lucrativos a que chamamos Sombrás: Tom Jobim foi eleito presidente e eu o seu vice. E nessa mesma época o Albino Pinheiro inventou o Seis e Meia, e me levou para estruturar artisticamente o projeto. Passo ao largo dessa história, já bastante conhecida (ou não?), reduzindo-a ao essencial: inventei um Projeto Pixinguinha, que outra coisa não era senão um macro filhote do “Seis e meia” do Albino, e que a Funarte adotou como uma espécie de carro-chefe graças à visão do Roberto Parreira, faça-se justiça a ele. Acabei alocado numa Assessoria para Projetos Especiais da Funarte, e a história toma outro rumo: pensei num projeto de apoio à pesquisa e conseqüente publicação de biografias.

A Funarte já tinha em sua equipe o pesquisador Ari Vasconcellos. Deve-se a ele, bem antes de minha entrada na Instituição, a edição de livros importantíssimos como “Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira”, de Jota Efegê; “Ary Barroso”, de Mário de Moraes; “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto; “Na roda de samba”, um clássico de Francisco Guimarães, o celebrado “Vagalume”; “Chiquinha Gonzaga”, de Marisa Lira e “Samba”, de Orestes Barbosa. Não foi pouca coisa, não.

Sobretudo se levarmos em conta que Ari já publicara em 1964 um alentado “Panorama da Música Brasileira”, em dois volumes – e em 1977 o “Raízes da Música Popular Brasileira”. Trabalhava muito esse Ari Vasconcelos. Quando Carlos Lacerda assumiu a governança do Estado, instalou o Museu da Imagem e do Som, instituição idealizada por Mauricio Quadros, que foi nomeado primeiro diretor daquela Casa. 
E quem soprou no ouvido de Mauricio a ideia dos depoimentos gravados pelo MIS? 
Nosso Ari Vasconcellos. Mas não vamos esquecer que o rancoroso e talentosíssimo J. Ramos Tinhorão já estava na área desde 1966, e o Jornal do Brasil, façamos justiça, tinha uma equipe de responsabilidade abordando assuntos da música popular . E lá militava o jovem Sergio Cabral, ainda sem nenhum livro publicado – e aí temos que retornar ao assunto Funarte, porque só bem depois ela institucionalizaria o Projeto Lucio Rangel de Monografias.

Ela, a Funarte, estava ainda provisoriamente instalada no Museu Nacional de Belas Artes. O “Pixinguinha, vida e obra” não só inaugurava a carreira de biografo de Sergio Cabral, como também abriu caminho para a edição do “Filho de Ogun Bexinguento” – livro da dupla Marilia T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho, menção honrosa do mesmo concurso nacional de monografias que premiara, com justiça, nosso grande Sergio.

O projeto Lucio Rangel de Monografias viria no rastro do sucesso de outro Projeto, o Pixinguinha. E aí sim a coisa tomou vulto: foram 30 (trinta!) títulos publicados, uma comissão de críticos e pesquisadores escolhendo os temas que mereceriam sofrer abordagem. Havia uma linha conceitual direcionando as escolhas: vamos priorizar as figuras marginais de nossa cultura, tipo Assis Valente e Wilson Batista, para ficarmos em apenas dois exemplos. Peraí, lembremos mais: Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Cartola, Candeia, Garoto, Radamés Gnattali.

Passaram-se os tempos, o filão ganhou musculatura. Mas a coisa foi ficando mais difícil ao surgir a tal categoria a que já me referi, e a ser reconhecida pelo ministério do Trabalho: a do “herdeiro”.

Essa figura que surge das sombras para, de alguma forma, levar alguma vantagem pecuniária em cima de alguém que se dedique a escarafunchar a nossa cultura. Essa figura sinistra tem sim o poder de embargar um livro.
Enfim: aonde quero chegar?
Como sou um bestalhão e ingênuo, continuo acreditando em certas instituições. Um dia, um “herdeiro” (ou meio herdeiro) de Mãe Quelé foi aos jornais declarar que eu havia ficado com o espólio de Clementina, daí a filha dela estar morrendo à mingua, sem qualquer assistência.

Ele, o difamador, ostentava corrente de ouro e navegava pela vida a bordo, se não me engano, de uma Mercedes Benz. Não que ele tenha usufruído esses bens às custas de Quelé, coitada: já velhinha, sobrevivia às custas de shows em casas noturnas pequenas, e não havia como intervir na situação. Clementina era território com diversos donos, o que se podia fazer era às escondidas. Essa história, eu sei, ainda vai sair em livro.

Quem se sentir prejudicado por certo irá atrás do “prejuízo” ao ler esse final inglório da grande Dama. Quando foi publicada a matéria citada no parágrafo anterior, fiz o que devia: mandei uma carta ao jornal, que se negou a publicá-la. O editor do caderno explicava que “não queria criar polêmica”. Ou seja: que eu me conformasse com a difamação. Fui pro computador, escrevi um livreco sobre o assunto, o editei às minhas custas e mandei para alguns amigos. Nenhuma nota nos jornais. Mas, para muitos, esse meu retrato desfocado e cheio de estrias na alma terá me causado danos.

