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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O refúgio de Donnafugata

por Walter Maierovitch

Homem solitário e leitor compulsivo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa morreu em 1957 com a certeza da não publicação do seu único e histórico romance, Il Gattopardo, lançado no Brasil com o título O Leopardo. Refutado por editora do porte de uma Mondadori-Einaudi depois de parecer contrário escrito com dor de cotovelo por Elio Vittorini, a obra foi publicada um ano depois da morte de Lampedusa pela Feltrinelli, com prefácio de Giorgio Bassani (autor do romance O Jardim dos Finzi-Contini).



Sucesso póstumo, Il Gattopardo tornou-se o maior best seller na história da literatura italiana. No cinema, a adaptação de Luchino Visconti com as interpretações magistrais de Claudia Cardinale e Burt Lancaster, bateu recordes de bilheteria. Pois bem, quando o autor desta coluna é tomado por desilusões e tristezas, refugia-se na sua imaginária e lampedusiana villa de Donnafugata e busca conforto na leitura de uma página de O Leopardo: “Nós fomos os leopardos, os leões. Quem nos substituirá serão os chacaizinhos, as hienas. E todos, leopardos, chacais e ovelhas, continuaremos a nos acreditar como o sal da terra”.

Na minha última estada em Donnafugata, estive na companhia da iraniana Reyhaneh Jabbari. Reyhaneh, 26 anos, decoradora de interiores, foi presa em 2007 por esfaquear o conacional Morteza Abdolali Sarbandi. Acusada de homicídio premeditado, permaneceu presa de 2007 a 25 de outubro de 2014, quando foi executada a pena capital imposta por cinco juízes de um tribunal penal e confirmada pela Corte Suprema do Estado teocrático iraniano.

No processo, a ré Reyhaneh sustentou haver atuado em legítima defesa para escapar de um estupro, no escritório de Sarbandi, que conhecera em um café e que a convidara para conversar a respeito de um projeto de decoração.

Depois de cominada a pena capital pela Justiça iraniana, resta a qualquer condenado, pela regras da teocracia xiita, recorrer à clemência da família da vítima. No caso de Reyhaneh, a família de Sarbandi condicionou o perdão à retratação da afirmada ocorrência de violência sexual. A família de Sarbandi insistia na premeditação sob argumento de a faca, instrumento do crime, ter sido comprada três dias antes do homicídio e numa interceptada mensagem via SMS enviada a um amigo, na qual a condenada dizia: “Penso que o matarei hoje”.

Reyhaneh continuou a sustentar a tentativa de estupro. Dada a recusa a um perdão condicionado à retratação, a execução da pena capital, chamada de homicídio legal por doutrinadores do direito penal, consumou-se no subterrâneo da prisão de Gohardasht, ao norte da cidade de Karaj. Os apelos da Comunidade Europeia, das Nações Unidas e da Anistia Internacional de nada valeram, como já se pressentia.

No sábado 8 de novembro, o jornalista Massimo Gramellini, vice-diretor do diário La Stampa, de Turim, observou, em um programa de televisão de larga audiência, que seria cômodo para Reyhaneh aceitar retratar-se para manter-se viva e livre. Sua consciência falou mais alto. Reyhaneh é um desses casos raros em que o ser humano é o “sal da terra”.

O chefe do Ministério Público iraniano, em nota, procurou, sem sucesso no exterior, contornar o impacto negativo da condenação ao evocar fatos processuais. Por exemplo, Reyhaneh, em um interrogatório inicial, sustentou que uma terceira pessoa estava presente e foi o homicida. Na nota, afirma-se que a faca ensanguentada e a bainha foram apreendidas na residência da ré. Em contrapartida, omite-se ter Reyhaneh ficado, antes do interrogatório, em isolamento celular por dois meses, sem possibilidade de contatar o advogado de defesa Mohammad Mostafaei, fato confirmado por este em seu blog.

Não bastasse, a Justiça da teocracia iraniana condenou à pena de um ano de prisão, a ser cumprida integralmente em regime fechado, a ativista Ghoncheh Ghavami, de 25 anos. A condenação deveu-se à violação de norma de proibição ao tentar assistir, em junho passado, a um jogo de vôlei masculino entre as seleções do Irã e da Itália. Ghavami luta pelo reconhecimento da igualdade de direitos entre homens e mulheres e está recolhida no nada recomendável cárcere de Evin, na periferia de Teerã.

