por Luis Nassif
Fala-se muito na ausência de Estadistas nos diversos poderes da República e nos diversos partidos políticos. Por tal, definem-se aquelas pessoas com visão clara sobre um futuro incerto, que se propõem a construir as bases para a nova era, desviando-se das armadilhas do curto prazo.
Faltou Estadista na mídia.
Ontem, dois diretores de redação procederam a uma autocrítica tardia dos abusos cometidos na Lava Jato. Admitiram que foram a reboque dos vazamentos, que assassinaram reputações de inocentes e que não cumpriram o papel de filtros da informação.
Lembro-me do longínquo 1999, na CPI dos Precatórios. Embora de modo mesmo intenso, havia um vazamento escancarado de informações, de todos os lados, sem que houvesse uma estratégia de cobertura, com cada veículo querendo dar seu furo e comendo nas mãos das fontes.
O principal responsável pelo golpe, ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, conseguia passar incólume pelo noticiário. Desenvolvi uma narrativa à parte da cobertura, juntei peças que estavam soltas e, remontado o quadro, aparecia nitidamente o papel de Maluf.
A não ser o caso do jornalista Fernando Rodrigues, que saiu nitidamente em defesa do ex-prefeito, tentando desqualificar as evidências que apontavam para ele, o restante da blindagem era fruto exclusivo da falta de preparo da cobertura. Narro essa guerra jornalística no meu “O jornalismo dos anos 90”.
Instado por Otávio Frias Filho, apresentei internamente sugestões para coberturas desse tipo.
O primeiro passo seria criar uma Sala de Situação, com jornalistas experientes, na redação, fora do calor das batalhas diárias, juntando as informações e planejando a cobertura. O grande desafio seria montar uma narrativa inicial, plausível, uma espécie de fio de Ariadne que ajudasse a cobertura a se localizar nos labirintos da notícia.
Depois, ir juntando informações em torno da hipótese inicial, com suficiente discernimento e flexibilidade para mudá-la, caso os fatos levassem a isso. Se fugiria da armadilha de procuradores que se tornam prisioneiros da narrativa inicial e passam a enfiar provas a marteladas para manterem a coerência com o errado.
No caso da Lava Jato houve mais do que essa falta de competência da cobertura da mídia. Havia o propósito político claro de usar as informações como armas de guerra. Não apenas na Lava Jato, mas em toda cobertura jornalística desde 2005. Era óbvio que, no mar de notícias fake que se seguiu à ampliação das redes sociais, a grande estratégia do jornalismo seria o filtro. Preferiam ser os alavancadores das falsas notícias.
Em qualquer grande país, há um grande jornal de centro-esquerda, outro de centro-direita, mas ambos respeitando integralmente a notícia. O respeito à notícia faz parte das qualidades intrínsecas do jornalismo, como gelar é função da geladeira, cozinhar do fogão. A geladeira pode ter mil badulaques. Mas sua qualidade intrínseca é de gelar. Os veículos podem ter linhas políticas distintas. Mas sua qualidade intrínseca é bem informar.
Tudo isso foi deixado de lado. Agora se tem esse desafio inglório de divulgar pesquisas para tentar explicar ao leitor que o jornalismo pátrio é o remédio contra as fakenews.
Que jornalismo? O que anunciou a invasão das FARCS no Brasil, os dólares de Cuba remetidos em garrafas de rum, a ficha falsa de Dilma, o respeitado assessor que não passava de um pequeno estelionatário, o esgoto diário e semanal despejado sobre o país durante tanto tempo?
Por trás do macartismo enlouquecido, praticou-se toda sorte de jogadas. E, como não existe Estadista na mídia, permitiu-se, nesse período, a consolidação final do poderio da Globo.
Enquanto jornais transformavam blogs em seus adversários preferenciais, a Globo abocanhava parcelas cada vez maiores da publicidade das estatais.
Hoje se tem essa situação humilhante, dos jornais equilibristas. Na reportagem, denúncias contra Michel Temer, para impedir a desmoralização final dos veículos. Nos editoriais, apoio, para impedir o corte de publicidade.
Ainda vai levar algum tempo para perceberem que os maiores defensores do jornalismo foram os jornalistas que denunciaram essas distorções monumentais, que acabaram por liquidar com a credibilidade do jornalismo pátrio. Mas que só conseguiram externá-las longe dos jornais. O pluralismo dos anos 90 tinha se transformado em muralha intransponível.
https://jornalggn.com.br/noticia/o-duro-acerto-de-contas-da-midia-com-ela-mesma-por-luis-nassif
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Por que decidi processar Gilmar Mendes
Por Luis Nassif
O Ministro Gilmar Mendes me processou, um daqueles processos montados apenas para roubar tempo e recursos do denunciado. Eu poderia ter ficado na resposta bem elaborada do meu competente advogado Percival Maricatto.
Mas resolvi ir além.
Recorri ao que em Direito se chama de "reconvenção", o direito de processar quem me processa.
A razão foram ofensas graves feitas por ele na sessão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na qual não conseguiu levar adiante a tentativa canhestra de golpe paraguaio, através da rejeição das contas de campanha de Dilma Rousseff.
Todo o percurso anterior foi na direção da rejeição, inclusive os pareceres absurdos dos técnicos do TSE tratando como falta grave até a inclusão de trituradores de papel na categoria de bens não duráveis.
Não conseguiu atingir seu propósito graças ao recuo do Ministro Luiz Fux, que não aceitou avalizar sua manobra. Ele despejou sua ira impotente sobre mim, valendo-se de um espaço público nobre: a tribuna do TSE.
“Certamente quem lucrou foram os blogs sujos, que ficaram prestando um tamanho desserviço. Há um caso que foi demitido da Folha de S. Paulo, em um caso conhecido porque era esperto demais, que criou uma coluna 'dinheiro vivo', certamente movida a dinheiro (...) Profissional da chantagem, da locupletação financiado por dinheiro público, meu, seu e nosso! Precisa ser contado isso para que se envergonhe. Um blog criado para atacar adversários e inimigos políticos! Mereceria do Ministério Público uma ação de improbidade, não solidariedade”.
O que mereceria uma ação de improbidade é o fato de um Ministro do STF ser dono de um Instituto que é patrocinado por empresas com interesses amplos no STF em ações que estão sujeitas a serem julgadas por ele. Dentre elas, a Ambev, Light, Febraban, Bunge, Cetip, empresas e entidades com interesses no STF.
Não foi o primeiro ato condenável na carreira de Gilmar. Seu facciosismo, a maneira como participou de alguns dos mais deploráveis factoides jornalísticos, a sem-cerimônia com que senta em processos, deveriam ser motivo de vergonha para todos os que apostam na construção de um Brasil moderno. Gilmar é uma ofensa à noção de país civilizado, tanto quanto Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal.
A intenção do processo foi responder às suas ofensas. Mais que isso: colocar à prova a crença de que não existem mais intocáveis no país. É um cidadão acreditando na independência de um poder, apostando ser possível a um juiz de primeira instância em plena capital federal não se curvar à influência de um Ministro do STF vingativo e sem limites.
Na resposta, Gilmar nega ter se referido a mim. Recua de forma pusilânime.
“o Reconvindo sequer faz referência ao nome do Reconvinte, sendo certo que as declarações foram direcionadas contra informações difamatórias usualmente disseminadas por setores da mídia, dentro dos quais o Reconvinte espontaneamente se inclui”.
Como se houvesse outro blog de um jornalista que trabalhou na Folha, tem uma empresa de nome Agência Dinheiro Vivo e denunciou o golpe paraguaio que pretendeu aplicar na democracia brasileira.
A avaliação do dano não depende apenas da dimensão da vítima, mas também do agressor. E quando o agressor é um Ministro do Supremo Tribunal Federal, que pratica a agressão em uma tribuna pública - o Tribunal Superior Eleitoral - em uma cerimônia transmitida para todo o país por emissoras de televisão, na verdade, ele deveria ser alvo de um processo maior, do servidor que utiliza a esfera pública para benefício pessoal.
http://jornalggn.com.br/noticia/porque-decidi-processar-gilmar-mendes
O Ministro Gilmar Mendes me processou, um daqueles processos montados apenas para roubar tempo e recursos do denunciado. Eu poderia ter ficado na resposta bem elaborada do meu competente advogado Percival Maricatto.
Mas resolvi ir além.
Recorri ao que em Direito se chama de "reconvenção", o direito de processar quem me processa.