Fico à vontade para tocar no assunto: o “Timoneiro”, meu perfil biográfico assinado por Alexandre Pavan, jamais sofreu interferência de minha parte em sua elaboração, e só o li depois de publicado. Fui sim entrevistado por ele diversas vezes, para desfazer dúvidas sobre episódios controversos como o Projeto Pixinguinha. Está longe de ser uma biografia “chapa branca”.

Até porque não havia nenhum corpo dentro do armário pra se esconder: as portas foram abertas, sem fantasias.

Contraditoriamente, respeito a opinião de Gilberto Gil e, agora, do Chico Buarque quando se refere ao direito de privacidade. Se um “biógrafo” se aventurar a escrever a biografia de uma pessoa que seja, por natureza, polêmica – sabe-se o resultado.

Vai escarafunchar os lençóis amarrotados do biografado, com quem dormiu ao longo da vida, vasculhar gavetas metafóricas em busca de pistas que o conduzam a aspectos, digamos, “degradantes” da personalidade enfocada, buscar guimbas de maconha nos cinzeiros, drogas camufladas nas meias – toda sorte de “desvios” que fazem, sim, a delícia de um tipo de leitor que existe no mercado – leitor que nunca irá, por exemplo, comprar a monografia de Paulo da Portela ou Radamés Gnattali.

Mas esse direito à privacidade que ganhe, dentro dos fóruns legais, musculatura suficiente que permita ao difamado defender-se amplamente e ressarcir-se dos danos causados à sua vida pessoal. A biografia do político José Dirceu, recentemente publicada, mereceu uma análise na revista Piauí que destrói a credibilidade do autor do trabalho, tal a soma de erros apontados naquele trabalho. Não sei que rumo tomou o caso. Não tenho qualquer simpatia pelo biografado, diga-se de passagem.

Mas temos que nos reconhecer como personagens que fazem parte desse mundinho a que se convencionou rotular de “pessoas públicas”, em torno das quais grassam histórias mergulhadas em espessas nuvens de maledicências – e é esse o preço, afinal, eu se paga quando somos, por natureza, instigadores e fadados a mergulhar, sem proteção, nas águas escuras onde a nossa cultura se charfunda. E aí viramos uma espécie de mictório público, onde qualquer um pode mijar em cima, sem que alguém saque um talonário de multas para punir o infrator. Experimente entrar numa banca de jornais e veja o número de revistinhas ordinárias especializadas em explorar esse veio que existe desde que o mundo é mundo. Um culto ao narcisismo que beira o ridículo.

Lembro da “Coluna da Candinha” na extinta Revista do Rádio, década de 50, auge da popularidade do rádio. Vivi isso na pele: aos 16 anos será repórter de uma revistinha de rádio, e publiquei uma matéria sensacionalista, que revelavam segredo guardado a sete chaves: quem era o grande amor de Marlene. Quem? A mãe dela. Mais ridículo e ingênuo impossível.

Enfim: que se processe o caluniador. Pague-se esse preço: caso contrário, estaremos sendo censores. 
E a censura nos conduz a uma outra vertente que dela emana: a auto-censura. Proibimo-nos de 
expressar nossas verdades. E logo nós, artistas, que vivemos da invenção, que usufruímos da vida o
que ela nos oferece do bom e também do pior. Derrapamos, às vezes, quando nos sentimos
agredidos – ou quando agridem uma pessoa a quem devotamos admiração e respeito.

Nelson Motta teria violado esse direito à privacidade a que se referem Gilberto Gil e Chico Buarque ao escrever a biografia de Tim Maia? E a vida daquele cantor e compositor poderia ser abordada de outra forma? E Cazuza? Em nenhum momento a família interditou qualquer obra que enfocasse a vida pessoal do compositor.

Enfim: biografias só autorizadas é censura, sim. É censura uma pessoa pública (ou não) ser objeto de um livro, e negar ao autor o direito de publicá-lo. Pior ainda: é querer intervir em sua elaboração, tornando a obra uma biografia “chapa branca”.

Quando falei do Projeto Lucio Rangel de Monografias, foi porque encontrei minha querida Ligia Santos, filha do legendário Donga (“Pelo telefone”) – uma das poucas fontes primárias que ainda podem falar de alguns contemporâneos de seu pai – como é o caso de João da Bahiana. As “fontes primárias” (aquelas que conviveram diretamente com figuras já desaparecidas) estão rareando. Quase todos os contemporâneos de Mário de Andrade já se foram. Há pouco, perdemos o cenógrafo Fernando Pamplona, aos 87 anos. Quem melhor escreveria sobre Joãosinho Trinta, seu discípulo, e a quem considerava um gênio?

Entendo que o assunto é polêmico, e que a discussão, em nenhum momento, privilegiou esse viés cultural que tanto defendo.
Aguardemos os livros sobre Wilson Batista (Rodrigo Alzuguir, o autor) e um outro sobre Clementina: “Quelé: a voz da cor”, de Felipe Castro, Janaina Marquesini, Luana Costa, Maria Kobayashi e Raquel Munhoz. Aposto nesses jovens pesquisadores.

