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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Programa Cisternas ganha prêmio no combate à desertificação

via Asa

O Programa Cisternas, uma política pública de acesso à água que possibilita às famílias rurais do Semiárido brasileiro viver na região, foi considerada a segunda iniciativa mais importante do mundo no combate à desertificação. O reconhecimento vem do Prêmio Política para o Futuro 2017, o único que homenageia políticas em vez de pessoas a nível internacional. A divulgação do Prêmio Prata para a política brasileira foi anunciada hoje (22). A cerimônia de entrega da premiação será em 11 de setembro, durante a 13º Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas, em Ordos, na China.

O prêmio, uma iniciativa do World Future Council que, este ano, teve a parceria da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), atesta a efetividade das ações de convivência com o Semiárido como uma política pública com potencial para reverter a degradação do solo, que impossibilita a produção de alimentos, abandono das regiões afetadas pela sua população, fome e miséria. A desertificação afeta 58% da área do Semiárido, onde vivem 11,8% brasileiros e brasileiras, muitos deles em situação de pobreza ou extrema pobreza.

Característica marcante e diferenciada do Programa Cisternas é ter nascido no seio das experiências da sociedade civil, proposta como política pública de convivência com a região pelas organizações atuantes no Semiárido através da Articulação Semiárido (ASA) e assumida pelo Estado. Trata-se de uma política pública de Estado, como considera o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), dado que vários governos têm interagido com ele, o Governo Fernando Henrique, de modo especial os governos Lula e Dilma e, atualmente, o Michel Temer.

“Graças a um movimento social, o Brasil introduziu o Programa Cisternas para apoiar a meta de instalação de um milhão de cisternas de coleta de água da chuva para uso doméstico de milhões de pessoas que residem em áreas rurais no Semiárido. O objetivo da instalação de um milhão de cisternas foi alcançado em 2014. Também há 250 mil tecnologias de água produtiva e milhares de cisternas construídas para escolas. Agora, muito menos pessoas deixam a região devido à seca e, apesar de, desde 2012, a região ter experimentado uma das piores secas já registradas, relatórios indicam que não há incidência dos piores efeitos da seca - mortalidade infantil, fome, migração em massa - que costumava ser generalizada no Semiárido”, atesta o texto de divulgação da premiação.

No Sertão do Araripe, em Pernambuco, a história de seu Luiz Pereira Caldas, 58 anos, e a esposa Nilza de Oliveira Caldas, 60, é emblemática quanto ao movimento inverso de migração que passou a ocorrer na região depois das políticas públicas de convivência com o Semiárido. Após duas décadas em São Paulo, eles voltaram para sua cidade natal, no município de Granito. Um dos principais motivos do retorno foram as condições favoráveis à prática da agricultura trazidas com a instalação do barreiro-trincheira na propriedade de sua mãe. Este tipo de barreiro é escavado no solo para acumular, no mínimo, 500 mil litros de água da chuva. Por ser estreito e fundo, o espelho d´água em contato com a ação do vento e do sol é pequeno, o que diminui a evaporação do líquido.

Ao chegar no sítio Venceslau onde cresceu, seu Luiz e dona Nilza passaram a plantar, próximo ao barreiro, feijão, andu, maracujá, acerola, tomate, jerimum, abóbora, banana e macaxeira. Logo depois, seu Luiz aprendeu a construir cisternas em cursos oferecidos pelas organizações que fazem parte da ASA para ampliar a renda familiar. Em 2015, a família conquistou mais uma tecnologia de convivência com o Semiárido: a cisterna-calçadão, que também guarda água da chuva, geralmente, utilizada para o quintal produtivo sobretudo para aguar hortaliças, um tipo de cultivo que pede muita água e precisa ser protegida do sol forte.

Com a água e manejo adequado do solo, as famílias agricultoras plantam de tudo, inclusive, a produzir mudas de plantas nativas dos biomas para sua preservação dos biomas. A da Caatinga e do Cerrado, biomas que ocorrem na região semiárida, e que estão são bastante degradados pelas ações do homem para criação de gado, expansão de monocultivos e extração de madeira.

