por ÉRICO FIRMO
Poucas emoções são poderosas como o medo. Dificilmente alguma mexa tanto com os instintos, o inconsciente, o lado animal do humano. Por isso, é tão eficaz como instrumento justamente nas disputas de poder. Afinal, não apenas é capaz de afetar os sentimentos mais primordiais como também é relativamente simples de ser manobrado. “É muito mais seguro ser temido do que ser amado”, ensinou Maquiavel. Em trincheiras antagônicas, o pavor é a arma com que passou a ser travado o principal enfrentamento da política de Fortaleza. De um lado, o grupo “Fortaleza Apavorada”. O fenômeno é novo e só possível pelo advento das mídias sociais. Agrega setores tradicionalmente alheios a tais debates. E permanece incompreendido pelas diversas frentes da política tradicional – reativa como regra à novidade. Simbolizado pela mão ensanguentada, o movimento surge a partir do que o próprio governo reconheceu como crescimento “intolerável” de alguns tipos de crimes. Apropriou-se desse terror provocado pela escalada de homicídios e assaltos a mão armada. Com isso, incomodou o Palácio e provocou aquela que considero a mais relevante manifestação pública de todo o governo Cid Gomes (PSB) na área da segurança. Importante pela autocrítica sobre o caráter inaceitável do avanço da criminalidade, pela preocupação em prestar contas. E pela reação. Ao mesmo tempo em que afirma respeitar e considerar bem-vindo o movimento, o Estado aponta infiltração de “grupos partidários e marginais”, em “manifestação da corrupção e do oportunismo que ainda grassam na vida pública brasileira”. Além disso, pede aos participantes que não levem crianças, alerta para o risco de inocentes saírem feridos “ou mesmo sofrer algo mais grave”. E informa que fez “apelo” para que Tribunal de Justiça, Ministério Público e Assembleia Legislativa enviem representantes para monitorar o ato, “com o objetivo de garantir a tranquilidade e a integridade física dos manifestantes”.
Creio sinceramente nas boas intenções de um lado e outro. Acredito que os manifestantes, ao menos em sua esmagadora maioria, estão, sim, preocupados com os índices de criminalidade e buscam soluções, acima de tudo. Também penso que o Palácio da Abolição tem objetivo de evitar problemas durante a manifestação, quero crer que tem informações objetivas e confiáveis para fazer as acusações que fez e tenho certeza de que deseja obsessivamente resolver essa crise da segurança. Contudo, o método de ambos os lados não poderia ser pior. O uso político do medo remete aos anos mais sombrios dos totalitarismos de várias vertentes, às mais funestas experiências políticas da história humana. Talvez nessa forma de embate esteja o perigo maior.
PSICANÁLISE, POLÍTICA E MEDO
No livro A paranoia do soberano (Editora Vozes, 2000), o psicanalista e militante político Valton Miranda trata daquilo que denomina “gigantesca estrutura de paranoia coletiva” organizada em torno do medo na política. “O pânico não é, senão, o susto que não pôde ser pensado, refletido e dominado. O medo, nesse nível, sempre foi, conforme a historiografia social e política, um instrumento fundamental cujo manejo as autocracias de ontem e de hoje articulam politicamente e que, na atualidade, ganhou uma dimensão tecnológico-comunicacional. Dessa forma, é possível afirmar que o medo habita o inconsciente arquetípico, surge nos primórdios da infância, revigora-se no contexto social através da suposição básica de luta-fuga, adquire uma composição estrutural do corpo psicopatológico da paranoia e, finalmente, fica à disposição do Estado e do Soberano, conforme Maquiavel constatou brilhantemente”. Essa presença do medo como ferramenta de poder tem caráter eminentemente conservador, conforme prossegue Valton Miranda. “(...) a política tecnológica estimula a fobia (...) para que o medo funcione como verdadeira barreira eletrônico-comunicacional contra a mudança radical do sistema político vigente”.
