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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

WandNews - 71ª edição #Retrospectiva2014


Por Jornalismo Wando

E vamos chegando pra anunciar a primeira WandNews de 2015, que vem recheada com os destaques da nossa coluninha em 2014.

Para lobões e schwerys, 2014 foi o ano do Golpe Comunista. Ele foi sacramentado pela reeleição de Dilma e traz Kassab, Katia Abreu e Igreja Universal na sua linha de frente.

Como se vê, teve muito chorume pra pouca WandNews!

Confira agora os melhores momentos da nossa coluninha no ano que passou:

CHORUMINHO

A abundância chorumêra segue jorrando nas redes sociais. Como todos já sabem, o vale-tudo eleitoral é um ambiente propício para a propagação do nosso querido choruminho. Época de eleição está para o chorume, assim como a água parada está para a dengue.

Eu poderia falar do Van Hattem, o candidato do PP gaúcho que disse ter sofrido racismo nas redes sociais. Até um boletim de ocorrência foi aberto depois que ele foi xingado de “gurizote mimado”, “fascista” e “branquelo de merda” no Facebook. Realmente não tá fácil a vida pro loiro brasileiro.

Eu também poderia falar do Dr Rey, o candidato da família brasileira, que apareceu de regata nas redes sociais dizendo que irá lutar pra que as cirurgias cosméticas sejam cobertas pelo SUS, “incluindo o reparo de orelhas para atletas de judô, luta greco-romano e jiu jitsu!”.

Outro choruminho-destaque da semana veio da Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa (PR), que publicou uma cartilha para orientar politicamente os candidatos da região. Entre várias recomendações, duas se destacaram: a redução dos direitos trabalhistas e a extinção do direito a voto dos beneficiários de programas sociais. Que pessoal sensível e democrático, né?

Mas os eleitos pra brilhar na seção mais nobre dessa coluna são os profetas do Golpe Comunista. Fazia tempo que não falávamos desses nossos coleguinhas, então vamos matar a saudade. Com a proximidade das eleições, eles voltaram com uma sede de justiça sherazadeana. Confira o comunicado aterrorizante que circulou nas redes sociais um dia antes do 7 de setembro:



Apesar do terrorismo, o anúncio pondera que são “informações ainda não 100% confirmadas” devido a uma “dificuldade de comunicação no extremo sul do Brasil”. Numa era em que moradores de Gaza transmitem ao vivo o bombardeamento de Israel para o mundo, eu fico aqui tentando imaginar quais dificuldades nossos contrarrevolucionários encontraram pra se comunicar.

A Paloma faz um adendo e incrementa a conspiração dizendo que o “ATAQUE PARTIRÁ DO ABC PAULISTA, DO GRUPO RADICAL DO PT”. Tudo em apocalípticas letras maiúsculas para dar aquela força pra conspiração.

Na sequência, essa guardiã da democracia mostra o que está verdadeiramente por trás desse medo:



O curioso é que não é a primeira vez que essa querida anuncia o golpe comunista que nunca chega. Veja essa publicação de maio:



Ou seja, o Golpe Comunista que iria ser dado em julho foi transferido pro dia 7 de setembro. Estamos no dia 12 e até agora nada. Ainda não há novas datas para a concretização do evento, mas certamente a promoter Paloma fará novo anúncio. O importante mesmo é manter a chama do medo sempre acesa.

A conclusão a que chego é que os profetas do Golpe Comunista são muito parecidos com os do apocalipse: vivem remarcando a data da realização da profecia, mas seguem com muita fé.

BEIJO NO CORAÇÃO

O beijo no coração vai pra Ricardo Amorim, um dos integrantes do Manhattan Connection, o programa que é gravado em Nova Iorque, tem correspondente em Veneza e cuja especialidade é falar mal do Brasil e dos brasileiros.

Além do programa na GNT, Amorim costuma também fazer suas demonstrações de amor ao país nas redes sociais, onde costuma comparar Brasil e Chile de maneira livre, leve e solta:



Mas essa semana o jornalista fez uma livre associação tão inacreditável, que quase tive que encaixar na seção “Choruminho”. O grande Chile apareceu novamente num tweet de Rica, dando lições ao Brasil:



A mensagem teve quase 1000 compartilhamentos. Até o comediante Danilo Gentili a reproduziu.