Termino com uma recomendação: não percam o musical “Clementina, cadê você”. O autor? Pedro Murad. A direção, de Duda Maia.

Imperdível.

domingo, 14 de abril de 2013

O senhor de engenho dentro de nós

Por Luiz Antonio Simas

É fato fartamente documentado que governos brasileiros, com apoio de parte dos segmentos mais favorecidos e de intelectuais que abraçaram a eugenia, tentaram apagar, nos primeiros anos do pós-abolição, a presença do negro da História do Brasil. Este projeto se manifestou do ponto de vista físico e cultural. Fisicamente o negro sucumbiria ao branqueamento racial promovido pela imigração subvencionada de europeus, capaz de limpar a raça em algumas gerações. Do ponto de vista cultural, houve uma tentativa sistemática de eliminar as formas de aproximação com o mundo e elaboração de práticas cotidianas (jeitos de cantar, rezar, comer, louvar os ancestrais, festejar, lidar com a natureza etc.) produzidas pelos descendentes de africanos, desqualificando como barbárie e criminalizando como delitos contra a ordem seus sistemas de organização comunitária e invenção da vida.

Se hoje não temos mais a pregação explícita de uma política de branqueamento, ainda estamos distantes de superar o que Joaquim Nabuco chamou de “obra da escravidão”. Há um senhor de engenho morando em cada brasileiro, adormecido. Vez por outra ele acorda, diz que está presente, se manifesta e adormece de novo, em sono leve.

Há um senhor de engenho nos espreitando nos elevadores sociais e de serviço; nos apartamentos com dependências de empregadas; no bacharelismo imperial dos doutores que ostentam garbosamente o título; na elevação do tom de voz e na postura senhorial do “sabe com quem você está falando?”; no deslumbre das elites que buscam “civilizar” os filhos em intercâmbios no exterior; na cruzada evangélica contra a umbanda e o candomblé; na folclorização pitoresca dessas religiosidades; nos currículos escolares fundamentados em parâmetros europeus, onde índios e negros entram como apêndices do projeto civilizacional predatório e catequista do Velho Mundo; no chiste do sujeito que acha que não é racista e chama o outro de macaco; no pedantismo de certa intelectualidade versada na bagagem cultural produzida pelo Ocidente e refratária aos saberes oriundos das praias africanas e florestas brasileiras.

Recentemente observamos a ocorrência de alguns eventos que revelam a permanência de práticas senhoriais que continuam nos assombrando. Um grupo de estudantes de Direito da UFMG realizou um trote em que veteranos se travestiam orgulhosamente de nazistas e uma caloura pintada de preto era acorrentada, portando um cartaz onde se lia “Chica da Silva”. Continua, também, a polêmica que envolve clubes de ricaços no Rio e em São Paulo que exigem uniformes identificadores das babás dos filhos bem nascidos de sinhazinhas e sinhozinhos. Temos, por fim, o siricotico de certos setores indignados com a proteção trabalhista que os empregados domésticos passarão a ter no Brasil. O argumento de que os direitos — como o FGTS — encarecerão demasiadamente o trabalho e gerarão desemprego esconde uma questão de evidente fundo cultural: o incômodo de uma elite que sempre desqualificou o serviço doméstico e é herdeira de uma das maldições que o cativeiro legou entre nós; a ideia de que a exploração do serviço braçal é quase um favor que o senhor presta àquele a quem explora. Jogam no mesmo time dos que diziam, na abolição da escravatura, que sem o seu senhor o negro quedaria desamparado.

Tudo isso nos permite constatar que o já citado Joaquim Nabuco de fato acertou na mosca. Disse ele que mais difícil do que acabar com a escravidão no Brasil seria acabar com a obra que ela produziu. É ela, a obra da escravidão, erguida em alicerces sedimentados de uma forma profunda e eficaz na alma brasileira, que até hoje nos assombra — porque nos reconhecemos nela como algozes ou vítimas cotidianas — e precisa ser sistematicamente combatida.

Luiz Antonio Simas é professor de História

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

PARA ESPANTAR O BODE

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Quase não ouço música.
Tenho manifestado uma
opção preferencial pelo
silêncio. Escuto vozes o dia
inteiro, e quem me dera
fossem de “dead people”.


Meu querido Arthur Dapieve, eu li, como de hábito, o seu texto de sextafeira próxima passada — e uso essa expressão por pura curtição pessoal, em louvor ao dono dela, o grande locutor esportivo Orlando Batista. Mesmo presumindo que ele não seja um ícone da sua geração de rádio-ouvinte-esportivo, eu cito o Orlando como cumprimento viril a você, também fã do esporte bretão.
Pois, então, Dapi. Li suas bem traçadas, no caso apraz citado, focalizando o relançamento de “Tem que acontecer”, do Sérgio Sampaio. É um dos meus discos preferidos. Eu ia sorvendo feliz cada uma de suas exaltações à música do Sérgio, mais um de nossos ídolos levados pela maldita da cachaça. De repente, o texto já no último parágrafo, percebi o inexorável. Você não ia citar a minha música preferida do disco, a estupenda “Velho bode”, aquela do “Você é um fracasso/ do meu lado esquerdo do peito/ uma corda de nylon/ de aço/ que arrebenta quando eu faço dó”. Nesse “dó” final, ele tira o som da nota no violão, um dó pungente capaz de deixar humilhados os do Nélson Cavaquinho.