“Quando comprei esse pedaço de terra não tinha nenhuma árvore plantada. Nem uma vara pra fazer um espeto pra assar um pedaço de carne, então eu plantei umburana, sabiá, catingueira, craibera e outras árvores. No meio delas planto palma e hoje coloco minhas colmeias”, conta o agricultor Francisco de Assis da Silva, popular Preguinho, da comunidade São Luiz, do município de Maravilha, em Alagoas. Ele tem alcançado bons resultados ao trabalhar com a agroecologia, como a reversão da infertilidade do solo. Essa prática tem contribuído para produção mesmo em épocas de estiagem.

O agricultor pratica técnicas de uso sustentável do solo como cobertura morta, defensivos naturais, período de pousio, rotação de culturas, diversidade produtiva entre outras. “Se eu usasse veneno contaminava a terra, os alimentos, minha saúde e as abelhas não iriam produzir mel de qualidade”. Além do cultivo de espécies nativas, forragem e hortaliças, Seu Francisco também cria aves, ovinos e desenvolve a atividade de apicultura.

Desertificação – Segundo a UNCCD, as terras secas cobrem 40% da superfície da Terra, onde ocorrem os climas árido, semiárido e subúmido seco da Terra. Evidências do processo de desertificação estão presentes em quase todas as partes do Semiárido e, em alguns locais, são tão marcantes que foram rotuladas de núcleos de desertificação: Seridó (RN/ PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

POVO ORGANIZADO EM DEFESA DA CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Manifesto do Fórum pela Vida no Semiárido da Microrregião de Sobral

Queremos no semiárido/Terra livre do patrão
Água descentralizada/Servindo a população
Estocando o que comer/Todo mundo irá viver
Sem seca e sem precisão

Reunidos no dia 19 de abril de 2013, com a participação, de 12 municípios, oFórum pela Vida no Semiárido da Microrregião de Sobral se manifesta profundamente contra a forma pela qual o governo vem tratando as ações paliativas e emergenciais em relação à seca enfrentada na nossa região e no nosso estado.

A escuta da realidade dos municípios demonstram que:

- A produção de legumes será de perda total por falta chuvas ou irregularidade das mesmas;

- Os recursos propagados pelo governo não estão chegando às comunidades que enfrentam escassez de água e de alimentos para os animais e as pessoas;

- A aquisição do milho distribuído pela CONAB tem sido uma verdadeira humilhação para os agricultores/as, pois a maioria dos que estão cadastrados não receberam e aqueles/as que tiveram acesso foram mal atendidos;

- Há um número muito pequeno de aprovação de projetos (PRONAF estiagem) através do Banco do Nordeste bem como a demora para a liberação dos recursos;

- As demandas de poços profundos que já foram alocados não tem atendido a real necessidade da população e ao mesmo tempo existem muitos poços que precisam apenas de concertos de bombas e isso não é feito;

- Os carros pipas que ainda são poucos e às vezes chegam atrasados, levam água pra o consumo humano por vezes imprópria para o consumo e ainda falta água pra lavar roupa, tomar banho e pra os animais beberem;

- Tem carro pipa parado por que não recebem pagamentos de serviços prestados e têm famílias comprando uma carrada de água por R$ 180,00;

- Há politicagem com carro pipa para atender mais aos cabos eleitorais que estimulam a violência, as intrigas e divergências entre as famílias camponesas e isso é um reforço da indústria da seca;

- Os municípios de Marco, Morrinhos, Bela Cruz, Senador Sá e Uruoca não estão segundo o Ministério da Integração Nacional dentro do Semiárido Legal, mas estão vivenciando as mesmas realidades de escassez de outros municípios, portanto reivindica-se que possam ser contemplados com as medidas emergenciais.

- Os alimentos básicos que os camponeses produzem (farinha, feijão e milho) estão caros e acima do poder de compra;

- Somos contra e lamentamos a imposição do governo em impor a oferta de cisternas de plásticos em dois municípios (Alcântara e Meruoca) da nossa região. Uma vez que o valor de da cisterna de plástico é três vezes maior do que as cisternas de placas, considerando ainda que não existe mobilização social com as famílias e nem gera empregos para agricultores/as pedreiros/as das comunidades;

- Os programas sociais (Bolsa Família, Brasil Carinhoso, Seguro Safra, Bolsa Estiagem) não dão conta da garantia de direitos básicos das famílias a sobreviverem frente ao período de seca existente e ainda existem famílias em situação mais graves, pois não recebem estes benefícios;

- As áreas dos perímetros irrigados estão nas mãos dos fazendeiros ou comerciantes e precisa-se se fazer um recadastramento pelo DNOCS para que os mesmos fiquem para os agricultores/as familiares;

- Os reservatórios de grande porte (açudes, barragens) ainda estão com um aproximadamente de 35% de suas capacidades, portanto são águas centralizadas;

- A demanda por Cisternas de placas para consumo humano ainda é grande, principalmente para segunda água (água para produzir).