A razão foram ofensas graves feitas por ele na sessão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na qual não conseguiu levar adiante a tentativa canhestra de golpe paraguaio, através da rejeição das contas de campanha de Dilma Rousseff.
Todo o percurso anterior foi na direção da rejeição, inclusive os pareceres absurdos dos técnicos do TSE tratando como falta grave até a inclusão de trituradores de papel na categoria de bens não duráveis.
Não conseguiu atingir seu propósito graças ao recuo do Ministro Luiz Fux, que não aceitou avalizar sua manobra. Ele despejou sua ira impotente sobre mim, valendo-se de um espaço público nobre: a tribuna do TSE.
“Certamente quem lucrou foram os blogs sujos, que ficaram prestando um tamanho desserviço. Há um caso que foi demitido da Folha de S. Paulo, em um caso conhecido porque era esperto demais, que criou uma coluna 'dinheiro vivo', certamente movida a dinheiro (...) Profissional da chantagem, da locupletação financiado por dinheiro público, meu, seu e nosso! Precisa ser contado isso para que se envergonhe. Um blog criado para atacar adversários e inimigos políticos! Mereceria do Ministério Público uma ação de improbidade, não solidariedade”.
O que mereceria uma ação de improbidade é o fato de um Ministro do STF ser dono de um Instituto que é patrocinado por empresas com interesses amplos no STF em ações que estão sujeitas a serem julgadas por ele. Dentre elas, a Ambev, Light, Febraban, Bunge, Cetip, empresas e entidades com interesses no STF.
Não foi o primeiro ato condenável na carreira de Gilmar. Seu facciosismo, a maneira como participou de alguns dos mais deploráveis factoides jornalísticos, a sem-cerimônia com que senta em processos, deveriam ser motivo de vergonha para todos os que apostam na construção de um Brasil moderno. Gilmar é uma ofensa à noção de país civilizado, tanto quanto Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal.
A intenção do processo foi responder às suas ofensas. Mais que isso: colocar à prova a crença de que não existem mais intocáveis no país. É um cidadão acreditando na independência de um poder, apostando ser possível a um juiz de primeira instância em plena capital federal não se curvar à influência de um Ministro do STF vingativo e sem limites.
Na resposta, Gilmar nega ter se referido a mim. Recua de forma pusilânime.
“o Reconvindo sequer faz referência ao nome do Reconvinte, sendo certo que as declarações foram direcionadas contra informações difamatórias usualmente disseminadas por setores da mídia, dentro dos quais o Reconvinte espontaneamente se inclui”.
Como se houvesse outro blog de um jornalista que trabalhou na Folha, tem uma empresa de nome Agência Dinheiro Vivo e denunciou o golpe paraguaio que pretendeu aplicar na democracia brasileira.
A avaliação do dano não depende apenas da dimensão da vítima, mas também do agressor. E quando o agressor é um Ministro do Supremo Tribunal Federal, que pratica a agressão em uma tribuna pública - o Tribunal Superior Eleitoral - em uma cerimônia transmitida para todo o país por emissoras de televisão, na verdade, ele deveria ser alvo de um processo maior, do servidor que utiliza a esfera pública para benefício pessoal.
http://jornalggn.com.br/noticia/porque-decidi-processar-gilmar-mendes
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Banco Mundial e SUS: o que você só vê na mídia
Eduardo Fagnani
A manchete da primeira página da Folha (9/12/13) não deixa margem à dúvida: “Ineficiência marca gestão do SUS, diz Banco Mundial”. A matéria destaca que essa é “uma das conclusões de relatório inédito obtido com exclusividade pela Folha”. Aos desavisados a mensagem subliminar é clara: o SUS é um fracasso e o Ministro da Saúde, incompetente.
A curta matéria da suposta avaliação do Banco Mundial sobre vinte anos do SUS é atravessada de “informações” sobre desorganização crônica, financiamento insuficiente, deficiências estruturais, falta de racionalidade do gasto, baixa eficiência da rede hospitalar, subutilização de leitos e salas cirúrgicas, taxa média de ocupação reduzida, superlotação de hospitais de referência, internações que poderiam ser feitas em ambulatórios, falta de investimentos em capacitação, criação de protocolos e regulação de demanda, entre outras.
Desconfiado, entrei no site do Banco Mundial e consegui acesso ao “inédito” documento “exclusivo”**. Para meu espanto, consultando as conclusões da síntese (Overview), deparei-me com a seguinte passagem que sintetiza as conclusões do documento (página 10):
“Nos últimos 20 anos, o Brasil tem obtido melhorias impressionantes nas condições de saúde, com reduções dramáticas mortalidade infantil e o aumento na expectativa de vida. Igualmente importante, as disparidades geográficas e socioeconômicas tornaram-se muito menos pronunciadas. Existem boas razões para se acreditar que o SUS teve importante papel nessas mudanças. A rápida expansão da atenção básica contribuíu para a mudança nos padrões de utilização dos serviços de saúde com uma participação crescente de atendimentos que ocorrem nos centros de saúde e em outras instalações de cuidados primários. Houve também um crescimento global na utilização de serviços de saúde e uma redução na proporção de famílias que tinham problemas de acesso aos cuidados de saúde por razões financeiras. Em suma, as reformas do SUS têm alcançado pelo menos parcialmente as metas de acesso universal e equitativo aos cuidados de saúde (tradução rápida do autor)."
Após ler essa passagem tive dúvidas se havia lido o mesmo documento obtido pela jornalista. Fiz novos testes e cheguei à conclusão que sim. Constatado que estava no rumo certo continuei a ler a avaliação do Banco Mundial e percebí que as críticas são apontadas como “desafios a serem enfrentados no futuro”, visando o aperfeiçoamento do SUS.
Nesse caso, o órgão privilegia cinco pontos, a saber: ampliar o acesso aos cuidados de saúde; melhorar a eficiência e a qualidade dos serviços de saúde; redefinir os papéis e relações entre os diferentes níveis de governo; elevar o nível e a eficácia dos gastos do governo; e, melhorar os mecanismos de informações e monitoramento para o “apoio contínuo da reforma do sistema de saúde” brasileiro.
O Banco Mundial tem razão sobre os desafios futuros, mas acrescenta pouco ao que os especialistas brasileiros têm dito nas últimas décadas. Não obstante, é paradoxal que esses pontos críticos ainda são, de fato, críticos, em grande medida, pela ferrenha oposição que o Banco Mundial sempre fez ao SUS, desde a sua criação em 1988: o sistema universal brasileiro estava na contramão do “Consenso de Washington” e do modelo dos “três pilares” recomendado pelo órgão aos países subdesenvolvidos.*** É preciso advertir aos leitores jovens que, desde o final dos anos de 1980, Banco Mundial sempre foi prejudicial à saúde brasileira.
É uma pena que o debate sobre temas nacionais relevantes – como o sistema público de saúde, por exemplo – seja interditado pela desinformação movida pelo antagonismo das posições políticas, muitas vezes travestido de ódio, que perpassa a sociedade, incluindo a mídia.
Que o espírito reconciliador Mandela ilumine os brasileiros – e o pobre debate nacional.
*Professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT/IE-UNICAMP) e coordenador da rede Plataforma Política Social – Agenda para o Desenvolvimento (www.politicasocial.net.br).
**Twenty Years of Health System Reform in Brazil - An Assessment of the Sistema Único de Saúde. Michele Gragnolati, Magnus Lindelow, and Bernard Couttolenc. Human Development. 2013 International Bank for Reconstruction and Development / The World Bank 1818 H Street NW, Washington DC.
***Consultar, especialmente: BANCO MUNDIAL (1990). World Development Report: Poverty. Washington, D.C; BANCO MUNDIAL (1991). Brasil: novo desafio à saúde do adulto. Washington, D.C. 1991; BANCO MUNDIAL (1993). World Development Report: Investing in Health. Washington, D.C; BANCO MUNDIAL (1994). Envejecimiento sin crisis: Políticas para la protección de los ancianos y la promoción del crecimiento. Washington, D.C; e BANCO MUNDIAL (1995). A Organização, Prestação e Financiamento da Saúde no Brasil: uma agenda para os anos 90. Washington, D.C.
ARQUIVO
banco_mundial-20_anos_da_reforma_do_sistema_de_saude_no_brasil.pdf
A manchete da primeira página da Folha (9/12/13) não deixa margem à dúvida: “Ineficiência marca gestão do SUS, diz Banco Mundial”. A matéria destaca que essa é “uma das conclusões de relatório inédito obtido com exclusividade pela Folha”. Aos desavisados a mensagem subliminar é clara: o SUS é um fracasso e o Ministro da Saúde, incompetente.
