Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Mobilidade urbana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mobilidade urbana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

domingo, 25 de agosto de 2013

Vem pra rua, Fortaleza!

Por Bruno Perdigão

Foto - Fábio LIma

É perceptível a dificuldade de parte população em aceitar que soluções diferentes das convencionais possam ser aplicadas para os problemas urbanos de nossa cidade. Nem sempre é por falta de conhecimento ou informação, afinal, excelentes exemplos de outras cidades estão sendo mais difundidos e a opinião de profissionais ligados ao urbanismo está sendo ouvida. No entanto, quando se propõe soluções inovadoras para Fortaleza, a resistência ainda é muito grande. Parte dessa resistência se deve ao imediatismo característico de como a cidade tem sido feita nos últimos anos: obras e mais obras, sempre no intuito de resolver um problema pontual que se diz urgente. Porém, o que não faltam em nossa cidade são problemas urgentes. Mas como se definem prioridades?

O episódio do viaduto, em Fortaleza, é mais um ingrediente que torna necessário ampliar o debate sobre a Cidade. Dentro desse contexto, o tema da mobilidade urbana aparece ainda mais forte e, como todo tema que ganha destaque, corre risco de sofrer desgastes. Muitas vezes a questão parece ser reduzida apenas a ser contra viadutos ou a favor de faixas exclusivas para ônibus e ciclovias, além de virar discurso fácil pra qualquer gestor justificar qualquer obra. Devemos aproveitar o momento para repensar um ponto fundamental de nossa cidade que é a rua. É um diagnóstico comum dizer que Fortaleza carece de espaços públicos de qualidade, porém, geralmente nos referimos apenas a praças e parques, e esquecemos que a maior quantidade de espaços públicos que temos na cidade é formada por ruas. Dificilmente conseguimos imaginá-la de outra forma que não sendo de asfalto e concreto, feita para carros e não para pessoas. Dessa maneira, estamos abrindo mão de uma enorme área de espaços públicos que poderiam ser feitos de maneira a melhorar nossa qualidade de vida, com mais conforto, arborização, sombra, mais espaços de convivência, de lazer, com menos barulho de buzinas e motores.

As ruas podem ser de diversos tipos, de maneira a atender as demandas específicas de cada área da cidade. Podem ser exclusivas para pedestre, aumentando o conforto do passeio e aumentando o fluxo de pessoas. Podem ter uso compartilhado, em que o fluxo de carro é permitido, mas é controlado. As avenidas podem ter calçadas largas para tornar a via um espaço menos opressor à caminhada. Podemos ter ruas com mais áreas verdes, onde as árvores servem para fazer sombra, melhorando o conforto do transeunte, e os jardins servem para absorção das águas da chuva, contribuindo para diminuir os alagamentos. As possibilidades são muitas e quase nunca discutidas. Repensar a maneira como fazemos nossas ruas é repensar a cidade inteira e essas pequenas medidas feitas em grande escala teriam um impacto muito grande na melhoria da qualidade do espaço urbano.

Mobilidade urbana, no entanto, é apenas um dos fatores do planejamento urbano. Precisamos discutir o uso e a ocupação do solo, a necessidade de adensar áreas dotadas de infraestrutura, um modelo de verticalização da cidade que não seja predatório, as demandas de habitação social, a conservação do nosso patrimônio histórico, a requalificação do Centro da cidade. O planejamento tem que atender a diversas questões. O que não é mais admissível é que todos os projetos e obras públicas da nossa cidade sejam impostos de maneira autoritária: surgem “do nada”, muitas vezes sem autoria explícita, licitados com projeto básico e vendidos como “a única solução viável”. A principal lição que nós fortalezenses precisamos tirar desse imbróglio do viaduto é que podemos e devemos ser ouvidos sobre os projetos desenvolvidos pra nossa cidade. Para isso, os concursos públicos de projeto e os planos participativos são as melhores opções para democratizar as soluções arquitetônicas e urbanísticas.

Existe um esforço por parte de grupos, tanto do setor público como do privado, de desqualificar a ideia de planejamento participativo, geralmente com argumentos de que gera ineficiência e que “a cidade não pode parar”. Mas a quem interessa não ter um planejamento pra seguir? A quem interessa que a população não possa participar das decisões? Para além da discussão técnica, existe um comportamento em nossa cidade que precisa ser superado. Algumas práticas de nossa sociedade - que sempre busca segmentar ao máximo os lugares que frequenta, criando áreas VIP, camarotes, cordão de isolamento, etc -, são refletidos no pensamento sobre a cidade. Para esses setores, é difícil aceitar a ideia de espaços coletivos, acessíveis a todos, onde pessoas de diversos tipos e classes sociais se misturam. Devemos acabar com a tendência constante de segregação dos espaços para, enfim, podermos pensar numa cidade melhor.