- As cisternas de placas facilitaram e muito a vida da população, pois tem sido os únicos reservatórios para receber água fornecida pelos carros pipas;

- Precisa-se ter um programa de incentivo ao trabalho de preservação das sementes crioulas através da implantação de casas de sementes comunitárias a luz de onde já existe.

Repudiamos que o termo usado pelo governo de “combate a seca” é impróprio, pois as ações e tecnologias de Convivência com o Semiárido implementadas pela Articulação do Semiárido Brasieliro – ASA já demonstrou para toda sociedade, inclusive para o governo que a seca não é dragão para se combater e sim um fator climático propriamente do Semiárido e desse modo, exige-nos um novo olhar e a construção de iniciativas para convivermos com ele.

Por isso, entendemos que a situação de pobreza não é causada pelo fator climático, mas principalmente pela falta de uma política contextualizada que possa trabalhar os potenciais locais, descentralizar a terra e a água, pensar o desenvolvimento a partir das vocações existentes e, acima de tudo, compreender as que ações estruturantes de Convivência com o Semiárido criando uma nova cultura de condições sustentáveis para nossa região.

Nesse sentido as cisternas de placas para consumo humano, cisternas calçadão e enxurradas para produção, barragens subterrâneas, quintais produtivos, tanque de pedra, bomba d’água popular, barreiros tricheiras, mandalas, sistemas agroflorestais, casas de sementes, poços profundos, olhos d‘água, hortas comunitárias, criação de pequenos animais, plantação de forrageiras tem sido meios que os agricultores/as relatam está servindo e garantindo uma vida melhor nos sertões da região de Sobral.

Reivindicamos uma resposta concreta para suprir a realidade desde o compromisso político até as comunidades serem beneficiadas pelos programas paliativos e ressaltamos que o compromisso do nosso Fórum é lutar para que as ações emergenciais possam dar continuidade na forma de políticas institucionais permanentes que garantam segurança hídrica e alimentar, incentivando o uso de tecnologias adaptadas à realidade climática da nossa região em vista de um semiárido democrático e sustentável para todos/as.

Sobral, 19 de abril de 2013

FÓRUM PELA VIDA NO SEMIÁRIDO DA MICRORREGIÃO DE SOBRAL

terça-feira, 2 de abril de 2013

Foi Deus Quem Me Deu (ou: diálogos com o Deus da prosperidade)

 Por Rogério Lama

Chico Mãozinha, agricultor da comunidade do Arisco em Quixadá, Sertão Central cearense, escreve num papel de pão uma solicitação de audiência com Deus. Amarra a missiva à um pequeno seixo, o apruma em sua baladeira e atira pra cima. Com os olhos castigados de tanta luz, vigia o solo seco ao seu redor. A pedra não volta. Afia os ouvidos à espera de ouvi-la cair no chão esturricado. Nada, também. Tudo o que se ouvia eram alguns pássaros brigando por um pedaço de sombra no único pé de algaroba que havia ali.

Foto de Wagner Viana
Voltou pra casa e passou o resto da tarde consertando sua tarrafa. Cedo ou tarde teria serventia novamente. A noite se senta na rede e bate a areia dos pés antes de se esticar quando ouve um “ô de casa”. Abre a parte de cima da porta e se depara com um homem segurando um seixo.