A curta matéria da suposta avaliação do Banco Mundial sobre vinte anos do SUS é atravessada de “informações” sobre desorganização crônica, financiamento insuficiente, deficiências estruturais, falta de racionalidade do gasto, baixa eficiência da rede hospitalar, subutilização de leitos e salas cirúrgicas, taxa média de ocupação reduzida, superlotação de hospitais de referência, internações que poderiam ser feitas em ambulatórios, falta de investimentos em capacitação, criação de protocolos e regulação de demanda, entre outras.
Desconfiado, entrei no site do Banco Mundial e consegui acesso ao “inédito” documento “exclusivo”**. Para meu espanto, consultando as conclusões da síntese (Overview), deparei-me com a seguinte passagem que sintetiza as conclusões do documento (página 10):
“Nos últimos 20 anos, o Brasil tem obtido melhorias impressionantes nas condições de saúde, com reduções dramáticas mortalidade infantil e o aumento na expectativa de vida. Igualmente importante, as disparidades geográficas e socioeconômicas tornaram-se muito menos pronunciadas. Existem boas razões para se acreditar que o SUS teve importante papel nessas mudanças. A rápida expansão da atenção básica contribuíu para a mudança nos padrões de utilização dos serviços de saúde com uma participação crescente de atendimentos que ocorrem nos centros de saúde e em outras instalações de cuidados primários. Houve também um crescimento global na utilização de serviços de saúde e uma redução na proporção de famílias que tinham problemas de acesso aos cuidados de saúde por razões financeiras. Em suma, as reformas do SUS têm alcançado pelo menos parcialmente as metas de acesso universal e equitativo aos cuidados de saúde (tradução rápida do autor)."
Após ler essa passagem tive dúvidas se havia lido o mesmo documento obtido pela jornalista. Fiz novos testes e cheguei à conclusão que sim. Constatado que estava no rumo certo continuei a ler a avaliação do Banco Mundial e percebí que as críticas são apontadas como “desafios a serem enfrentados no futuro”, visando o aperfeiçoamento do SUS.
Nesse caso, o órgão privilegia cinco pontos, a saber: ampliar o acesso aos cuidados de saúde; melhorar a eficiência e a qualidade dos serviços de saúde; redefinir os papéis e relações entre os diferentes níveis de governo; elevar o nível e a eficácia dos gastos do governo; e, melhorar os mecanismos de informações e monitoramento para o “apoio contínuo da reforma do sistema de saúde” brasileiro.
O Banco Mundial tem razão sobre os desafios futuros, mas acrescenta pouco ao que os especialistas brasileiros têm dito nas últimas décadas. Não obstante, é paradoxal que esses pontos críticos ainda são, de fato, críticos, em grande medida, pela ferrenha oposição que o Banco Mundial sempre fez ao SUS, desde a sua criação em 1988: o sistema universal brasileiro estava na contramão do “Consenso de Washington” e do modelo dos “três pilares” recomendado pelo órgão aos países subdesenvolvidos.*** É preciso advertir aos leitores jovens que, desde o final dos anos de 1980, Banco Mundial sempre foi prejudicial à saúde brasileira.
É uma pena que o debate sobre temas nacionais relevantes – como o sistema público de saúde, por exemplo – seja interditado pela desinformação movida pelo antagonismo das posições políticas, muitas vezes travestido de ódio, que perpassa a sociedade, incluindo a mídia.
Que o espírito reconciliador Mandela ilumine os brasileiros – e o pobre debate nacional.
*Professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT/IE-UNICAMP) e coordenador da rede Plataforma Política Social – Agenda para o Desenvolvimento (www.politicasocial.net.br).
**Twenty Years of Health System Reform in Brazil - An Assessment of the Sistema Único de Saúde. Michele Gragnolati, Magnus Lindelow, and Bernard Couttolenc. Human Development. 2013 International Bank for Reconstruction and Development / The World Bank 1818 H Street NW, Washington DC.
***Consultar, especialmente: BANCO MUNDIAL (1990). World Development Report: Poverty. Washington, D.C; BANCO MUNDIAL (1991). Brasil: novo desafio à saúde do adulto. Washington, D.C. 1991; BANCO MUNDIAL (1993). World Development Report: Investing in Health. Washington, D.C; BANCO MUNDIAL (1994). Envejecimiento sin crisis: Políticas para la protección de los ancianos y la promoción del crecimiento. Washington, D.C; e BANCO MUNDIAL (1995). A Organização, Prestação e Financiamento da Saúde no Brasil: uma agenda para os anos 90. Washington, D.C.
ARQUIVO
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Nassif X VEJA
Por Luis Nassif
O Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou, agora de manhã, meu direito de resposta na revista Veja.
Quero agradecer o escritório Leonardi & Advogados, de jovens e brilhantes advogados, que reiteraram minha confiança na profissão. Em outras ações da Abril, fui abandonado pelo escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo, Gasparian, dos meus amigos Marco Antonio, Samuel e Thais.
A sentença não apagará os dissabores pelos quais passei, o sofrimento da minha família, o constrangimento de enfrentar acusações falsas disseminadas através de quase um milhão de exemplares pelo país.
Mas ficam dois frutos.
Primeiro, o fato de essa ação provocar a nova jurisprudência sobre direito de resposta - depois que os procedimentos foram vergonhosamente apagados da legislação pelo ex-Ministro Ayres Britto, do STF.
Segundo, minha convicção de dedicar toda minha energia para ajudar a fixar limites contra abusos da mídia. Fiz isso nos anos 90, em campanhas individuais reunidas no livro "O jornalismo dos anos 90". Vítima do que sempre denunciei, senti na pele o que sentiram milhares de pessoas, cuja reputação virou joguete nas mãos de uma mídia que há muito perdeu todos os filtros.
Por Fernanda Pascale
Caro Nassif,
Tenho a satisfação de comunicar que fomos vitoriosos no julgamento da apelação interposta pela Editora Abril contra a sentença que lhe assegurou o direito de resposta contra a Revista Veja, em relação à coluna escrita por Diogo Mainardi.
O advogado da Editora Abril, Dr. Jorge, e eu, Dra. Fernanda, fizemos sustentação oral.
Eu ressaltei para os Desembargadores os principais pontos do caso, reforçando o que já havia constado nos Memoriais apresentados no final da semana passada. Enfatizei, especialmente, a garantia constitucional do direito de resposta e destaquei a relevância do tema após o fim da Lei de Imprensa no Brasil.
Após uma sessão de julgamento de pouco mais de 2 horas, os três Desembargadores, de forma unânime, votaram pelo reconhecimento de seu direito resposta contra a Revista Veja e selecionaram a decisão para constar como jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, dada a importância do precedente.
A Editora Abril ainda pode recorrer aos tribunais superiores em Brasília. Vamos acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Assim que o acórdão estiver disponível, enviaremos cópia.
Atenciosamente,
Fernanda Pascale
O Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou, agora de manhã, meu direito de resposta na revista Veja.
Quero agradecer o escritório Leonardi & Advogados, de jovens e brilhantes advogados, que reiteraram minha confiança na profissão. Em outras ações da Abril, fui abandonado pelo escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo, Gasparian, dos meus amigos Marco Antonio, Samuel e Thais.
A sentença não apagará os dissabores pelos quais passei, o sofrimento da minha família, o constrangimento de enfrentar acusações falsas disseminadas através de quase um milhão de exemplares pelo país.
Mas ficam dois frutos.
Primeiro, o fato de essa ação provocar a nova jurisprudência sobre direito de resposta - depois que os procedimentos foram vergonhosamente apagados da legislação pelo ex-Ministro Ayres Britto, do STF.
Segundo, minha convicção de dedicar toda minha energia para ajudar a fixar limites contra abusos da mídia. Fiz isso nos anos 90, em campanhas individuais reunidas no livro "O jornalismo dos anos 90". Vítima do que sempre denunciei, senti na pele o que sentiram milhares de pessoas, cuja reputação virou joguete nas mãos de uma mídia que há muito perdeu todos os filtros.
Por Fernanda Pascale
Caro Nassif,
Tenho a satisfação de comunicar que fomos vitoriosos no julgamento da apelação interposta pela Editora Abril contra a sentença que lhe assegurou o direito de resposta contra a Revista Veja, em relação à coluna escrita por Diogo Mainardi.