Eu estou te escrevendo, meu bom Dapi, para não deixar passar em branco o bode do Sérgio Sampaio, um dos bichos mais geniais da MPB (ao lado do “Pato”, do João, do “Sapo”, do Donato, da “Perereca”, da Dercy), e também porque está sendo lançado um livro com o título de “1001 músicas que você deve ouvir antes de morrer”. É o velho truque das listas, e eis que mais uma vez me deixo cair na armadilha de, primeiro, ficar curioso, e, em seguida, furioso. O livro deixou de fora o “Bode”, todas as outras músicas do Sérgio Sampaio, e também “Carinhoso”.

Faz sentido, Dapi, um cara ter vindo a esse mundo-de-meu-deus, se livrar de todos os carrinhos por trás da zaga adversária, sobreviver até a idade adulta aos rabos de arraia dos inimigos, e se despedir deste vale de lágrimas miserável sem alguém ter lhe recomendado a audição de Pixinguinha?

O livro é de um inglês, fala da música popular de todo mundo, e contempla o Brasil com indicações polêmicas que não vêm ao caso, porque música boa é a que assim lhe cai aos ouvidos.

Eu fui criado ouvindo o programa do César de Alencar na Rádio Nacional, depois, adolescente, passei para o “Hoje é Dia de Rock”, do Jair de Taumaturgo, na Mayrink da Veiga. Sei que Anísio Silva cantando “Quero beijar tuas mãos”, “Kokomo”, dos Beach Boys”, e o jingle do Café Capital, pela Dóris Monteiro, músicas que confundocom as harpas dos anjos, não são exatamente para uma listagem internacional.

Mas, meu bom Dapi, cá entre nós: o que sabem esses ingleses? O que sabe qualquer outro senão nós mesmos, da música que se deve ouvir antes do vento gélido soprar na nuca, dizer “chegou a hora” e a mão caridosa de uma amiga nos puxar o cobertor até a altura dos olhos, encerrando a vã jornada?

Eu vou confessar, querido companheiro, que alimento sobre você uma invejinha branca, embora ultimamente esteja preferindo as mais morenas. Quase não tenho ouvido música. Ouvi o “Rio”, do Keith Jarret, com empolgação, e as deliciosas babas-bregas do último CD da Marisa Monte. De resto, tenho manifestado uma opção preferencial pelo silêncio (já escuto vozes o dia inteiro, e quem me dera fossem de “dead people”). Quando pego o jornal e te vejo descobrindo novos sons, abrindo as orelhas sem preconceito aos tambores do planeta, sinto a tal invejinha — e por isso achei que serias o parceiro ideal para compartilhar as sugestões que pretendo mandar aos ingleses.

Que numa próxima edição, e livros de listas têm muitas, eles não se esqueçam de “Para ver as meninas”, do Paulinho da Viola, do “Preciso aprender a ser só”, dos irmãos Valle, e o “Nova ilusão”, do Pedro Caetano e Claudionor Cruz, cantada pela Marisa Monte. São canções para se cantar baixinho, porque eu vejo essas pessoas ouvindo música com o fone empurrado para dentro das orelhas, e faço tsk, tsk. Queria lhes apresentar o benefício do sussurro. Astrud Gilberto cantando “Insensatez” não faz mal ao ouvido antes do estrondo insuportável do bater das botas.

Eu sou de uma geração em que a ordem do mundo mudava ao sabor de um LP do Caetano, do Chico, dos Beatles. Hoje, eu ouço o Criolo, os crioulos do rap, e, a não ser que você me desminta, Dapi, não percebo as águas do mar se abrindo. A música não é mais o importante, mas o show. Por isso, vou dizer aos ingleses: as 1001 músicas que eu quero ouvir antes de morrer são as que já ouvi desde nascer. Toca aí “Desencontro”, do Chico, “Luzia luluza”, do Gil, “Qualquer bobagem”, do Tom Zé, e “Meu pobre blues”, do Sérgio Sampaio. Para animar o enterro, toquem “Oba”, do Bafo da Onça, e “Palmas no portão”, do Cacique.

Que tal, meu bom Dapi, se eu juntasse a minha lista daqui com as tuas daí, e para enfrentar os ingleses lançássemos o que realmente interessa, o nosso “Músicas para espantar o bode”?
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/09/para-espantar-o-bode-joaquim-ferreira.html

