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quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr Fernandes

Por Millôr Fernandes



Fábulas Fabulosas
O Rei está salvo

No salão Grená, a pequena multidão de nobres espera nervosamente a entrada de Sua Majestade. É dia do aniversário do Supremo Mandatário e Ele vai dirigir a palavra a seus cidadãos, concitando-os a mais um esforço pelo desenvolvimento do país.
Alguns radicais exigem a reforma dos feudos, mas as rédeas estão seguras nas mãos fortes que cuidam da Pátria. De repente há um frêmito entre as pessoas, o Mestre de Cerimônias bate com o bastão no chão e anuncia Sua Majestade, pepino, o Longo.
Sua Majestade entra e vai desfilando lentamente por entre os nobres, se encaminhando para o elevado do trono. Quando, porém, coloca o pé no degrau do trono, um menininho, que estava perto, arregala os olhos e fala, alto bastante para que a sala toda, mergulhada em emocionado silêncio, ouvisse: "Mamãe, mamãe, o Rei está nu!"
Imediatamente, enquanto o tumulto toma conta do ambiente, o serviço de segurança de Sua Majestade agarra o menino e a mãe e os arrasta para fora da sala.
E, sem perda de tempo, um arauto sobe ao palanque do trono e, com voz pausada, lê uma comunicação: "Cidadãos, pela presente o departamento de pesquisas químicas de Sua Majestade avisa que conseguiu fabricar um tecido, com o qual Sua Majestade está vestido nesse momento, tecido esse de beleza e resistência excepcionais, mas que é completamente invisível para qualquer subversivo."
MORAL: OLHE BEM PARA O DESENHO. VOCÊ ACHA QUE O REI ESTÁ NU OU ESTÁ VESTIDO?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A mosca que sonhava ser uma águia - Augusto Monterroso (4)



A Mosca que sonhava ser uma Águia
Augusto Monterroso 

Havia uma vez uma Mosca que todas as noites sonhava que era uma Águia e que se encontrava voando pelos Alpes e pelos Andes.
Nos primeiros momentos isso a tornava louca de felicidade; mas passado um tempo lhe causava uma sensação de angústia, pois achava as asas grandes demais, o corpo pesado demais, o bico duro demais e as garras fortes demais; bom, todo esse enorme aparato lhe impedia de pousar a seu gosto sobre deliciosos pastéis ou sobre imundícies humanas, assim como apaziguar a consciência dando cabeçadas contra os vidros do quarto.
Na realidade não queria andar nas grandes alturas ou nos espaços livres, nem muito menos.
Mas quando voltava a si lamentava com toda a alma não ser uma Águia para sobrevoar montanhas e se sentia tristíssima de ser uma mosca, e por isso voava tanto, estava tão inquieta, e dava tantas voltas, até que lentamente, chegava a noite, voltava a colocar as têmporas no travesseiro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O macaco que quis ser escritor - Augusto Monterroso (3)


O Macaco Que Quis Ser Escritor Satírico
Augusto Monterroso

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.
Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Coelho e o Leão - Augusto Monterroso (2)


O Coelho e o Leão
Augusto Monterroso

Um célebre psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.

Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr-do-sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.

Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.

A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.

O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.

De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A OVELHA NEGRA E OUTRAS FÁBULAS



A Ovelha Negra

"Em um país distante existiu faz muitos anos uma Ovelha Negra.
Foi fuzilada.
Um século depois, o rebanho arrependido lhe levantou uma estátua eqüestre que ficou muito bem no parque.
Assim, sucessivamente, cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura."

Esta e outras fábulas fazem parte do livro de Augusto Monterroso (escritor Guatemalteco) editado em 1983, pela Ed. Record e esgotado. A tradução é do Millôr e as ilustrações do Jaguar.
Merece uma reedição. Enquanto não sai irei publicando as fábulas.