O PAVOR COMO INSTRUMENTO DA INSEGURANÇA
O medo contribui para a insegurança. Como descreve Elias Canetti, em Massa e poder (Companhia das Letras, 2005), “as pessoas trancam-se em casas que ninguém pode adentrar, somente nelas sentindo-se mais ou menos seguras”. Cria-se aversão ao contato com o estranho, que se converte em paranoia. Tal processo tem relação, claro, com a criminalidade. Mas, também, com a forma como se reage a ela. Esse mecanismo não é apenas nem principalmente racional. Todavia, qualquer resposta efetiva à crise na segurança pública passa pelo enfrentamento desse medo atávico.
É necessário estancar o pavor. Sobretudo, é preciso ocupar a cidade. A pior resposta à violência é a reclusão. É imperativo ir às ruas, tomar as calçadas, multiplicar espaços e experiências de convivência. Não fugir de estranhos, não se render ao pânico. Sem querer abrir debate sobre a primazia do ovo sobre a galinha ou vice-versa, não é completamente verdade que as pessoas se fecharam porque a cidade se tornou violenta. Os crimes também avançaram porque espaços coletivos foram abandonados, num círculo vicioso nem sempre iniciados pela insegurança concreta, mas, por vezes, pela sensação coletiva de desamparo. A melhor resposta é não desistir, não recuar e tornar Fortaleza, em plenitude, cada vez mais nossa.
http://www.opovo.com.br/app/colunas/politica/2013/06/12/noticiaspoliticacoluna,3072975/contra-o-pavor-ocupemos-a-cidade.shtml
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sexta-feira, 14 de junho de 2013
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Pré-Carnaval e a cidade reclusa
Por Érico Firmo
O que de mais importante o Pré-Carnaval propicia para Fortaleza talvez nem seja a alegria de quem brinca - embora seja essa sua razão de existir e aquilo que lhe confere vigor. Também não é o aspecto econômico o mais valioso. A relevância nessa área é crescente, de fato. Não só na microeconomia que movimenta. A presença de turistas cresce a cada sábado. Embora sem adequado trabalho específico dos órgãos de turismo, há gente de outros estados que programa viagens já de olho no mais longo período de festas da Capital. Quem está por aqui a passeio nessa época dificilmente deixa de conferir. Mal comparando – pois há abismo intransponível entre a tradição consolidada de uma e o histórico recente de outra – é como ir a Salvador em janeiro e não assistir à festa do Senhor do Bonfim. O potencial é muito maior do que se aproveita hoje. Ainda assim, o peso já é considerável. Mas não é o fundamental. Talvez o que de mais precioso o Pré-Carnaval represente para Fortaleza seja a reconstrução dos laços do povo com os locais públicos da cidade.
A CIDADE COMO LOCAL DE PASSAGEM
Ao longo das últimas décadas, os espaços de uso coletivo gradualmente se converteram em ponto de passagem. Transita-se por eles, apenas e tão-só. Claro que há exceções. Como regra, todavia, é no carro que hoje a classe média e a alta estabelecem a mais intensa relação cotidiana com Fortaleza. Lugares antes de convivência perderam tal característica. Restringem-se hoje a pontos de ligação. A calçada, que recebia cadeiras e era espaço dos encontros e brincadeiras das vizinhanças, hoje normalmente é mero local para trânsito de pedestres. Ficam vazias a maior parte do dia nas áreas nobres – onde andar pela rua é apenas esporte. Ao crescer, a cidade se tornou mais perigosa, hostil, fria e indiferente. Com isso, fechou-se nos espaços particulares. Praticamente todo o lazer é privado: no shopping, no restaurante, na boate, no cinema – que, aliás, ficou ainda mais recluso, ao sair da rua para dentro também dos shoppings. No máximo, a interação com o espaço externo, no lazer, costuma se dar nos bares que ocupam calçadas ao arrepio da lei. O assunto foi abordado na revista publicada pelo O POVO no aniversário de Fortaleza de dois anos atrás, em 13 de abril de 2010. Na ocasião, a dimensão do problema foi exposta pelo sociólogo Mateus Perdigão. “Mesmo com a praia, que é um espaço público, a gente só se relaciona de forma privada: não vai à praia, vai para uma barraca de praia”, apontou à época. Mateus é mestre em sociologia e, também músico do “Luxo da Aldeia” – provavelmente o mais original dos blocos que se apresentarão até fevereiro. Pois é justamente a subversão dessa antítese de cidade que o Pré traz de mais valioso para Fortaleza. O reencontro se dá, sobretudo, em espaços referenciais, como Praia de Iracema e Centro – mas não apenas. A cidade começou a se redescobrir coletiva no Pré-Carnaval. Isso não pode se perder.
