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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Meu querido Santo Antônio

Por DEMITRI TÚLIO

Haveria de ter um manual pra ensinar a ser filho. Principalmente quando os pais vão envelhecendo. Saber lidar com o que não é mais vigoroso e, agora, mergulha em lembranças e estranha o corpo que vai se desmilinguindo.

Dizer o que quando, mesmo medicada e acompanhada, insiste que está aos pés da morte? Que o médico não sabe de nada porque é novo demais? Que tem prioridade para ficar na cabeça da fila, por ter mais de 70, e não quer saber se, na sala de espera, existem mais dez iguais a ela? Que se recusa a tomar um remédio que ela diz não arrefecer o destroço que vem de dentro?

Aprender a ter paciência, saber ser presente como ela foi quando os seis sujavam as fraldas ainda de panos. Considerar o que ela reclama, mesmo que se faça de vítima nas besteiras mais bestas. Entender, quando me repete, que não se acostuma com uma casa tão sem nós.

Como é esquisito vê-la assim, parecida com minhas avós. Corpo mudado, braços e mãos com as marcas de tempo, roupa de senhora. E de uma tristeza que não cessa nem com remédios nem com as roseiras de “quem” tanto gosta.

Meu querido santo Antônio, pensei, agora, em você. Pode ser extemporâneo, mas me ensine a ser filho, me ajuda a aprender outro jeito de amor. Gosto dela desmedido, mas parece que é outra. Então, talvez, o problema esteja nos meus olhos de filho.

Também queria te pedir por uma amiga e um amigo. A mãe deles deslembrou, sofre da memória se apagando. Tenho impressão que se já foi. E é ruim admitir, mas não é mais a mãe dos dois. É um retrato envelhecendo! Que não fala, que não conhece pelo nome, que tanto faz como tanto fez.

Peço também por outra amiga, mãe de um amigo querido. Está penando porque ainda não aprendeu a ser viúva. Compreendo a aflição, foram mais de 40 anos com o primeiro e único homem. De repente, a casa sem ele, até o cachorro passou a reclamar. Era ele que o alimentava.

Está em pânico a mãe dele. O marido era quase tudo... A despensa, as contas da empregada, a gasolina do carro, o mato vai tomar o quintal! E de uma hora pra outra se assustou com filhos querendo saber da loja, do inventário, das receitas, das despesas...

Ver a mãe envelhecer carece de reaprender a ser filho. Passar horas ao telefone e calar: “Escute, me escute, sou sua mãe!”. Compreender seus dilemas, respeitar sua estrada, rir com ela. É estranho ouvi-la falar de despedidas, mesmo que seja para chantagear.

Mãe, nunca imaginamos, um dia vai escutar menos, os ossos vão ficar arriscados e a vista pouca. Vai virar menina, começar tudo de novo. E nós a levaremos ao cinema...

Meu querido santo Antônio, preciso de você. Me ensine a ser filho, me ajuda a aprender outro jeito de amor.

DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO,
demitri@opovo.com.br

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Demitri Túlio - Das Antigas

Por Demitri Túlio

Meus afetos por Fortaleza, pelo Ceará, são declarados. Não rejeito a tribo onde fui parido nem a mistura de sangue do índio com o português, o negro, o judeu e o mouro que deram no caboclo pardo que sou. Não me envergonho de ter rebentado na parte mais semiárida do Brasil, gleba que por muito tempo foi ignorada pelo invasor lusitano e o capitão-mor de Pernambuco. Tenho história.

Mas ando meio impaciente com a Cidade que me falta. Com as calçadas que não posso andar... Com os parques verdes que nunca existirão... Com o ônibus que não voltarei a pegar... Com o trânsito que me aperreia... Com a notícia que um fulano de tal esfolou alguém e explodiu pela segunda vez o mesmo banco...

Ando sem paciência com uma elitezinha tacanha que se acha dona até da alma das ruas e está correndo um abaixo assinado para acabar com a ciclovia no miolo da Aldeota. Ora, ora, deve ser o mesmo povo que cola na Hilux o adesivo #simviadutos e acha um absurdo a morte dos peixes do finado rio Tiête. E se deslumbra porque São Paulo tem um Ibirapuera ou em Nova York vivem um Central Park e esquilos.

Mesmo magote de gente fresca que leva o cachorro para passear e não se digna de apanhar a merda do animal. Vejam, vejam... Os cães (confinados) de estimação têm o direito de ir e vir nas calçadas, mas as levas de operário da construção civil que vão e vêm de bicicleta não podem usar a ciclo-faixa da Ana Bilhar! Coméquepode, meu Deus?

E a desculpa nojenta, a grita, é assim: com a faixa de trânsito exclusiva para o canelau que usa bicicleta, os condôminos da Aldeota não poderão mais estacionar os automóveis em frente ao mar de prédios! E mais ainda. Quando chegarem as visitas para um chá ou vinho, elas não terão onde parar as carruagens! Tadinhas. É inacreditável o argumento, é inominável a arrogância.