- Essa pedra é sua?
- Não. É do rio que secou. O que era meu estava amarrado nela.
- Isso aqui? – diz estendendo a outra mão e mostrando um papel cor de terra.
- É, sim senhor. Quebrou seu telhado?
- Não. Recebi isso de um encarregado na hora do almoço.
- Ahn... e o que o senhor quer, então?
- Sou eu quem lhe pergunta. Não querias uma audiência comigo?
- E o senhor é Deus, por acaso?
- Sim, mas não me peça milagres como prova. Acho isso um saco.
- Omi... marrapaiz... me deixe pelo menos lavar o rosto. Já volto! O senhor quer uma aguazinha de pote?
- Traga quando voltar.
- Pegue. Sente-se, por favor!
- Hmm... boa, essa espreguiçadeira...
- É o seguinte, Seu Deus: a cada vez que vou à cidade vejo mais carros com um adesivo que diz “FOI DEUS QUEM ME DEU!”. É cada carrão com vento gelado no lado de dentro! Já aqui no sertão a gente rala os joelhos toda noite pedindo água ao senhor. Mas até agora nada.
- Bom, err...
- Deixa só eu terminar, Seu Deus. Eu vou repetir: Só pedimos água! O resto é por nossa conta. Então a gente aqui do Arisco queria saber como é que faz pra conseguir a graça que o povo da cidade tá alcançando.
- Olha, Chico, você vê jornal?
- Só almoço assistindo o Barra.
- Não, eu me referia ao... esquece isso. Deixa te explicar: com a isenção temporária de IPI, sai muito mais em conta doar automóveis. A água até que tem seus incentivos fiscais, mas tem uma logística muito cara. Veja: carros-pipa e adutoras são equipamentos bem dispendiosos. Além do que fica mais difícil colar adesivos em minha honra.
- Nossa... esse cálculo deve ser fruto da sua infinita benevolência e sabedoria. É provavelmente por isso que eu não esteja entendendo.
- O que você precisa entender, Chico, é que os automóveis são bens de alto valor agregado! Fábricas de carros geram inúmeros empregos para servos que se espalham numa cadeia produtiva. E cada servo desse aguarda o dia em que eu coloque em sua vida a graça de receber um automóvel, entendeu?
- Sim... err... não. Não entendi. Afinal de contas o senhor dá ou as pessoas trabalham pra comprar o carro?
- Bom... é um trato do tipo “uma mão lava a outra”, sacou?
- Mais ou menos... mas o caso é que eu não preciso de um carro. Preciso de água, senão vou perder todas as sementes que plantei.
- Ô Chico, assim você está dificultando as coisas! Serve uma mansão com quadra de tênis na Serra do Estevão?
- Olha, eu não preciso de uma, mas... tá bom. Eu aceito a casa na serra. Ainda que eu já tenha minha casinha no Arisco.
- Deixa de ser bobo, Chico! Você vai triturar o povo de tanta inveja! Já pensou? Sua casa de muro alto e cerca elétrica com os dizeres: “FOI DEUS QUEM ME DEU”! Quanta gente vai querer ser como você! Todos perguntarão como fez pra conseguir!
- Não tinha pensado nisso, Seu Deus. Como eu faço pra alcançar o benefício?
- Ah! Agora vem a parte boa! Você precisa ir numa igreja. Lá chegando você diz que quer renunciar ao que é mundano e vai entregar ao pastor o documento dessa terra imprestável.
- Como assim? Minha terrinha? Com a casa? Minhas criações e tudo?
- É, Chico. Tudo.
- Mas eu vou morar aonde, Seu Deus?
- Ai é que está a sacada! Você vai viver na carne o que está nos escritos sagrados. Você vai ser exemplo para toda a humanidade com sua história de humildade e desapego, e a igreja vai ficar entupida de fiéis, e com mais dinheiro, mais riqueza, mais ostentação e...
- E depois de estar na rua, o que eu faço?
- Ai eu vou... eu vou... te eleger vereador de Quixadá! Em 6 meses você comprará sua mansão na serra e pintará o muro em letras garrafais que fui eu quem te deu.
-É pra isso que serve vereador?
- Não, exatamente. Mas essa é a ética do mercado.
-Hmm... até ai eu entendi. Mas senhor, se eu serei exemplo de desapego enquanto estiver na miséria, eu deixarei de sê-lo quando comprar minha mansão, não é?
- É.
- Mas o senhor havia dito que quando eu tivesse a minha mansão, todos iriam querer ser como eu. Que exemplo o senhor quer que eu dê, afinal?
- Que mania essa sua de complicar as coisas, Chico! Lembra que te expliquei sobre a cadeia produtiva? Pois é! É legal ser miserável e tal. Fica bonito na foto e tudo mais. Lembra do ex-ministro Rafael Greca, que disse que havia “lirismo na miséria”? Pois é, é bem por ai. Só que isso não dá emprego pros meus servos nas fábricas. Assim, o desejo do supérfluo é o que mantém o emprego de gente sem estudo como você!
- Ahnn... mas tem um evangelista que narrou Jesus dizendo que o reino dele não é deste mundo. Se assim é, como pode a riqueza material ter tanta importância pro senhor?
- Olha, essas declarações já me deram uma dor de cabeça danada. Vamos fazer assim: dorme bem essa noite que ela é a última que você passa aqui. Amanhã cedo leva a escritura dessas terras pra igreja e chore cheio de remorso pra impressionar todo mundo com a sua renúncia. FUI!