Para a moçada esperta do Manhattan Connection, o Chile é um país diferenciado na América do Sul. Enquanto seus habitantes estão preocupados com o futuro do país, os brasileiros estão preocupados com coisas menores, como a legalização da maconha. Mas a realidade dos fatos, essa danada, sempre aparece pra roubar a magia do viralatismo nacional. Vejamos essa notícia de maio do ano passado:



Sim, nossos irmãos sulamericanos reúnem muito, mas muito mais manifestantes pró-legalização que o Brasil. Nesse ano, as Marchas da Maconha em São Paulo e no Rio não juntaram, somadas, 15 mil pessoas.

Enquanto o Chile reunia 30 mil pessoas na Marcha da Maconha, o Brasil se preparava para uma onda de protestos intermináveis pela educação, saúde e contra tudo-o-que-está-aí. Qual povo é o mais consciente e politizado agora, Ricardinho?

Se pudéssemos dar nomes aos tweets, eu batizaria esse de "BRAZIL CRIME OCORRE NADA ACONTECE FEIJOADA"

IMAGEM WANDALIZADA

Reportagens descontraídas sempre são bem-vindas. Mas o Jornal Nacional abusou da boa vontade do telespectador na última segunda-feira. Numa tentativa de esquentar o clima para a Copa, a jornalista da Rede Globo foi aos bares e levou “uma fonoaudióloga e alguns equipamentos para medir” o grito de gol dos brasileiros. A reportagem não explica exatamente qual seria o objetivo da medição, mas a fonoaudióloga estava lá para ensinar como gritar gol corretamente.

(Reprodução/TV Globo)

Jornal Nacional: Torcedor também pode e deve treinar para dar um grito daqueles. Prestar atenção na voz é um cuidado que a gente deve ter sempre. E com conhecimento, com informação fica mais fácil. Sabiam que tem uns segredinhos, uns truques e até o jeito certo de gritar?

A figura do especialista sempre está presente pra dar aquela legitimada científica na matéria. Acompanhe os edificantes conselhos da fonoaudióloga para a hora de soltar aquele grito de gol:


- “Puxa o ar, bastante ar, e aí você solta empurrando a barriga para dentro e abrindo bem a boca. Gritou? Bebe um golinho de água, economiza a voz. E se ficar rouco, observar a duração dessa rouquidão. Até três dias é normal. Mais do que isso tem que procurar um médico”


Com esses conselhos em mente, uma entrevistada soltou seu grito de gol. Foi aí então que a repórter perguntou:

- Repórter: Que tal gritar direitinho?
- Entrevistada: É bem melhor, né? Do que gritar erradinho.

E pra fechar com chave de ouro esse case de Jornalismo Wando, a última entrevistada finaliza:

- "E vai ficar ‘mega chic’ o grito!"

WANDO RESPONDE

No post "Gente do bem x Gente diferenciada", dois nobilíssimos porta-vozes da alta sociedade apareceram pra jogar umas verdade na cara dessa sociedade hipócrita:



https://br.noticias.yahoo.com/blogs/jornalismo-wando/wandnews-71-edicao-retrospectiva2014-012358905.html

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Amor à morte?

por Pedro Alexandre Sanches

Vai chegando ao fim o Amor à Vida da Rede Globo (e por que mesmo a novela carregava esse nome?). O copo resta meio cheio, meio vazio.

É inquestionável que a condição masculina deu vários passos adiante na trama de Walcyr Carrasco em horário nobre global. A condição masculina homossexual, em especial, foi tratada com respeito, empatia, sensibilidade e inteligência – e, quando a condição de alguns homens em particular (quaisquer homens) é aceita, tolerada e naturalizada, ganhamos todos os homens, todas as mulheres, todo mundo. Direitos ou são para todos, ou não são para ninguém. Copo cheio, copo vazio.

Não se pode dizer o mesmo, infelizmente, a respeito do tratamento dado por Carrasco à condição feminina. Os requintes de crueldade, violência e barbarismo com que as mulheres foram insultadas pela Rede Globo via Amor à Vida beirou a exacerbação, passou adiante dela, ficou com cara do mais desbragado ódio. Copo cheio de misoginia.