O advogado da Editora Abril, Dr. Jorge, e eu, Dra. Fernanda, fizemos sustentação oral.
Eu ressaltei para os Desembargadores os principais pontos do caso, reforçando o que já havia constado nos Memoriais apresentados no final da semana passada. Enfatizei, especialmente, a garantia constitucional do direito de resposta e destaquei a relevância do tema após o fim da Lei de Imprensa no Brasil.
Após uma sessão de julgamento de pouco mais de 2 horas, os três Desembargadores, de forma unânime, votaram pelo reconhecimento de seu direito resposta contra a Revista Veja e selecionaram a decisão para constar como jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, dada a importância do precedente.
A Editora Abril ainda pode recorrer aos tribunais superiores em Brasília. Vamos acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Assim que o acórdão estiver disponível, enviaremos cópia.
Atenciosamente,
Fernanda Pascale
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
O Supremo abriu a Caixa de Pandora
O Estadão não se pronunciou em editorial. A Folha condenou a atitude do Supremo. Parece que o Globo não se pronunciou.
As razões ficarão mais claras no decorrer da leitura desse artigo. Abriu-se uma Caixa de Pandora que, provavelmente, nem mesmo os Ministros do STF tinham previsto.
Como diz o Antonio Só nos comentários: "Tirar o saci da garrafa é fácil; quero ver botar ele de novo lá dentro..."
Primeiro passo - Esqueçam, por um instante, que essa pro-atividade do STF (Supremo Tribunal Federal) foi insuflada pela mídia. Interessa, agora, a análise dos desdobramentos.
Segundo passo – Separem o relevante do irrelevante na atuação dos Ministros.
Joguem no lixo da história personagens como Luiz Fuxe Ayres Britto, insignificantes, pequenos oportunistas.
Fixem-se nos dois que tiveram efetivamente peso, Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes. O primeiro, um torquemada para ninguém botar defeito. O segundo, um acendrado defensor dos seus que, no episódio Satiagraha, agiu para enquadrar o juizado de primeira instância. Incluam o Marco Aurélio de Mello, um ex-garantista que, por convicção política, abriu mão de sua atuação pregressa.
Por motivos nobres ou menores, liberou geral.
Depois, analisem o voto de Celso de Mello, o que mais se aproxima do perfil do magistrado tradicional, afirmando – com o rompante de quem aguardou a vida toda por esse momento histórico – o primado da lei e a ameaça à ordem democrática no caso de ela ser desrespeitada.
Terceiro passo –Vamos alargar a vista, sair das paredes restritas do Supremo para o Poder Judiciário como um todo. Para o bem ou para o mal, esse voto enquadra todos os poderes – inclusive o próprio STF. É por aí que se entenderá a abertura da Caixa de Pandora.
O sistema judiciário é uma organização complexa, composta de várias instituições, a primeira instância, os tribunais estaduais, os federais, o Ministério Público etc.
É um sistema integrado por pessoas, organizadas em torno da interpretação da Constituição e das leis. Como leis comportam várias interpretações, o agente uniformizador é o Supremo. Proferidas suas sentenças, firmada a jurisprudência, as conclusões irradiam-se por todo o sistema jurídico, obrigando juízes, promotores, procuradores a se adequarem às normas.
Mais que isso: sujeitando o STF a todo tipo de cobrança, daqui para frente, para preservar a coerência.
Vamos a um pequeno levantamento das repercussões dessa votação
Direitos humanos
O Ministério Público Federal trabalha, há anos, para condenar torturadores. Para tanto, há a necessidade de sobrepor à Lei da Anistia um documento juridicamente superior: as determinações da Corte Interamericana de Direitos Humanos (http://www.corteidh.or.cr/).Segundo o que consta no site da AGU (http://migre.me/cr0nA)
A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições da Convenção Americana sobre Direitos humanos, desde que os Estados-Partes no caso tenham reconhecido a sua competência. Somente a Comissão Interamericana e os Estados Partes da Convenção Americana sobre Direitos Humanos podem submeter um caso à decisão desse Tribunal. (…)
No plano contencioso, sua competência para o julgamento de casos, limitada aos Estados Partes da Convenção que tenham expressamente reconhecido sua jurisdição, consiste na apreciação de questões envolvendo denúncia de violação, por qualquer Estado Parte, de direito protegido pela Convenção. Caso reconheça que efetivamente ocorreu a violação à Convenção, determinará a adoção de medidas que se façam necessárias à restauração do direito então violado, podendo condenar o Estado, inclusive, ao pagamento de uma justa compensação à vítima.
A tendência do STF era a de não aceitar as determinações da Corte. À luz da observância estrita das leis, o STF ousará se opor às determinações da Corte? Não tem como. A não ser que Celso de Mello e seus pares pretendam impor o primado da selvageria jurídica no país.
Reportagens abusivas contra saúde pública
A revista Veja solta uma matéria de capa vendendo como emagrecedor determinado remédio para diabetes. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tem legislação férrea contra publicidade de remédios, mas não agiu contra a publicidade disfarçada de matéria. Pode alegar que existe um vácuo na lei em relação a esse ponto.Mas o STF ensinou que, em caso de vácuo na legislação, caberá ao Judiciário atuar. Com base na decisão dos cinco do Supremo, procuradores da base ganharam fôlego para atuar contra esse tipo de reportagem.
Gradativamente os abusos midiáticos contra a saúde pública terão um novo fiscal: o MPF e o Judiciário.
Outro caso: o carnaval em torno da febre amarela. Oficiou-se o MPF. Na época, o Ministério da Saúde não apresentou estatísticas que comprovassem o aumento de mortes devido à escandalização da febre, por isso o processo não foi para frente. Mas, no decorrer da instrução, todas as empresas jornalísticas tiveram que mobilizar seu jurídico para prestar contas ao MPF. Agora, saiu um estudo de uma professora da USP com a comprovação do aumento de mortes. Provavelmente o MPF reabrirá o caso, agora com força redobrada graças ao horizonte que se abriu com os votos dos cinco do Supremo.
E as empresas jornalísticas terão que reforçar seu jurídico para atender às novas cobranças.
Concessões de rádio e TV
Até hoje era questão absolutamente pacificada. O Ministério das Comunicações nunca teve coragem de enfrentar o modelo abusivo de concessões e o Congresso, como parte interessada, sempre avalizou a não-ação do Ministério.Jamais se exigiu dos concessionários provas de ilibada reputação – lembrem-se o caso do inacreditável Ronaldo Tiradentes, dono da concessão da CBN Manaus e que acaba de ganhar uma concessão de TV do Ministério das Comunicações, graças a sua rede de relações políticas.
Agora, haverá condições da sociedade civil questionar diretamente o Judiciário sobre o uso abusivo das concessões. Será mais um vácuo a ser ocupado.
Abusos contra minorias
Nos últimos anos houve uma ação solitária do MPF contra os abusos de emissoras contra direitos difusos da população – ataques às religiões afro, exercício do preconceito abusivo, ridicularização de gays e obesos, mensagens não-educativas às crianças, propaganda infantil abusiva etc. Mas, em geral, eram barradas na Primeira Instância porque juízes não acreditavam que o judiciário pudesse avançar em outros campos, mais restritos ao Executivo.Ora, o Executivo não regula, não coíbe abusos. O máximo que faz é definir recomendações e horários. Mas, como o STF ensinou, o vácuo na ação do Executivo precisa ser preenchido pelo Judiciário.
Ações contra políticos da oposição
Depois do mensalão, como não repetir o mesmo padrão de julgamento no mensalão mineiro e em outras ações envolvendo parlamentares de todos os partidos e governantes de todas as épocas?
Discutindo a nova posição
Mais do que nunca, CNJ (Conselho Nacional de Justiça), MPF, justiças estaduais precisam seguir o exemplo da Ajufe (Associação dos Juízes Federais) e começar a discutir da forma mais aberta possível essas questões. Inclusive entender de maneira adequada o papel da velha mídia, da nova mídia, a nova opinião pública.A campanha em torno do mensalão visava atingir um poder: o Executivo. Aberta a Caixa de Pandora, os demais dois poderes ficaram expostos ao primado da lei. Um, o próprio STF, que será regido, de agora em diante, pela cobrança permanente de coerência. Outro, a mídia, o segundo poder maior do país.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-supremo-abriu-a-caixa-de-pandora
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Sobre o vazamento do depoimento de Marcos Valério
Por: Luis Nassif
De qualquer modo, chama a atenção de que um depoimento rejeitado pelo próprio MPF alimente tantos dias de cobertura intensiva da mídia.