terça-feira, 5 de junho de 2012

Em busca da Justiça

Aldir Blanc
Por Aldir Blanc

Não sou historiador nem sociólogo. Não consultei nenhum livro para escrever o texto abaixo. Minha memória está se movendo como estilhaços do amado caleidoscópio que perdi, menino, em Vila Isabel. 
Viva a Comissão da Verdade para que nunca mais coloquem uma grávida nua sobre um tijolo, atingida por jatos d’água, com a ameaça: “Se cair, vai ser pior”; para que senhoras que fazem seu honrado trabalho não sejam despedaçadas por cartas-bombas; para que um covarde que bote a boca de um homem torturado no escapamento de uma viatura militar não passe por “homem de bem” onde mora; para que orangotangos que se tornaram políticos asquerosos não babem sua raiva na internet: “Nosso erro foi torturar demais e matar de menos”; para que presos em pânico não sofram ataques de jacarés açulados por antropoides; para que nunca mais teatros e livrarias sejam vandalizados e queimados; para que um estudante de psiquiatria não seja obrigado a passar por sentinelas de baioneta calada para ouvir um coronel médico dizer que “histeria é preguiça”; para que os brasileiros possamos homenagear um autêntico herói nacional, João Cândido, com um monumento, sem que surjam energúmenos prometendo “voltar e explodir tudo se isso apontar para o Colégio Naval”; para que nossa Força Aérea, que nos deu tanto orgulho na Itália, com seus valentes pilotos de caça, não atire pessoas, como se fossem sacos de lixo, no mar; para que um pai, ao se recusar a cumprir a ordem de manter o caixão lacrado, não se depare com o corpo destruído do filho, jogado lá dentro feito um animal; para que militares honrados não sintam “constrangimento” na busca da Justiça; para que cavalos (aqueles de quatro patas, montados por outros) não pisoteiem um garoto com a camisa pegando fogo por estilhaço de bomba, na Lapa; para que torturadores não recebam como “prêmio” cargos em embaixadas no exterior; para que uma estudante não desmaie num consultório médico ao falar sobre as queimaduras do pai, feitas com tocha de acetileno; para que esquartejadores não substituam Tiradentes por Silvério dos Reis; para que inúmeros Pilatos ainda trambicando naquela casa de tolerância do Planalto vejam que suas mãos continuam cheias de sangue e excremento; para que nunca mais a vida de uma jovem idealista — queixo firme, olhos faiscantes de revolta, com a expressão da minha Suburbana no 3x4 que guardo na carteira — seja ceifada por encapuzados. Uma delas, quem sabe?, pode chegar à Presidência da República e enquadrar a récua de canalhas.

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Radialista faz gol de placa

Sou presidente do Fã-Clube de Osmar Frazão e ouvinte assíduo de seu programa na Rádio Nacional, “Histórias do Frazão”. Vejam por que o Rio não morre, na voz inconfundível do radialista, que levou ao delírio a galera do Momo:

“O cara comprou uma TV de tela plana, chapou na parede do quarto e passou a ver o treco, embasbacado, noite e dia. O curioso é que não se interessava pelos programas. Só via comerciais. Com essa fixação, o sexo com a patroa caiu perto do zero absoluto. Ela foi a uma sex-shop e comprou uns produtos apimentados. Para acordar o malandro, contou que o vizinho havia mexido com ela no elevador. A reação do carametade causou estranheza:

— A gente se liga em você!

Ela mostrou o sutiã minúsculo.

— Air-bag duplo! Oh, happy days!

Exibiu um tremendo vibrador colorido.

— Os juros caíram. Compre!

Desesperada, vestiu a roupinha e propôs:

— Que tal um amorzinho gostoso?

— Deixe as baleias namorarem.

Aí, a criatura se encheu:

— Será q ue eu ainda conheço você?

—Rapaz, isso eu não sei, não. Melhor perguntar lá no posto Ipiranga!”.

ALDIR BLANC é compositor.


Jornal O Globo, 03/06/2012

domingo, 13 de maio de 2012

Eternos Chapa-Branca

Por Mino Carta


Símbolo. Dos serviços prestados à ditadura, à "democracia" de Sarney e ACM, e de FHC, presidente da privataria tucana
O jornal O Globo toma as dores da revista Veja e de seu patrão na edição de terça 8, e determina: “Roberto Civita não é Rupert Murdoch”. Em cena, o espírito corporativo. Manda a tradição do jornalismo pátrio, fiel do pensamento único diante de qualquer risco de mudança.
Desde 2002, todos empenhados em criar problemas para o governo do metalúrgico desabusado e, de dois anos para cá, para a burguesa que lá pelas tantas pegou em armas contra a ditadura, embora nunca as tenha usado. Os barões midiáticos detestam-se cordialmente uns aos outros, mas a ameaça comum, ou o simples temor de que se manifeste, os leva a se unir, automática e compactamente.
Não há necessidade de uma convocação explícita, o toque do alerta alcança com exclusividade os seus ouvidos interiores enquanto ninguém mais o escuta. E entra na liça o jornal da família Marinho para acusar quem acusa o parceiro de jornada, o qual, comovido, transforma o texto global na sua própria peça de defesa, desfraldada no site de Veja. A CPI do Cachoeira em potência encerra perigos em primeiro lugar para a Editora Abril. Nem por isso os demais da mídia nativa estão a salvo, o mal de um pode ser de todos.