VÍTIMA DO SUCESSO
Normalmente, as coisas acabam porque não dão certo. Em Fortaleza, são recorrentes exemplos daquilo que chega ao fim porque dá certo demais. No Pré-Carnaval, começa a ficar longo o cortejo fúnebre de blocos extintos, vejam só, pelo excesso de público. O mais emblemático caso talvez tenha sido o histórico “Quem é de bem fica”, nos anos 90. No começo da década passada, deu-se o mesmo na festa na rua Lauro Maia. O “Concentra, mas não sai” teve de deixar o Mercado dos Pinhões por não mais comportar a multidão. O amigo Magela Lima, em artigo aqui no O POVO, na segunda-feira, comparou a festa fortalezense ao Galo da Madrugada, de Recife (PE). O maior bloco de Carnaval do mundo sai numa cidade quase um milhão de habitantes menor que Fortaleza. Caso fosse aqui, não teria completado um terço de seus 34 anos. A mesma coisa teria acontecido se o Carnaval de Salvador ou do Rio de Janeiro fosse realizado na capital cearense. A festa crescer não é ruim: é ótimo. O transtorno é decorrência óbvia de qualquer grande evento. Lembra quando, há mais de dez anos, a cidade recebeu reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)? Um monte de vias foram fechadas, aulas foram canceladas. Mas se julgou que valia à pena. E espera só para ver como ficará Fortaleza em dia de jogo da Copa do Mundo de 2014. A confusão causada é natural e óbvia. O que é necessário é se preparar para ela. A falta de segurança denunciada é criminosa. Os blocos estão certos em reclamar e ameaçar adotar atitudes extremas. A festa não precisa de mártires. As pessoas fazem o Pré com paixão, mas não estão dispostas a correr riscos desnecessários e evitáveis – no que estão cobertas de razão. E esse é apenas o mais grave problema. Os banheiros químicos, por exemplo, passam longe de atender à demanda, o que transforma a Praia de Iracema num grande e fétido banheiro a céu aberto. Com um pouquinho mais de organização, o evento poderá crescer muito mais, para virar referência nacional e, talvez, até fora do País. O poder público deu empurrão lá atrás, que tornou esse fenômeno realidade. Agora, precisa ir além. Jogar por terra esse potencial é impensável e inadmissível.
Também é necessário rever a gestão dos blocos. É natural que os organizadores fiquem apavorados com o gigantismo que as coisas tomam. Mas quem faz festa na rua deve estar preparado para isso. Caso contrário, melhor receber os amigos no quintal de casa. É evidente, por outro lado, que agremiações tímidas, a princípio, não estarão gerencialmente preparadas para esse crescimento. É preciso suporte – óbvio que àqueles que desejem. A maioria pretendia apenas reunir um pequeno grupo e, de repente, percebeu que o evento adquiriu proporções descomunais. O que significa muito mais trabalho e responsabilidade. Ninguém é forçado a arcar com isso. Nesse caso, o destino é o fim de tais blocos. Mas, aos que pretendem ir em frente e desbravar o potencial possível da festa, é fundamental reestruturar o aspecto gerencial. Também aí, o suporte do poder público é crucial.
