por Débora Dias
“A terra que piso é outra e outra é a compleição do comum das gentes que a habitam, as quais me sugerem que, sendo forasteiro, não sou estranho, porque se me tornou afetivamente fluida a fronteira do portuguesismo e da brasilidade”. Joaquim de Carvalho, historiador da cultura e da filosofia portuguesa, durante conferência apresentada em sua primeira viagem ao Brasil, 1953.
Viajar é diferente de morar. E para se viver em um lugar outro, penso eu, o esforço e a vontade de saber do outro, mantendo o próprio eixo, talvez nunca prescindam. Estrangeira em uma terra onde a língua que falo é a mesma, há três anos habito Portugal. A cada dia tento saber mais da sua complexidade, por vezes me irrito quando não alcanço os porquês, mas na maior parte do tempo é sentir, e aprender pelo sentimento. Agora em Lisboa, vivo em coletivo na cidade mulher luminosa e simpática. De sorriso largo, se abre fácil para os tantos forasteiros que por aqui aportam. É de muitos e não é de hoje que esse ponto privilegiado entre mundos mistura partida, chegada e passagem. Mas altera também fácil o humor, tem seus dias de chuva, e faz pensar na humidade (umidade, no uso do português brasileiro) e aquilo termina. Quando volta radiante e ilumina, é de um céu que desaba contentamento.
Dias atrás, em um café, uma pesquisadora indagava sobre o fenômeno dos brasileiros no País em anos de tanta crise. Às levas de trabalhadores, chegam agora os estudantes. Defendi que o argumento da língua é forte, mas não chega perto de explicar, nem de ser o motivo mais importante. Muitos são os caminhos que trazem as pessoas para cá ou que as fazem ficar. Se tiver que escolher, digo que foi porque amava a ideia e, como acontece frequentemente aos amores, idealizava Portugal antes de o conhecer, de aqui alguma vez ter estado. Depois desses poucos anos de convivência, conceitos foram se formando nos prazeres, nas dificuldades e nos aprendizados, e o amor se transformou. De Fortaleza para Lisboa, conheci a solidariedade imigrante, e com ela fui guiada para a estação de comboios, chegando em Coimbra. Na cidade do rio Mondego, era começar o doutoramento, preparar a chegada da filha então com dez anos, tentar uma bolsa que me permitisse ficar mais tempo a viver nesse outro tempo, diferente do que tive. O horizonte era imenso e o agora ainda tão distante. A crise era o futuro que hoje se realiza dramaticamente. E o futuro chegou rápido. A cada ano, as promessas de piora se cumpriam e muito do que o país conquistou após o abril de 1974, com o fim da mais longa ditadura da Europa ocidental, foi reduzido, extinto ou ameaçado. Pessoalmente, após quase um ano de incertezas, chegou do Brasil a tão esperada bolsa de estudos, e com ela a possibilidade institucionalizada de ficar mais. A filha foi se adaptando a um outro jeito de viver e de sentir, mergulhando no que chamamos cultura portuguesa, às vezes parecida, às vezes tão diferente da nossa. Aqui nos descobrimos brasileiras, afirmamos identidades na diferença. Conhecemos mais da África e da Índia, na mistura das gentes. Hoje, aos 13 anos, o aqui é mais dela do que meu.
Nesse tempo, viajamos, acompanhamos as estações, terminei minhas lições na universidade, pesquisei em arquivos, me emocionei até com papel, tinta e o pó. Fui para o estrangeiro desse estrangeiro, e voltei. Conheci gente, firmei laços, soltei outros, e aconteceu de doer. Em outros dias foi a saudade nesse Portugal já tão saudoso em si. De Coimbra mudei para Lisboa e casei com quem já era companheiro de vida e veio para perto. Mudamos de casa em três. Foi muito e ainda não foi o bastante. Vendo os que chegam a cada temporada, revendo os encantos e estranhamentos de chegada, é como se reatualizasse minha condição de imigrante, um pouco mais acomodada a cada ano, mas sabendo que esse tempo está suspenso, à espera de desfecho. Desenlace que talvez nem queira ainda. E o que fica? Muito dos versos de Ricardo Reis, aquele outro do Pessoa.
“Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde que quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos. Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos o retiro Onde esconder-nos, tímidos do insulto Do tumulto do mundo. Que quer o amor mais que não ser dos outros? Como um segredo dito nos mistérios, Seja sacro por nosso”.9/6/1932
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).
http://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Fado Tropical
Um dos maiores jornalistas desportivos do Brasil, apanha boleia da canção de Chico Buarque para declarar o seu amor por Portugal.