O autor do editorial 
exibe a tranquilidade de Pitágoras na hora de resolver seu teorema, na certeza de ter demolido com sua pena (imortal?) os argumentos de CartaCapital. Arrisca-se, porém, igual a Rui Falcão, de quem se apressa a citar a frase sobre a CPI, vista como a oportunidade “de desmascarar o mensalão”. Com notável candura evoca o Caso Watergate para justificar o chefe da sucursal de Veja em Brasília nas suas notórias andanças com o chefão goiano. Ambos desastrados, o editorialista e o líder petista.
Abalo-me a observar que a semanal abriliana em nada se parece com o Washington Post, bem como Roberto Civita com Katharine Graham, dona, à época de Watergate, do extraordinário diário da capital americana. Poupo os leitores e os meus pacientes botões de comparações entre a mídia dos Estados Unidos e a do Brasil, mas não deixo de acentuar a abissal diferença entre o diretor de Veja e Ben Bradlee, diretor do Washington Post, e entre Policarpo Jr. e Bob Woodward e Carl Bernstein, autores da série que obrigou Richard Nixon a se demitir antes de sofrer o inevitável impeachment. E ainda entre o Garganta Profunda, agente graduado do FBI, e um bicheiro mafioso.
Recomenda-se um mínimo de apego à verdade factual e ao espírito crítico, embora seja do conhecimento até do mundo mineral a clamorosa ignorância das redações nativas. Vale dizer, de todo modo, que, para não perder o vezo, o editorialista global esquece, entre outras façanhas de Veja, aquele épico momento em que a revista publica o dossiê fornecido por Daniel Dantas sobre as contas no exterior de alguns figurões da República, a começar pelo presidente Lula.

Anos de chumbo. O grande e conveniente amigo chamava-se Armando Falcão
Concentro-me em outras miopias deO Globo. Sem citar CartaCapital, o jornal a inclui entre “os veículos de imprensa chapa-branca, que atuam como linha auxiliar dos setores radicais do PT”. Anotação marginal: os radicais do PT são hoje em dia tão comuns quanto os brontossauros. Talvez fossem anacrônicos nos seus tempos de plena exposição, hoje em dia mudaram de ideia ou sumiram de vez. Há tempo CartaCapital lamenta que o PT tenha assumido no poder as feições dos demais partidos.
Vamos, de todo modo, à vezeira acusação de que somos chapa-branca. Apenas e tão somente porque entendemos que os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma são muito mais confiáveis do que seus antecessores? Chapa-branca é a mídia nativa e O Globo cumpre a tarefa com diligência vetusta e comovedora, destaque na opção pelos interesses dos herdeiros da casa-grande, empenhados em manter de pé a senzala até o derradeiro instante possível.
Não é por acaso que 64% dos brasileiros não dispõem de saneamento básico e que 50 mil morrem assassinados anualmente. Ou que os nossos índices de ensino e saúde públicos são dignos dos fundões da África, a par da magnífica colocação do País entre aqueles que pior distribuem a renda. Em compensação, a minoria privilegiada imita a vida dos emires árabes.

Chapa-branca a favor
 de quem, impávidos senhores da prepotência, da velhacaria, da arrogância, da incompetência, da hipocrisia? Arauto da ditadura, Roberto Marinho fermentou seu poder à sombra dela e fez das Organizações Globo um monstro que assola o Brazil-zil-zil. Seu jornal apoiou o golpe, o golpe dentro do golpe, a repressão feroz. Illo tempore, seu grande amigo chamava-se Armando Falcão.
Opositor ferrenho das Diretas Já, rejubilado pelo fracasso da Emenda Dante de Oliveira, seu grande amigo passou a atender pelo nome de Antonio Carlos Magalhães. O doutor Roberto em pessoa manipulou o célebre debate Lula versus Collor, para opor-se a este dois anos depois, cobrador, o presidente caçador de marajás, de pedágios exorbitantes, quando já não havia como segurá-lo depois das claras, circunstanciadas denúncias do motorista Eriberto, publicadas pela revista IstoÉ, dirigida então pelo acima assinado.
Pronta às loas mais desbragadas a Fernando Henrique presidente, com o aval de ACM, a Globo sustentou a reeleição comprada e a privataria tucana, e resistiu à própria falência do País no começo de 1999, após ter apoiado a candidatura de FHC na qualidade de defensor da estabilidade. Não lhe faltaram compensações. Endividada até o chapéu, teve o presente de 800 milhões de reais do BNDES do senhor Reichstul. Haja chapa-branca.
Impossível a comparação entre a chamada “grande imprensa” (eu a enxergo mínima) e o que chama de “linha auxiliar de setores radicais do PT”, conforme definem as primeiras linhas do editorial de O Globo. A questão, de verdade, é muito simples: há jornalismo e jornalismo. Ao contrário destes “grandes”, nós entendemos que a liberdade sozinha, sem o acompanhamento pontual da igualdade, é apenas a do mais forte, ou, se quiserem, do mais rico. É a liberdade do rei leão no coração da selva, seguido a conveniente distância por sua corte de hienas.
Acreditamos também que entregue à propaganda da linha auxiliar da casa-grande, o Brasil não chegaria a ser o País que ele mesmo e sua nação merecem. Nunca me canso de repetir Raymundo Faoro: “Eles querem um País de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”. No mais, sobra a evidência: Roberto Civita é o Murdoch que este país pode se permitir, além de inventor da lâmpada Skuromatic a convocar as trevas ao meio-dia. Temos de convir que, na mídia brasileira, abundam os usuários deste milagroso objeto.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Robert Crumb no O Globo