A misoginia atroz está bem longe de ser uma novidade na dramaturgia global. Nessa novela, entretanto, foi estratosférica a quantidade de mulheres xingadas de “piranha”, “vagabunda”, “vadia”, “periguete”, “cadela”. Pior, foi espantosa a quantidade de vezes em que cada uma dessas mulheres foi ofendida e humilhada. Entre os xingos, só ficou faltando o adjetivo “puta” – não faz muita diferença diante da aspereza das outras agressões verbais, mas por que não usar também, se os personagens homens eram frequentemente xingados (apenas) de “bicha”?

As personagens femininas que Walcyr fez tender para o “mal” foram delineadas com cargas assustadoras de ódio e fobia. Personagem exemplar da linhagem é Aline, uma moça magoada porque o doutor César "destruiu" a vida da mãe e da tia dela. E o que a jovem secretária resolveu fazer para se vingar? Passou a novela inteira fazendo sexo com o doutor César, se casando com ele, tendo filho com ele, cuidando dele. Acabou por assassinar, em cumplicidade com Ninho, a tia por quem arquitetara parte da desforra. Santa vingança esquisita, Batgirl!

Inúmeras moças “más” de Desamor à Vida exibiram esse tipo de curvatura, revelando-se pouco mais (às vezes até menos) que seres escrotos, infelizes, invejosos, desprezíveis: Amarilis (uma odiosa “destruidora" de famílias gays felizes), Leila, a mãe de Leila, Edith (não surpreende que em meio à novela a atriz Bárbara Paz tenha liderado uma campanha deprê de luto), a mãe de Edith, Gigi, doutora Glauce, a traficante (boliviana?) Alejandra, as gêmeas-não-gêmeas Nicole e Natacha (que, apesar de não-vilãs, caíram de amores por um dos piores vilões da novela, sempre tratado como mocinho pelo autor). Copo vazio para as moças.

Mesmo algumas das personagens femininas “do bem” foram tratadas aos chutes e pontapés pelo autor: Perséfone, interpretada por uma boa atriz (Fabiana Karla) vinda do humorístico Zorra Total, transitou entre “gorda” rejeitada, virgem, “gorda” virgem, palhaça de chacota da moçada e portadora fogosa de um engraçadíssimo (contém ironia) “bigodinho” genital.

A secretária Simone existiu apenas enquanto servia para ser pisada diariamente por Félix, aos xingos sadicamente insistentes de “cadela” (como será que a atriz Vera Zimmerman se sentia durante essas gravações?). A advogada Sílvia, excelente profissional, virou na vida privada uma chantagista manhosa que vale de um câncer de mama e da piedade alheia para se livrar de uma rival amorosa. Copo beeeeeeeem vazio.

E por falar em câncer. As mulheres de Carrasco foram punidas não apenas com desgraças e berros de “piranha!”. Foram vítimas de câncer, aids, lúpus, alcoolismo, eletrochoque, surras (quase sempre aplicadas por outras mulheres), espancamentos, problemas cardíacos, morte no parto, suicídio (por ingestão de cocaína, acidente automobilístico e incêndio), assassinatos.

Chegando por fim aos assassinatos, no decorrer do enredo foram vários deles, quase todos incidindo sobre mulheres (santo autor serial killer, Batman!). Elas foram mortas batendo a cabeça no banheiro do hospital (o prédio era um dos protagonistas da novela, mas desapareceu com o cansaço da looooonga trama), tesouradas. Nicole tinha câncer, mas morreu de um ataque fulminante de susto, quando soube, em pleno altar, que o mocinho Tales comia a melhor amiga dela e queria sua fortuna, não seus lindos cabelos ruivos (suicídio ou assassinato?). Copo 100% vazio, um verdadeiro feminicídio.

Enfim, lá se vai Amor à Vida. Amor? À vida??? Por que mesmo esse nome, senhora dona Globo, senhor seu Carrasco?

No balanço entre perdas e ganhos, a balança endoidou desequilibrada. Como tem sido drasticamente frequente nas janelas tradicionais da nossa mídia (tanto as fictícias quanto as jornalísticas), nosso copo coletivo resta talvez 20% cheio, 80% vazio.

http://br.noticias.yahoo.com/blogs/autor/pedro-alexandre-sanches/