Gosto tanto de Portugal que pouco conheço de Portugal.
Sim, por contraditório que pareça, as cinco vezes em que já estive em Lisboa, as duas no Porto e a vez em que fui até Évora, foram poucas, muito poucas para quem quando pisa nele tem vontade de ficar, ficar e ficar.
Sou de uma geração de brasileiros vítima de duas bobagens de difícil recuperação: “Portugal de Salazar não merece uma visita” e “Portugal não é Europa”.
Ora pois, o país não se confunde com seu regime político e se a ditadura lusitana era ruim, e era, a brasileira também era — e nem por isso rejeitávamos o Brasil.
Já à bobagem seguinte só cabia uma resposta: “Ah, não é Europa? Azar da Europa!”.
Não falo da luz de Lisboa porque a cidade deveria se chamar Luzboa e nem do Bairro Alto, muito menos das frases sobre o Tejo, que virou o rio da minha aldeia, na pista de caminhada que o margeia, porque aí bate uma saudade insuportável.
Muito menos posso me referir ao pudim abade de Priscos que um dia comi no Porto porque aquilo já não é mais uma sobremesa, é pecado do qual ninguém quer ser perdoado.
Portugal para mim é Cascais, sem mais.
Évora, que devora e faz devorar.
É Sintra, que sinto, sinto muita vontade de ver todos os dias, por ela passar como se fosse comum, habitual, corriqueiro mesmo, sem sobressaltos, como se fosse possível lá estar e assim sentir.
É o Estoril, discreto, acolhedor, sutil.
Mas de tudo que gosto em Portugal, além dos restaurantes Bica do Sapato e Pap’Açorda, do meu amigo Fernando Fernandes, nada se compara ao povo português.
Está bem, pode dizer que estou a cair em demagogias, mas veja lá: minha avó materna, Mariazinha Esteves, era daquelas portuguesas pequeninas, perfumadas e detalhistas. Adoro ler o Público, gosto mais de Eça de Queirós do que de mim mesmo, sem esquecer de Alexandre Herculano, e entre o Benfica, o Sporting e o Porto fico mesmo com o Corinthians para não magoar ninguém.
Bebo na sabedoria de Manuel Sérgio, filósofo do esporte como poucos pelo mundo afora, na verdade como ninguém, doutor pela Universidade de Lisboa, de quem só não sou discípulo por me faltar competência para tal.
Como bebo os vinhos do Alentejo, do Douro, ou paro na tabacaria ao lado do tradicionalíssimo café A Brasileira para comprar um charuto com preço justo.
Gosto do sotaque e me divirto ao lembrar que Raul Solnado perguntava aos brasileiros: “Ah! e somos nós que temos sotaque?”.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal…
por Juca Kfouri
http://upmagazine-tap.com/pt_artigos/fado-tropical/
Gosto tanto de Portugal que pouco conheço de Portugal.
Sim, por contraditório que pareça, as cinco vezes em que já estive em Lisboa, as duas no Porto e a vez em que fui até Évora, foram poucas, muito poucas para quem quando pisa nele tem vontade de ficar, ficar e ficar.
Sou de uma geração de brasileiros vítima de duas bobagens de difícil recuperação: “Portugal de Salazar não merece uma visita” e “Portugal não é Europa”.
Ora pois, o país não se confunde com seu regime político e se a ditadura lusitana era ruim, e era, a brasileira também era — e nem por isso rejeitávamos o Brasil.
Já à bobagem seguinte só cabia uma resposta: “Ah, não é Europa? Azar da Europa!”.
Não falo da luz de Lisboa porque a cidade deveria se chamar Luzboa e nem do Bairro Alto, muito menos das frases sobre o Tejo, que virou o rio da minha aldeia, na pista de caminhada que o margeia, porque aí bate uma saudade insuportável.
Muito menos posso me referir ao pudim abade de Priscos que um dia comi no Porto porque aquilo já não é mais uma sobremesa, é pecado do qual ninguém quer ser perdoado.
Portugal para mim é Cascais, sem mais.
Évora, que devora e faz devorar.
É Sintra, que sinto, sinto muita vontade de ver todos os dias, por ela passar como se fosse comum, habitual, corriqueiro mesmo, sem sobressaltos, como se fosse possível lá estar e assim sentir.
É o Estoril, discreto, acolhedor, sutil.
Mas de tudo que gosto em Portugal, além dos restaurantes Bica do Sapato e Pap’Açorda, do meu amigo Fernando Fernandes, nada se compara ao povo português.