E confesso, estou fazendo um esforço medonho para não ser preconceituoso com ninguém. Não sou da ala que defende que ricos e milionários não têm direito à Cidade. Não. Fortaleza, qualquer caverna do Ceará, tem de ser cada vez mais plural, mais pública, mais coletiva, mais tribo.

Possa ser que a semana não tenha me sido leve. Que uma amiga estimada tenha ido embora pra sempre e me façam falta os almoços em Messejana e seus 96 anos... Pode ser que eu esteja de TPM (homens também tem)... Mas estou por uma peinha. Sinto-me desconfortável na Cidade onde mais tenho afetos e não futuro deixar seu Mar nem me apagar de seu Sertão...

Mas não aguento mais motoqueiros trafegando nas calçadas, lixo em toda esquina e asfalto que se recapeia a cada seis meses e os buracos, ou mondrongos, não desaparecem de propósito... Também não tenho mais tolerância para delegacias que fazem de conta que funcionam, hospitais populares inviáveis e escolas públicas sofríveis...

Fortaleza está maltratada, estreita, claustrofóbica. Carece da gentileza pela gentileza, de gente generosa com suas ruas, sua história, suas árvores, seus cachorros, seus velhos, seus amanheceres... Há um tempo às avessas, aqui no Ceará, que me deixa desaprumado... Um rinoceronte em meu banheiro.

Ando meio sem fleuma com a Cidade que me ausenta...

http://www.opovo.com.br/app/colunas/dasantigas/2013/09/21/noticiasdasantigas,3133249/sabado-21-de-setembro-de-2013.shtml

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Licenciamento ambiental não liberado

Por Demitri Túlio

Por enquanto, a Associação Cearense dos Empresários da Construção e Loteadores (Acecol) não construirá o empreendimento Central Park nas dunas do Cocó, na altura da avenida Padre Antônio Tomás com Sebastião de Abreu. Até ontem à tarde, a secretária de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza, Águeda Muniz, não havia recebido notificação da justiça e, portanto, não emitiu o licenciamento ambiental para a liberação das obras.

De acordo com Águeda Diniz, “as medidas administrativas sobre esse assunto serão tomadas quando do recebimento do documento (judicial)”. Ainda assim, segundo a secretária do Meio Ambiente, foi enviada ao local uma equipe da secretaria “que constatou que as obras não foram iniciadas”.

A secretária está aguardando também um parecer da Procuradoria Geral do Município sobre a polêmica envolvendo uma Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie), protegida pela Lei Municipal 9502/2009.

No começo da tarde de ontem, o procurador-geral do Município, José Leite Jucá Filho, recebeu Águeda Muniz, integrantes do Movimento Salve as Dunas do Cocó, do S.O.S Cocó e o vereador de Fortaleza, João Alfredo (Psol).

José Leite Jucá afirmou que iria analisar o caso e, depois, se manifestaria sobre a pendenga judicial que se arrasta há anos. Jucá teria recebido orientações do prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, para que reservasse um tempo para estudar em detalhes as quedas de braço que envolvem a questão do loteamento Jardim Fortaleza, lugar onde está previsto a construção do empreendimento Central Park

Ministério Público
No último dia 3 deste mês, o juiz Francisco das Chagas Barreto, da 2ª Vara da Fazenda Pública, determinou “que o município de Fortaleza, através do secretário do Meio Ambiente e Controle Urbano, (e o secretário) Executivo da Regional II ou que for competente, materialize as aprovações definitivas dos projetos do condomínio Central Park expeça o alvará definitivo para a execução das obras”.

A decisão da Justiça causou estranheza à procuradora Vanja Fontenele. Ela, que responde pelo Apoio Operacional de Proteção à Ecologia, Meio Ambiente, Urbanismo da Procuradoria da Justiça, afirma que o Ministério Público deveria ter sido ouvido antes da decisão do juiz Francisco das Chagas Barreto.

Além disso, Vanja Fontenele desconfia de uma decisão judicial baseada em um Termo de Ajustamento de Conduta, que fere uma lei que proteje as dunas do Cocó. ”Vamos analisar o caso, cabe recurso”, afirma.

O Ministério Público Estadual entrará com recurso contra a decisão do juiz Francisco das Chagas Barreto, da 2ª Vara da Fazenda Pública. Ele determinou a construção de um empreendimento imobiliário nas dunas do Cocó.

Saiba mais

O POVO foi ao local da polêmica. No terreno, estavam o presidente da Associação dos Empresários da Construção e Loteadores (Acecol), Athayde Neto, e o advogado Edwin Damasceno. Segundo Athayde, o acordo firmado com a Prefeitura de Fortaleza deu-se dentro a legalidade.

Além de pagar R$ 500 mil como medida compensatória pelos danos ambientais, a Acecol também desembolsou R$ 60 mil para cobrir custas processuais honorários advocatícios da Fazenda Pública Municipal.