Bruno Perdigão é arquiteto e urbanista

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

-SOBRE MOBILIDADE URBANA E VIADUTOS EM FORTALEZA-

Coerente com as posições defendidas ao longo de sua história, em nosso estado e em nível nacional, o Instituto de Arquitetos do Brasil- Departamento do Ceará (IAB-CE), vem a público manifestar que considera inadequada a construção dos viadutos propostos para o cruzamento das Avenidas Antônio Sales e Engenheiro Santana Júnior, em Fortaleza, pelas razões expostas a seguir:

1. A obra não foi concebida à luz de um Plano Municipal de Mobilidade Urbana, condição indispensável para a aplicação racional e eficiente dos vultosos recursos públicos solicitados pela Prefeitura Municipal de Fortaleza ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (R$ 1,1 bilhão de reais para um conjunto de várias obras), o que proporcionaria a sua integração a um sistema de mobilidade articulado ao uso, à ocupação do solo e ao planejamento urbanístico como um todo;

2. A proposta está defasada no tempo, tendo em vista que foi concebida em 1998, portanto há 15 anos, e precisa ser atualizada em relação às atuais necessidades e prioridades recomendadas pela Lei Federal Nº 12.587, de 2.012, que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana, bem como às presentes demandas relativas à acessibilidade urbana no âmbito específico da expansão da cidade na direção leste;

3. A experiência internacional demonstra que obras como viadutos e elevados são agentes que promovem a degradação no entorno de seu espaço urbano. Além disso, a proposta apresentada pela Prefeitura Municipal de Fortaleza favorece o fluxo de veículos automotores individuais em detrimento das soluções de mobilidade recomendadas pela citada lei, que manda priorizar a adoção de outros modais de transporte, tais como ciclovias, passeios para pedestres e transporte coletivo;

4. Até o momento, não foi apresentado à sociedade nenhum projeto completo (denominado projeto “executivo”) nem orçamento detalhado para a obra. Tal prática tem contaminado a quase totalidade dos investimentos públicos no país, ao permitir que as licitações de obras sejam feitas com projetos incompletos (denominados “básicos”) e orçamentos "estimados" que quase sempre aumentam de valor após a elaboração dos projetos completos (ou “executivos”) pelo próprio vencedor da licitação.

Considerando as razões acima, o IAB-CE propõe:

1. Que sejam suspensas as obras que não estejam em harmonia com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, aí incluídas as relativas aos viadutos propostos para o cruzamento das avenidas Antônio Sales e Engenheiro Santana Júnior;

2. Que seja realizado o mais rápido possível, com prazos e recursos definidos, um Plano de Mobilidade Urbana para Fortaleza, com ampla participação dos setores técnico-científicos, das universidades e da população;

3. Que as obras decorrentes desse plano sejam contratadas a partir de projetos completos (“executivos”) e orçamentos detalhados, elaborados com a maior transparência e acompanhamento da sociedade. Em determinados casos, por motivo de sua complexidade, concursos públicos de arquitetura e urbanismo deverão ser realizados de maneira a que se escolha, sob o primado da democracia e da qualidade, a melhor solução projetual para os problemas enfrentados. Estes, para além do campo da mobilidade urbana, proporcionam também respostas para a preservação do meio ambiente com vistas ao melhoramento contínuo e duradouro do desenho urbano, dentre outros temas relevantes;

4. Que a Prefeitura Municipal de Fortaleza instale imediatamente o Conselho da Cidade de Fortaleza, formado pelas mais amplas representações da sociedade, com caráter deliberativo e que venha a funcionar como guardião do interesse público, da transparência administrativa, da continuidade e da revisão periódica dos planos e projetos de desenvolvimento urbano de longo prazo.

Por fim, o IAB-CE entende que as intensas e legítimas manifestações realizadas no Brasil a partir de junho de 2013, demonstraram que a sociedade exige, dentre outras demandas, a realização de uma ampla reforma urbana, que garanta mobilidade e todo um conjunto de direitos à cidade, à preservação do patrimônio ambiental, à harmonia entre os espaços naturais e construídos, dando prioridade aos interesses coletivos e à universalização das funções sociais da cidade: "habitar, trabalhar, circular, recrear-se e preservar".

Fortaleza-CE, 08 de agosto de 2.013

Diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil- Departamento do Ceará- IAB-CE

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Rua cheia de gente é melhor que rua cheia de carro

Por Bruno Perdigão

Após alguns dias de manifestações por todo o Brasil, em meio a indignações difusas e protestos bastante heterogêneos, ninguém consegue compreender ao certo o que está acontecendo e muito menos cravar uma previsão para o que virá daqui pra frente. No entanto começa a ficar clara a crescente relevância da pauta da Mobilidade Urbana e a importância de discutir o tema não apenas pelo viés técnico, mas também pelo viés político.

Em São Paulo, a principal pauta dos protestos veio do Movimento Passe Livre (MPL) que luta, a curto prazo, pela revogação ao aumento das passagens dos transportes públicos e, a longo prazo, pela tarifa zero. Esta ideia que há pouco tempo parecia uma utopia ou um exagero, hoje começa a ser discutida como uma possibilidade inovadora. O movimento propõe deixarmos de pensar o transporte público como um produto para transformá-lo em um direito básico. Transporte público gratuito e de qualidade traz avanços enormes para o direito à cidade, facilitando o acesso a todas as partes da cidade, contribuindo para torná-la menos segregada.

