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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Siga no Twitter O mano que a Veja nomeou muso das redes sociais

Por Janah
Blog ContextoLivre publica e a gente foi conferir. E achou muito mais.
Maycon Freitas, o entrevistado das Páginas Amarelas da Veja desta semana, como “representante” dos manifestantes da onda de protestos que tomou as ruas, presta serviços como dublê a Rede Globo de Televisão.
A Veja, é claro, nem se importou que Maycon tenha quase o dobro da idade da maioria dos manifestantes, mas o transformou num grande ativista cibernético.
rev
Apresentado como “a voz que emergiu das ruas”, Maycon é apresentado como líder de uma comunidade no Facebook , a União Contra a Corrupção, onde se publica ou republica coisas como essa imagem aí do lado, dizendo que os médicos cubanos (cadê?) são guerrilheiros disfarçados e que um golpe comunista está em marcha. É mentira, a página é mantida por Marcello Cristiano Reis, um advogado paulista.
Se tivesse ido olhar o perfil de Maycon no Facebook veria que, antes de virar “celebridade”, suas últimas postagens foram em janeiro, com pérolas do tipo:
“Mulher que diz que homem é tudo igual. É porque nunca soube fazer a diferença na vida de um.”, ou
“No carnaval as mina pira , em novembro as mina ”pari”. “No carnaval os mano come, em novembro os mano some.”
Antes, em 2002, a vida estava boa para Maycon, como você pode ver nas fotos do líder de massas em Cancún, no México, num turismo “padrão FIFA” de deixar a gente com inveja. Como está sofrendo o revoltado Maycon!
VIDADURA
Ah, essa internet…
Ah, essa Veja…
PS. Até de um mistificador como o Maycon a gente respeita a privacidade. Todas as fotos são públicas no seu Facebook, não necessitam de compartilhamento.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

AOS QUE AINDA SABEM SONHAR

Por André Borges Lopes

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está "disponível". O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do "crescimento com redução das desigualdades" fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "libertários" e "de esquerda" hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos "incluídos sociais" e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos "sociais-democratas" já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.

O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente "progressista de coalizão". Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes "se levantem" contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos "vagabundos" quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos "de esquerda" se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de "vandalismo", pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Twitter e Facebook mais isolam que unem

Os cibercéticos estão na moda



Paul Harris, The Observer

O modo como as pessoas se 
comunicam freneticamente on-line
por meio do Twitter, do Facebook e 
das mensagens instantâneas pode ser considerando uma forma de loucura
 moderna, segundo uma importante 
socióloga norte-americana.

“Um comportamento que se tornou
 típico ainda pode expressar os problemas 
que antes nos faziam considera-lo 
patológico”, escreve Sherry Turkle,
professora do MIT, em seu novo livro,
 Alone Together (Sozinhos Juntos), 
que está liderando o ataque contra
 a era da informática.

O livro de Turkle, que será publicado no Reino Unido no mês que vem, causou
 sensação nos Estados Unidos, país geralmente mais obcecado pelos méritos 
da redes sociais. Ela participou na semana passada do programa cômico de
 TV de Stephen Colbert, The Colbert Report. Quando Turkle disse que
 esteve em enterros em que as pessoas verificavam seus iPhones, Colberto 
retrucou: “Cada um tem sua própria maneira de dizer adeus”.

A tese de Turkle é simples: a tecnologia ameaça dominar nossa vida e
 nos tornar menos humanos. Sob a ilusão de permitir uma melhor
 comunicação, na verdade nos isola das verdadeiras interações humanas,
 em uma ciber-realidade que é uma pobre imitação do mundo real.

Mas o livro de Turkle não é a única obra do tipo. Uma reação intelectual
 nos Estados Unidos pede a rejeição de alguns dos valores e métodos
das comunicações modernas. “É uma enormes revolta. Os diferentes
 tipos de comunicação que estamos utilizando tornaram-se algo
 que assusta as pessoas”, disse o professor William Kist, especialista em 
educação na Universidade Estadual de Kent, em Ohio.

A lista de ataques à mídia social é longa e vem de todos os cantos do 
mundo acadêmico e da cultura popular. Um best seller recente nos EUA, 
The Shallows (Águas Rasas ou Os Baixios) de Nicholas Carr, sugeriu
 que o uso da internet estaria modificando nosso modo de pensar,
 para nos tornar menos capazes de digerir quantidades de informação
 grandes e complexas, como livros e artigos de revista. O livro baseou-se 
em um ensaio que Carr escreveu na revista Atlantic. Era igualmente
 enfático e se intitulava O Google Está nos Tornando Idiotas?