Os R$ 60 mil, segundo determina o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), foi depositado na conta da Associação dos Procuradores da Administração Centralizada do Município de Fortaleza.

Como medida mitigadora do impacto ambiental, a Acecol se comprometeu a plantar 100 árvores da mesma espécie para cada árvore derrubada.Criar manter um horto florestal para o constante replantio e plantas nativas das dunas do Cocó.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cocó: Ex-procurador do município quer anular acordo assinado por ele

Por Demitri Túlio
Ex-procurador do Município - Matônio Mont'Alverne

Apesar de ter assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que levou a Justiça a autorizar uma obra nas dunas do Cocó, o ex-procurador geral do município, Martônio Mont´Alverne Barreto (foto), recorreu da homologação do acordo.No recurso, ele afirma que haverá a destruição do meio ambiente.

O POVO - Por qual motivo a Prefeitura de Fortaleza concedeu o licenciamento ambiental para o empreendimento numa área ambiental protegida por lei?
Martônio Monte´Alverne - A aprovação do loteamento da área em questão já havia sido concedida antes da Lei nº 9502/2009, que estabeleceu a Arie (Área de Relevante Interesse Ecológico) do Cocó. Com o advento desta lei, o loteamento perdeu seu efeito também pelo fato de não haver sido implantando tempestivamente. Desta forma, a vigência e eficácia da Lei mencionada e a não implantação do loteamento fizeram com que, sobre a área, recaíssem os efeitos da Arie. O licenciamento a que você se refere não foi concedido, uma vez que o Município, representado por mim, recorreu da decisão que apreciou o mencionado TAC.

OP - Houve alguma ingerência política para que tal documento fosse assinado?
Martônio - Não ocorreu nenhum tipo de ingerência política para este ou qualquer outro ato que tenha sido praticado por mim ao tempo em que exerci o cargo de Procurador-Geral do Município de Fortaleza. Durante os períodos eleitorais - 2006, 2008, 2010 e 2012 - a PGM, sob minha condução, não deixou de praticar todos os atos processuais inerentes à condição do Município em juízo, de celebrar acordos, e firmar compromissos ou ajustes. 

OP - O TAC em questão foi falsificado já que em outro documento, de 19/12/2012, o senhor “requer que (ele) seja desconsiderado” por “não haver em momento algum aquiescência do procurador geral, tanto que não consta a assinatura digital deste procurador em nenhuma das peças”?
Martônio - Assim como é comum, consistindo mesmo em atribuição institucional, recebi inúmeros advogados que possuem causas em que o Município de Fortaleza foi parte. É meu dever legal tratar com todos. Nesta condição, recebi o representante legal da Acecol, ao saber da decisão de primeiro grau desfavorável ao Município de Fortaleza. Ressaltei, então, qualquer possibilidade de acordo estaria sujeita à decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, o qual poderia confirmar, ou não, a sentença do primeiro grau. Nesta ocasião, assinei, sim, uma eventual proposta de acordo, mas a ser apresentada somente com petição encaminhada pelo Município de Fortaleza e pela Acecol. A Acecol protocolou, unilateralmente, a proposta de TAC. Ao tomar conhecimento do fato, interpus imediatamente agravo regimental. O que afirmei no agravo regimental contra a decisão monocrática do desembargador relator foi que inexiste minha assinatura na petição que encaminha o TAC ao mesmo desembargador. Ressalto que o TAC apresentado consistia apenas numa minuta, num esboço do que poderia ser apresentado, repito, caso se confirmasse a decisão desfavorável ao Município. A fim de confirmar o compromisso da gestão anterior com a preservação do meio ambiente, o Município de Fortaleza, ainda ao tempo em que exerci o cargo de procurador-geral, requereu o ingresso no polo ativo, ao lado da ONG Vira Mundo, em ação civil pública, na defesa da Arie do Cocó. Penso que tais atitudes comprovam que o TAC não tem efeito e que a disposição do Município de Fortaleza será com a preservação de seus espaços verdes. Estou certo de que a decisão definitiva do Tribunal de Justiça saberá considerar tais aspectos.

Justiça autoriza construção nas dunas protegidas

Área protegida por lei. Foto de Iana Soares
Por Demitri Túlio

Uma decisão judicial, publicada no dia 3 deste mês, autoriza a construção de um condomínio residencial nas dunas protegidas por lei no mangue do Cocó, na avenida Padre Antônio Tomás quase esquina com Sebastião de Abreu. O juíz da 2ª Vara da Fazenda Pública, Francisco Chagas Barreto, determina “que o município de Fortaleza, através do secretário do meio ambiente e controle urbano, executivo da regional II ou quem mais competente for, materialize as aprovações definitivas dos projetos do codomínio Central Park e expeça o alvará definitivo para a execução de suas obras”.