Depois de Rubens Quícoli (o “consultor” condenado), Marcos Valério e Carlinhos Cachoeira, quem serão as próximas fontes inquestionadas? Provavelmente Fernandinho Beira Mar.
Sobre o papel do Procurador Geral da República no vazamento do depoimento de Marcos Valério, considerem a possibilidade do vazamento ter sido efetuado pela própria defesa de Valério.
Hoje conversei longamente com procuradora de minha estrita confiança, que desenvolveu a seguinte lógica:
Hoje conversei longamente com procuradora de minha estrita confiança, que desenvolveu a seguinte lógica:
- Os advogados de Marcos Valério tentaram criar um fato jurídico com a delação premiada.
- Procuraram o Ministério Público Federal com a versão divulgada pela imprensa.
- O MPF não aceitou, por ser meramente declaratória e sem acrescentar nenhum fato novo relevante ao processo.
- A provável saída desesperada imaginada pelos advogados de Valério foi transformar em um escândalo jornalístico, até como maneira de espicaçar o MPF pelo não acolhimento da denúncia.
De qualquer modo, chama a atenção de que um depoimento rejeitado pelo próprio MPF alimente tantos dias de cobertura intensiva da mídia.
Depois de Rubens Quícoli (o “consultor” condenado), Marcos Valério e Carlinhos Cachoeira, quem serão as próximas fontes inquestionadas? Provavelmente Fernandinho Beira Mar.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O retorno do vinil em plena era digital
Por Sergio da Motta e Albuquerque
O USA Today (12/11) anunciou o lançamento em vinil de todos os álbuns de estúdio dos Beatles pela Apple(o rótulo original da banda) e a EMI. O material chegou ao mercado no dia seguinte e incluiu também todo o trabalho de artes gráficas das antigas capas. Podem ser adquiridos pelos fãs separadamente ou na caixa com a coleção completa, que inclui um livro impresso em alta qualidade.
O Black Sabbath, banda legendária para os entusiastas do heavy metal, também anunciou que vai lançar uma coleção remasterizada em formato analógico. Os discos virão também numa caixa que vai se chamar “A coleção em vinil – 1970-1978”. O lançamento foi previsto para 12 de dezembro deste ano, informou a revista semanal inglesa NME (15/11).
Depois de quase desaparecerem na virada para o século 21, a coisa mudou a partir de 2007: mais e mais lançamentos em vinil voltaram às lojas e às notícias. A volta do vinil, de acordo com a Modern Times (09/11), “é fruto da iniciativa de DJs e apoiada pelo público interessado em experiências mais ‘quentes’ e profundas com a música ‘disponível em formato analógico’”, anotou a revista. A chegada do som digital prometia aposentar para sempre os antigos LPs, mas não foi isso que aconteceu: de acordo com estatísticas da Nielsen Soundscan, “vendas em vinil aumentaram a 3,9 milhões de unidades em 2011, acima dos 2,8 milhões em 2010. O relatório de meio de ano mostra que as vendas do vinil para este ano devem acabar com 14% (de crescimento) sobre 2011”, publicou (09/11) a Modern Times.
Mitos e explicações
A explicação corrente entre aficionados, especialistas e músicos diz que o som digital “achata” a música: graves e agudos “somem”. Os tons médios ganham destaque. Falta a “imprecisão” característica dos discos analógicos, acredita Sean Magee, engenheiro da Apple (a gravadora). É justamente esta imprecisão que torna o vinil tão especial: eles podem reproduzir com mais fidelidade a experiência auditiva de um concerto (sinfônico ou outro, como rock) com mais realismo que o pasteurizado som digital. Concorda com isso, leitor?
O USA Today (12/11) anunciou o lançamento em vinil de todos os álbuns de estúdio dos Beatles pela Apple(o rótulo original da banda) e a EMI. O material chegou ao mercado no dia seguinte e incluiu também todo o trabalho de artes gráficas das antigas capas. Podem ser adquiridos pelos fãs separadamente ou na caixa com a coleção completa, que inclui um livro impresso em alta qualidade.
O Black Sabbath, banda legendária para os entusiastas do heavy metal, também anunciou que vai lançar uma coleção remasterizada em formato analógico. Os discos virão também numa caixa que vai se chamar “A coleção em vinil – 1970-1978”. O lançamento foi previsto para 12 de dezembro deste ano, informou a revista semanal inglesa NME (15/11).
Depois de quase desaparecerem na virada para o século 21, a coisa mudou a partir de 2007: mais e mais lançamentos em vinil voltaram às lojas e às notícias. A volta do vinil, de acordo com a Modern Times (09/11), “é fruto da iniciativa de DJs e apoiada pelo público interessado em experiências mais ‘quentes’ e profundas com a música ‘disponível em formato analógico’”, anotou a revista. A chegada do som digital prometia aposentar para sempre os antigos LPs, mas não foi isso que aconteceu: de acordo com estatísticas da Nielsen Soundscan, “vendas em vinil aumentaram a 3,9 milhões de unidades em 2011, acima dos 2,8 milhões em 2010. O relatório de meio de ano mostra que as vendas do vinil para este ano devem acabar com 14% (de crescimento) sobre 2011”, publicou (09/11) a Modern Times.
Mitos e explicações
A explicação corrente entre aficionados, especialistas e músicos diz que o som digital “achata” a música: graves e agudos “somem”. Os tons médios ganham destaque. Falta a “imprecisão” característica dos discos analógicos, acredita Sean Magee, engenheiro da Apple (a gravadora). É justamente esta imprecisão que torna o vinil tão especial: eles podem reproduzir com mais fidelidade a experiência auditiva de um concerto (sinfônico ou outro, como rock) com mais realismo que o pasteurizado som digital. Concorda com isso, leitor?
Se você gosta de música, trabalha ou consome áudio em alguma forma, já deve ter notado que realmente o som digital, comparado a uma reprodução fiel a uma boa gravação analógica impressa em vinil, é inferior, quando comparado com o velho formato analógico. A explicação corrente diz que a taxa de compressão dos arquivos digitais deixa de fora elementos primordiais para uma boa reprodução em áudio. Quanto maior a compressão, mais se perde da experiência original da gravação em estúdio ou concerto ao vivo.
Os arquivos de baixa compressão (como os WAV) têm uma qualidade de som infinitamente superior aos MP3, por exemplo. Mas são imensos e propriedade da Microsoft. Com o aumento da velocidade das conexões em banda larga, os WAV passaram a frequentar a web. Mas não têm a mesma popularidade e disponibilidade dos arquivos MP3. O formato MP3 é portátil, pequeno e pode ser usado na web como se tivesse sido criado para ela. Mas ele não foi inventado para transmissão de músicas, mas voz. E foi criado muito antes da web e os PCs. O formato MP3 já está entre nós há mais de 30 anos. Há muitos mitos e explicações que não vão além do senso comum, quando o assunto é reprodução de som em meio digital ou analógico.
Execução e partilha de áudio
O site de tecnologias de som e vídeo ÁudioTX explicou o que é o formato MP3, como, para que e quando surgiu este tipo
Os arquivos de baixa compressão (como os WAV) têm uma qualidade de som infinitamente superior aos MP3, por exemplo. Mas são imensos e propriedade da Microsoft. Com o aumento da velocidade das conexões em banda larga, os WAV passaram a frequentar a web. Mas não têm a mesma popularidade e disponibilidade dos arquivos MP3. O formato MP3 é portátil, pequeno e pode ser usado na web como se tivesse sido criado para ela. Mas ele não foi inventado para transmissão de músicas, mas voz. E foi criado muito antes da web e os PCs. O formato MP3 já está entre nós há mais de 30 anos. Há muitos mitos e explicações que não vão além do senso comum, quando o assunto é reprodução de som em meio digital ou analógico.
Execução e partilha de áudio
O site de tecnologias de som e vídeo ÁudioTX explicou o que é o formato MP3, como, para que e quando surgiu este tipo
de arquivo. A revista informa que o formato foi desenvolvido pelo professor Dieter Seitzer no início dos anos de 1970, da Universidade Erlangen-Nuremberg, “para solucionar o problema de transmitir fala em alta qualidade através de linhas telefônicas”.