http://www.opovo.com.br/app/colunas/politica/2012/01/27/noticiaspoliticacoluna,2774096/pre-carnaval-e-a-cidade-reclusa.shtml
O que de mais importante o Pré-Carnaval propicia para Fortaleza talvez nem seja a alegria de quem brinca - embora seja essa sua razão de existir e aquilo que lhe confere vigor. Também não é o aspecto econômico o mais valioso. A relevância nessa área é crescente, de fato. Não só na microeconomia que movimenta. A presença de turistas cresce a cada sábado. Embora sem adequado trabalho específico dos órgãos de turismo, há gente de outros estados que programa viagens já de olho no mais longo período de festas da Capital. Quem está por aqui a passeio nessa época dificilmente deixa de conferir. Mal comparando – pois há abismo intransponível entre a tradição consolidada de uma e o histórico recente de outra – é como ir a Salvador em janeiro e não assistir à festa do Senhor do Bonfim. O potencial é muito maior do que se aproveita hoje. Ainda assim, o peso já é considerável. Mas não é o fundamental. Talvez o que de mais precioso o Pré-Carnaval represente para Fortaleza seja a reconstrução dos laços do povo com os locais públicos da cidade.
A CIDADE COMO LOCAL DE PASSAGEM
Ao longo das últimas décadas, os espaços de uso coletivo gradualmente se converteram em ponto de passagem. Transita-se por eles, apenas e tão-só. Claro que há exceções. Como regra, todavia, é no carro que hoje a classe média e a alta estabelecem a mais intensa relação cotidiana com Fortaleza. Lugares antes de convivência perderam tal característica. Restringem-se hoje a pontos de ligação. A calçada, que recebia cadeiras e era espaço dos encontros e brincadeiras das vizinhanças, hoje normalmente é mero local para trânsito de pedestres. Ficam vazias a maior parte do dia nas áreas nobres – onde andar pela rua é apenas esporte. Ao crescer, a cidade se tornou mais perigosa, hostil, fria e indiferente. Com isso, fechou-se nos espaços particulares. Praticamente todo o lazer é privado: no shopping, no restaurante, na boate, no cinema – que, aliás, ficou ainda mais recluso, ao sair da rua para dentro também dos shoppings. No máximo, a interação com o espaço externo, no lazer, costuma se dar nos bares que ocupam calçadas ao arrepio da lei. O assunto foi abordado na revista publicada pelo O POVO no aniversário de Fortaleza de dois anos atrás, em 13 de abril de 2010. Na ocasião, a dimensão do problema foi exposta pelo sociólogo Mateus Perdigão. “Mesmo com a praia, que é um espaço público, a gente só se relaciona de forma privada: não vai à praia, vai para uma barraca de praia”, apontou à época. Mateus é mestre em sociologia e, também músico do “Luxo da Aldeia” – provavelmente o mais original dos blocos que se apresentarão até fevereiro. Pois é justamente a subversão dessa antítese de cidade que o Pré traz de mais valioso para Fortaleza. O reencontro se dá, sobretudo, em espaços referenciais, como Praia de Iracema e Centro – mas não apenas. A cidade começou a se redescobrir coletiva no Pré-Carnaval. Isso não pode se perder.
VÍTIMA DO SUCESSO
Normalmente, as coisas acabam porque não dão certo. Em Fortaleza, são recorrentes exemplos daquilo que chega ao fim porque dá certo demais. No Pré-Carnaval, começa a ficar longo o cortejo fúnebre de blocos extintos, vejam só, pelo excesso de público. O mais emblemático caso talvez tenha sido o histórico “Quem é de bem fica”, nos anos 90. No começo da década passada, deu-se o mesmo na festa na rua Lauro Maia. O “Concentra, mas não sai” teve de deixar o Mercado dos Pinhões por não mais comportar a multidão. O amigo Magela Lima, em artigo aqui no O POVO, na segunda-feira, comparou a festa fortalezense ao Galo da Madrugada, de Recife (PE). O maior bloco de Carnaval do mundo sai numa cidade quase um milhão de habitantes menor que Fortaleza. Caso fosse aqui, não teria completado um terço de seus 34 anos. A mesma coisa teria acontecido se o Carnaval de Salvador ou do Rio de Janeiro fosse realizado na capital cearense. A festa crescer não é ruim: é ótimo. O transtorno é decorrência óbvia de qualquer grande evento. Lembra quando, há mais de dez anos, a cidade recebeu reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)? Um monte de vias foram fechadas, aulas foram canceladas. Mas se julgou que valia à pena. E espera só para ver como ficará Fortaleza em dia de jogo da Copa do Mundo de 2014. A confusão causada é natural e óbvia. O que é necessário é se preparar para ela. A falta de segurança denunciada é criminosa. Os blocos estão certos em reclamar e ameaçar adotar atitudes extremas. A festa não precisa de mártires. As pessoas fazem o Pré com paixão, mas não estão dispostas a correr riscos desnecessários e evitáveis – no que estão cobertas de razão. E esse é apenas o mais grave problema. Os banheiros químicos, por exemplo, passam longe de atender à demanda, o que transforma a Praia de Iracema num grande e fétido banheiro a céu aberto. Com um pouquinho mais de organização, o evento poderá crescer muito mais, para virar referência nacional e, talvez, até fora do País. O poder público deu empurrão lá atrás, que tornou esse fenômeno realidade. Agora, precisa ir além. Jogar por terra esse potencial é impensável e inadmissível.