A determinação judicial levou em conta, principalmente, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado no dia 16 de outubro do ano passado pelo ex-procurador geral do município de Fortaleza, Martônio Mont´Alverne Barreto, e o ex-secretário de Meio Ambiente e Controle Urbano, Adalberto Alencar.

O documento foi firmado entre a Prefeitura de Fortaleza, gestão Luizianne Lins, a Associação Cearense dos Empresários da Construção e Loteadores (Acecol) e as construtoras Unit, Flórida, Waldir Diogo e Central Park Participações Ltda.

Apesar de a área ser protegida por lei, o juiz diz que o “Município de Fortaleza, peremptoriamente, renunciou ao seu direito de recorrer” contra o embargo das obras do empreendimento. Uma polêmica jurídica que se arrasta há anos apesar da Lei Municipal 9502/2009 que transformou as dunas do mangue do Cocó em Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie).

Pelo TAC, assinado no período entre o 1º e o 2º turno das eleições municipais de 2012, a Acecol e seus associados têm “legitimados direito ao licenciamento ambiental para a instalação das quadras remanescentes do loteamento Jardim Fortaleza (área da construção do Central Park)”. E que a Prefeitura não ajuizará “qualquer medida judicial visando à suspensão, revogação, ou desconstituição de licenciamentos ambientais e alvarás de construção concedidos aos associados da Acecol” por meio de outras ações judiciais.

Paradoxo
- O então procurador Martônio Mont´Alverne, que assinou o TAC, enviou documento ao Tribunal de Justiça do Ceará contestando a validade do acordo firmado entre o Município e as construtoras. Em uma petição, datada do dia 19 de dezembro de 2012, Mont´Alverne pede que o desembargador Durval Aires Filho “desconsidere” o documento.

De acordo com o ex-procurador, o TAC em questão é uma “petição unilateral, firmada apenas pelos advogados dos apelados”. E afirma que, no Termo, não há sua assinatura digital.

Segundo Mont´Alverne, o TAC era apenas uma “minuta” e não poderia ter sido apresentada pela Acecol à Justiça. “Não sei qual foi a intenção dos advogados, talvez descuido”, diz. De acordo com o ex-procurador, o desembargador que recebeu o TAC, não ouviu o Ministério Público para homologar um “suposto acordo extrajudicial”, afirma.
Mont´Alverne afirma que o documento “não estebelece um ajustamento de conduta, mas mero pagamento pelos danos ambientais. O objeto do TAC é juridicamente impossível, à mdida qu recai sobre o direito ambiental indisponível”, diz.

ENTENDA A NOTÍCIA

Depois que o TAC foi assinado entre Prefeitura de Fortaleza e Acecol, em outubro passado, as construtoras pagaram R$ 500 mil como forma de medida compensatória para mitigar o prejuízo ambiental na área das dunas do Cocó.

Para ler e opinar: acompanhe a a página do O POVO Online no facebook (www.facebook.com/OPOVOOnline ) e no portal O POVO Online (www.opovo.com.br/fortaleza).

domingo, 10 de junho de 2012

"Pastor de Cabras" - Francisco Carvalho

Por Demitrti Tulio




Pastor de cabras de Francisco Carvalho

Fui pastor de cabras 
e de rios secos 
rezei pelas vacas que morreram de sede 
e os bezerros que ficaram 
órfãos e foram alimentados com 
o leite dos pássaros. 

Rezei pelas vértebras da paisagem 
pelo sangue das pedras 
pelas árvores e seus esqueletos 
de faraós, pelas portas 
fechadas das casas onde a lua 
dialoga com os mortos. 

Rezei em memória do vento 
que à noite pastoreia 
as lavouras soterradas de meu pai. 

Rezei pelos seios da terra 
pelo aniquilamento dos pássaros 
pela volta da chuva 
e a diáspora das borboletas. 
Rezei pelos náufragos do amor 
do tempo e da eternidade. 

Rezei pelos espantalhos de braços abertos 
rezei pelos afogados daquele rio 
que não seca nunca. 

sábado, 16 de abril de 2011

Adauto, Cid e o desembargador


Por Demitri Túlio



Memórias são águas nunca passadas. E amanheci encafifado com o poder de Adauto Bezerra




Do atencioso coronel do Exército Bayma Kerth, já na reserva, recebi há alguns anos um envelope grande e uma cartinha datilografada. Ontem, sexta-feira chuvosa, o farnesim me tentou e voltei a escarafunchar o dote. Diz assim a missiva:

“Prezado jornalista Demitri, conforme combinado, estou remetendo cópias de alguns documentos do SEI (Serviço Estadual de Informação) que tinha em meu poder. Alguns até originais, porque talvez interesse a um jornalista político possuir cartões e até envelopes subscritos por Virgílio Távora. Dentre outros documentos, destaco o meu discurso de passagem do cargo ao final do mandato. De forma sumária dá ideia das atividades do SEI. Há ainda, um informe político completo sobre a análise feita pelo SEI a respeito da sucessão de 1982. Neste particular, confirmo o que lhe disse pelo telefone. Que o acordo que indicou o governador Gonzaga Mota foi firmado em reunião sigilosa realizada na minha residência, à rua Eduardo Sabóia, 84, Papicu, entre Virgílio, Adauto e um representante do Serviço Nacional de Informações (SNI).É a primeira vez que trato deste assunto. Porque não mais se justifica a manutenção do sigilo, considerado importante na ocasião. No mais, vai um retrato tirado no SEI e outros escritos que, talvez, também possam interessar. Obrigado pela atenção e um abraço.”