Com o aumento da velocidade da web, iniciado pelas redes digitais de serviços integrados (ISDN) nos anos de 1980 e o surgimento dos cabos de fibra ótica, o professor alemão “direcionou a pesquisa para codificação de sinais de música”, informou a publicação. Que também confirmou que o formato é o que apresenta menos perdas ao ouvido humano.
Por outro lado, Jorge Faria, autor do artigo, teve a prudência de informar que, apesar de suas vantagens, como pequeno tamanho e a sua vasta disponibilidade na web, o formato apresenta limites: “Apesar de toda a sua popularidade e uso prático do MP3 existe uma grande diferença em qualidade entre os arquivos MP3 e o formato de arquivo WAV. MP3 é um formato com perda de compressão de dados (lossy data). Isto significa que parte de dados são removidos para diminuir o tamanho dos arquivos de músicas, aproximadamente 1/7 do tamanho do arquivo original no formato WAV.”
As diferenças mais notáveis entre os formatos de alta compressão, como os MP3, e os de baixa compressão (como o WAV) são a “perda de clareza” nos tons agudos e perda de peso (punch) nas notas de baixa frequência. Em outras palavras, os tons graves são pouco potentes e “achatados” (flat). Ocorre também “perda da dinâmica original do som”, e problemas de fase – que também perturbam e distorcem a audição. Com todos os seus limites, o formato MP3 acabou por ganhar a web e é de longe o formato mais popular para execução e partilha de áudio na era digital. O site da ÁudioTX aponta a superioridade dos arquivos WAV para transmissões de áudio.
Experiência social mais rica
Durante algum tempo, cultivou-se o mito da superioridade inconteste do som digital. E, realmente, ele apresenta muitas vantagens. Mas, no mundo do áudio, na realidade, não há uma oposição rígida entre áudio digital e analógico. Os dois formatos são complementares. Ainda não há sinal inconteste da volta ao vinil, nem da superioridade absoluta e eterna do som digital. Pelo menos, é assim, no momento atual do desenvolvimento tecnológico.
Apesar de alguns sinais da volta do formato analógico para gravação de discos, esta tendência não é unânime. O jornal Estado de Minas (15/11) publicou matéria sobre o assunto. Nela, Henrique Portugal, tecladista da banda Skank, anuncia o fim definitivo das mídias físicas:
“Essas mídias físicas estão com os dias contados. O artista hoje tem de se preparar para saber explorar da melhor maneira possível as mídias digitais. Além de shows ao vivo, o faturamento do músico terá de vir dos acordos que fizer com sites e provedores, como o YouTube, e da sua capacidade de criar alternativas tecnológicas.”
A mesma matéria também apresentou a opinião da profissional de marketing Júlia Hammes, 23 anos, que usa os dois formatos e reconhece as vantagens e desvantagens de um e outro. Para ela, “a maior vantagem do vinil é a definição do som, mais natural, e o fato de poder aproveitar a experiência com os amigos”. Concordo com ela: ouvir música (popular, principalmente) em vinil é uma experiência muito mais enriquecedora do que escutar as playlists atuais em formato digital. Escutar música em vinil é uma experiência social mais rica do que sentar para ouvir as playlists pasteurizadas digitais. Que muitas vezes acabam como fundo musical de conversas...
Perda de qualidade
Mas Júlia também reconhece que a internet trouxe vantagens que o vinil não tem: portabilidade, a possibilidade de se transferir o conteúdo para diferentes aparelhos, e a facilidade de encontrar a música que o ouvinte desejar na web em poucos instantes. Mas mesmo assim ela prefere o vinil, por dois motivos: melhor qualidade de som e o lado social da experiência de ouvir música com amigos. Escutar música com outras pessoas é uma experiência partilhada.
Lembro que, antes da era digital, as sessões de audição de música em grupo eram uma troca entre preferências que acontecia em encontros sociais: cada um apresentava seus discos, suas preferências e explicava o porquê delas. Conversávamos, discutíamos e passávamos bons momentos, muitas vezes a comunicar pela melodia o que era impossível em palavras. Dividíamos nossos mundos, enquanto partilhávamos nossas preferências musicais.
Júlia Hammes, no Estado de Minas, prefere o vinil, mas não nega o valor da reprodução digital. Uma posição muito correta, porque, na realidade, meu caro leitor, a oposição absoluta “digital versus analógico” é falsa: uma boa qualidade de som envolve elementos dos dois formatos. O atual universo das transmissões de áudio está comprometido com ambos.
Na realidade, tanto o som analógico quanto o digital são idealizações, e cada gravação musical atualmente utiliza elementos analógicos e digitais. Gravações digitais partem de uma base analógica, que é convertida numa série numérica binária que é gravada. O resultado da gravação digital, por sua vez, é convertido em formato analógico para a reprodução.
Nosso mundo não é completamente digital. No que diz respeito à gravação de músicas, utilizamos tecnologias analógicas e digitais combinadas. O formato da reprodução, entretanto, vai determinar diferentes resultados para o ouvido humano. E a partir daí, caro leitor, cada um faz a sua escolha. Eu ainda prefiro o vinil. Em toda conversão, por mais imperceptível que seja, acontece perda de qualidades acústicas essenciais para os amantes da música integral e fiel as intenções de seus autores e interpretes.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-retorno-do-vinil-e-a-oposicao-entre-digital-e-analogico
Com o aumento da velocidade da web, iniciado pelas redes digitais de serviços integrados (ISDN) nos anos de 1980 e o surgimento dos cabos de fibra ótica, o professor alemão “direcionou a pesquisa para codificação de sinais de música”, informou a publicação. Que também confirmou que o formato é o que apresenta menos perdas ao ouvido humano.
Por outro lado, Jorge Faria, autor do artigo, teve a prudência de informar que, apesar de suas vantagens, como pequeno tamanho e a sua vasta disponibilidade na web, o formato apresenta limites: “Apesar de toda a sua popularidade e uso prático do MP3 existe uma grande diferença em qualidade entre os arquivos MP3 e o formato de arquivo WAV. MP3 é um formato com perda de compressão de dados (lossy data). Isto significa que parte de dados são removidos para diminuir o tamanho dos arquivos de músicas, aproximadamente 1/7 do tamanho do arquivo original no formato WAV.”
As diferenças mais notáveis entre os formatos de alta compressão, como os MP3, e os de baixa compressão (como o WAV) são a “perda de clareza” nos tons agudos e perda de peso (punch) nas notas de baixa frequência. Em outras palavras, os tons graves são pouco potentes e “achatados” (flat). Ocorre também “perda da dinâmica original do som”, e problemas de fase – que também perturbam e distorcem a audição. Com todos os seus limites, o formato MP3 acabou por ganhar a web e é de longe o formato mais popular para execução e partilha de áudio na era digital. O site da ÁudioTX aponta a superioridade dos arquivos WAV para transmissões de áudio.
Experiência social mais rica
Durante algum tempo, cultivou-se o mito da superioridade inconteste do som digital. E, realmente, ele apresenta muitas vantagens. Mas, no mundo do áudio, na realidade, não há uma oposição rígida entre áudio digital e analógico. Os dois formatos são complementares. Ainda não há sinal inconteste da volta ao vinil, nem da superioridade absoluta e eterna do som digital. Pelo menos, é assim, no momento atual do desenvolvimento tecnológico.
Apesar de alguns sinais da volta do formato analógico para gravação de discos, esta tendência não é unânime. O jornal Estado de Minas (15/11) publicou matéria sobre o assunto. Nela, Henrique Portugal, tecladista da banda Skank, anuncia o fim definitivo das mídias físicas:
“Essas mídias físicas estão com os dias contados. O artista hoje tem de se preparar para saber explorar da melhor maneira possível as mídias digitais. Além de shows ao vivo, o faturamento do músico terá de vir dos acordos que fizer com sites e provedores, como o YouTube, e da sua capacidade de criar alternativas tecnológicas.”
A mesma matéria também apresentou a opinião da profissional de marketing Júlia Hammes, 23 anos, que usa os dois formatos e reconhece as vantagens e desvantagens de um e outro. Para ela, “a maior vantagem do vinil é a definição do som, mais natural, e o fato de poder aproveitar a experiência com os amigos”. Concordo com ela: ouvir música (popular, principalmente) em vinil é uma experiência muito mais enriquecedora do que escutar as playlists atuais em formato digital. Escutar música em vinil é uma experiência social mais rica do que sentar para ouvir as playlists pasteurizadas digitais. Que muitas vezes acabam como fundo musical de conversas...
Perda de qualidade
Mas Júlia também reconhece que a internet trouxe vantagens que o vinil não tem: portabilidade, a possibilidade de se transferir o conteúdo para diferentes aparelhos, e a facilidade de encontrar a música que o ouvinte desejar na web em poucos instantes. Mas mesmo assim ela prefere o vinil, por dois motivos: melhor qualidade de som e o lado social da experiência de ouvir música com amigos. Escutar música com outras pessoas é uma experiência partilhada.
Lembro que, antes da era digital, as sessões de audição de música em grupo eram uma troca entre preferências que acontecia em encontros sociais: cada um apresentava seus discos, suas preferências e explicava o porquê delas. Conversávamos, discutíamos e passávamos bons momentos, muitas vezes a comunicar pela melodia o que era impossível em palavras. Dividíamos nossos mundos, enquanto partilhávamos nossas preferências musicais.
Júlia Hammes, no Estado de Minas, prefere o vinil, mas não nega o valor da reprodução digital. Uma posição muito correta, porque, na realidade, meu caro leitor, a oposição absoluta “digital versus analógico” é falsa: uma boa qualidade de som envolve elementos dos dois formatos. O atual universo das transmissões de áudio está comprometido com ambos.
Na realidade, tanto o som analógico quanto o digital são idealizações, e cada gravação musical atualmente utiliza elementos analógicos e digitais. Gravações digitais partem de uma base analógica, que é convertida numa série numérica binária que é gravada. O resultado da gravação digital, por sua vez, é convertido em formato analógico para a reprodução.
Nosso mundo não é completamente digital. No que diz respeito à gravação de músicas, utilizamos tecnologias analógicas e digitais combinadas. O formato da reprodução, entretanto, vai determinar diferentes resultados para o ouvido humano. E a partir daí, caro leitor, cada um faz a sua escolha. Eu ainda prefiro o vinil. Em toda conversão, por mais imperceptível que seja, acontece perda de qualidades acústicas essenciais para os amantes da música integral e fiel as intenções de seus autores e interpretes.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-retorno-do-vinil-e-a-oposicao-entre-digital-e-analogico
terça-feira, 20 de novembro de 2012
O caso Fantástico-UFRJ e o papel do CNJ
Por Luis Nassif
O produto notícia sempre explorou a escandalização como um de seus maiores fatores de venda. Não se trata propriamente de serviço público, mas de uma operação comercial, que visa vender mais, atrair mais leitores/espectadores e, em alguns casos, pressionar anunciantes ou tomar partido em disputas empresariais ou políticas.
O escândalo é um produto jornalístico é, como tal, tratado como marketing, da mesma forma que qualquer produto de consumo. E os ingredientes centrais desse marketing são a ampliação de verdadeira dimensão, “esquentar” a notícia, como se diz no jargão jornalístico.
***
Em geral, tende-se a analisar a imprensa apenas como contraponto ao Estado, como representante da opinião pública.
Ora, no universo da opinião pública há um sem-número de personagens: o Estado, os grandes interesses econômicos, os partidos políticos, os demais poderes da República e, principalmente, o cidadão, o indivíduo, frágil, vulnerável em relação aos poderes maiores.
É para este cidadão que deveria se voltar a olhar da Justiça. No entanto, sua única forma de defesa, hoje em dia, são as redes sociais, jamais o Judiciário.
***
Na semana retrasada o programa “Fantástico” anunciou uma matéria bombástica contra a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Falava-se em desvio de dinheiro, lançavam-se suspeitas de enriquecimento ilícito e por aí afora.
Das redes sociais veio o alerta de que estariam cometendo um “assassinato de reputação”. A matéria foi suspensa e transferida para domingo passado, agora com um cuidado jornalístico maior.
***
E aí se entra em um dos muitos recursos de manipulação de escândalos utilizados atemporalmente pela mídia: a confusão intencional entre problemas administrativos e desvio de recursos. Ou o superdimensionamento de pequenas infrações, tratadas como se fossem grandes crimes contra a ordem pública.
***
De acordo com o site do Fantástico, há 4 anos a UFRJ começou a ser investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) – que provavelmente encaminhou ao programa o inquérito sigiloso – e pela AGU (Advocacia Geral da União).
Tirando toda a retórica, o caso fica resumido a isto:
1. A UFRJ firmou convênio com o Banco do Brasil que, em troca da administração das contas, pagaria uma quantia anual à instituição. De 2005 a 2009. Segundo o MPF, deveria ter havido licitação. Mas era um banco público e uma instituição pública.
2. O dinheiro foi repassado para uma fundação, e não para o orçamento da Universidade e não foi incluído no SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal). Aí se tem uma irregularidade administrativa, sim. Mas, na própria matéria, especialistas atestam que quase todas as universidades procedem assim, para não cair no emaranhado burocrático da administração pública. De dois anos para cá mudou a legislação. A matéria reconhece que o contrato com o BB é anterior. Sem escândalo.
***
O contrato com o BB envolveu a quantia de 43.520.000 de reais em cinco anos.
Os “escândalos”
Identificaram-se, concretamente, as seguintes irregularidades: 1. Um professor utilizou notas frias para justificar despesas (10.083,00 reais). 2. Outro professor recebeu através de uma empresa dele a quantia de 27 mil reais. 3. Contratação de uma empresa para fornecer agendas para a UFRJ (27 mil reais). 4. A concessão de dois restaurantes. 5. o pagamento de 264 mil reais a uma empresa que fornecia coquetéis e lanches.
“Esquentando” o escândalo
A nota da UFRJ mostra que a empresa que emitiu a nota não havia desaparecido, mas apenas mudado de endereço. O reitor recebeu o “Fantástico” e apresentou um balanço do que foi feito com o dinheiro do BB: seminários, congressos e recepções, na manutenção e reformas de prédios, na construção de restaurantes. Em vez de focar nas obras que foram realizadas com os recursos, deu-se destaque para as que não foram.
O vazamento do MPF
O “Fantástico” recebeu o inquérito antes dos indiciados. Com isso, ficou com o poder de julgar e condenar sete pessoas perante dezenas de milhões de telespectadores. As ressalvas às denúncias só foram entendidas por um diminuto número de espectadores, que sabem diferenciar problemas administrativos de malversação graúda de dinheiro. Mesmo com os cuidados da reportagem, perante a opinião pública estão todos condenados.
O papel do CNJ – 1
E aí se entra nessa escandalosa iniciativa do Ministro Ayres Britto, de criar uma comissão permanente, no âmbito do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), para garantir a grande mídia contra as ações propostas pelas vítimas. A comissão será composta por integrantes do poder judiciário e por representantes de órgãos de mídia. Não se cogitou sequer de defensores das vítimas de pequenos e grandes crimes.
O papel do CNJ – 2
Quando Ministro do STF, Ayres Britto, a pretexto de acabar com a Lei de Imprensa, deixou um vácuo jurídico que prejudicou fundamentalmente o direito de resposta. Agiu exclusivamente com o propósito de agradar a mídia, principalmente depois que espocaram denúncias sobre o uso do seu nome por seu próprio genro, em ações que passavam pelo STF e pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Coincidentemente, as denúncias sumiram do noticiário
O cidadão desprotegido
Tem-se, agora, o ensaio de uma briga de gigantes. De um lado, Congresso Nacional, partidos políticos; de outro, o Executivo; na terceira ponta, MPF, STF e mídia. E onde fica o cidadão comum? Em nenhum momento, Ayres Britto – ou o próprio STF – pensou no cidadão comum. Este continua à mercê de um Judiciário que entende a mídia com olhos do governante norte-americano do século 18. Muitos assassinatos ainda serão cometidos.
sábado, 13 de novembro de 2010
Mino Carta escreve sobre Marcelo Itagiba
A despedida de um jagunço
por Mino Carta, na CartaCapital
Na Câmara Federal, o ex-deputado tucano Marcelo Itagiba, ex-emedebista, ex-policial, deita falação para injuriar alguns jornalistas, precisamente aqueles que atuaram do lado oposto à compacta campanha de ódio a favor de José Serra desencadeada pela mídia nativa. Luiz Carlos Azenha é inepto, Bob Fernandes é mentecapto, mercenário desqualificado. Leandro Fortes, famigerado mitômano. Palmério Doria, profissional da mentira. Paulo Henrique Amorim, crápula. Luis Nassif, estelionatário. Marcelo Auler, hidrófobo. Quanto a mim, sou um velhaco de trajetória venal.