E assim, Chico Mãozinha seguiu a risca o que Deus lhe ordenou e na eleição seguinte se elegeu vereador. Comprou sua mansão na Serra do Estevão com quadra de tênis, pintando bem grande no muro “FOI DEUS QUEM ME DEU!”. Queria ser justo. Fazia parte do trato.

Naquele entardecer, do alto da sua mansão observou as localidades do Arisco, Califórnia e Palmares. Continuavam secos e sem perspectiva. Pela manhã desceu a serra com a escritura da mansão sob o braço e a trocou pela sua antiga fazendinha e com o que sobrou, comprou 1.200 cisternas de placa pra espalhar pelas terras que viu lá de cima.

quarta-feira, 28 de março de 2012

CORDEL - AS ARMADILHAS DAS CISTERNAS DE PLÁSTICO

Rogaciano Oliveira
Por Rogaciano Oliveira
rogacianoo@gmail.com


AS ARMADILHAS DAS CISTERNAS DE PLÁSTICO

Conviver no semi-árido
Com paz e dignidade,
Água, terra e alimento
Uma vida de verdade
Sem pobreza e sem miséria
Uma outra realidade.

Durante quase dez anos
Tem sido essa a missão
Da ASA que demonstrou
Que a articulação
Por uma vida mais digna
Transformou a região.

A Articulação no
Semi-Árido brasileiro
ASA, como é conhecida
Com um programa pioneiro
Conviver no semi-árido
Objetivo primeiro.

A construção de cisternas
De placas, uma novidade
Que permite acumular
Uma água de qualidade
Para que cada família
Tenha mais dignidade.

Uma importante estratégia
Pra conviver no sertão
Da água que vem da chuva
Fazer a captação
Numa cisterna de placas
Guardar para outra estação.

Tornou-se política pública
Pelo governo, adotada
Essa tecnologia
Foi logo disseminada
Meio milhão de cisternas
Com água acumulada.

E a cisterna calçadão
Outra tecnologia
Que permite a população
De uma forma mais sadia
Segurança alimentar
Respeito e autonomia.

A Asa vem construindo
Quase quatrocentos mil
Cisternas de placas que
Vem transformando o perfil
E revolucionando o
Semi-Árido do Brasil.

Com a cisterna em casa
Mulheres têm atitude
Bebendo água potável
E as crianças com saúde
Sem andar quase uma légua
Prá pegar água em açude.

A estratégia da ASA
Não é só a construção
Das cisternas, mas também
Um Programa de Formação
E Mobilização Social
Prá conviver no sertão.

As famílias no processo
Tem todo envolvimento
Pedreiros, capacitados
Ganhando conhecimento
E toda a comunidade
Com seu empoderamento. 

Sem esquecer a gestão
E o controle social
Dos recursos hídricos, que
É coisa essencial
Lembrando que a água é
Um recurso natural.

Esse trabalho da ASA
Teve reconhecimento
Do ex-presidente Lula
Que com seu desprendimento
Premiou este programa
Pelo seu merecimento. 

Porém, esta experiência
Está hoje ameaçada
Pela cisterna de plástico
De PVC fabricada
Por uma empresa privada
Que não quer saber de nada.

O programa água para todos
Que Dilma quer implantar
Define que as cisternas
Vai se universalizar
Porém, o processo é outro
Sem o povo participar.