E por quais moinhos d´águas, resolvi remexer no que estava enfurnado? Porque memórias são águas nunca passadas. E amanheci encafifado com o poder de Adauto Bezerra, já vascolejado de forças do atraso pelos Ferreira Gomes e Jereissati. Um coronel sobrevivente da Ditadura, que eu diria, nunca perdeu a majestade e é um exímio semeador de pé de “cá te espera”. E arriscaria ainda, um Nostradamus na atual política cearense.

Nos bastidores da entrevista que concedeu para as Páginas Azuis do O POVO, em outubro do ano passado, Adauto brincando comigo e o repórter Cláudio Ribeiro, descobriu que eu e o “promotor” Teodoro da Silva Santos havíamos sido sargento da Polícia.

Corrigiu-me sorrindo de orelha a orelha: “promotor não, Procurador”. E foi além. Na despedida da boa prosa que se esticava até o elevador de seu gabinete no BIC Banco, ainda preservado no Centro de Fortaleza, profetizou: “Anote aí, Teodoro vai ser desembargador no próximo ano”. Desembargador? “Sim, desembargador!”.

E para surpresa mediúnica, o Ferreira Cid Gomes indicou Teodoro para o Tribunal de Justiça do Ceará. Profético, Adauto! Volto aos documentos que o coronel Bayma Kerth me confiou. Num relatório secreto do SEI, há um perfil encomendado dos dois coronéis que disputavam poder com Virgílio Távora: César Cals e Adauto.

Pena que o espaço já se faz miúdo. Mas em um parágrafo, resumo este rififi inocente sobre Adauto Bezerra pelos olhos dos espiões do SEI. Em 29 de agosto de 1980 rabiscaram: “Possui muita experiência política, sendo frio e persistente para a conquista de seus objetivos. É muito discreto, dificilmente deixando transparecer as suas ideias e sua posição, face a um acontecimento futuro de seu interesse”.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sobrevivência e pertença - Demitri Túlio

Por Demitri Tulio

  
O homem que matou as mais de 52 árvores no quarteirão da Santos Dumont com Virgílio Távora despertou em muitos fortalezense um sentimento de sobrevivência e quintal.

O que ainda há de verde e o que resta de micro, macro e média fauna na Metrópole são indispensáveis para que haja vida na Cidade acelerada de consumo, prédios, asfalto e uma multidão de carros velhos de luxo.

Da esquina da Santos Dumont com Virgílio Távora, os olhos de boa parte dos fortalezenses vigiam o Cocó.

Bom que seja assim, mesmo um pouco tarde, depois de tanto desmatamento e acuarem o rio que ainda costuma ir brincar no mar.

Suas dunas, suas lagoinhas de passagens, seus pássaros, suas aves pescadoras, roedores, anfíbios, lagartos, borboletas e o mais miúdo dos organismos, não são descartáveis ou transferíveis.

E ninguém é contra a construção civil sustentável e a propriedade privada. Não. O que assombra é a forma avassaladora e capital com que se transforma o verde em cinza-cemitério.

Bom que na cidade se fortaleça mais e mais o sentimento de sobrevivência, quintal e pertença.

Do Cocó ao Bom Jardim, da Barra do Ceará à Água Fria (o desmatamento lá
é grande), na Grande Fortaleza e na caatinga cearense que vira lenha nas pizzarias e hotéis da Aldeota.

Demitri Túlio, repórter especial do O POVO

http://bit.ly/fv1MAA

domingo, 5 de dezembro de 2010

Drauzio Varella - As armas, a febre e a violência

Os multi tudo sempre estão acima do DEM e do mal. Drauzio Varela é um deles. É articulista da Revista Carta Capital, é "repórter" do Fantástico, escritor de sucesso (Estação Carandiru é um deles), sósia do Serra e o vice que o mesmo Serra queria antes de se fixar no Índio.
Em 2005, em sua coluna em Carta Capital escreveu dentre outras  que "Exemplo típico dessa abordagem carregada de conteúdo emocional foi o referendo sobre a proibição de armas. Pessoalmente, confesso que os argumentos do sim me pareciam lógicos: quanto menos armas, menor o número de crimes. Mas, ao ouvir os do não, algumas vezes concordava com eles, deixando claro meu despreparo para decidir sobre assunto tão técnico."
Agora vai em negrito. "Se eu que me interesso pelo problema, tenho formação universitária, leio trabalhos, participo de debates, frequanto cadeias há 16 anos, escrevi o livro Estação Carandiru, fico confuso, o que será do cidadão inexperiente? Qual o sentido de um eleitor perdido nos grotões ser obrigado a manifestar sua opinião a respeito de uma medida de combate à violência que será adotada em São Paulo ou no Rio de Janeiro?.
Ilunimismo puro do multi tudo. Preconceito.
O mesmo médico infectou-se do vírus da Febre Amarela, que existe vacina, e depois escreveu outro livro chamado "O médico doente" relatando sua vivência com a doença. Casa de ferreiro espeto de pau.