A questão que é preciso ressaltar, porém, é outro ponto da mobilidade que, aparentemente, não estava em pauta nas reivindicações e nem muito presente nas discussões, mas que está sempre embutida em qualquer protesto: rua cheia de gente é melhor que rua cheia de carro! 
Estar numa manifestação significa recuperar um espaço que normalmente é opressor ao pedestre que é a via dos carros. As imagens dos protestos são simbólicas também porque subvertem uma ordem: lugares que estamos acostumados a ver apenas como trânsito de automóveis tornam-se lugares de acontecimentos e encontro de pessoas. 

É a cidade como deveria ser. E se nossas ruas cheias de gente fossem a regra e não a exceção?

É claro que não estamos falando de grandes multidões concentradas no mesmo trecho, como nas imagens dos protestos, mas sim da rua sendo pensada prioritariamente para o trânsito cotidiano de pessoas. Em tempos em que tanto se fala de reforma política e do aprimoramento da democracia, essas mudanças devem ser acompanhadas de uma reforma urbana que permita a vida coletiva em espaços compartilhados, que só se dará efetivamente quando planejarmos nossas cidades tendo o pedestre como prioridade. Não podemos perder de vista que a mobilidade urbana é um instrumento crucial para que possamos democratizar a cidade.

É perceptível que uma grande parcela dessa juventude insatisfeita está apenas agora descobrindo a política e a rua. Esse momento deve ser bem aproveitado. Boa parte dessa geração (principalmente de classe média e alta) foi criada fora da rua, aprendendo desde cedo a temê-la, mas deixando de aprender sobre a vivência coletiva, sobre se relacionar com o diferente e estranho, sobre cidadania enfim. Resta-nos cobrar que os mesmos que gritaram “vem pra rua” permaneçam usando a rua, agora no dia-a-dia.

Reivindicar melhores calçadas é necessariamente reivindicar uma cidade melhor para todos. É claro que calçadas não dão conta de toda a necessidade de locomoção, por isso é necessário pensá-las em conjunto com um sistema de transporte público de qualidade e gratuito. No entanto, esses avanços devem ser acompanhados de medidas que restrinjam o espaço dos carros. Assumir as calçadas como prioridade de tal forma que o seu dimensionamento adequado seja atendido, mesmo que isso resulte em diminuição das vias para automóveis. Isso é outro fator que os protestos deixam claro: pra reconquistar as ruas, temos que incomodar quem detém o privilégio delas. Dinheiro e espaço público devem ser utilizados para o bem coletivo. Portanto, o poder público deve parar de tentar resolver engarrafamentos de carros e investir prioritariamente em transportes públicos e coletivos.

Daqui pra frente deverão ser anunciados diversos investimentos na área da Mobilidade Urbana e precisamos lutar para que esses investimentos sejam bem empregados. É importante lembrar que muitas obras de mobilidade estão servindo de desculpa para remoções arbitrárias por parte do Estado. Isso torna ainda mais relevante a discussão acerca da definição das prioridades. Hoje parece mais absurdo diminuir uma via de carros do que remover casas. Essa lógica tem que mudar.

Por fim, fica a vontade de que esses dias conturbados tragam também uma mudança em como usamos nossas cidades e que a rua volte a ser a protagonista das nossas relações sociais.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O medo de andar a pé


Por Tiago Coutinho

Muitas pessoas deixam de andar na rua por medo. E costumo dizer, contra o medo só há um remédio: andar nas ruas, ocupar as calçadas, as praças, viver a cidade. Em vias cheias, eu me sinto seguro. Ruas vazias e silenciosas me dão medo. Tenho 27 anos e, raras vezes, pensei em comprar um carro. Ando por aí a pé, de transporte público e, não nego, de carona.
Quando trabalhava no O POVO, gastava o solado do sapato para voltar para casa, sempre à noite, numa caminhada de 40 min. Atravessava a Domingos Olímpio da Aguanambi até quase a Bezerra de Menezes. A frase mais escutada era: “não é perigoso?”. Só era tenso ao atravessar as ruas. Os carros não sinalizavam a curva. Temia ser atropelado. Numa rua vazia, o cidadão desaparece, e o carro se acha dono do pedaço.

Há pouco mais de um ano, vim morar na região do Cariri. Tinha uma visão idealizada de, por estar fora da capital, a sensação de segurança das pessoas, aqui, fosse maior e que, à noite, houvesse mais vida. Estava enganado. À noite, as ruas e as praças se esvaziam. O medo parece ser uma praga universal. Sou notívago, não quero carro e continuo a andar pelo Cariri a pé. Andar pela cidade é uma forma de tentar transformá-la. Não sei por que as pessoas insistem em se locomover sentadas.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2011/11/14/noticiafortalezajornal,2334669/o-medo-de-andar-a-pe.shtml