Via Bruno Perdigão

Por André Miranda - O Globo

RIO - Lançado em 1968, o disco "Cheap thrills", da
Big Brother and the Holding Company, ficou famoso por trazer Janis Joplin soltando o vozeirão em hinos como "Summertime" e "Piece of my heart". Mas a figura que vem à mente dos fãs quando se pensa no disco não é a de Janis soltando seus agudos. A imagem lembrada é sempre a da capa, dividida em quadrinhos que interpretavam cada uma das canções de "Cheap thrills". Tratava-se da primeira ilustração feita por Robert Crumb para um disco. Dali em diante, Crumb, um dos maiores quadrinistas da história, ícone da contracultura e notável admirador de músicas velhas, fez outras centenas delas. Agora, mais de 400 desses trabalhos estão reunidos no livro "R. Crumb: the complete record cover collection", que acaba de ser lançado nos EUA. Em entrevista ao GLOBO, por telefone, Crumb falou da compilação, divagou sobre o amor, assumiu sua infidelidade, enalteceu o Occupy Wall Street e atacou o punk. Enfim, foi o Robert Crumb de sempre.

Todos sabem que o senhor é um grande fã de música, sobretudo do início do século XX. Qual é o seu sentimento ao transformar o som de um disco em uma imagem?
ROBERT CRUMB: No caso da capa que fiz para a Janis Joplin, eles me deram os títulos das músicas e eu desenhei sem nem ouvir o disco. Para falar a verdade, eu nem era interessado na banda, apenas criei uma capa com base naquelas músicas. Mas, depois, passei a fazer apenas capas de discos de cujas músicas eu gostava, sobretudo músicas de um estilo antigo, romântico. A imagem vem à cabeça por inspiração nessas músicas.

O senhor então não aceita encomendas para capas de discos que não lhe agradam?

Não, não preciso mais de dinheiro. O que já aconteceu é eu ter feito muitas capas em troca de velhos compactos de 78 rotações para minha coleção. Faço também para bandas contemporâneas que tocam músicas velhas que admiro, e ainda as capas dos discos dos quais eu participo como músico, como a Cheap Suit Serenaders, a Les Primitifs du Futur e a Eden and John’s East River String Band.

Quantos compactos tem hoje?

Tenho algo em torno de 6.500 compactos. Tenho prateleiras no meu estúdio com todos eles.

O senhor escuta música enquanto desenha?

Não, não consigo. Para mim, ouvir música é um ritual. Você coloca o disco na vitrola, escuta a música, depois se levanta, tira o compacto e aí decide se quer ouvir outro. A cada música, é necessário um esforço físico. Gosto disso, gosto de ouvir música focado nela. Fecho meus olhos e escuto com bastante profundidade. E acho que é por isso que sou cada vez mais seletivo com que escuto e não fico ouvindo música ambiente enquanto faço outras atividades.

Hoje, há uma espécie de culto a esse tipo de música antiga que o senhor tanto admira, como o swing e o jazz do início do século XX. A que o senhor atribui esse apreço dos mais jovens?


É difícil dizer. O que sei é que muita coisa está na internet hoje, e por isso muitos jovens estão se interessando em ouvir músicas antigas. Nos EUA, há uma erupção de bandas formadas por adolescentes tocando músicas dos anos 1920. Obviamente, eles ouvem o estilo a partir dos compactos de 78 rotações ou fazendo downloads, já que há um número pequeno de CDs do gênero. A questão é que, no mundo moderno, se você é adolescente e quer ouvir música, quais são suas opções? Punk? Disco? Techno? Rap? Todas essas coisas, para mim, são musicalmente bastante sinistras. O punk pode ser útil como uma forma de se rebelar contra a sociedade burguesa, mas musicalmente é vazio, não tem a densidade que a antiga música tradicional tem.

Mas o que essa música tradicional pode ter de tão especial?


Veja, as pessoas redescobrem essa música de geração para geração. É como voltar ao tempo em que as pessoas comuns tinham o direito de gravar suas músicas. O que aconteceu nos anos seguintes foi que a música foi se tornando mais comercial, e isso afetou a maneira com que os artistas tocam e também com que os fãs escutam suas canções. Muita gente desistiu de tocar, porque a regra passou a ser ligar o rádio e escutar o que estivesse tocando. Bons músicos se perderam por causa de um complexo de que nunca conseguiriam cantar tão bem quanto aquelas pessoas no rádio. As pessoas se afastaram da música verdadeira assim. A música deixou de ser feita por pessoas comuns. Além disso, as sociedades foram passando por uma necessidade de sofisticação urbana. Isso fez com que um filho se envergonhasse com a possibilidade de ouvir a mesma música de seu pai. É uma expressão de rebeldia, que tem muito a ver com o surgimento do rock’n’roll. Está tudo bem se isso for divertido, mas essa atitude envelhece depois de um tempo. Essa música não dura até você fazer 40 ou 50 anos.