No mundo sunita, mais especificamente na Arábia Saudita, a advogada e ativista Souad al-Shammary tenta se livrar da acusação de insulto ao Islã e invoca o direito natural à liberdade de expressão. Culpada por ter criticado quem usa barba e os vaidosos que se julgam ungidos pelos céus e têm a mão beijada pelos semelhantes. Ou pelas ovelhas?

http://www.cartacapital.com.br/revista/826/o-refugio-de-donnafugata-115.html

sexta-feira, 9 de março de 2012

... mas quem paga a conta?

Por Ronildo Mastroianni

Amigas

Ronildo Mastroianni
O 8 de março é comemorado no mundo, o Dia Internacional da Mulher, ou seja dos 365 dias do ano, 364 são do homem;

As mulheres só tiveram o direito de votar, de fato, ainda que, por concessão do governo de Getúlio Vargas em 1932: detalhe só as casadas e que tivessem permissão dos maridos. Em 1946 a mulher de passou a efetivamente exercer o direito de votar igualmente os homens vinham fazendo desde 1532, essa conta é fácil, são 400 anos;

No Brasil, após 122 anos de homens se reversando na presidência da República, uma mulher assumiu esse cargo. Foram 34 homens anteriores a Dilma Rousseff.
Será que os outros homens presidentes eram tão competentes e as mulheres necessitaram de quase um século e meio para construir essa competência?

A agricultura foi inventada pela mulheres a aproximadamente 9 mil anos, porém quem recebe maiores estímulos e créditos para o exercício dessa atividade são os homens em qualquer parte desse Brasil e na maioria dos países do mundo.

As Forças Armadas do Brasil existem oficialmente desde 1808, porém somente em 1943, mais de um século depois as mulheres puderam ingressaram no Exército Brasileiro. Mesmo assim, permanecem em cargos de "cuidadoras ou socorristas" por que será isso? Porque os grandes cargos e patentes só ficam para os homens?

O dia 15 de outubro de 1827 foi consagrado à educadora Santa Teresa de Ávila, porém somente em 1947, 120 anos após a instituição desse dia, ocorreu a primeira comemoração efetivamente dedicada a essa categoria, e a partir de então passou a ser o Dia do Professor e não o Dia da Professora ou Educadora... fala sério!

A primeira Faculdade de Medicina foi criada em 1808, pelo príncipe regente D. João VI, porém sete décadas depois, ou mais de meio século depois ocorreu a primeira matricula de uma mulher na faculdade de medicina, foi a gaúcha Ermelina Lopes Vasconcelos...

A Ordem dos Advogados do Brasil, cujo nome inicial era Instituto dos Advogados do Brasil, existe desde 1843, porém, somente no inicio do século XX as mulheres passaram a ingressar na OAB, as pioneiras foram Myrthes de Campos e Leonilda Daltro, isso há mais de um século depois...

Ainda hoje, as mulheres recebem um salário menor que os homens para assumir o mesmo cargo e as mesmas responsabilidades...

Hoje o tempo de atendimento no serviço de saúde pública é menor para as mulheres negras, se comparado com o mesmo tipo de atendimento para as mulheres brancas;

Ainda hoje as principais vítimas da violência que ocorrem dentro das casas, ou seja a violência doméstica, são as mulheres as crianças e os idosos/as...

Ainda hoje, prioritariamente, a responsabilidade de fazer a alimentação da família, limpar, lavar cozinhar e cuidar dos idosos/as dentro da família, são atribuições colocadas para as mulheres...

Ainda hoje, a cada ano cresce o número de mulheres violentadas e mortas no Ceará, em 2009 houve aumento de 46% comparado 2008; em 2010 o aumento foi de 12% comparado a 2009, em 2011 segue o no mesmo ritmo...
Os motivos são espetaculares: intolerância, ciúme, possessão, agressividade, machismo!

Bem, acho que de fato devemos comemorar o dia 8 de março, como um dia de luta, um dia de superação sim!;

Para os homens está tudo muito bem obrigado, porque tudo, absolutamente tudo é construído a partir do referencial masculino.

Como não cumprimentei com a palavra amigos no início dessa mensagem, é bem provável que alguém não tenha gostado e talvez não tenha chegado a ler o conteúdo dessa mensagem...

Pra finalizar: Que todos e todas, principalmente as mulheres, possam vivenciar o cotidiano de uma forma crítica, de como são vistas dentro dessa sociedade "moderna" que usa os artifícios do capitalismo e do patriarcalismo para perpetuar o que historicamente vendo estruturando as desigualdades de classe, raça e gênero, obviamente em níveis diferenciados, porém recorrente em todas os canto e sociedades do mundo.

Essa sim seria a maior revolução que poderíamos ter.

Justiças, igualdade e efetivação de direitos para todas, para todos.
E aí: vamos comemorar! Mas quem paga essa conta?

Ronildo Mastroianni é Agroecologista e Agrônomo do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria