Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Editora Vozes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Vozes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A SOCIEDADE DO CANSAÇO ( 5)

POR hAN, BYUNG-CHUL

"O próprio afirma-se na outro, negando a negatividade do outro. Também a profilaxia imunológica, portanto a vacinação, segue a dialética da negatividade. Introduz-se no próprio apenas fragmentos do outro para provocar a imunorreação.

Nesse caso a negação ocorre sem perigo de vida, visto que a defesa imunológica não é confrontada com o outro, ele mesmo. Deliberadamente, faz-se um pouco de autoviolência para proteger-se de uma violência ainda maior, que seria mortal. O desaparecimento da alteridade significa que vivemos numa época pobre de negatividades. É bem verdade que os adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devido a um exagero de positividade.

A violência não provém apenas da negatividade,mas também da positividade, não apenas do outro ou do estranho, mas também do igual.

Num sistema onde domina o igual só se pode falar de força de defesa em sentido figurado. A defesa imunológica volta-se sempre contra o outro ou o estranho em sentido enfático. O igual não leva à formação de anticorpos. Num sistema dominado pelo igual não faz sentido fortalecer os mecanismos de defesa.

IN SOCIEDADE DO CANSAÇO - DE BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES




quarta-feira, 5 de julho de 2017

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (4)

Por Han, Byung-Chul

"O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. A alteridade, que provocaria uma imunorreação atuaria contrapondo-s ao processo de suspensão de barreiras. O mundo organizado imunologicamente possui uma tipologia específica.

É marcado por barreiras, passagens e soleiras, por cercas, trincheiras e muros. Essas impedem o processo de troca e intercâmbio. A promiscuidade geral que hoje em dia toma conta de todos os âmbitos da vida, e a falta da alteridade imunologicamente ativa, condicionam-se mutuamente.

Também a hibridização, que domina não apenas o atual discurso teorético-cultural mas também o sentimento que se tem hoje em dia da vida, é diametralmente contrária precisamente à imunização. A hiperestesia não admite qualquer hibridização.

A dialética da negatividade é o traço fundamental da imunidade. O imunologicamente outro é o negativo, que penetra no próprio e procura negá-lo. Nessa negatividade do outro o próprio sucumbe, quando não consegue, de seu lado, negar àquele. A autoafirmação imunológica do próprio, portanto se realiza como negação da negação."

IN a SOCIEDADE DO CANSAÇO -
BYUNG-CHUL HAN
EDITORA VOZES


terça-feira, 4 de julho de 2017

SOCIEDADE DO CANSAÇO (3)

por Han, Byung-Chul

"Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas.

Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia.  Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, que não provoca nenhuma reação imunológica. A diferença pós-imunológica, sim, a diferença pós-moderna já não faz adoecer. Em nível imunológico, ela é o mesmo.

Falta à diferença, de certo modo, o aguilhão da estranheza, que provocaria uma violenta reação imunológica. Também a estranheza se neutraliza numa fórmula de consumo. 

O estranho cede lugar ao exótico. O tourist viaja para visitá-lo. O turista e o consumidor já não é um sujeito imunológico.

in O sociedade do cansaço, Byung-Chul Han - editora Vozes

A SOCIEDADE DO CANSAÇO (2)

por Han, Byung-Chul

"O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo na guerra fria seguia esse esquema imunológico. O próprio paradigma imunológico do século passado foi integralmente dominado pelo vocabulário dessa guerra, por dispositivo francamente militar. A ação imunológica é definida como ataque e defesa. Nesse dispositivo imunológico, que ultrapassou o campo biológico adentrando no campo e em todo o âmbito social, ali foi inscrita uma cegueira: Pela defesa, afasta-se tudo que é estranho.
O objeto da defesa imunológica é a estranheza como tal. Mesmo que o estranho não tenha nenhuma intenção hostil, mesmo que ele não represente nenhum perigo, é eliminado em virtude de sua alteridade."

In A sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han - editora Vozes.