O senhor tem um iPod ou algum outro MP3 player?
Não. Eu não quero escutar música num headphone. Não quero levar a música comigo quando viajo. Estou plenamente satisfeito em ouvir a música que amo sozinho no meu estúdio, podendo prestar completa atenção naquilo. E também tenho essa compulsão de colecionador, essa coisa maluca de querer comprar compactos de 78 rotações. Aliás, é muito difícil achar compactos brasileiros antigos, das décadas de 1920 e 1930, de artistas como Luperce Miranda e Pixinguinha. Alguns amigos no Brasil já procuraram para mim e não conseguiram. Queria ter compactos de maxixe, que é um samba antigo, ou de choro. Eu me lembro que, quando fui a Paraty (na Flip de 2010), ouvi uma banda tocando choro na rua. Eu queria ter passado a noite toda ouvindo aquela música, mas me levaram para outro lugar.

O que mais o senhor se recorda da sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2010?

Fiquei impressionado como havia muitos jovens agradáveis lá. Isso foi bom. Mas, ao mesmo tempo, eles colocaram uns caras imensos com ternos pretos em todo o lugar, para fazer segurança. Houve algumas vezes em que eu estava no meio da multidão, e aqueles guarda-costas empurravam as pessoas de forma violenta. Isso foi estranho.

O senhor viveu na Califórnia nos anos 1960, uma época em que as pessoas iam às ruas para protestar. Isso, porém, acabou se perdendo nas décadas seguintes. Só que, há dois meses, vemos um movimento como o Occupy Wall Street, um protesto contra as corporações financeiras dos EUA. Como o senhor avalia o que tem ocorrido em Nova York?

É fabuloso. As pessoas têm poder, quase nada pode tocá-las, elas governam o mundo. São mais poderosas do que jamais foram. Espero que o Occupy Wall Street tenha algum efeito e faça com que os políticos se movimentem para evitar que uma elite capitalista acumule tanta riqueza. É uma riqueza mantida por meio de seus relações públicas e da máquina gigante de propaganda que eles têm. Centenas de milhares de pessoas trabalham para a máquina publicitária dessa elite. Elas trabalham noite e dia para evitar que qualquer crítica atinja essa gente. É muito difícil se rebelar contra eles.

Esse tipo de movimento pode inspirar o senhor de alguma forma em seus trabalhos? O senhor está preparando algum novo livro?

Na verdade, no momento estou fazendo uma tira de quadrinhos com minha mulher, Aline (Kominsky-Crumb, autora de livros como "Essa bunch é um amor", recém-lançado no Brasil pela editora Conrad). Nós fazemos tiras de uma página inteira para uma revista francesa. Aliás, minha agente está negociando com uma revista brasileira a publicação da tira. É uma revista que começa com a letra "p", como é mesmo o nome?

"piauí"?


Isso, exatamente. Eles já publicaram umas coisas minhas antes, e sua reprodução foi bastante boa.

Como é criar em parceria com sua mulher? A vida de casado pode atrapalhar ou influenciar de alguma maneira a criação em dupla?
É uma situação engraçada. Eu não sei como conseguimos fazer isso. É um milagre que funcione (risos).

Há quanto tempo o senhor é casado com Aline?


Desde 1978. É um longo tempo. É claro que tivemos altos e baixos. Mas tem uma coisa que ajuda. Nós dois fomos infiéis nesse tempo, com alguns relacionamentos fora do casamento. Eu ainda tenho um relacionamento com outra mulher que vejo algumas vezes por ano. Aline não gosta, mas ela aceita.

Isso é sério?

É, sim. Ela também tem um relacionamento de 15 anos com um cara francês que mora na nossa cidade.

Vocês são amigos?

Não, mas o vejo algumas vezes na rua. Não sou ciumento. Nós dois somos humanos, e não acreditamos na fidelidade absoluta. E também não queremos mentir um para o outro sobre isso. As pessoas mentem umas para as outras, elas perdem tempo e energia traindo e mentindo. Eu falei para a Aline logo que nós começamos a nos envolver que gostaria de viver com ela, mas não daria para ser fiel. Eu não consigo. Ela aceitou. Então, hoje eu tenho um relacionamento longo com uma outra mulher que vive nos EUA. Uma vez por ano, nós passamos umas semanas juntos.

Mas e o amor? O amor não pode levar à fidelidade?

Eu nem sei mais o que amor significa. Eu amo minha filha, amo meu neto. Mas você deve definir o amor como um tipo de sentimento egoísta por outra pessoa? Há egoísmo no amor. Só que não quero que minhas relações com mulheres sejam baseadas em egoísmo.

http://oglobo.globo.com/cultura/robert-crumb-fala-sobre-livro-com-suas-ilustracoes-para-capas-de-discos-3240013

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Essa mídia não se emenda....aqui O GLOBO.

Lula  recebe título de Doutor Honoris Causa
"Por que Lula, e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”, indagou a repórter Deborah Berlinck, de O Globo.

Pergunta da jornalista do O Globo ao diretor do Sciences Po - Instituto de Estudos Políticos de Paris, que concedeu a Lula o título de Doutor Honoris Causa.