Também é necessário rever a gestão dos blocos. É natural que os organizadores fiquem apavorados com o gigantismo que as coisas tomam. Mas quem faz festa na rua deve estar preparado para isso. Caso contrário, melhor receber os amigos no quintal de casa. É evidente, por outro lado, que agremiações tímidas, a princípio, não estarão gerencialmente preparadas para esse crescimento. É preciso suporte – óbvio que àqueles que desejem. A maioria pretendia apenas reunir um pequeno grupo e, de repente, percebeu que o evento adquiriu proporções descomunais. O que significa muito mais trabalho e responsabilidade. Ninguém é forçado a arcar com isso. Nesse caso, o destino é o fim de tais blocos. Mas, aos que pretendem ir em frente e desbravar o potencial possível da festa, é fundamental reestruturar o aspecto gerencial. Também aí, o suporte do poder público é crucial.
http://www.opovo.com.br/app/colunas/politica/2012/01/27/noticiaspoliticacoluna,2774096/pre-carnaval-e-a-cidade-reclusa.shtml
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Urna para eleitores do PSOL no segundo turno
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Os mais votados em Fortaleza - por Érico Firmo
Por Érico Firmo
Os deputados federais mais votados em Fortaleza
Artur Bruno (PT) – 91.430 – 8,13%
Renato Roseno (PSOL) – 90.073 – 8,01%
Edson Silva (PSB) – 88.200 – 7,84%
Chico Lopes (PCdoB) – 62.605 – 5,57%
Eudes Xavier (PT) – 62.512 – 5,56%
Caminha (PHS) – 42.285 – 3,76%
Andre Figueiredo (PDT) – 41.733 – 3,71%
Walter Cavalcante (PHS) – 40.498 – 3,6%
Flávio Bezerra (PRB) – 37.830 – 3,36%
Joao Ananias (PCdoB) – 32.986 – 2,93%
Os deputados estaduais mais votados de Fortaleza:
Heitor Ferrer (PDT) – 42.321 – 3,68%
Patrícia (PDT) – 36.117 – 3,14%
Dr Hugo (PSDB) – 31.715 – 2,76%
Ronaldo Martins (PRB) – 31.226 – 2,71%
Eliane Novais (PSB) – 30.873 – 2,68%
Ferreira Aragao (PDT) – 30.126 – 2,62%
Roberto Mesquita (PV) – 29.175 – 2,54%
João Alfredo (PSOL) – 25.696 – 2,23%
Tin Gomes (PHS) – 25.122 – 2,18%
Evandro Leitao (PDT) – 24.104 – 2,09%
domingo, 26 de setembro de 2010
Os palhaços e a anarquia política - Érico Firmo
Você deve ter visto e, se não, deveria ver. Em uma das cenas, dá-se o seguinte. O palhaço se dirige a seu perplexo interlocutor. “Se você introduz um pouco de anarquia, perturba a ordem vigente e tudo se torna caos”. E acrescente: “Eu sou o agente do caos”. O personagem em questão é o Coringa, vivido pelo saudoso Heath Ledger, no filme Batman, o cavaleiro das trevas. Ele fala ao promotor Harvey Dent, o Duas Caras, sobre seu método de subverter o planejado, interromper o previsto.