Está bem, pode dizer que estou a cair em demagogias, mas veja lá: minha avó materna, Mariazinha Esteves, era daquelas portuguesas pequeninas, perfumadas e detalhistas. Adoro ler o Público, gosto mais de Eça de Queirós do que de mim mesmo, sem esquecer de Alexandre Herculano, e entre o Benfica, o Sporting e o Porto fico mesmo com o Corinthians para não magoar ninguém.
Bebo na sabedoria de Manuel Sérgio, filósofo do esporte como poucos pelo mundo afora, na verdade como ninguém, doutor pela Universidade de Lisboa, de quem só não sou discípulo por me faltar competência para tal.
Como bebo os vinhos do Alentejo, do Douro, ou paro na tabacaria ao lado do tradicionalíssimo café A Brasileira para comprar um charuto com preço justo.
Gosto do sotaque e me divirto ao lembrar que Raul Solnado perguntava aos brasileiros: “Ah! e somos nós que temos sotaque?”.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal…
por Juca Kfouri
http://upmagazine-tap.com/pt_artigos/fado-tropical/
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Rolling Tombstones
Por José Diogo Quintela*
Portugal acaba de perder uma soberba oportunidade para reforçar o estatuto de coqueluche do turismo mundial: na quinta-feira, estiveram cá os Rolling Stones e nenhum dos seus elementos faleceu em solo português. É muito azar. Neste momento, receber um concerto dos Rolling Stones é como comprar um bilhete de lotaria. É uma espécie de jogo das cadeiras em que, quando a música pára, é porque o músico se finou. Depois é só ver em que país se deu o óbito. Não é bem uma tournée, é mais uma tômbola. Infelizmente, desta feita, a taluda não calhou a Portugal.
Qual a probabilidade de ter cá quatro septuagenários com o historial de Mick Jagger, Ronnie Wood, Keith Richards e Charlie Watts, sem que nenhum tenha um ataque de coração? Trata-se de idosos que, por junto, consumiram mais estupefacientes do que em separado. O fígado de qualquer um deles está habilitado a arrumar carros em troca de moedas. Quem já foi ao Rock in Rio sabe que a Bela Vista é ventosa. É preciso ter falta de sorte para nenhum destes velhinhos ter apanhado uma corrente de ar fatal.
É que, se um desses anciões morresse e ficasse cá sepultado, Lisboa ia passar a ter mais uma atracção turística extremamente rentável. Segundo um estudo de uma consultora, um defunto internacional tem um impacto de 87 milhões de euros anuais para Lisboa. (Segundo outro estudo, um defunto internacional tem um impacto de 6,8 milhões de euros para as consultoras que efectuam estudos sobre impactos económicos em Lisboa. Aliás, só por ter escrito isto, já ganhei 34 euros.)
No cemitério Père Lachaise, em Paris, estão enterrados artistas estrangeiros como Jim Morrison, Oscar Wilde e Maria Callas. As suas sepulturas são visitadas por milhares de turistas que desejam tirar fotografias junto a pedras tumulares de falecidos que, em vida, foram famosos. (Claro que também ajuda o facto de ser em Paris: numa cidade onde os residentes vivos são tão mal-educados, é natural que o turista acabe por se afeiçoar aos habitantes mortos.)
É preciso captar famosos para virem falecer ao nosso país e servir de chamarizes. Mostrar que em Portugal há boas condições para morrer com prestígio.
Se há romarias para visitar Morrison, também haveria para visitar um mausoléu dos Rolling Stones. Afinal, trata-se igualmente de músicos drogados. É curioso que os excursionistas tenham grande gosto em passear por sítios frequentados por toxicodependentes mortos, mas evitem sítios com toxicodependentes vivos.
De que é que o Turismo de Portugal está à espera para começar a apostar no segmento de turistas que apreciam conhecer lugares onde se estão a decompor os restos mortais de artistas de antanho? Portugal não pode basear a sua reputação apenas nas referências elogiosas de blogues escritos por pessoas estrangeiras que viajam sozinhas e que, em virtude da solidão e de despacharem uma garrafa de vinho branco ao almoço, acham tudo espectacular, da luz ao eléctrico 28.
Tem de entrar no circuito internacional do turismo glamórbido. Para já, é preciso captar famosos para virem falecer ao nosso país e servir de chamarizes. Mostrar que em Portugal há boas condições para morrer com prestígio. Aliciar os grandes nomes enquanto estão vivos. Atrair la crème de la cremation.