Mudando da água para o vinho!!! o  médico escreveu artigo que transcrevo na íntegra. "Violência contra Homossexuais".
e mais, recomendo que Bento XVI, os bispos e pastores reacionários que colocaram as garras de fora na última campanha presidencial e Jair Bolsonaro o leiam.

Violência contra homossexuais 

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O último dos Coronéis - Adauto Bezerra

O jornal O Povo, em suas páginas azuis que lembra as páginas amarelas de uma certa revista, publicou excelente entrevista com o último dos coronéis da política cearense - Adauto Bezerra. Para além da boa vontade do entrevistador, cabe ressaltar o trabalho da dupla de entrevistadores: Demitri Tulio e Claudio Ribeiro.
Excelentes jornalistas. Demitri extrapola o jornalismo e veleja nas águas da memória e da ficção. Seu último lançamento "Filha de coelha, girafa é" é um barato.
Mas voltando a entrevista, transcrevo algumas das declarações do coronel:
  • OP – Eu falo da semelhança entre vocês quatro (Adauto e Humberto e Ciro e Cid) em relação à trajetória política. 
    Adauto – Mas vamos observar o comportamento de um e de outro. Nós somos irmãos quase siameses. Eles às vezes distoam. Você não vê que o Ciro é mais língua solta, mais conversador, mais atirado, violento não, mas ele não engole muito não. Ao passo que o Cid é calmo, tranquilo, sereno, ouve muito, fala pouco. É o comportamento de cada um, é da pessoa, você não pode obscurecer.
  • OP – O senhor aceita essa crítica? (Clientelismo)
    Adauto – Eu fiz, eu fiz. É autocrítica. Agora vamos raciocinar. Você é um prefeito, mora a 400 km, chega a Fortaleza e quer falar com o governador. Pediu audiência? Não. É barrado e não entra. Mas é prefeito, vai atender a comunidade dele, ao município. Não pode, “procure o secretário fulano”. Eu nunca fiz isso, mandava entrar. Podia atrasar, ficava esperando, mas eu atendia. Ele nunca vinha só, com dois ou três vereadores, para mostrar que tinha prestígio e que o governador iria atendê-lo. E todos pediam um empregozinho. Era a professora, o delegado, servente, vigia, essas coisas. Sempre atendia todos eles. O Tasso fez uma inovação. “Eu sou administrador, cada prefeito cuide de sua administração e eu vou fazer a minha”. Ficou meio distante. Se isolou. Não sei se é temperamento. O meu, gosto de estar no meio do povo. Mas sei que ele dispõe de mais tempo para trabalhar, produzir. Mas a equipe tá pra isso. Vamos reconhecer, ele foi um bom governador. Foi um bom senador. Não posso deixar de reconhecer.
  • OP – O senhor votou nele?
    Adauto – A minha idade... (Risos) Eu fui dispensado.
  • OP – Mas o senhor nunca votou nele?
    Adauto – Não. Era outro partido.
  • OP – O Tasso perdeu para o presidente Lula?
    Adauto – Foi.
  • OP – O senhor chegou a manter contato com o Tasso, mais recentemente?
    Adauto – Não telefonei porque poderia até pensar “o Adauto me telefonar na hora da minha derrota?”, “será que é vingança do Adauto dizer isso, porque eu o derrotei?”. Não se trata disso. Olha o que eu falei, grande governador, grande senador. Acho que não era a hora da substituição dele. Ele ainda tem muito o que fazer. Chegou a hora de descer a escada.
  • OP – Se o senhor tivesse votado nessa eleição, teria sido nele? (Cid Gomes)
    Adauto – Com toda certeza. Quer ver o telegrama que eu mandei pra ele? (Pede à secretária que traga o telegrama. Quando o gravador é religado, começa contando uma história ocorrida em sua sala). Veio um deputado aqui, tive pena dele. Ô baixinho pra trabalhar.
  • OP – Quem é?
    Adauto – Heitor Férrer (deputado estadual reeleito, do PDT). Esse rapaz chegou aqui com um pacotinho de santinhos na mão. Um por um entregando. “Mas Heitor, o que é isso?”. “Minha campanha é essa, não tenho dinheiro, não tenho nada. Tudo que consegui até agora foram R$ 12 mil. Aí fui e dei uma ajuda pra ele. Esse menino pulou (levanta as mãos), “coronel, o senhor me salvou”. Ainda ontem ele esteve aqui, mas é um rapaz sério, um bom deputado. Ele é de oposição, mas não é por oposição. Ele dá o fato. ]
  • OP – Quem mais o senhor ajudou nessa eleição, coronel?