Creio que para os colegas ofendidos as injúrias de Itagiba equivalham a outros tantos reconhecimentos de honradez e qualidade profissional. O acima assinado passará a incluir as definições desse sabujo da tucanagem despenada entre as mais favoráveis que recebeu ao longo da sua vida de jornalista. Uma do colega Nirlando Beirão, companheiro de diversas jornadas: “Nunca o vi vacilar à frente dos poderosos”. A outra do então ditador aposentado João Baptista Figueiredo, pronunciada em 1988: “Ele é um chato que questiona tudo, reescreveria até os Evangelhos, Geisel o detestava, mas não tem rabo preso”.
Meu modelo é nonno Luigi, toscano, pai da minha mãe, falecido aos 56 anos, antes do meu nascimento. Perseguido pelo fascismo, afastado da direção de um diário genovês, esgrimista, desafiava os desafetos para duelos. Sabia ganhar e perder, certa vez foi ferido da ponta da orelha esquerda à base do pescoço, escapou por um triz.
Mas quem ousaria contestar o ex-esbirro- Itagiba, que se permite condenar Paulo Lacerda ou Protógenes Queiroz? Há de ser velhaco e venal quem ao sair da direção de Veja em fevereiro de 1976 teve de inventar os seus empregos porque não existiria barão midiático disposto a lhe oferecer trabalho. E ainda quem nunca deixou de defender a verdade factual e expor desabridamente suas opiniões.
Tenho pena de figuras como a de Marcelo Itagiba, jagunços de um poder no ocaso. Sinto no seu ataque a admirável interpretação do papel de janízaro, a cumprir a ordem do sultão humilhado, incapaz de conter a sede de vingança, o rancor inextinguível contra a vida e o mundo. No seu discurso federal, o porta-voz do ódio levanta casos de muitos anos atrás, todos a convergir em uma única direção. Basta segui-la para entender em nome de quem ele age. Boa pista para mentecaptos, ineptos, mitômanos e assim por diante.
Inclusive para velhacos e venais. Arrisco um palpite: trata-se da mesma personagem que acionou a procuradora Cureau contra CartaCapital.
FALEMOS DE REGULAÇÃO
O ministro Franklin Martins define como “fantasma” a assertiva bastante comum de que a liberdade de imprensa sofre ameaça no Brasil de Lula e Dilma. Também diz que a regulação da mídia é necessidade inadiável. Primeiro: respeita a verdade factual, nunca a mídia nativa foi tão livre de deturpar os fatos como se deu durante a campanha eleitoral. Segundo: o avanço tecnológico justifica plenamente a regulação da comunicação eletrônica, de sorte a adaptar à situação atual leis e regras superadas, ou seja, obsoletas.
O anteprojeto que o ministro pretende aprontar antes do fim do mandato do presidente Lula tratará dessa atualização técnica, sem risco algum para a liberdade de expressão. Temos aqui outro aspecto da questão, e o ministro passa por ele à margem do seminário internacional de Brasília, realizado nesta semana, ao condenar um conflito de interesse insuportável em um país democrático: inúmeros parlamentares são donos de instrumentos midiáticos, de jornais a rádios e tevês, ou contam com os préstimos de laranjas para esconder o verdadeiro proprietário.
No caso, o ministro volta a acertar. Trata-se de permitir outra regulação, a determinar de forma democrática os poderes e os alcances da mídia brasileira. Cabe ao Congresso a aprovação de uma lei que circunscreva claramente o raio de ação dos patrões (é aceitável que alguém seja dono de tudo?) e valorize os profissionais, a resguardá-los da prepotência medieval de serem comandados por um diretor de redação por direito divino.
Perguntava Joana D’Arc na peça de Bernard Shaw: “Quando, ó Deus, esta terra estará em condições de receber os seus santos?” Seria demais esperar pelos santos: bastariam deputados e senadores de boa-fé democrática, conscientes das suas responsabilidades.
por Mino Carta, na CartaCapital
Na Câmara Federal, o ex-deputado tucano Marcelo Itagiba, ex-emedebista, ex-policial, deita falação para injuriar alguns jornalistas, precisamente aqueles que atuaram do lado oposto à compacta campanha de ódio a favor de José Serra desencadeada pela mídia nativa. Luiz Carlos Azenha é inepto, Bob Fernandes é mentecapto, mercenário desqualificado. Leandro Fortes, famigerado mitômano. Palmério Doria, profissional da mentira. Paulo Henrique Amorim, crápula. Luis Nassif, estelionatário. Marcelo Auler, hidrófobo. Quanto a mim, sou um velhaco de trajetória venal.
Creio que para os colegas ofendidos as injúrias de Itagiba equivalham a outros tantos reconhecimentos de honradez e qualidade profissional. O acima assinado passará a incluir as definições desse sabujo da tucanagem despenada entre as mais favoráveis que recebeu ao longo da sua vida de jornalista. Uma do colega Nirlando Beirão, companheiro de diversas jornadas: “Nunca o vi vacilar à frente dos poderosos”. A outra do então ditador aposentado João Baptista Figueiredo, pronunciada em 1988: “Ele é um chato que questiona tudo, reescreveria até os Evangelhos, Geisel o detestava, mas não tem rabo preso”.
Meu modelo é nonno Luigi, toscano, pai da minha mãe, falecido aos 56 anos, antes do meu nascimento. Perseguido pelo fascismo, afastado da direção de um diário genovês, esgrimista, desafiava os desafetos para duelos. Sabia ganhar e perder, certa vez foi ferido da ponta da orelha esquerda à base do pescoço, escapou por um triz.
Mas quem ousaria contestar o ex-esbirro- Itagiba, que se permite condenar Paulo Lacerda ou Protógenes Queiroz? Há de ser velhaco e venal quem ao sair da direção de Veja em fevereiro de 1976 teve de inventar os seus empregos porque não existiria barão midiático disposto a lhe oferecer trabalho. E ainda quem nunca deixou de defender a verdade factual e expor desabridamente suas opiniões.
Tenho pena de figuras como a de Marcelo Itagiba, jagunços de um poder no ocaso. Sinto no seu ataque a admirável interpretação do papel de janízaro, a cumprir a ordem do sultão humilhado, incapaz de conter a sede de vingança, o rancor inextinguível contra a vida e o mundo. No seu discurso federal, o porta-voz do ódio levanta casos de muitos anos atrás, todos a convergir em uma única direção. Basta segui-la para entender em nome de quem ele age. Boa pista para mentecaptos, ineptos, mitômanos e assim por diante.
Inclusive para velhacos e venais. Arrisco um palpite: trata-se da mesma personagem que acionou a procuradora Cureau contra CartaCapital.
FALEMOS DE REGULAÇÃO
O ministro Franklin Martins define como “fantasma” a assertiva bastante comum de que a liberdade de imprensa sofre ameaça no Brasil de Lula e Dilma. Também diz que a regulação da mídia é necessidade inadiável. Primeiro: respeita a verdade factual, nunca a mídia nativa foi tão livre de deturpar os fatos como se deu durante a campanha eleitoral. Segundo: o avanço tecnológico justifica plenamente a regulação da comunicação eletrônica, de sorte a adaptar à situação atual leis e regras superadas, ou seja, obsoletas.
O anteprojeto que o ministro pretende aprontar antes do fim do mandato do presidente Lula tratará dessa atualização técnica, sem risco algum para a liberdade de expressão. Temos aqui outro aspecto da questão, e o ministro passa por ele à margem do seminário internacional de Brasília, realizado nesta semana, ao condenar um conflito de interesse insuportável em um país democrático: inúmeros parlamentares são donos de instrumentos midiáticos, de jornais a rádios e tevês, ou contam com os préstimos de laranjas para esconder o verdadeiro proprietário.
No caso, o ministro volta a acertar. Trata-se de permitir outra regulação, a determinar de forma democrática os poderes e os alcances da mídia brasileira. Cabe ao Congresso a aprovação de uma lei que circunscreva claramente o raio de ação dos patrões (é aceitável que alguém seja dono de tudo?) e valorize os profissionais, a resguardá-los da prepotência medieval de serem comandados por um diretor de redação por direito divino.
Perguntava Joana D’Arc na peça de Bernard Shaw: “Quando, ó Deus, esta terra estará em condições de receber os seus santos?” Seria demais esperar pelos santos: bastariam deputados e senadores de boa-fé democrática, conscientes das suas responsabilidades.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
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@Bob_Fernandes Ligar durante o discurso é inacreditável...
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