Depois, há que criar uma campanha com o slogan: “Vá para fora cá dentro do jazigo”. Ou, mostrando toda a variedade do país: “Praia. Campo. Campa”. E se quisermos mesmo impressionar os estrangeiros, então: “Portugal, Europe’s West Ghost”.
*Nasci em Lisboa em 1977 e, tirando o ano em que vivi no estado americano do Wisconsin, passei em Lisboa toda a minha vida. Sou casado, tenho uma filha e dois enteados. Comecei como guionista em 2001. Em 2003, com o Tiago Dores, o Miguel Góis e o Ricardo Araújo Pereira formei o grupo humorístico Gato Fedorento. Escrevo em jornais desde 2004, quando me estreei no Independente. Pontifico no PÚBLICO desde 2007.
Portugal acaba de perder uma soberba oportunidade para reforçar o estatuto de coqueluche do turismo mundial: na quinta-feira, estiveram cá os Rolling Stones e nenhum dos seus elementos faleceu em solo português. É muito azar. Neste momento, receber um concerto dos Rolling Stones é como comprar um bilhete de lotaria. É uma espécie de jogo das cadeiras em que, quando a música pára, é porque o músico se finou. Depois é só ver em que país se deu o óbito. Não é bem uma tournée, é mais uma tômbola. Infelizmente, desta feita, a taluda não calhou a Portugal.
Qual a probabilidade de ter cá quatro septuagenários com o historial de Mick Jagger, Ronnie Wood, Keith Richards e Charlie Watts, sem que nenhum tenha um ataque de coração? Trata-se de idosos que, por junto, consumiram mais estupefacientes do que em separado. O fígado de qualquer um deles está habilitado a arrumar carros em troca de moedas. Quem já foi ao Rock in Rio sabe que a Bela Vista é ventosa. É preciso ter falta de sorte para nenhum destes velhinhos ter apanhado uma corrente de ar fatal.
É que, se um desses anciões morresse e ficasse cá sepultado, Lisboa ia passar a ter mais uma atracção turística extremamente rentável. Segundo um estudo de uma consultora, um defunto internacional tem um impacto de 87 milhões de euros anuais para Lisboa. (Segundo outro estudo, um defunto internacional tem um impacto de 6,8 milhões de euros para as consultoras que efectuam estudos sobre impactos económicos em Lisboa. Aliás, só por ter escrito isto, já ganhei 34 euros.)
No cemitério Père Lachaise, em Paris, estão enterrados artistas estrangeiros como Jim Morrison, Oscar Wilde e Maria Callas. As suas sepulturas são visitadas por milhares de turistas que desejam tirar fotografias junto a pedras tumulares de falecidos que, em vida, foram famosos. (Claro que também ajuda o facto de ser em Paris: numa cidade onde os residentes vivos são tão mal-educados, é natural que o turista acabe por se afeiçoar aos habitantes mortos.)
É preciso captar famosos para virem falecer ao nosso país e servir de chamarizes. Mostrar que em Portugal há boas condições para morrer com prestígio.
Se há romarias para visitar Morrison, também haveria para visitar um mausoléu dos Rolling Stones. Afinal, trata-se igualmente de músicos drogados. É curioso que os excursionistas tenham grande gosto em passear por sítios frequentados por toxicodependentes mortos, mas evitem sítios com toxicodependentes vivos.
De que é que o Turismo de Portugal está à espera para começar a apostar no segmento de turistas que apreciam conhecer lugares onde se estão a decompor os restos mortais de artistas de antanho? Portugal não pode basear a sua reputação apenas nas referências elogiosas de blogues escritos por pessoas estrangeiras que viajam sozinhas e que, em virtude da solidão e de despacharem uma garrafa de vinho branco ao almoço, acham tudo espectacular, da luz ao eléctrico 28.
Tem de entrar no circuito internacional do turismo glamórbido. Para já, é preciso captar famosos para virem falecer ao nosso país e servir de chamarizes. Mostrar que em Portugal há boas condições para morrer com prestígio. Aliciar os grandes nomes enquanto estão vivos. Atrair la crème de la cremation.
Depois, há que criar uma campanha com o slogan: “Vá para fora cá dentro do jazigo”. Ou, mostrando toda a variedade do país: “Praia. Campo. Campa”. E se quisermos mesmo impressionar os estrangeiros, então: “Portugal, Europe’s West Ghost”.
http://www.publico.pt/portugal/noticia/rolling-tmbstones-1637754
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