Outra linha de pensamento no campo do ciberceticismo encontra-se
 em The Net Delusion (A Ilusão da Rede), de Evgeny Morozov. Ele afirma
 que a mídia social produziu uma geração de slacktivists (ativistas frouxos).
 Ela tornou as pessoas preguiçosas e consagrou a ilusão de que clicar
 com o mouse é uma forma de ativismo equivalente às doações em dinheiro
 e tempo no mundo real.

Outros livros incluem The Dumbest Generation (A Geração mais Idiota),
 de Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, que afirma que
 “o futuro intelectual dos Estados Unidos parece sombrio” – e We Have Met 
the Enemy (Encontramos o Inimigo), de Daniel Akst, que descreve os 
problemas de autocontrole no mundo moderno, dentre os quais um
componente-chave é a proliferação das ferramentas de comunicação.

A reação atravessou o Atlântico. Em Cyburbia, publicado na Grã-Bretanha
 em 2010, James Harkin investigou o mundo tecnológico moderno e 
encontrou algumas possibilidades perigosas. Embora Harkins não seja um 
cibercético puro, encontrou muitos motivos de preocupação, assim 
como de satisfação, na nova era tecnológica. Em outra frente, o filme de sucesso 
A Rede Social tem sido considerado um ataque ligeiramente velado à geração da
mídia social, sugerindo que o Facebook foi criado por pessoas que não 
conseguiam se encaixar no mundo real.

O livro de Turkle, porém, provocou mais debates até agora. É um grito de
 alerta para que se ponha de lado o Blackberry, se ignore o Facebook
e se evite o Twitter. “Nós inventamos tecnologias inspiradoras e potencializadoras,
 mas permitimos que elas nos reduzissem”, ela escreve.

Outros críticos apontam diversos incidentes para reforçar seus
 argumentos. Recentemente, a cobertura na mídia da morte de Simone
 Back, em Brighton (Inglaterra), concentrou-se em um bilhete de suicida 
que ela havia “postado” no Facebook e que foi visto por muitos de seus
 1.048 “amigos” no site. Mas nenhum deles tentou ajuda-la – em vez disso 
trocaram insultos na página de Back no Facebook.

O livro de Turkle também agradou, porque suas obras anteriores, The Second 
Self (O Segundo de Si Mesmo) e Life on the Screen (Vida Tela) pareciam mais 
abertas ao mundo tecnológico. “Alone Together parece ter sido escrito pela
 gêmea maligna de Turkle”, brincou Kist.

Mas hoje até a reação tem uma reação, e muitas pessoas saltam em defesa
 da mídia social. Elas indicam que e-mails, Twitter e Facebook 
geraram mais comunicação e não menos – especialmente para pessoas que 
podem ter dificuldades para se encontrar no mundo real devido à 
distância física ou à diferença social.

Os defensores dizem que sua forma de comunicação é apenas diferente,
 e algumas pessoas podem ter dificuldade para se adaptar. “Quando você
 entra em um café e todo mundo está em silêncio sobre seus laptops, compreendo 
o que ela diz sobre não conversar uns com os outros”, disse Kist. “Mas
 ainda é comunicação. Eu discordo dela. Não vejo a coisa tão preto e branco.”

Alguns especialistas acreditam que o debate está tão acirrado porque as
 redes sociais são um novo campo que ainda precisa desenvolver regras de
 etiqueta que todos possam respeitar, e que por isso incidentes, como 
a morte de Simone Back, parecem tão chocantes. “Sejamos francos, não vejo
 sinais de alguém se desligando”, disse Kist. “Mas talvez precisemos desenvolver 
uma ‘netiqueta’ para lidar com tudo isso.

Ele também indicou que o “mundo real” a que muitos críticos da mídia
 social se referem nunca existiu realmente. Antes que todo mundo viajasse 
no ônibus ou no trem com as cabeças enterradas em iPads ou smartphones,
 geralmente apenas ficavam em silêncio. “Não víamos as pessoas 
conversar com estranhos espontaneamente. Elas se voltavam para si 
mesmas”, disse Kist.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
The Observer - in Carta Capital de 2 de fevereiro de 2011