    Adauto - O meu sobrinho José Arnon (deputado federal reeleito, do PTB). 
  • OP – O Cid veio pedir ajuda?
    Adauto – Não.
  • OP – O Lúcio Alcântara veio?
    Adauto – Estou meio distante dele. Não veio, não.
  • OP – O Marcos Cals também nem apareceu?
    Adauto – Quero muito bem àquele rapaz. 
  • OP – O senhor o viu ainda pequeno.
    Adauto – Sim. Deveria ter sido preparado para ser o candidato, mas o pegaram de última hora e jogaram dentro do rio que só tinha piranha. (Exibe o telegrama enviado a três candidatos e pede que seja lido). 
  • OP – O senhor disse que não ligou para o Tasso porque poderia soar como indelicadeza ou ser mal interpretado. Quando o senhor foi acusado de fazer parte das “forças do atraso” (na campanha para o governo, em 1986), como se sentiu?
    Adauto – Era o Ciro, era o mais cáustico sobre isso. O Tasso também usou. Eu aguardei.
  • OP – O senhor preferiu ouvir calado?
    Adauto – Eu aguardei (faz uma pausa) e esperei o tempo passar. Mas um dia, lá no meu apartamento, chega lá o Ciro. Foi pedir para eu fazer parte do apoio ao irmão dele, o Cid. “Vou apoiar”. Na primeira eleição do Cid (ao governo estadual, em 2006). 
  • OP – Qual foi sua reação?
    Adauto – “Vou apoiar, vou trabalhar. Rapaz muito bom”. E trabalhei muito.
  • OP – Essa foi a resposta que o senhor deu?
    Adauto – “Vou trabalhar”. Eu não guardo ressentimento de nada. A vida é curta, você tem que pensar no melhor, fazer o bem. Vou ficar com rancor e ódio? Aquilo faz mal a mim.
  • OP – Quando o senhor encontrou com o Ciro, que lhe pediu apoio na primeira eleição do Cid para governador, o senhor lembrou a ele que tinha sido chamado de força do atraso? Ou ele próprio chegou a pedir desculpas ao senhor?
    Adauto – Não, nunca pediu desculpas.
  • OP – Teve algum momento em que o senhor teve vontade, não só nesse episódio mas qualquer outro, de revidar, com esse ou aquele político?
    Adauto – A única coisa que eu e meu irmão temos um pouco de diferença é o temperamento. Ele me chama de “irmã Paula”, porque tudo que vem aqui eu procuro ajudar. Ele não. Eu não fui atrás dele, ele veio à minha procura, vamos ter um espírito mais elevado.
  • P – O que a gente não perguntou que o senhor acha que deveria ter sido perguntado?
    Adauto – Esta é uma pergunta muito boa (risos). O que eu me esqueci? (mais risos) Olha, a vida é muito curta. Você pensa que 84 anos... eles se passaram sem eu sentir que passaram. E o que me resta é muito pouco, então... olhe para o vizinho, veja o que pode estar faltando, dê uma ajuda. Se ele caiu, dê a mão. Nossa mesa tem tudo, a dele pode não ter nada, então porque não vou dar um pouco da comida pra ele? Humildade. Ninguém pode ser arrogante, prepotente. Porque as coisas acontecem. Quando você menos espera pode estar em cima de uma cama, desenganado, a qualquer hora pode desaparecer e o que você leva? Será que leva? A vida termina aqui? E a outra? Fernando Pessoa já dizia: a vida é uma grande reta, mas lá na frente é uma curva. O corpo fica na curva e o espírito continua. Para onde é que vai?
  • OP – Qual o melhor governador do Ceará?
    Adauto – O melhor em todos os tempos foi Virgílio Távora. Isso marca. Era competente, inteligente, trabalhador, honesto, mas de uma antipatia a toda prova. 
  • OP – Há o folclore que o senhor e ele tinham rusgas nos bastidores.
    Adauto – Não, nunca briguei com ele.
  • OP – Mas tinha alguma faísca?
    Adauto – Ele tinha ciúmes. O Virgílio não admitia ninguém crescer. Ele gostava que todo mundo ficasse ali bajulando, dizendo que ele era maior, que ele tinha um metro e 90 (centímetros). Porcaria deste tamanho (risos). Não é por aí. Ele tinha tanta confiança em mim... Uma vez dona Luíza (Távora, ex-primeira dama) foi muito irreverente. Como vocês chamam aquela roupa que bota por cima do pijama, da camisola?
  • OP – Robe?
    Adauto – Ela gritou: “por que fecham a porta? Que direito vocês têm? Escondido aí pra quê?” (simula um grito dela. Em seguida imita a voz grave e lenta de Virgílio) “Luíza?” Sabe por que ele fechou a porta? Já estava com câncer. Era para me pedir: “Adauto, não sei quanto tempo, mas queria que você cuidasse do Carlos Virgílio. Ele está exagerando” (Era o filho de VT, ex-deputado federal, que morreu em 19 de novembro de 2000, em Teresina). 