Cisternas serão de plástico
De PVC construída
Fabricada por empresas
De forma não sugerida
A empresa é quem faz tudo
A população excluída.

As técnicas de construção
Uma empresa é quem domina
A família só recebe
Sem participar da sina,
Com os princípios democráticos
Essa prática não combina.

A cisterna de PVC
Sai por um custo elevado
Custa o dobro que o de placas
Além de deixar de lado
Pedreiros, pois o recurso
Para a empresa é repassado.

A experiência comprova:
Essa cisterna é inconstante
Muitas delas derreteram
Duma forma extravagante
Não suportaram o calor
Do nosso sol causticante.

Por isso nós somos contra
As cisternas de PVC
Cujo processo é fechado
Exclui ela, eu e você
Das decisões de empresários
A gente fica à mercê.

O povo sem participar
Famílias sem autonomia
Dependendo das empresas
Pois a tecnologia
Dessas cisternas de plástico
Nega a soberania.

Vamos lutar pra que Dilma
Que é nossa presidenta
Não apóie esse projeto
Que exclui e que concentra
Cisterna antiecológica.
O povo não aguenta.

É lamentável o governo
Descartar a ASA agora
Rompendo essa parceria
Todo processo ignora
Negando uma caminhada
De quase dez anos à fora.

Assim pode se apagar
Da noite para o dia
Exitosa experiência
Que tanta coisa irradia
Participação social,
Respeito e cidadania.

Lutamos pela defesa
De mais participação
As famílias envolvidas
Discutindo a gestão
Dos nossos recursos hídricos
Numa nova dimensão.

Por isso nós somos contra
E devemos protestar
Porque o capitalismo
Só quer é nos explorar
Essas cisternas de plástico
Precisamos rejeitar.

Queremos é construir
Um semi-árido mais justo
Com paz e solidariedade
Para vivermos sem susto
Sem a idéia mesquinha
Do lucro a qualquer custo.

Lutar por água e por vida 
É nossa principal ação 
Que o tema semi-árido 
Esteja na educação 
Difundir as experiências 
De conviver no sertão. 

Se quiser ser sustentável 
Qualquer proposta ativa 
Promove a cidadania 
Com ação educativa, 
Atitude democrática, 
Gestão participativa. 

Conviver no semi-árido 
É possível e é viável 
Com água de qualidade 
E alimento saudável 
Construindo dia-a-dia 
Um planeta sustentável. 

Seguiremos nessa luta
Contra a opressão terrível
Conquistar nossos direitos
É nosso sonho plausível;
Uma nova sociedade,
De justiça e igualdade:
Um outro mundo é possível.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Inversão de valor: quando a cisterna vira mercadoria

Por Verônica Pragana

As cisternas construídas no Semiárido vêm passo-a-passo conquistando a sociedade brasileira e se firmando no país com um indiscutível valor social e político para a vida das famílias. Desde o ano passado, porém, elas passaram a agregar outro valor: o de mercado. Depois que o governo federal decidiu que compraria 300 mil cisternas de plástico no valor unitário de R$ 3.510,00, vender o reservatório virou uma ótima oportunidade de fechar negócios milionários com recursos públicos.
Em depoimento para o site da revista Carta Capital, Amaury Ramos, diretor comercial da Acqualimp, empresa do grupo mexicano Rotoplas, contratada pelo Ministério da Integração Nacional para fabricação de 60 mil cisternas no valor R$ 210 milhões, disse o seguinte: “É um mercado que nos interessa muito e estamos atentos para novos contratos”. O texto abre outra aspa para o diretor: “É o maior programa de compra de sistemas de abastecimento de água no mundo. Nada chega próximo ao volume que o governo pretende comprar”.

Cisterna construída pela comunidade
Cisternas construída pela comunidade

A possibilidade de garantir a sua parcela na fabricação das outras 240 mil cisternas vem atiçando também as empresas nacionais. A FortLev, por exemplo, desde outubro do ano passado vem doando reservatórios, com as mesmas especificações indicadas pelo governo federal, nas comunidades rurais do Semiárido e garantindo a divulgação da ação.