Não sei, mas talvez seja algo que tenha a ver com os palhaços. O discurso sócio-anárquico do vilão de Batman ajuda a lançar um olhar sobre o mais pitoresco fenômeno dessas eleições: o também palhaço Tiririca. Não que o cearense de Itapipoca tenha qualquer relação, até onde se saiba, com metralhadoras e dinamites. Ou mesmo que tenha a eloquência do personagem de Ledger para expor seus propósitos. Na verdade, nem se trata de algo, no caso de Tiririca, proposital.
Mas, em sua tentativa de fazer rir e transformar riso em votos, acaba incorporando elementos que “anarquizam” a política, dignos das ideias do Coringa. Tudo intuitivo, na verdade. E o objetivo final é aquele de todos os políticos, até os sem graça: eleger-se. Por isso, não é uma candidatura de protesto, longe disso. É antes uma gozação para atrair simpatia do eleitor. Mas, por linhas tortas, há em Tiririca um pouco de agente involuntário do caos.
O palhaço candidato do PR transforma em piada o que para os demais políticos são cânones do marketing. Tira sarro do que os colegas – os candidatos, nesse caso – dizem com ar solene no horário eleitoral. Entre seus discursos mais famosos, diz que não faz ideia do que é o trabalho ao qual se candidata.
Fala ainda, de peito aberto, sobre a intenção de se eleger para ajudar sua família. Sua campanha e uma grande chacota. Os eleitores parecem estar adorando, embora ele não seja capaz de apresentar ao um motivo razoável sequer para se votar nele – com exceção, talvez, de quando diz: “Vote em mim senão eu vou morrer”.
Provavelmente não haja melhor exemplo da chacota com o que para os outros é estratégia muito bem planejada que quando colocou no ar um casal fantasiado de palhaços, que apresenta como seus pais. “Todo mundo está mostrando sua família, as pessoas se comovem com família na televisão”, provoca.
Enquanto muita gente se diverte e alguns espertalhões tentam se aproveitar da sua popularidade, a candidatura de Tiririca causa reações preocupadas de muita gente. Outro dia, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que a postura do humorista é “deboche com a democracia”.
Engana-se o ministro. Debocha com a democracia quem já pratica o nepotismo por aí afora, mesmo sem aparecer na TV dizendo isso. Debocha da democracia a legião de picaretas que faz discurso empolado, mas cujas práticas são a personificação do atraso. Tiririca faz rir e ganha simpatia porque ironiza aspectos muito reais da vida pública brasileira. O problema está na realidade, não em quem faz dela piada.
Jamais votaria em um candidato como Tiririca e tampouco este colunista acredita que “pior que está não fica”, como ele afirma. Convém sempre não subestimar essa gente.Daí a transformar Tiririca em retrato da decadência política brasileira... Teve gente que chegou antes dele para assumir esse lugar.
Cadê a campanha?Há um tipo de campanha que virou espécie em extinção, rara feito mula-sem-cabeça e político que não faz casuísmo. Sumiram os adesivos em carros. Não os extravagantes, que ganham as ruas mediante uns trocados pagos pelos comitês. Esses são cada vez mais comuns, vistosos e feios. Estão em toda parte.
Mas sumiram aqueles adesivos pequenos, mais discretos, que costumavam estar na maioria dos veículos em épocas de eleição. Era o apoio espontâneo.Diferentemente dos outdoors disfarçados, que tomam toda a traseira ou, às vezes, cobrem o carro inteiro. Prática esta última que vem sendo até coibida pelas autoridades eleitorais. Um tipo de campanha que o cidadão comum, em regra, não colocaria de jeito nenhum no próprio carro, salvo se o candidato fosse a própria mãe, o próprio filho, ou se estivesse lhe pagando bem. Não necessariamente nesta ordem.
Érico Firmoericofirmo@opovo.com.br
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