  • OP – Coronel, tenho curiosidade num assunto bastante delicado para sua família. 
    Adauto – Não, tudo bem.
  • OP – É a sobre a morte de sua sobrinha Ana Amélia (executiva assassinada no Paraguai, em agosto de 2002). O episódio foi fatalidade, foi tentativa de sequestro, foi armação? Houve algo mais além do que veio a público?
    Adauto – As Polícias do Paraguai e daqui apuraram. Mas chegaram à conclusão que quiseram parar o carro para roubar. Tentativa de assalto. Quando meteram o tiro, era para o carro parar e fazer o assalto, mas acertou a menina.
  • OP – A família mesmo aceitou como fatalidade?
    Adauto – Fatalidade.
  • OP – A família contratou alguém para investigar lá?
    Adauto – Se tem sabido quem era, cabôco tinha morrido. Tinha. Trazia pra cá, ia fazer o enterro bonito dele. 
  • OP – Alguém pensou em sequestro, mas outro também descartou logo.
    Adauto – Eu sou muito amigo do Mainha (Ildefonso Maia Cunha, condenado por homicídios no Ceará, que hoje cumpre pena em regime aberto). Muito amigo, não, eu conheço o Mainha. Nos apertos ele vem aqui. 
  • OP – Vem aqui?
    Adauto – Vem aqui ou vai em Guaramiranga. Ou manda a mulher. Não é muito melhor se ter uma fonte de informação como o Mainha, do que ter um inimigo como o Mainha? Sabe como ele se identifica (à secretária)? Professor Diógenes.
  • O POVO – O senhor tem feito caridade?
    Adauto - Hoje tenho três atividades que me tomam o dia. Começo na Santa Casa. Às 7h30min eu tô lá. Todo dia. Na Santa Casa eu sou o mordomo (gestor das contas). A parte de enfermaria, doente, gente que chega de cirurgia, UTI, doente, tudo é comigo. Segundo, é aos sábados e domingos. Eu tenho um centro de tratamento de dependentes químicos. É no limite entre Messejana e Eusébio. Comprei duas quadras, fiz as casinhas, tem piscina, área de exercícios, médico, fisioterapeuta, tem tudo. 
  • OP - Quantos atende?
    Adauto - São 45. Às vezes muda pra mais. O principal é o crack. É o que derruba, chega lá já no final, terminal. Chega, bota pra dormir, desintoxicar, 45 dias, começam a andar, exercícios, suar, correr.
  • OP - Por que o senhor decidiu fazer isso? 
    Adauto - Porque eu já tenho 84 anos. O que me resta é bem pouquinho. Se eu não fizer isso, o que eu deixo aqui? O projeto já tem 14 anos. Eu e o doutor Luis Teixeira. Era uma casa com três quartos, com área e nada mais. Depois vi não ser possível continuar vendo a mocidade no crack, em tudo. Começavam sempre com a maconha e o álcool, depois... 
  • OP - E a Santa Casa, como está de finanças? 
    Adauto - Graças a Deus, tá bem. Nós temos compromissos a pagar, mas dívidas atrasadas, nenhum centavo. Tudo pago.
  • OP - É mesmo? Limparam esse débito quando? Era uma dívida eterna. 
    Adauto - Ela está saneada há um ano e oito meses. Reescalonamos a dívida em 50 pagamentos. Podíamos pagar isso. A Caixa Econômica concordou.
  • OP - Ainda tem ajuda pela conta de luz? 
    Adauto - Tem. Há uma empresa no Espírito Santo que contratamos. Aí a ajuda já vem embutida na despesa do consumo de energia. Você autoriza qualquer valor. Isso nos dá por mês, R$ 510 mil, R$ 520 mil.
  • OP - Qual a despesa mensal da Santa Casa? 
    Adauto - Só de pessoal dá uns R$ 700 mil.
  • OP - E o resto vocês cobrem como? 
    Adauto - Tem o cemitério São João Batista, que dá uns R$ 90 mil, R$ 100 mil por mês. Tem doações. Essas mercadorias apreendidas, a gente recebe, vira leilão. Em cada caminhão, no leilão a gente apura R$ 1,2 milhão. Aí vai indo. E tem o SUS. Cada cirurgia, se é de alto risco é um pouco mais. Se é simples é quase nada. 
  • OP - Quanto a Santa Casa está pagando de dívida parcelada? 
    Adauto - Uns R$ 80 mil. Isso me enche tanto a vida.
A íntegra da da entrevista no link abaixo:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginas-azuis/2010/10/25/noticiapaginasazuisjornal,2056403/confira-a-integra-da-entrevista.shtml