Em janeiro passado, o site da empresa Comunique-se, que atua no ramo de comunicação empresarial, noticiou a doação de 20 cisternas da FortLev para a comunidade indígena Xucuru, no sertão pernambucano, dois meses depois de fazer outra doação para as famílias do povoado de São José, localizado no município de Capim Grosso, na Bahia. “A previsão da empresa é expandir o projeto, atendendo a mais municípios em todo o Brasil durante 2012 como parte de seus programas na área social”, anuncia o texto publicado no site da Comunique-se.

Além dos fabricantes dos reservatórios, os benefícios se estendem também para outros ramos, como o petroquímico. A Braskem, maior indústria deste setor das Américas e produtora de itens de plástico, é citada no texto de Clara Roman no site da Carta Capital como fornecedora de matéria-prima para a fabricação das cisternas da Acqualimp.

Ao se tornar uma oportunidade de negócio com lucro vultoso, o valor real das cisternas se desvirtua e mostra-se incompatível com as oportunidades de efetivas mudanças no cotidiano de milhares de pessoas do Semiárido brasileiro. Mas, como vivemos numa sociedade na qual a lógica de mercado geralmente prevalece sobre as demais necessidades socioambientais, transformar a cisterna em moeda é um fato - digamos assim - um tanto aceitável.

Apurando o olhar para a situação, não é difícil perceber que o que se configura é uma nova versão da indústria da seca. E esse processo exclui a população de participar da construção de soluções para seus problemas, desvalorizando seu conhecimento e privilegiando pessoas e/ou grupos que não são as famílias agricultoras do Semiárido.

“O desejo e a decisão do Governo Federal de levar água potável na perspectiva da universalização às famílias esparsas do Semiarido, é uma decisão politica e estratégica nunca antes vista e de altíssimo significado. Contudo, avaliamos equivocada a opção de fazê-lo reeditando aspectos dos processos de combata à seca, sob a alegação de fazê-lo com mais rapidez. Meses a mais ou a menos, não justificam este posicionamento”, opina o coordenador executivo da Articulação no Semi-Árido (ASA) pela Bahia, Naidison Baptista.

Quando as organizações da sociedade civil que formam a ASA se contrapõem às cisternas de plástico é porque elas, que conhecem de perto a história política, econômica, social e cultural da região, têm consciência de que primar simplesmente pelo prazo significa perder um processo rico e complexo de construção de cidadãos e cidadãs. Um processo com uma força enorme que revigora o tecido social, valorizando as pessoas no local de sua moradia e contribuindo com a elevação da sua autoestima através do resgate e respeito ao seu universo cultural.

Nos processos de democratização do acesso à água, desencandeados pela sociedade civil organizada através da ASA, foram envolvidas mais de 370 mil famílias, 12 mil pedreiros, cerca de cinco mil organizações da sociedade civil e centenas de estabelecimentos comerciais locais.

Todas estas pessoas e organizações se tornaram protagonistas de um desenvolvimento gerado de dentro para fora, capaz de possibilitar significativas mudanças nas suas vidas e das comunidades às quais pertencem. Através das cisternas, se alcançam outras conquistas cidadãs, como a organização comunitária, a geração de renda, a dinamizacão das economias locais e a valorização das relações econômicas, culturais e sociais da própria região.

Enquanto sociedade, a pergunta que precisamos fazer é: qual o modelo que queremos fortalecer – aquele de uma sociedade pautada em oportunidades de lucro a todo custo, cuja lógica do mercado é que irá determinar as decisões? Ou de uma sociedade baseada em valores como a busca da autonomia, do crescimento endógeno, da partilha da água e das riquezas? Queremos alimentar processos de dependência ou de protagonismo de pessoas e comunidades?

As cisternas de placas de cimento construídas com a participação das famílias possibilitam a construção de cidadania para quem as têm no quintal de casa. O acesso à água de qualidade passa a ser um direito conquistado. O processo, que se materializa com a cisterna, representa a gestação de outro modelo de sociedade numa região que sempre foi massacrada pelos interesses escusos de pessoas e grupos sem compromisso com o bem comum.

E as consequências desta mudança local se esparramam muito além dos limites do território do Semiárido, alcançando também quem vive em grandes centros urbanos de outras regiões do país. E sabe por quê? Porque permitir condições efetivas de construção de cidadania é enfrentar a miséria pela causa.
http://www.asabrasil.org.br/Portal/Informacoes.asp?COD_NOTICIA=7215